AGUIAR, L.¹, MUNIZ, A. P.², VERDE, M. H.³
1. Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão – Campus Rosário 2. Estudante do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão – Campus Rosário 3. Estudante do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão – Campus Rosário E-mail: [email protected] Palavras-chave: Fotonovela. Narração. Produção textual. Memória.
1 INTRODUÇÃO
Este projeto nasceu de uma ideia que consiste em aliar a prática narrativa ao prazer de produzir textos verbo-visuais, nominalmente fotonovelas, entre estudantes adolescentes, entendendo a narração como uma atividade comum, que carece de reinvenção continuada no processo de ensino-aprendizagem, e a fotografia como uma prática que toma grandes proporções de registro na vida social de muitos, sobretudo dos jovens.
Com a finalidade de unir as duas ações (de escrever e de fotografar) para contar histórias, que fossem protagonizadas por estudantes entusiastas e criativas, propusemos essa pesquisa-ação na perspectiva de Carr e Kemmis (1988) com a finalidade de exercitar o gênero fotonovela. Diante desse método de ler e criar, perceberíamos uma abertura maior para que as bolsistas despertassem temas com um grau satisfatório de representatividade de si e do próprio lugar onde habitam, pois, a proposta de trabalho contempla o reconhecimento de cada sujeito envolvido e da região de alcance do Campus Avançado - Rosário.
Diante desse contexto, seguimos a etapa do passo a passo do projeto, que consistiu, na sequência, em estudar o gênero textual proposto, ou seja, ler obras específicas do gênero trabalhado, buscar as ferramentas necessárias para construir esse tipo de obra, criar e recontar histórias para produzi-las como possíveis fotonovelas, buscar apoio entre os pares (modelos para as fotos, figurinos, casas e conselhos sobre os lugares), fotografar e editar, para que, enfim, tivéssemos em mãos o produto (a fotonovela impressa), e pudéssemos difundi-la no 2º Encontro de Arte do IFMA, além de disponibilizá-la para apreciação permanente no Campus Avançado - Rosário.
Foi, portanto, um trabalho colaborativo com detalhes que demandavam a busca de saberes práticos de ordem administrativa, quando era necessário cumprir com as demandas de logística inerentes ao sucesso do processo de produção, e de ordem estética, quando nos encontramos ante o desafio de transformar em arte as ideias acordadas durante o período de planejamento.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
Tendo em vista os caminhos trilhados diante da nossa demanda, partimos do conceito que a linguagem se dá “pelo fenômeno social da interação verbal, realizada através da enunciação ou das enunciações. A interação verbal constitui assim a realidade fundamental da língua”. (BAKHTIN, 1995, p. 123). É, portanto, papel
da escola, propor atividades que se constituam em uma prática democrática e crítica capaz de conjugar “leitura do mundo e leitura da palavra”, como afirma Freire (1989, p. 18), para constituirmos, então, um exercício de cidadania plena.
Para tanto, o conhecimento do lugar e dos sujeitos envolvidos com o processo de escrita é inerente à caracterização colaborativa que a proposta de leituras e a produção de fotonovelas precisam ter. Daí a necessidade continuada de um letramento crítico conforme abordado por Soares (1998), para que a possibilidade de conhecer o gênero surgido na “Itália do pós-guerra, como subproduto do cinema”, destacado por Sampaio (2008, p. 1), se alie à ideia de recriação textual das bolsistas, que contemple a visão temporal das autoras e tenha como ambientação o município de Rosário ou as cidades circunvizinhas (Santa Rita e os municípios da Região do Munim), além de contar com personagens inseridos na realidade que as autoras almejam projetar e representar.
Tais exercícios de representação requerem um esforço criativo que a leitura e o conhecimento artístico podem proporcionar. Dentro desse conceito é imprescindível juntarmos o propósito discursivo, a esfera de circulação e o conhecimento acerca dos gêneros textuais, mencionados por Marcuschi (2008, ao conhecimento histórico e estético, formado “espontaneamente – por obra do sujeito criador – vinculando de modo imediato às suas criações precedentes e desenvolvendo-as ulteriormente”. (LUKÁCS, 2009, p. 92). É dizer, portanto, que a metodologia de pesquisa-ação – que implica em planejar de acordo com o tema da nossa prática social, recorrer aos elos do que foi planejado, feito, observado e refletido, envolver o grupo de trabalho em todas as atividades e buscar o controle da metodologia colaborativa do processo, , como afirma Carr e Kemmis (1988) – é fundamental para alcançar uma aprendizagem que associe teoria e prática, visando a conhecer melhor os conceitos de linguagem e das artes narrativas, para que, então, se produza as obras artísticas de características verbo-visuais.
3 METODOLOGIA
O trabalho foi desenvolvido dentro da perspectiva da pesquisa-ação, com ações de teoria e prática desenvolvidas em diálogo. Desse modo, num primeiro momento, foi proposto junto às bolsistas estudos teóricos e leituras de fotonovelas, para que pudéssemos observar as características do gênero, tais como sua função, seu diálogo com outros gêneros que circulam socialmente (novelas, filmes, quadrinhos etc.), estilo e técnicas. Paralelo a isso, foi aberto um espaço de conversação para que as bolsistas se colocassem como autoras de histórias que representassem seus anseios discursivos, delimitando temas e traçando esboço de roteiros a serem executados. Disso, resultaram duas propostas de trabalho - reflexo do máximo envolvimento das bolsistas, cuja função, estruturação e estilo contemplavam o gênero fotonovela. Por fim, orientamos a elaboração e organização dos aspectos técnicos e operacionais da confecção dos itens do trabalho, tais como a logística para o cenário, representantes dos personagens, sequenciação do enredo em imagens e, por fim, a montagem e impressão.
4 RESULTADOS
Sabendo que a prática de produção está intimamente relacionada às práticas de leitura e que o conhecimento prévio de um gênero é essencial para produzir textos desse mesmo gênero, o primeiro objetivo foi proporcionar às bolsistas a leitura de fotonovelas e o estudo teórico e analítico sobre o gênero.
Posteriormente, unindo teoria e prática em um projeto viabilizado por uma concepção libertadora de ensino que trabalha linguagem pelo viés sociointeracionista, logramos a participação efetiva das bolsistas em cada etapa e processo de leitura, reflexão e produção da fotonovela, até chegarmos ao nosso produto final, duas revistas impressas, conforme a proposta estabelecida no plano de trabalho. As bolsistas, inicialmente, delimitaram os temas de seus interesses individuais, construindo narrativas que as representassem, projetaram verbal e visualmente tais narrativas, imaginaram e anotaram como ficariam as fotografias projetando um cenário, ângulos fotográficos e atuações ideais, buscaram apoio entre os colegas do Campus para que fossem os modelos representados em cada trama, fizeram as fotos, selecionaram e reescreveram o texto prévio, para que mandássemos para a edição profissional.
Produzimos, portanto, duas fotonovelas: Negras de todas as épocas, uma história sobre o passado escravocrata do país no reflexo de um espelho de uma jovem, e Entre dois amores, sobre as primeiras desilusões amorosas entre adolescentes, ambientadas no entorno do Campus Avançado - Rosário.
FIGURA 1 – Fotonovela Entre dois amores. Fonte Elaboração própria (2018).
5 CONCLUSÃO
Ao cumprirmos com as demandas de leitura e produção, no período proposto dentro do nosso plano de trabalho, pudemos conceber a exposição da nossa obra final, no 2º Encontro de arte do IFMA, como culminância do projeto como um todo. Finalizamos dando ênfase ao produto que tínhamos em mãos, realizado pela pesquisa, imaginação, projeção, composição, acompanhamento e controle de edição.
Conseguimos, portanto, construir um caminho que proporcionasse um encontro de memórias, em que os produtores fossem também leitores de sua própria obra em uma memória conjunta, permeada por cada percalço encontrado durante essas práticas de escrita artística.
A reflexão coletiva e a produção colaborativa se configuraram como eixos que nortearam o exercício cidadão das bolsistas. Diante do banner, no espaço ocupado para a nossa apresentação, as jovens autoras puderam mostrar como revisitaram e adaptaram, no gênero fotonovela, as histórias que quiseram reconhecer, e difundiram tais narrativas constituindo-se como autoras e colaborando com a formação de novos leitores.
REFERÊNCIAS
BAKHTIN, Mikail. Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo: Hucitec, 1995.
CARR,Wilfred; KEMMIS, Stephen. Teoría crítica de la enseñanza. Barcelona:
Martins Roca, 1988.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam.
São Paulo: Autores Associados, 1989.
LUKÁCS, Georg. Arte e sociedade: escritos estéticos 1932-1971. Rio de Janeiro:
Editora UFRJ, 2009.
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.
SAMPAIO, Isabel Silva. Para uma memória da leitura: a fotonovela e seus leitores.
2008. Tese (Doutorado em Educação) - Programa de Pós-Graduação em Educação. São Paulo, 2008.
SOARES, Magda Becker. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte: