De que maneira a informação contida na sabedoria antiga era transmitida de geração em geração? Parte da resposta parece estar relacionada às "escolas de mistério".
Em capítulo anterior mencionei as escolas de mistério que, como nós já sabemos, existiram na Era Clássica da Grécia Antiga. Entre estas, havia uma atribuída a Pitágoras, o filósofo e matemático. Parte do conhecimento atribuído a essa escola de mistério em particular manifestou-se na Maçonaria.
Conforme os relatos tradicionais, as escolas de mistério têm uma história que data possivelmente de antes de 2.500 AEC. Uma delas estava aparentemente relacionada com Ísis e Osíris, as primeiras divindades do Egito Antigo, e a partir das quais, pela tradição, o império egípcio foi semeado. As religiões importantes, aparentemente, tinham seus próprios ensinamentos místicos, ao lado da doutrina regulamentada. Esse conhecimento místico era dividido entre indivíduos selecionados, que eram iniciados nesses segredos, normalmente com os primeiros três níveis de capacitação sendo referidos como os três graus. Essa mesma prática é encontrada na Maçonaria ainda hoje.
E bem sabido que o conhecimento a respeito do macrocosmo, das operações da natureza, de seus ciclos e dos padrões celestiais era dominado por um seleto grupo de pessoas conhecidas como sacerdotes. Tais sacerdotes não apenas entendiam o mundo ao redor deles, realizando investigações sobre assuntos a respeito da maneira como o mundo funcionava, como também tratavam de garantir que as informações e o conhecimento acumulado pelo homem fossem passados de geração em geração. Eles eram magos, os guardiões do conhecimento e do entendimento, e acontecia que, quanto mais sênior a pessoa se tornava dentro da hierarquia, mais o entendimento de um assunto em particular, provavelmente, seria mais extensivo, enquanto
o acesso ao conhecimento de quase qualquer assunto conhecido era vasto.
Em seu livro Ancient Freemasonry [Maçonaria Antiga], Frank Higgins
faz a seguinte observação a respeito de tais sacerdotes e do processo de iniciação que os rodeava:
O objeto de todas essas cerimônias de iniciação antigas era pura e simplesmente a preservação da casta sacerdo- tal. Esta divisão particular da sociedade, dotada de lazer e dos meios para buscar o conhecimento, descobriu muita coisa, mas nada que pudesse ser compartilhado livremen- te, quando se percebia que isso se destinava às grandes massas.
À medida que o tempo passou, é altamente provável que esses sacerdotes tenham caído na armadilha dos paradigmas, quando os costumes, dogmas e percepções estavam bem estabelecidos, a tal ponto que mudanças não eram toleradas nem contempladas. A mais antiga referência à experiência de Anaxágoras e sua estimativa a respeito do tamanho da Lua serve para ilustrar esse ponto. Punições eram infligidas àqueles que procuravam caminhos alternativos ou propunham soluções ou proposições que não se encaixavam no dogma estabelecido. No caso de Anaxágoras, a punição foi o exílio. Assim, não é difícil entender que as sociedades secretas podem muito bem ter se desenvolvido para explorar novas idéias, transmitindo-as aos adeptos, pessoas desejosas de explorar e promulgar novos conceitos.
Os sacerdotes do Egito Antigo mereceram o crédito de ter entendimento bem desenvolvido do macrocosmo, de Geometria, de Astronomia e das regras básicas dos
sistemas de numeração. Da mesma forma, os druidas da Grã-Bretanha mereceram o crédito do mesmo conhecimento. Em alguns aspectos, o entendimento druídico é até considerado superior ao dos egípcios. O terreno do Egito ditava que os sacerdotes de lá tivessem entendimento profundo das plantas e dos animais adequados ao ambiente seco e quente que eles habitavam; eles aprenderam como construir com barro, tijolos e pedras porque as árvores e a madeira eram escassas. Por outro lado, os druidas eram rodeados de florestas que abrigavam um conjunto de vida animal diferente, uma rica flora e fauna. A madeira existia em tal abundância que se tornou o principal material de construção. Tanto druidas como egípcios tiveram algo em comum: o conhecimento, o entendimento e o estudo do movimento celestial. Considera-se que mais tarde os druidas absorveram em sua doutrina muito do entendimento filosófico atribuído a Pitágoras.
À medida que o tempo passava, os homens cultos de cada cultura tornaram-se conhecidos como sábios ou
homens sabidos; um daqueles que entende. Foi Pitágoras
quem aparentemente inventou o termo filósofo, que significa aquele que está tentando descobrir.
De acordo com a tradição, Pitágoras nasceu em Sidon, na Fenícia. Existe alguma dúvida a respeito do ano exato, mas acredita-se que tenha ocorrido em tomo de 580 AEC. Considera-se que fosse familiarizado com o conhecimento esotérico. De acordo com a tradição, tendo aprendido tudo o que sentiu que podia dos filósofos gregos da época, ele se tornou um iniciado nos mistérios eleusianos; viajou para o Egito e foi admitido nos mistérios de Ísis pelos sacerdotes de Tebas; então, ele foi iniciado nos mis- térios de Adônis antes de passar para a Mesopotâmia e
receber os mistérios dos caldeus; finalmente, ele acabou no Industão para aprender com a casta sacerdotal dos brâmanes. Com o valor de tudo isso que aprendeu, ele voltou ao Mediterrâneo e estabeleceu sua escola em Crotona, no Sul da Itália, onde iniciou discípulos
pitagóricos, aos quais transmitiu o conhecimento secreto
que adquiriu em suas viagens.
Eu já mencionei que aparentemente o pentagrama era tido como símbolo de reconhecimento pelos adeptos de sua escola. Especulou-se que a razão para ele escolher esse símbolo foi por causa de sua conexão com o mundo natural, o macrocosmo. A maioria das pessoas, quando precisa cortar uma maçã pela metade, vai fazer isso pela linha que atravessa o ramo, isto é, ao longo do comprimento da maçã, como se estivesse pendurada na árvore. Se, no entanto, a maçã for cortada pela metade através daquilo que pode ser considerado seu equador, então o símbolo do pentagrama será revelado no núcleo. Assim, seria muito fácil para um adepto da escola de- monstrar sua conexão sem ter de falar ou escrever qualquer coisa. Ele podia simplesmente pegar a maçã, cortá-la ao meio e revelar o símbolo interno.
Pitágoras aparentemente ensinou a sabedoria alquímica de sua época, junto com a Geometria, a Música, a Aritmética e a Astronomia. Esses quatro assuntos formam a base daquilo que, durante a Renascença, se tornou conhecido como as Ciências e Artes Liberais. As Ciências e Artes Liberais são atribuídas ao conhecimento dos maçons, como registra um documento existente na Biblioteca Bodley de Oxford. Nos primeiros tempos da educação acadêmica formalizada naquilo que atualmente conhecemos como universidades, o estudo das Ciências
e Artes Liberais era básico para o título de Mestre em Ciências Humanas.
A chave da contagem pitagórica era o número dez, que Pitágoras definiu como o número mais perfeito e infinito; um número que, claro, tinha íntima associação com a quantidade de dedos da mão ou do pé para a forma humana.
O ensinamento pitagórico desprezava os primeiros dois números do sistema de contagem, que Pitágoras chamava de mônada e díada, pois não tinham significado, mas atribuía grande valor aos dois números seguintes, três e quatro. Estes, quando somados aos primeiros dois resultavam no total dez (1+2 + 3 + 4= 10), a década. Aparentemente, é dessa terminologia pitagórica que hoje em dia usamos o termo década para definir o período de dez anos. O interessante é que existia a visão de que, quando dois maçons apertam as mãos, eles estão simbolizando a década pitagórica. A década pode ser dividida em duas porções iguais de cinco e, assim, duas mãos se juntando, cada uma com cinco dedos, criam a
década.
Pitágoras é famoso por ter atribuído grande valor ao número três. De acordo com Aristóteles, "os pitagóricos dizem... que todas as coisas são definidas por três; pois fim e meio e começo constituem o número de tudo, e também o número da tríade". É
interessante como esta conjectura simples permanece uma característica de nossa linguagem de hoje:
todas as coisas vêm em três(...)
uma gripe leva três dias para chegar, dura por três dias e em três dias vai embora.
Pitágoras também atribuiu certo significado simbólico aos números primos na faixa de um a nove. Como exemplo
considere o número 666. O sistema de Pitágoras somava em conjunto os números componentes individuais e depois somava juntos os dígitos da resposta para reduzir isso a um valor simples, dentro da faixa de um a nove. Assim:
6 + 6 + 6= 18 1 + 8 = 9
Pitágoras atribuiu ao número nove o próprio homem. A tabela dos números pitagóricos
No Nome Representação simbólica pitagórica
1 Mônada Simboliza o pai. Permanece sempre na mesma condição e separado da multidão. É o símbolo da mente, estável e proeminente; é hermafrodita, sendo macho e fêmea, ímpar e par; quando é somado a um número par resulta em um ímpar. Uma mônada somada a outra mônada cria a díada.
2 Díada Simboliza a mãe da sabedoria; a dualidade do Céu e da Terra.
3 Tríada É vista como o primeiro número ímpar (pois a mônada nem sempre é vista como número). Caracteriza amizade, paz, justiça, prudência, piedade, temperança e virtude.
4 Tétrada Vista como o número mais perfeito. Simboliza a divindade, pois incorpora os quatro primeiros números. O número de estações. O meio da semana. Os quatro elementos: ar, fogo, água, terra. Os quatro cantos da Terra: norte, sul, leste e oeste. Caracteriza harmonia, força e virilidade.
5 Pêntada O número dez dividido em duas partes iguais. A soma dos primeiros números ímpares e pares: 3 + 2 = 5. É um dos dois números que quando multiplicados
por si mesmos reproduzem a si mesmos no produto. Caracteriza imortalidade, cordialidade, providência e som. 6 Héxada Representa a criação do mundo. A soma e o produto dos primeiros três números: 1 + 2 + 3 = 6 ; 1 x 2 x 3 = 6 . O segundo número, quando multiplicado por si mesmo, reproduz a si mesmo no produto. Considerado o símbolo do casamento conforme definido pelos dois triângulos que se sobrepõem. Caracteriza harmonia.
7 Heptada Considerado como o número da religião, pois reflete as sete esferas e espíritos celestiais (a Terra é omitida, mas o Sol e a Lua estão incluídos). Considerado o símbolo da vida, pois uma criança nascida após a gestação de sete meses normalmente viveria.
8 Octoda O símbolo sagrado do cubo, que tem oito cantos. Qualidades
especiais observam que oito dividido em duas partes é igual a quatro; quatro dividido em duas partes é igual a dois; dois dividido em duas partes é igual a um, a Mônada (1-2-4- 8-4-2-1). Caracteriza amor, conselho, prudência e lei.
9 Enéada O primeiro quadrado de um número ímpar (3x3 = 9).
Considerado como o número do homem, pois o mesmo precisa de nove meses de gestação para receber a vida. Algumas vezes é considerado número ruim, pois é o seis invertido. Caracteriza o oceano e o horizonte.
10 Década Considerado como o maior dos números. É
representada no tetractys (triângulo de dez pontos). Incorpora
todos os números anteriores. A base da aritmética por permitir a contagem com o uso da calculadora humana, os dedos.
Esta tabela foi parafraseada e editada a partir das informações fornecidas em The Secret Teachings of All Ages, de Manly P. Hall.
No ensino pitagórico havia um sistema em que certas palavras recebiam um significado numérico que lhes atribuía um sentido oculto. Manly P. Hall observa que o primeiro passo para se obter o valor de uma palavra é saber se ela foi definida em sua linguagem original, e depois acrescenta que isso somente funciona com palavras derivadas do grego ou do hebraico. Na verdade, Hall indica que tanto os gregos como a cabala hebraica usaram esse sistema. Ele demonstra que a palavra que
conhecemos atualmente como Jehovah é sinônimo do Demiurgus
dos judeus. Quando esta palavra é traduzida novamente para o hebraico, ela se caracteriza pelas seguintes letras hebraicas:
Yod-He-Vau-He
Então, ao consultar a tabela de conversão impressa no
livro de Hall, as letras têm números alocados. Assim, Demiurgus
(Jehovah) torna-se:
Yod-He-Vau-He 10+ 5 + 6 + 5 = 26
Desse modo, à palavra derivada de Jehovah é atribuído o valor de 26. Levando o processo pitagórico à sua conclusão, reduzindo este total a um número simples, temos: 2 + 6 = 8. Pela tabela anterior foi visto que o número oito (Octoda) representa o cubo sagrado com os seus oito cantos. Porém, o cubo também era uma representação simbólica do mundo. Assim, podemos interpretar a palavra Jehovah como a simbolização do mundo.
As palavras e nomes do Antigo Testamento, portanto, precisam ser retraduzidas para os caracteres originais em
hebraico e as palavras do Novo Testamento para o grego.
Correndo abertamente o risco de gerar polêmica, o que está sendo sugerido aqui é que os nomes e as frases da Bíblia têm uma característica mística oculta. Em outras palavras, a Bíblia contém um código, um código revelado pela aplicação de um processo tipificado pela doutrina pitagórica!
Mas é por seu entendimento geométrico que Pitágoras é mais bem conhecido. O Teorema de Pitágoras é ensinado para quase toda criança em idade escolar no mundo ocidental.
Em um triângulo retângulo, o quadrado da hipotenusa é
igual à soma dos quadrados dos cateto, isto é, a2 + b2 = c2.
E isso é demonstrado em um triângulo retângulo com as
proporções três, quatro, cinco: por exemplo, 32 + 42 = x2 9 + 16
= 25 √25 = 5
O diagrama desse teorema é mostrado assim:
O símbolo acima é bem conhecido em palestras maçônicas, sendo ilustrado em certos emblemas. Em particular, caracteriza uma joia ganha por um ex-
Venerável da Loja, mais uma vez vinculando o antigo conhecimento da Maçonaria com a Geometria.
Fiquei surpreso por tanto tempo que precisei recuar para encontrar alguma referência a Pitágoras em materiais maçônicos publicados. A primeira menção que pude encontrar na literatura maçônica estava em uma das primeiras obras mais consideradas da fraternidade,
Illustrations of Masonry, de William Preston, publicada em
1772. O original e uma cópia antiga desta notável obra rara foram disponibilizados para mim por conexões locais, mas confesso que o estilo próprio do impresso não facilitava a leitura. Felizmente, Robert Lomas, o elogiado maçom coautor de The Hiram Key, produziu uma versão
on-line bem mais fácil de assimilar, que foi traduzida do
inglês antigo, que era o estilo de escrita comum quando Preston compilou a obra original, e que oferece a facilidade da busca de palavras. Robert Lomas foi muito gentil ao permitir que alguns trechos fossem impressos aqui. A respeito da história da Maçonaria na Inglaterra, Preston escreveu as seguintes referências a Pitágoras. De modo que elas não fiquem fora do contexto, uma grande parte de texto será reproduzida.
Primeiro, há uma referência a Pitágoras e aos druidas:
Os druidas, somos informados, tinham entre eles muitos usos similares aos dos maçons; mas, no que eles consistiam nesse período remoto não podemos com certeza descobrir. De acordo com práticas antigas da fraternidade, aprendemos que eles faziam suas assembleias em florestas e bosques, e tinham o mais impenetrável sigilo em seus princípios e opiniões; uma circunstância que temos motivo para lamentar, tendo em vista que isso, sendo conhecido apenas deles próprios,
acabou perecendo com eles. Eles foram sacerdotes dos bretães, gauleses e de outras nações célticas e se dividiam em três classes: os bardos, que eram poetas e músicos, formavam a primeira classe; os vates, que eram sacerdotes e fisiologistas, compunham a segunda classe; e a terceira classe consistia nos druidas, que juntavam filosofia moral ao estudo da fisiologia. Como estudo e especulação eram as ocupações favoritas desses filósofos, foi sugerido que eles derivaram seu sistema de governo principalmente de Pitágoras. Muitos princípios e doutrinas do mesmo parecem ter sido adotados por eles. Em seus refúgios secretos eles tratavam do exame da origem, leis e propriedades da matéria, da forma e magni- tude do universo, e até se aventuravam a explorar os mais
sublimes e ocultos segredos da natureza. A respeito desses
assuntos eles formulavam uma variedade de hipóteses que passavam em versos aos seus discípulos, de modo que estes pudessem mais facilmente retê-las na memória, e prestavam o juramento de não anotá-las por escrito.
Existe uma referência suplementar, dessa vez relacionada ao sigilo:
E bem sabido que os usos e costumes dos maçons sempre corresponderam àqueles dos egípcios antigos, aos quais atribuíam uma afinidade próxima. Esses filósofos, que relutavam expor seus mistérios a olhos vulgares, ocultavam suas doutrinas particulares e seus princípios comunitários sob figuras hieroglíficas; e expressavam suas noções de governo por sinais e símbolos, que comunicavam apenas a seus Magos, que estavam impedidos de revelá-los por juramento. Pitágoras parece ter estabelecido seu sistema em um plano similar, e muitas ordens de data mais recente copiaram o exemplo. A Maçonaria, porém, não é apenas a mais antiga, mas também a instituição mais ética que já existiu;
cada símbolo, figura e emblema representado na Loja tem uma tendência moral, com finalidade de incentivar a prática da virtude.
Então, encontramos mais uma referência que alude a Pitágoras sendo iniciado no mesmo conhecimento que formou a filosofia da Maçonaria, e depois uma dissertação sobre as viagens e o conhecimento adquirido pelo sábio: Os registros da fraternidade nos informam que
Pitágoras era regularmente iniciado na Maçonaria; e, sendo ade-
quadamente instruído nos mistérios da Arte, propagou os princípios da Ordem nos outros países em que viajou. Pitágoras viveu em Samos, no reinado de Tarquínio, o último rei dos romanos, no ano 220 de Roma; ou, de acordo com Lívio, no reino de Servius Tullius, no ano 3.472 do mundo. Ele era fdho de um escultor e foi educado por um dos maiores homens de sua época, Terecídes de Siro, um dos primeiros a ensinar a imortalidade da alma. Após a morte de seu patrono, ele decidiu observar a ciência em sua fonte e satisfazer a si mesmo com novos tesouros em cada parte do mundo onde isso podia ser obtido. Animado por esse desejo de conhecimento, ele viajou para o Egito e submeteu-se aos tediosos e desalentadores cursos preparatórios de disciplina que eram necessários para obter o benefício da iniciação egípcia. Quando conseguiu tornar a si mesmo mestre de todas as ciências que eram cultivadas nos colégios sacerdotais de Tebas e Memphis, ele prosseguiu suas viagens pelo Oriente, conversando com os Magos e os Brachmans indianos (Brahmins/Brâmanes), misturando as doutrinas destes com as que havia aprendido no Egito. Depois estudou as leis de Minos, em Creta, e as de Licurgo, em Esparta. Após gastar grande parte do início de sua vida dessa maneira proveitosa, ele voltou para Samos bem informado a respeito de cada coisa curiosa da natureza ou da arte em países estrangeiros, aperfeiçoado com todas as vantagens resultantes do curso laborioso e regular de educação instruída, e adornado com aquele conhecimento da humanidade necessário para ganhar ascendência sobre eles. Acostumado com a liberdade, ele desaprovou a arbitrariedade de Samos e se retirou para Crotona, na Itália, onde abriu uma escola de filosofia; e pela seriedade e santidade de suas maneiras, a importância de suas doutrinas e a peculiaridades de suas instituições, logo espalhou sua fama e influência pela Itália e pela Grécia. Entre outros projetos que ele usou para criar respeito e ganhar crédito para sua afirmação, ele se escondeu em uma caverna e fez com que fosse divulgado que havia morrido. Voltou para o mundo, exterior depois de algum tempo e inventou que as informações que seus amigos lhe passavam, em seu retiro, sobre o que ocorria em Crotona, haviam sido recolhidas durante a sua estadia em outro mundo junto às assombrações dos falecidos. Ele formava seus discípulos, que vinham de todas as partes para se colocar sob sua direção, em uma espécie
de república, onde ninguém era admitido antes que severa provação tivesse exercitado suficientemente a paciência e a docilidade deles. Depois disso, ele os dividia nas classes esotéricas e exotéricas: aos primeiros, ele confiava as doutrinas mais sublimes e secretas; aos últimos, as mais simples e populares. Esse grande homem achou que era capaz de unir o caráter do legislador com o do filósofo, e de igualar Licurgo e o Orfeu no primeiro, Ferecídes e Thales no outro; seguia, nesse aspecto em particular, os padrões definidos para ele pelos sacerdotes egípcios, seus instrutores, que não foram