4. TELENOVELA, PLÁGIO E INDÚSTRIA CULTURAL
4.2 TELENOVELA E PLÁGIO
4.2.2 Plágio e telenovelas: tema, originalidade e similaridade
Outro ponto que requer análise quando se tratar de plágio em telenovelas diz respeito à ideia ou ao tema sobre o qual versa, sua originalidade e a similaridade criativa com outras obras de mesmo destino cultural.
Sendo o tema um campo livre, eis que não existe o monopólio de ideias, o aproveitamento deste não constitui, independente do quão original ele seja, hipótese de plágio. Já dizia Duval que “se a idéia é inapropriável, como maior razão será o tema que a desenvolver”282
. O que não significa que seja tarefa simples separar o que se trata de simples inspiração, de quando se trata de plágio, “a dificuldade do problema surge quando a identidade do tema vai acumulada com a própria forma de expressão”283
.
281
SANTOS, Manoel Joaquim Pereira dos. Contrafação e Plágio como
violações de direito autoral. In SANTOS; JABUR, Op. Cit., p. 188.
282
DUVAL, Violações Op. Cit. p. 61.
283
A semelhança de tema, uso constante de inspiração anterior ou reminiscências é ainda mais relevante para o tipo de obra em estudo: a telenovela. Sem nos afastarmos das características acima trazidas, mas somando-se a estas o viés dramático que norteia estas obras, teremos de forma ainda mais acentuada a similaridade criativa.
A dramaturgia moderna se desenvolveu a partir de releituras dos clássicos. A repetição de temas acabou sendo inevitável e, de tanto se repetirem, as ‘situações dramáticas’ acabaram sendo consideradas como um “fundo comum” do teatro e do cinema, de livre utilização de todos.
Duval se dedica detalhadamente à análise das 36 fundamentais situações dramáticas, segundo a teoria das situações dramáticas cunhadas por Georges Polti em 1921284. A título de exemplificação vejamos algumas que podem ser facilmente identificadas nos enredos das telenovelas até os dias atuais: (3) crime por vingança; (4) vingança por parentes; (6) revés; (7) vítima da crueldade ou infortúnio; (1) rapto; (13) inimizade entre parentes; (16) loucura; (18) crimes involuntários de amor; (21) auto sacrifício por parentes; (24) rivalidade; (25) adultério; (28) obstáculos ao amor; (30) ambição.285
Este fundo comum de situações dramáticas, tal qual o enredo do romance e os personagens característicos ou estereotipados (stock characters) podem ser considerados como matéria prima da dramaturgia, afastando-se do plágio. Sobre o assunto, colhe-se outra vez de Hermano Duval286:
Em princípio, a ripristinação por dois autores, da mesma intriga, não acarreta plágio em desfavor do segundo autor; neste sentido a melhor doutrina da Alemanha, Áustria, Bélgica, EUA, Franca e Itália é unânime em recusar o monopólio do enrêdo de romance ou situação dramática de uma peça teatral ou filme. A exclusividade da proteção é restrita a forma de expressão e não ao conteúdo da obra. Todavia, na Itália, Piola Caseli, distinguindo os romances de aventuras (policiais, etc.), dos romances sociais (de costumes), entende que a sucessão particular dos fatos nos primeiros é que constitui a individualidade da obra; assim, a
284
DUVAL, Violações Op. Cit. p. 170-173.
285
Para a confrontação entre as situações dramáticas indicadas e as telenovelas brasileiras vide FIGUEIREDO, Op. Cit, p. 63-78.
286
reprodução exata deles, mesmo temperada com mudanças de época e de ambientes, supressão de episódios ou de situações, inclusive de estilo, poderia constituir contrafação (plágio). Mas, em se tratando de romances de costumes, onde predomina a descrição de caracteres e o retrato do meio social, a reprodução dos mesmos fatos num ambiente diferente seria lícita.” (grifo nosso)
Se tais características se estendem ao teatro e ao cinema, com mais razão ainda estão presentes na telenovela, cujo plot não se afasta muito dos dramas domésticos acima referidos, nem das fórmulas pré- concebidas a tal formato de dramaturgia.
Assim, o questionamento é inevitável: se o tema não é protegido, se a obra não é pré-definida, se é moldada segundo a aceitação do público, adequada ao contexto político e social do momento, poderia haver tamanha similaridade criativa que desafiasse a ocorrência de plágio?
Alguns autores como Ascensão e Duval287, para não precisar ir além, desafiam a similaridade criativa ou mera coincidência substancial, justamente por entender que se a proteção recai na particular forma de expressão da ideia que lhe dê determinado autor, é improvável que outro o faça de igual modo.
Por outro lado, considerando-se exatamente estas mesmas características da telenovela, não se estaria diante de um espaço limitado para originalidade?
Ascensão288 afirma que “se a obra é a forma de uma criação do espírito, necessariamente haverá que existir o carácter criativo”, cujo quantum é de difícil mensuração, porém “que deve haver um mínimo de criatividade ou originalidade”, sob pena de não haver obra.
É sob este contexto que se analisará o último tópico da pesquisa, o contributo mínimo de originalidade que deve conter a obra para que seja considerada ou refutada como plágio de outra.
Ainda, não se deve confundir plágio de telenovela com adaptação, autorizada ou não. A adaptação autorizada remete a uma obra derivada, em que há o aproveitamento lícito da obra primitiva, para criação de outra, também original, com tratamento do tema de forma totalmente distinta da primeira. A adaptação não autorizada, também remete a uma obra nova, ainda que neste percurso incorra numa violação
287
DUVAL, Violações Op. Cit. p. 63; ASCENSÃO. Op. Cit., p. 67.
288
de direito autoral, que não se confunde com o plágio, o qual requer a semelhança no tratamento (composição) do assunto.
Contudo, já alertava Duval que pode haver plágio também dentro da adaptação, quando “a segunda transformação conserva a mesma “linha” da primeira”, cuja identificação somente será possível mediante o cotejo da forma interna de ambas289.