• Nenhum resultado encontrado

O Património Linguístico no levantamento efetuado corresponde, no total, quando enquadrado no domínio das Tradições e expressões orais, a 4% dos dados divulgados pelos municípios. Isso demonstra a forma como esta área de estudo tem sido, de uma maneira geral, pouco tratada, correspondendo à efetiva falta de preocupação no que concerne à sua divulgação, ao aproveitamento dos levantamentos, de estudos ou de outras formatos de recolha efetuada. Impõem-se algumas perguntas: Por que razão este material não é apresentado em todas as páginas municipais? Será que não tem qualquer tipo de interesse a nível cultural ou turístico? Se, na presente amostra, estes dados são de uma forma global diminutos, estando pouco explorados, isso não corresponde, muitas vezes, à realidade porque há estudos e levantamentos realizados88, que têm a chancela editorial dos municípios. É de salientar que há páginas que nos dão dados a conhecer, existindo a menção destes. Estão normalmente associados à toponímia das localidades, que, por sua vez, surgem em ligação com as lendas explicativas dos nomes dos municípios, cuja divulgação não deixa de ser interessante, através, geralmente, dos milagres que evocam. Constituem a grande fonte de divulgação ligada ao domínio das tradições e expressões

88Arouca, Câmara Municipal de, Lendas de Arouca, ed. Câmara Municipal de Arouca, 2010.

Barcelos, J. M. Soares de, Falares do Outro Arquipélago (Flores e Corvo) Vocabulário Regional, ed. do Autor, 2009.

Ferreira, João R., Do Dialeto Interamnense aos Traços Fonéticos Especiais do Falar de Fafe, Isoglossas e

Variações Diatópicas, Associação Terra Labirinto, 2014.

Guapo, António de Oliveira, Melo, António Rodrigues, Martins, José Eduardo in A Fala: falares, saberes

e cantares. Pág. 161-188. In O concelho de Alenquer 2: subsídios para um roteiro de Arte e Etnografia, 3.ª ed. Alenquer: Câmara Municipal de Alenquer; Associação para o estudo e defesa do Património de Alenquer, 2002.

Lima, Delfina Fonseca, Bordalo, Maria Leopoldina M. F., Vermiosa – com o seu linguajar de outros tempos, ed. C. M. Castelo Rodrigo, 1997.

Maria, Associação de Municípios das Terras de Santa, Zás-Trás-Pás, eis os contos que o livro traz, ed. Associação de Municípios das Terras de Santa Maria, 2006.

Melo, Paulo de Ávila de, Ruas e Lugares da Praya (Notas para a sua História), I Volume, 1ª ed., Terceira- Açores, Câmara Municipal da Praia da Vitória, 1994.

Moreiras, Paulo (coord.), A Arca da Memória – Recolha do Património Oral do Concelho de Pombal, 1ª

ed., Pombal, Município de Pombal, dezembro de 2005.

Pina, Maria João Augusto, Peroguarda: Aspectos Culturais de uma freguesia do Baixo Alentejo, Câmara Municipal de Ferreira do Alentejo, 2008.

Silva, Margarida Moreira, É por aí voz constante...E o Povo sabe quando diz..., 1ª ed., Loures, Museu Municipal de Loures, Divisão do património Cultural, Departamento Sociocultural e Câmara Municipal de Loures, 2007.

116

orais, tendo sido contabilizadas 232 lendas, o que constitui o maior grupo de divulgação neste domínio (cf. Levantamento, ponto 5). Muitas destas são divulgadas na íntegra (74 registos), nas páginas municipais, mas existe também um grande grupo onde consta somente a sua existência através do título da lenda, não havendo o texto na sua totalidade (37 registos), sendo a divulgação de 121 lendas mencionadas somente pelo nome, sem qualquer menção às suas narrativas.

Outro dos grupos em destaque no ponto 5 do Levantamento, o que se liga ao PL, está relacionado com os jogos tradicionais. Há um esforço importante dos municípios na sua recuperação. Existe ainda por parte destes a preocupação em explicar integralmente muitos destes jogos. A propósito, podem os jogos, e outras tradições, fazerem parte do PL?

Existe uma estreita relação entre a descrição, ou explicação, dos jogos tradicionais e a constituição do universo linguístico. Assim, também poderíamos considerar as receitas e os métodos de confeção circunscritos ao domínio das Tradições e expressões orais. Causam, por este motivo, dificuldades acrescidas para a integração num, ou noutro domínio, pois estes têm uma larga abrangência.

Relativamente ao PL, além das lendas e das explicações toponímicas, encontramos textos da Literatura Oral e Tradicional associados a milagres, adágios (o Adagiário ligado ao vento - Cataventos de Mirandela (cf. Levantamento em apêndice, p. 240), cancioneiros, contos, crendices e superstições (as Crendices e superstições no distrito de Bragança -Mirandela (cf. Levantamento em apêndice, p. 240), entre outros elementos com menor divulgação, ou com menor grau de referências, como por exemplo os Ex- Votos89, Ensalmos e Benzeduras: Talhar a “Trícia”, Talhar o “Bicho” (descrição das

curas) (Armamar). Importa realçar, como já o referimos, os casos do dialeto Barranquenho (Barrancos), o Laínte da Casconha (Castanheira de Pera) e o seu dicionário, a língua Mirandesa (Planalto de Miranda do Douro e Vimioso) e as siglas poveiras (Póvoa do Varzim). Estas são as grandes manifestações com ligação direta ao PL e com divulgação municipal. Muitos dialetos não se encontram mencionados nas páginas municipais consultadas, o que nos conduz mais uma vez para o aspeto da seleção por parte dos municípios da informação a divulgar. Porventura, por não ser politicamente importante, e, provavelmente, porque o PL não é encarado como uma fonte de riqueza para os municípios, talvez por estes factos, este tipo de PCI, embora exista, não é

117

divulgado e tem pouca relevância. O grau como se desenvolvem aspetos da cultura pode subalternizar um conjunto de valores de grande importância porque características essenciais da nossa cultura, como seja o caso concreto da língua e dos testemunhos na salvaguarda da totalidade do património imaterial. Assim, com o que foi referido, não pretendemos afirmar que este património não exista, ou que os municípios não tenham dados sobre os mesmos, mas deste vasto conjunto patrimonial é colocado em segundo plano e não é divulgado. Ao assumir-se uma postura excessivamente turística, colocando dados sobre a gastronomia, artesanato, será que o PL poderia ser colocado nas mesmas páginas? A sua inclusão nas páginas do turismo faria ou não sentido? Fica a questão.

Sem dúvida que não há um aproveitamento desta grande ferramenta que temos, ou seja, os meios do ciberespaço diminuem consideravelmente a divulgação de dados que nos parecem constituir património nacional e não pertença exclusiva de áreas circunscritas regionais. Isto pode dever-se quer à falta de diálogo existente entre os municípios e o Estado, à falta de criação de grupos pluridisciplinares e de uma base de dados geral neste campo de atuação. A par das dificuldades com que os municípios podem estar confrontados, tanto por falta de técnicos especializados nas TIC, como por falta de meios tecnológicos, estamos em crer que, a aposta na difusão deste universo (património imaterial) e a escolha dos conteúdos divulgados vão ter um grande impacto, não só a nível regional ou local, mas acima de tudo nacional.

Assim como para o património material, podemos testemunhar, através do património imaterial, de forma concreta, o nosso passado, sendo possível estabelecer pontes de ligação entre o presente e o passado. Isso faz-se também através dos dialetos, das siglas, das formas de dizer, das pronúncias locais, abrangendo as múltiplas variedades e riquezas da língua portuguesa, que constituem, em larga medida, o nosso PL. Este é um património linguístico vivo90 e que, a par do português padrão, deve ser protegido. Deste legado cultural, a língua, as lendas, os usos e costumes, o artesanato e a gastronomia são pontos que nos caracterizam como povo. Foram transmitidos, na maioria dos casos, oralmente através das várias gerações. Este legado acumulado ao longo de muitos séculos é importante a nível linguístico. Temos de o conhecer, preservar e divulgar, para que não se perca, pois constitui, acima de tudo, um conjunto de documentos vivos91 e estes,

90Ferreira, João R., Do dialeto interamnense aos traços fonéticos especiais do falar de Fafe – isoglossas e

variações diatópicas, edições Agora, Fafe, junho 2014, p.50.

91Lima, Delfina Fonseca, Bordalo, Maria Leopoldina M. F., Vermiosa – com o seu linguajar de outros

118

através da sua mais-valia, podem e devem constituir fontes relevantes para o estudo do PCI.

Neste campo, a Internet constitui um meio multifacetado e com uma infinidade de recursos que podem potenciar uma diversidade de expressões com infinitas capacidades de divulgação. Se bem utilizadas, potenciam os conteúdos que hoje nos parecem difíceis de alcançar. A sua importância atinge a cada minuto, milhões e milhões de pessoas que

criam e consomem uma quantidade incalculável de conteúdo digital num mundo online que não conhece92… Neste contexto, em dezembro de 2014, uma notícia93 produzida pela agência Lusa, reporta que:

Todas as câmaras municipais de Portugal estão ligadas à Internet e mais de metade das autarquias usa ligações de alta velocidade, revela o estudo divulgado pela Unidade de Missão Inovação e Conhecimento (UMIC).

Refere o mesmo artigo que 61% destas câmaras/entidades estão a operar em banda larga e registam uma taxa de crescimento de 97%. De acordo com o mesmo estudo, 79% não estão a utilizar a Internet de alta velocidade, encontrando-se, na altura da notícia, em fase de implementação. Sendo a Internet em termos de utilização, e segundo o mesmo texto, definida da seguinte forma: 97% para procura e recolha de informação, 96% uso do correio eletrónico, 90% para troca eletrónica de ficheiros, 80% consulta de catálogos de aprovisionamento e 79% acesso a base de dados. Dos dados mais reveladores, sobressai que 80% dos municípios têm pessoal afeto exclusivamente às TIC e 39% consideram a inexistência ou escassez de pessoal destinado às TIC, o que tem condicionado negativamente o desenvolvimento das atividades camarárias. Este estudo conclui que 67% das autarquias têm uma estratégia para o desenvolvimento das TIC, no âmbito de infraestruturas, e que elas constituem as principais formas de cooperação das câmaras municipais com as juntas de freguesia. Este foi um estudo realizado junto das 308 autarquias portuguesas. Compreendemos a importância das TIC para o PCI em geral e para o PL em particular, na seguinte afirmação:

92Schmidt, Eric, Cohen, Jared, A nova era digital, ed. D. Quixote, 2013, p. 13.

93Lusa, Agência, Todas as câmaras municipais portuguesas estão ligadas à Internet, página consultada a 29/12/2014, texto online:https://www.publico.pt/media/noticia/todas-as-camaras-municipais-portuguesas- estao-ligadas-a-internet-1211947, edição jornal Público.

119

Através do poder da tecnologia vão caindo velhos obstáculos à interação humana, como a geografia, a língua e as carências de informação, avolumando-se uma nova vaga de criatividade e potencialidade humanas.94

Pelo facto da interação com a Internet, impulsionam-se vastos campos de transformação, sejam eles sociais, culturais, políticos ou tendo abrangência global. Esta ferramenta permite desenvolver e disseminar conteúdos em tempo real sem ter de recorrer a

intermediários95.

No caso concreto, a falta de recursos que possibilitem a recolha e a divulgação de dados pelo ciberespaço assume inúmeras lacunas. Esta realidade acompanha o que tem sido focado ao longo deste trabalho: a valorização do PCI e do PL em particular está, sem dúvida, na criação, através da sociedade civil, e em articulação com as entidades municipais, de grupos capazes de realizar levantamentos para serem publicados a nível regional, tornando-se, simultaneamente, pontos de ligação ao todo nacional.

O vasto panorama lexical encontrado no levantamento revela que existe um amplo património linguístico nacional de cariz regional e local, o qual deveria ser preservado. Neste levantamento, essencialmente a nível do léxico, estamos perante um conjunto lexical diversificado, sobretudo nas expressões descobertas e reproduzidas conforme à língua falada. Neste domínio, encontramos, por exemplo, cepo bento (cf. Levantamento, p. 8), dança do cego ou sapateirada (cf. Levantamento, p. 156), vinho dos mortos (cf. Levantamento, p. 163), laburdo (cf. Levantamento, p. 212), sarapatel (cf. Levantamento, p. 214), tachadéu (cf. Levantamento, p. 214), barriga de freira (cf. Levantamento, p. 216), borrachinhos de Valença (cf. Levantamento, p. 218), cachamorras (cf. Levantamento, p. 218), papas laberças (cf. Levantamento, p. 225), papos de anjo (cf. Levantamento, p. 225). Aliás, na dimensão gastronómica, um universo lexical aparece como uma riqueza. Encontra-se associada a um passado agrícola, cuja preservação é de extrema relevância, uma vez que pode vir a desaparecer progressivamente. O papel dos antigos artífices, para a conservação deste vasto mundo cultural e linguístico, é de grande importância. Trabalhos sobre a língua falada ajudarão à conservação da memória linguística de uma comunidade, no que diz respeito ao domínio lexical. Para isso,

94Schmidt, Eric, Cohen, Jared, A nova era digital, ed. D. Quixote, 2013, p. 14. 95Ibidem, p. 14.

120

contribui, sem qualquer dúvida, a compilação deste vasto levantamento de património linguístico, de forma a produzir recolhas lexicais. Devem ser compilados os termos por forma a constituir atlas linguísticos, levantamentos em áudio e vídeo, no sentido de potenciar a sua preservação e permitir a sua divulgação. Neste contexto, é necessário desenvolver esforços para a criação de espaços dedicados à língua portuguesa. Estes podem ser físicos, como os museus, ou a nível do ciberespaço.

O espaço cibernético pode constituir uma mais-valia para a criação de contextos de divulgação a todos os níveis, aproximando de forma interativa as gerações mais novas e dando persecução a um tipo de intervenção cuja metodologia possa ser mais dinâmica, assumidamente participativa. Esta pode ser uma das formas de se evitar a perda de todo um conjunto de terminologias com ligações a técnicas ancestrais que parecem ir desaparecendo e que também fazem parte do nosso património linguístico. Temos a noção de que não procuramos um voltar ao passado, quer a nível técnico, quer social, uma vez que não seria possível, nem desejável, mas pretendemos evitar a extinção de muitos dos termos associados a profissões ou processos do nosso passado comum. Urge impedir, simultaneamente, o desaparecimento das tradições, que estão relacionadas com um vasto vocabulário. Hoje, muito deste, é de difícil recuperação e, por conseguinte, pode vir a desaparecer rapidamente. Se este vasto vocabulário deixar de ser usado, dá-se um enfraquecimento linguístico, pois as recolhas existentes podem não ser suficientes para permitir alcançar a riqueza patrimonial da comunidade nacional. É de extrema importância fazer recolhas, com intuito de preservar o vasto património linguístico de que o levantamento empreendido é prova comprovada. Há todo um vocabulário que deve ser conservado e que contribui decisivamente para a aproximação das diferentes comunidades de falantes de língua portuguesa.

121