2 ESTÁGIO SUPERVISIONADO COMO COMPONENTE CURRICULAR
2.1 Planejamento do Estágio
Repensar o Estágio integrado ao currículo, não como uma proposta isolada ou um documento elaborado de “cima para baixo” no qual o estagiário deve alinhar seu plano individual ao programa prévio da escola, reporta-nos à percepção de um outro tipo planejamento: o que conta com a colaboração e o engajamento de todos os membros da equipe. Referimo-nos, pois, aos professores, alunos, instituições parceiras, gestores, funcionários técnico-administrativos, coordenadores
de curso e do próprio Estágio, dentre outros agentes e setores que também podem colaborar neste processo. Desta equipe, porém, concentraremos em dois dos personagens principais que, juntos, acreditamos fazer a diferença frente à proposta em discussão, ou seja, o professor e o aluno.
O princípio basilar a ser sublinhado, no que toca a questão do planejamento, é reconhecer que os docentes precisam descobrir:
[...] a importância e o enriquecimento do trabalho em equipe e o despertar do envolvimento e do compromisso dos alunos. Quando o professor consegue vivenciar todos esses processos, o exercício da docência no ensino superior se torna extremamente gratificante. (MASETTO, 2018a, p.
80).
Compreendemos que nenhum profissional pode desenvolver um planejamento sozinho e distanciado da comunidade acadêmica sem que se tenha ciência das inquietações que dela emergem. Neste caso, não é possível trazer respostas prontas ou definitivas para as dificuldades circundantes sem se debruçar sobre as situações por meio de reflexões, discussões, críticas e atitudes concretas que propiciem mudanças para a melhoria do Estágio. E, nesse contexto, não há mudança se também não houver profunda iniciativa do docente para tanto, pois:
[...] o planejamento é um programa de trabalho que alunos e professor constroem para orientar ações e atividades de aprendizagem, distribuídas no tempo e no espaço disponíveis, visando a formação do profissional. Um instrumento flexível para poder absorver e integrar situações novas que surjam durante o processo de formação. (MASETTO, 2015a, p. 77).
Não obstante, o aluno sente necessidade de ser valorizado como membro ativo do grupo no qual está inserido. Como lembra Masetto (2015a, p. 9) “os jovens prezam muito pela sua autonomia, sua proatividade, sua iniciativa e liberdade que os colocam no comando de seus contatos e de suas atividades”. Desta forma, temos a convicção que, quanto mais os alunos estiverem diante de situações que os motivem a buscarem novas respostas para os problemas em educação musical, mais estarão exercendo seu protagonismo com relação às oportunidades de aprendizagem. A consciência dessa realidade e o desempenho de ambos (professor e alunos), é de fundamental relevância para a concretização do planejamento ao longo do Estágio.
No tocante aos papeis desses sujeitos é imprescindível que o planejamento do Estágio seja construído tendo como alicerce a “[...] definição dos objetivos educacionais a serem aprendidos, informações e conhecimentos, habilidades e atitudes”. (MASETTO, 2015a, p. 80). Por sua vez, é no Projeto Pedagógico de Curso que os docentes encontrarão as bases necessárias para traçar os objetivos de aprendizagem que orientarão a construção coletiva do planejamento de Estágio, estamos cientes de que sem tal orientação perder-se-á o sentido do processo formativo dos licenciandos em música. Em consonância com o autor supracitado, é no PPC que se define o perfil esperado para o egresso do curso de licenciatura e, consequentemente, a indicação do currículo que alcançará a formação almejada para o profissional desta área.
Com relação ao tempo no planejamento é importante ressaltar que esta dimensão abarque todas as fases previstas para o Estágio, mas, sobretudo, cuidando dos limites destinados para tanto. Isto implica na observância do calendário letivo tanto da universidade quanto das instituições parceiras. Neste aspecto, o que importa não é a quantidade de carga horária que indicará o quanto os alunos estão aprendendo ou não, mas como o tempo disponível pode ser utilizado com eficácia em favor da formação dos licenciandos em música. Como diz Masetto (2010, p. 23):
Não será duplicando ou triplicando a carga horária de um curso, colocando um número de 8 a 10 horas de aula por dia, durante 6 dias por semana (inclusive aos sábados, portanto) que a formação desse profissional será mais atualizada ou competente.
Além do mais, estabelecendo um tempo para encontros periódicos e sucessivos será possível à equipe refletir sobre o andamento do Estágio, rever falhas do planejamento, ou mesmo condutas nem tanto exitosas a fim de redirecionar estratégias no decurso do mesmo. Concordamos com Masetto (2018a) quando apoia que se tenham espaços e tempos dedicados à formação, o que confere um caráter formal e de relevância à atividade, e permite que também os professores se preparem para os momentos inesperados.
Considerando a reduzida carga horária de 2h (duas horas) semanais destinadas à linguagem musical no currículo escolar, acreditamos que esta acepção do tempo de formação prevista no planejamento comporta subsídios necessários
para que os licenciandos iniciem o Estágio, inclusive, logo no primeiro período do curso. De certa forma, os discentes estariam engajados durante todo o processo formativo, o quanto antes, em distintas situações de aprendizagem entremeadas às práticas pedagógico-musicais. Neste caso, o Estágio se realizaria da seguinte forma:
[...] durante todo o curso em situações diferentes cada vez mais complexas, com acompanhamento não apenas de um professor encarregado do estágio, mas de todos os professores em cujas disciplinas ele é realizado, tratando-o como um ambiente fundamental de aprendizagem. (MASETTO, 2010, p. 126).
Na perspectiva de que o Estágio deve perpassar todo o currículo com tempos e espaços de aprendizagem redefinidos para tanto, docentes universitários com formações em áreas distintas (Composição e Regência, Educação Musical, Musicologia, Etnomusicologia, Prática Instrumental e outras), por exemplo, poderiam contribuir por meio de estratégias educacionais que corroborassem a integração dos conhecimentos específicos da própria área de conhecimento. Assim sendo, convém evidenciar ao menos uma estrutura básica que alicerce, concretamente, a construção do planejamento de Estágio que discutimos.