llustração 2 – Gráfico: Brasil – Taxas de reprovação no Ensino Fundamental
4 OS IMPACTOS INICIAIS DA REORGANIZAÇÃO E A REAÇÃO DOS
4.1 ANÁLISE DAS RESPOSTAS DOS PROFESSORES
4.1.2 Elementos Alterados na Reforma
4.1.2.4 Planejamento e registro
O planejamento e registro do professor engloba vários aspectos e diferentes vieses, porém, neste estudo, o foco está no Sistema de Gestão Pedagógica – SGP, implantado na reforma para organizar de maneira on-line este processo.
Quando questionados sobre a contribuição do SGP para o processo de registro e análise das informações pedagógicas, exceto a PCI-1 e o PCT-1, todos os professores se manifestaram positivamente, apesar de revelarem dificuldades no período de implementação. A PCA-1 afirma: “[...] no começo foi um pouco difícil até se adaptar. Mas eu vejo que ele é um processo até mais rápido para a própria comunidade e para nós, dentro da escola”; a PCA-2 complementa: “[...] estava muito complicado a primeira forma que eles implantaram, mas foram modificando, adequando e hoje já está melhor, e a gente também está mais adaptado a fazer. Não sinto mais tanta diferença de estar registrando no papel ou no SGP”.
A gestora SME comenta sobre esse processo de implantação e afirma que houve resistência dos professores à ferramenta, como já era esperado.
O SGP, inicialmente, quando foi implementado, os professores não receberam bem, houve aí uma resistência, mesmo porque o processo de implementação foi um pouquinho complicado, devido ao tamanho de nossa rede também. Se a gente parar pra pensar, a rede de SP é uma rede imensa, nós temos aí muitas unidades escolares, é um município muito grande, era de se esperar que houvesse essa dificuldade de implementação, tanto que no ano inicial não foi descartado ainda os Diários de Classe físicos. Foi um ano de implementação, ocorreram bastantes formações, a própria plataforma já se modificou bastante, de acordo com o apontamento dos professores. (gestora SME)
Há de se considerar que, no início, os docentes tiveram seu trabalho duplicado, conforme foi apontado pela gestora SME, pois além de efetuarem os registros no diário de papel, tinham que registrar seus planejamentos no SGP. Além disso, houve transtornos em relação à funcionalidade da ferramenta e muitas vezes os professores tinham que fazer o registro em suas residências. A PCI-2 confirma este aspecto, “Aqui no começo foi difícil, o SGP muitas vezes estava congestionado, você não conseguia acessar”. A PCT-2 relata o problema com mais detalhes:
[...] a princípio ele causou vários transtornos em razão do tipo de banda larga que não era suficiente para todas as pessoas mexerem no mesmo horário, que é o horário de JEIF. Dava muito problema, você tinha que digitar em casa, tinha que arrumar um jeito daquela noite aparecer o registro, do conteúdo aparecer, mas com o passar do tempo melhorou.
Como mencionado no capítulo 2, a SME reconheceu esses problemas de ordem tecnológica e se propôs a solucionar. Apesar de as professoras afirmarem que estas adversidades foram minimizadas, a PCA-2 relata que ainda não foram completamente resolvidas, aponta a dificuldade do tempo para preencher o instrumento e critica a falta de estrutura da rede.
[...] às vezes a gente se depara com o problema do tempo dentro da própria escola, eles mandaram os tablet‟s, mas nunca funcionam por conta da rede da Internet [...]. Por exemplo, hoje nós tínhamos que fechar todas as notas, mas o SGP está travado e a gente não consegue. Então, isso eu acho que precisa melhorar, porque é uma rede grande, então precisa se ter uma estrutura para poder atender. (PCA-2)
No tocante à resistência dos professores, estes apontam a dificuldade de se adaptarem às novidades; além do mais, é preciso considerar a falta de habilidade de alguns docentes, principalmente, os mais antigos, com os recursos tecnológicos. Contudo, nota-se na fala das docentes a superação deste desafio, destacando que a PCI-2 é a professora com mais idade dos sujeitos entrevistados.
Tudo que é novo causa desequilíbrio, desconforto nas pessoas, mas eu acho que ele só veio pra somar. Hoje eu lido muito bem com essas questões do SGP e eu prefiro mil vezes tudo digitado do que no papel, a gente está querendo falar de uma sociedade melhor, diferente, vamos evitar o acúmulo de papéis. (PCT-2)
Eu agora já me sinto bem confortável em trabalhar no SGP, mas no começo a gente tem um pouco de resistência em tudo que é novo. [...] eu vi professoras aqui que tinham muita resistência achando que “eu não ganho pra isso”, “não fui capacitada pra isso”, mas eu acho que não adianta a gente brigar contra a informatização [...], e se você for ver, acaba minimizando bastante o trabalho, porque tudo o que você precisa consultar na hora já sai, os boletins saem bem feitos, então eu acho que está ajudando sim. (PCI-2)
Vale salientar que, segundo a PCI-2, uma das indignações das professoras é que não tinham sido capacitadas para lidar com a plataforma.
A gestora SME comenta sobre isso:
[...] a Secretaria chegou a oferecer formação ali para praticamente, não vou garantir 100%, mas a ideia era garantir 100% de formação para os professores em todas as Diretorias, isso a gente sabe que é complicado, possivelmente nem todas as Diretorias conseguiram garantir essa formação, mas para os gestores foi garantido 100% de formação com a plataforma, com o SGP.
Outro elemento a ser observado diz respeito a como o registro é realizado no SGP. Segundo a PCA-1, “Ele é separado por disciplina, mas tem alguns professores que até fazem de forma interdisciplinar, mas o foco é por disciplina mesmo”. A PCI-2 complementa: “Ele é feito interdisciplinarmente nos momentos de reunião quando você está preparando o plano anual, depois eu acredito que ele vai mesmo por disciplina”. Percebe-se que mesmo quando há troca de informações entre os professores, esta é feita em momentos pontuais, porém por diversos fatores, predominantemente o planejamento não é realizado interdisciplinarmente, divergindo do que preconiza a nova proposta.
A PCI-1 e o PCT-1, apesar de serem os professores com menos tempo na profissão e mais jovens, o que permite pressupor que possuam mais facilidade com o recurso tecnológico, avaliam o SGP como um instrumento puramente burocrático, não identificam nenhum benefício para a aprendizagem dos alunos ou organização do professor.
Acho que nem o SGP e nem o diário de classe davam conta desse procedimento. Acho que tanto o diário de classe de papel como o SGP são coisas burocráticas, acho que nenhum auxilia nas questões dos registros do aluno. (PCI-1)
Por mim não tinha diário, não tinha registro, não tinha nada disso. Para mim a escola não seria nada disso. Imagina, isso é um sistema de controle, é só burocracia. Sim, num sentido agiliza a burocracia, mas é uma forma mais moderna de burocracia (PCT-1).
A gestora SME também admite o aspecto burocrático da ferramenta e reconhece que nem sempre ela dialoga com a proposta da reorganização.
[...] se esse SGP conversa com a proposta da reorganização curricular? Ainda completamente não, mesmo porque seria muita pretensão achar que esse instrumento já conversasse com uma proposta numa concepção tão diferente. Ele é um sistema, ele é burocrático, nem sempre ele vai se revelar enquanto um instrumento de publicização das avaliações no boletim ainda, ele não vai revelar de fato o aluno, por isso que a gente insiste bastante em diferentes instrumentos. Ele retoma também a questão da nota, algo que já havia sido superado com os conceitos anteriormente (gestora SME).
Para compensar as lacunas destacadas, a gestora SME explica que houve a necessidade da elaboração da Nota Técnica nº 12, que evidencia o uso de outras formas de avaliação além das provas, como por exemplo, a autoavaliação, que
segundo ela, ainda não é contemplada no SGP. Talvez por não haver espaço na plataforma para o registro desta, observa-se nas entrevistas que, apesar de na nova proposta estar explícito a importância do uso deste instrumento, conforme abordado no capítulo 2, não há comentários dos professores sobre a autoavaliação, o que traz o questionamento se esta tem sido utilizada no cotidiano escolar. A autoavaliação é um elemento significativo quando se pensa em uma avaliação formativa e autônoma, por isso foi preconizada na implantação dos ciclos por Paulo Freire. Sobre isso, Paro (2001) afirma:
Um bom indicador do quanto a escola pública fundamental se distancia de uma educação verdadeiramente formadora de personalidades históricas e autônoma é a ausência quase total de processos de autoavaliação discente em seu interior [...]. Certamente essa ausência de autoavaliação deve marcar negativamente a autodisciplina dos alunos e a formação de seu conhecimento. (p.138) A gestora SME ainda exprime que a expectativa é que a formação dê conta de suprir o descompasso entre o SGP e as características da reforma, “Se você ficar só aqui no SGP você vai ter um olhar, uma concepção, se você ficar só na Nota Técnica você vai ter outra, se você ficar só nos documentos você vai ter outra. É preciso que isso se integre e aí a necessidade de formação”. (gestora SME)