2.1 PLANEJAMENTO FÍSICO TERRITORIAL
2.1.3 Planejamento territorial regional e local integrado
Esforços para promover o planejamento do desenvolvimento com foco na sustentabilidade estão ficando cada vez mais manifestos. Para tanto, há uma preocupação evidente em realizar um planejamento
pautado na integração dos potenciais regionais, ou seja, integrar a região planejando-a para a eficiência econômica, social e ambiental.
O planejamento territorial visa o desenvolvimento local ou regional, que segundo Wilson (2010, p. 1), tem por objetivo “a transformação dos sistemas produtivos locais, o incremento da produção, a geração de emprego e a melhoria da qualidade de vida da população.”
Entretanto, Boisier (1989) menciona que o planejamento não pode ser um processo exógeno, sendo necessário que seja interno e baseado em característica particulares do local. Os componentes da região a serem envolvidos precisam apresentar características comuns, sejam geográficas, sociais, culturais, entre outras. É preciso referenciais comuns e complementariedade entre eles, por isso o processo precisa ser endógeno.
Neste contexto, Haddad (1980) afirma que há diversas questões que se colocam em torno das potencialidades e limitações do planejamento integrado. Uma das questões que vê como entrave é o diagnóstico que, segundo ele, demanda uma série de esforços, tornando- o, na maioria das vezes, extensos, restando pouco tempo para se pensar as questões estratégicas e alternativas de desenvolvimento, bem como a elaboração de programas e projetos.
Outro entrave, tanto do planejamento regional como o local, é a falta de visão integrada. As ações pontuais e setoriais estão presentes, especialmente no que diz respeito às questões urbanas. Spirn (1995) ressalta a falta de visão holística dos processos pelos planejadores, inclusive, cita a ocorrência de importações/transferências de tecnologias de planejamento, sem considerar as particularidades do local planejado. Não apenas Spirn, mas estudiosos da área como Hough (1995) e Costa (2008), também evidenciam a necessidade integradora dos elementos urbanos no planejamento.
Especialmente se tratando de município, são notáveis as ocorrências em que a planificação acontece dissociada do contexto mais amplo (região e estado). É com foco nestas questões problemáticas de planejamento que se consideram as colocações de Zapata (2007), que afirma que o planejamento deve ser participativo e flexível, com uma abordagem sistêmica e holística da realidade.
Não quer dizer que o planejamento deva exclusivamente ser regional, tornando desnecessário o local, pois ambos se complementam. O município deve ser planejado com base no contexto regional - estruturando-se com a finalidade de complementar - e o planejamento
regional focado na integração.
A Comissão Europeia, na busca pelo ordenamento territorial, através do Conselho da Europa, lançou a Carta Europeia do Ordenamento do Território (PORTUGAL - MINISTÉRIO DO PLANEJAMENTO E DA ADMINISTRAÇÃO DO TERRITÓRIO, 1988), aprovada em 1984. Esta carta está baseada na cooperação internacional para a promoção deste ordenamento e, chama atenção para a necessidade de uma análise dos conceitos de desenvolvimento nacionais, regionais e locais, com vistas especialmente para adoção de princípios comuns, visando reduzir as disparidades regionais e melhorar o uso e a organização do espaço, distribuição das atividades, a proteção do meio ambiente e a melhoria da qualidade de vida das populações.
Há uma intensa preocupação em evitar a influência de objetivos econômicos de curto prazo, influenciando os aspectos sociais, culturais e ambientais. Além disto, é salientada a necessidade de adequar critérios para orientação e utilização do progresso tecnológico em conformidade com as exigências econômicas, sociais e ambientais. É garantida também a possibilidade de participação dos cidadãos europeus na introdução e aplicação das medidas de ordenamento.
No caso do ordenamento territorial europeu, o desenvolvimento acontece em todos os níveis políticos, conforme representado na Figura 1, existe um programa a nível nacional, um plano regional e planos intermunicipais de ordenamento territorial e, a nível municipal, o Plano Diretor.
Figura 1 - Sistemática da Lei de Base de Ordenamento do Território e de Urbanismo – Carta Europeia Fonte: Ministério do Planeamento e da Administração do Território de Portugal (PORTUGAL, 1988).
Na Figura 1, é possível observar a visão integradora de todos os setores envolvidos em um processo de ordenamento territorial, além disto, percebe-se a coerência das políticas micro (municipais) com as macro (nacionais).
Jara (1998) ressalta a necessidade de compreender as dinâmicas e contextualizar o quadro de referências. Neste caso, ele refere-se ao município, por considerá-lo um sistema em constante movimento e aberto ao movimento desigual e combinado do capital no espaço, menciona como inevitável a análise das relações entre as diversas estruturas onde está inserido. Além disto, ressalta a demanda em entender a trajetória histórica que contribui para a organização do espaço territorial, procurando operacionalizar uma visão sistêmica da realidade, na qual o local seja articulado com o global e a parte com o todo.
Esta colocação de Jara deixa clara a necessidade do planejamento dentro de uma visão global, entretanto, não se deve desconsiderar que a análise das particularidades do local planejado é primordial. Um exemplo de planejamento local baseado na realidade e demanda endógena foi o realizado na região metropolitana de Barcelona. Segundo Forman (2004), para cada setor foi elaborado um plano base, onde estiveram incluídas as particularidades de cada uma. As atividades econômicas e seus impactos, assim como as possibilidades e iniciativas de redução dos danos foram consideradas, sendo que as opções apresentadas seguiram as características naturais de cada espaço e os cuidados que cada um demandou.
Para promover o planejamento local, dentro de um contexto regional, existem os Planos Diretores, que, conforme prevê o Estatuto da Cidade (IBAM, 2010), propiciam a promoção do ordenamento territorial adequado, mediante planejamento e controle do uso, parcelamento e ocupação do solo. Fica evidente a competência para adotar as medidas que promovam o desenvolvimento territorial, com sustentabilidade cultural, social, política, econômica, ambiental e institucional. Desta forma, a estruturação interna propiciará o desenvolvimento regional integrado, com base na soma das competências e potenciais.
Ainda com foco nesta discussão, Fracassi e Francisco, (2010) afirmam que o planejamento territorial é geralmente pensado e discutido levando em conta principalmente as metrópoles, as cidades grandes e médias, embora, desconsidera-se que é nas pequenas que ele ganha destaque na regulação da produção espacial. Nestas cidades, a produção espacial intensifica ainda mais a relação como seu entorno (meio rural),
que se apresenta mais integrado e articulado com as áreas urbanas do que as cidades maiores.
Com vistas a pensar a viabilização do planejamento territorial, abordar-se-á no item a seguir sobre algumas ferramentas do ordenamento territorial.