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4. A preocupação ambiental e os riscos nos planos de desenvolvimento do Recife

4.2. Plano Diretor de Desenvolvimento do Recife (1991)

Considera-se aqui o Plano Diretor de Desenvolvimento do Recife de 1991 como um ponto de partida da análise e o Plano Diretor de 2008 como ponto de chegada, analisando também em outros documentos seus pontos de destaque, sobretudo quanto à temática ambiental e dos riscos.

O poder público do Recife já em 1989 deu início à elaboração de um documento que tratava das preocupações relativas à matéria de Política Urbana, Plano de Desenvolvimento da Cidade do Recife e Sistema de Planejamento e de Informações da Cidade, cujo resultado pode ser visto na Lei n. 15.547/91 cuja

ementa estabelece as diretrizes gerais em matéria de política urbana por meio da instituição do Plano Diretor de Desenvolvimento da Cidade do Recife e criação do Sistema de Planejamento e de Informações da Cidade.

O documento6 apresenta dentre os objetivos da política urbana dois de interesse para o presente trabalho, quais sejam, (i) a proteção, valorização e uso adequado do meio ambiente, das amenidades e da paisagem urbana; e (ii) a articulação dos diversos agentes públicos e privados atuantes na cidade no processo de desenvolvimento urbano. Como funções sociais asseguradas aos citadinos o documento apresenta um total de treze estão listadas dentre elas a moradia, o saneamento e o patrimônio cultural e ambiental. Além disto, as diretrizes apresentadas contemplam aspectos no âmbito da dotação adequada de infraestrutura urbana em especial o saneamento básico; utilização, manutenção e recuperação de sistemas de infraestrutura; preservação, proteção e recuperação do meio ambiente, paisagem urbana e patrimônio histórico, dentre outros.

Dentre os nove princípios norteadores do Plano Diretor dois merecem destaque (i) o ambiente natural é o suporte para o processo de desenvolvimento da cidade, e (ii) é direito do citadino participar da gestão dos negócios de interesse público e acompanhar as suas realizações. Quanto aos padrões desejados de desenvolvimento o documento cita o periódico (anual) estabelecimento de metas como parâmetro para as ações dos diversos agentes urbanos.

A divisão territorial é proposta em Unidades Urbanas possuidoras de características de urbanização e padrões sócio-econômicos semelhantes, além de haver exigência de atualização/ revisão destas Unidades. Mais ainda, estas Unidades Urbanas deverão ser usadas como referência para a implantação dos sistemas de planejamento e informação.

O documento ainda comenta alguns aspectos para estabelecimento da Lei de Uso e Ocupação do Solo sendo aqui destacado o estabelecimento de índices urbanísticos de ocupação por Unidade Urbana considerando suas características geomorfológicas.

Dentro dos Programas de Urbanização é possível observar algumas indicações de intervenções nos ambientes considerados de risco, sendo que no

6 Neste tópico as palavras documento e Plano Diretor foram utilizadas indistintamente para se referir à publicação da Prefeitura do Recife (1991) ora analisada

Programa de Reestruturação e Renovação Urbana tem-se o Projeto de Urbanização dos morros visando assegurar a contenção de encostas nas áreas de riscos, controle de erosão, drenagem, segurança das habitações, sistema de transporte, saneamento básico e controle ambiental de acordo com as características do meio físico da área, já no Programa de Estruturação Urbana tem-se o Projeto de Estruturação e Consolidação Habitacional nas áreas de risco, incluindo contenção de encostas, controle de erosão e drenagem. Já no Programa de Dinamização Urbana os projetos organizam-se em três: Projeto de Faixa Litorânea, Projeto da Bacia do Rio Jordão e Pina, Projeto da Bacia do Rio Capibaribe e Projeto da Bacia de Apipucos.

Uma observação sobre o tópico de Transportes Urbanos é o enfoque que o documento apresenta no sistema rodoviário em detrimento de outros como o ferroviário e fluvial, e como as intervenções para sua implantação têm impactos significativos na dinâmica da paisagem urbana.

No capítulo do Meio Ambiente Urbano o documento reforça que as diretrizes a serem formuladas devem considerar os aspectos de preservação e recuperação num total de nove, resumidos a seguir:

A presença de água nas mais diversas formas (rios, canais, estuários, mar, lençóis sub-superficiais e aquíferos, umidade do ar e pluviosidade);

O relevo constituído pela planície circundada pelos morros agredidos por ocupação e desmatamento além de erosão e desmontes não controlados; Vegetação nativa, remanescente da Mata Atlântica em áreas públicas

constituindo elemento da composição da paisagem recifense;

Áreas estuarinas com remanescentes de manguezais propícias à reprodução da vida animal aquática;

Aterros de planície, áreas antes ocupadas pelas águas criando obstáculos ao seu escoamento;

Elevado grau de poluição de cursos d’água devido à carência de sistema de esgotos sanitários e limpeza urbana;

Sítios históricos e outros aglomerados constituintes de recantos de amenização para a vida na cidade;

Degradação do ambiente construído com má conservação de prédios e logradouros;

Exploração mineral não controlada deixando cicatrizes na paisagem citadina.

No âmbito das competências dos órgãos executivos uma merece destaque: a de gerar informações necessárias à comunicação ao público e produzir estudos técnicos sobre as condições de meio ambiente do município.

No capítulo de Serviços Urbanos cinco foram elencados (i) abastecimento d’água, (ii) esgotamento sanitário, (iii) drenagem pluvial, (iv) limpeza urbana e (v) financiamento dos serviços públicos. Cabe aqui um comentário sobre a drenagem pluvial que já neste documento aponta situações problemáticas como ocupações situadas às margens de canais e rios dificultando o escoamento das águas, crescente impermeabilização do solo, necessidade de remoção de algumas famílias porém condicionada à disponibilidade de novas unidades habitacionais, delimitação de áreas de risco para melhor propor ações nas mesmas, enfim problemas que se agravam com o crescimento desordenado.

O capítulo de Setores Sociais é composto por seis tópicos, a saber: Habitação, Educação, Saúde, Cultura e Lazer, Abastecimento e Defesa Civil da Cidade, para este último, três artigos discorrem sobre (i) a finalidade de coordenar as ações e atuar preventiva e imediatamente nos casos de ameaça às condições normais de funcionamento das atividades e vida na cidade, (ii) a sua constituição por órgãos municipais e entidades comunitárias, com participação das esferas estadual e federal, e (ii) os seus objetivos num total de três em seguida resumidos:

Prevenção dos efeitos das enchentes, deslizamentos de barreiras, desmoronamentos e situações de risco por meio do controle e fiscalização das causas;

Impedimento e fiscalização da ocupação de áreas de risco, faixas marginais de rios e canais, lagoas e encostas de morros;

Organização da comunidade para ação preventiva e imediata na defesa da cidade.

Finalmente o capítulo que trata dos Sistemas de Planejameto e de Informações descreve ambos os sistemas. O Sistema de Planejamento da Cidade do Recife tem por princípios a integração e coordenação do planejamento

articulando os diversos agentes sobre a cidade, inclusive todos os órgãos da Prefeitura e participação popular no acompanhamento e avaliação das ações planejadas. Já o Sistema de Informações para o Planejamento da Cidade constitui- se um instrumento de apoio operado pela Prefeitura tendo por princípios a disponibilidade das informações para o conhecimento e uso da sociedade recifense, integração com outros sistemas de informações (federais, estaduais, municipais e privados) tanto quanto possível e produção de informações reconhecidas como necessárias ao planejamento.

Constituem produtos do Sistema de Planejamento da Cidade do Recife os planos, programas, orçamentos, projetos e atividades que garantam a integração e coordenação das ações planejadas, dentre esses estão: (i) o Plano diretor de Desenvolvimento da Cidade do Recife, (ii) Planos Diretores Setoriais, (iii) Plano Plurianual Orçamentário, (iv) Orçamento anual, (v) Planos e Programas Setoriais e (vi) Programas Locais.

Constituem subsistemas do Sistema de Informações para o Planejamento da Cidade do Recife o Subsistema de Indicadores de Desenvolvimento (SIND), o Subsistema de Referências Documentais (SIRD) e o Subsistema de Acompanhamento das Expectativas da Sociedade (SIAC). O Sistema de Informações para o Planejamento deve dispor de informações geo-ambientais (solo, sub-solo, relevo, hidrografia, vegetação), cadastros urbanos (imobiliário, equipamentos urbanos, áreas vazias, sistema viário, transporte, infraestrutura de esgoto, água, energia elétrica, dentre outros), legislação urbanística, informações sócio-econômicas, e ações regionais, além disso deverá estar à disposição dos cidadãos e de qualquer entidade pública ou privada. De forma esquemática a Figura 23 ilustra os Sistemas de Planejamento e de Informações:

Sistema de Informações

Funções de apoio técnico a serem exercidas pelo Sistema de Planejamento Elaboração, atualização, controle, acom

panhamento e avaliação de Planos, Programas, Projetos e

Atividades

Articulação político-social, responsável pela facilitação da negociação entre a

Prefeitura e outros agentes do planejamento, públicos e privados

Orçamentação, responsável pela elaboração, controle, acompanhamento e

avaliação dos orçamentos plurianuais e anuais de forma integrada e consistente com

o planejamento substantivo Auto-desenvolvimento do planejamento, responsável pelo aperfeiçoamento, flexibilidade e adaptação

do sistema às mudanças requeridas pela sociedade e pela Prefeitura Sistema de Planejamento

Informações que devem ser disponibilizadas pelo Sistema de Informações Geo-

ambientais, compreendendo o solo, o sub-

solo, relevo, hidrografia e cobertura vegetal

Cadastros urbanos: Imobiliário, Viário, Infraestrutura

de Água, Esgoto, Energia Elétrica etc.

Legislações urbanísticas, Código de obras, Áreas especiais de

preservação, histórica e cultural

Sócio-econômicas principalmente demografia, emprego e renda e zoneamento fiscal

imobiliário

Operações de serviços públicos, em especial, transporte, saúde, educação, segurança, recre

ação e lazer

Plano de Ação Regional com os investimentos programados e executados

Figura 23: Sistemas de Planejamento e Informações propostos no documento.

Após esta releitura do documento e análise das informações nele contidas, destacam-se como pontos merecedores de registro para o presente trabalho, aqueles que se alinham ao arcabouço de análise adotado:

Avaliação Ambiental Estratégica Sistema de Informação Gerencial Riscos Diversas passagens do documento (objetivos, funções, diretrizes e princípios norteadores) reforçam a necessidade de considerar: o “ meio ambiente”, a “paisagem urbana”e o “ambiente natural” “[...] criação do Sistema de Planejamento e de Informações da Cidade” “Projeto de Urbanização dos morros visando assegurar a contenção de encostas nas áreas de riscos, controle de erosão, drenagem, segurança das habitações [...]”

“produzir estudos técnicos sobre as condições de meio ambiente do município”

“é direito do citadino participar da gestão dos negócios de interesse público e acompanhar as suas realizações”

“[...] planície circundada pelos morros agredidos por ocupação e

desmatamento além de erosão e desmontes não controlados”

“o ambiente natural é o suporte para o processo de desenvolvimento da cidade”

“gerar informações necessárias à

comunicação ao público”

“Aterros de planície áreas antes ocupadas pelas águas criando obstáculos ao seu escoamento”

“[...] estabelecimento de índices urbanísticos de ocupação por Unidade Urbana considerando suas características geomorfológicas” “[...] integração e coordenação do planejamento articulando os diversos agentes sobre a cidade, inclusive todos os órgãos da Prefeitura e participação popular no acompanhamento e avaliação das ações planejadas”

“Exploração mineral não controlada deixando cicatrizes na paisagem citadina”

“[...] Sistema de Informações para o Planejamento deve dispor de informações geo- ambientais, cadastros urbanos, legislação urbanística, informações sócio-econômicas, e ações regionais, além disso deverá estar à disposição dos cidadãos e de qualquer entidade pública ou privada”

“Objetivos da Defesa Civil: Prevenção dos efeitos das enchentes, deslizamentos de barreiras,

desmoronamentos e situações de risco por meio do controle e fiscalização das causas. Impedimento e

fiscalização da ocupação de áreas de risco, faixas marginais de rios e canais, lagoas e encostas de morros”