Esquema 4. Triangulação dos dados
3. O DITO, O PRESCRITO E O REALIZADO NO DESENVOLVIMENTO
3.2 Os dizeres dos professores nos planos de aula
3.2.2 Planos de aula de Margarida
Os planos de aula75 apresentados por MARGARIDA possuem uma estrutura diferente dos apresentados por JACINTO. Isso se dá, particularmente, pelo seu processo de construção textual coletiva, já que a responsabilidade enunciativa de produção do texto não está diretamente relacionada à professora, mas sim a um conjunto de coordenadores76 e professores do PROJOVEM. Esse processo de construção coletiva do plano se dá, muito mais, como forma de reduzir a possibilidade de divergência de conteúdos e métodos utilizados pelos professores do programa PROJOVEM. É válido destacar que, por diversas vezes na entrevista, MARGARIDA, a partir de vozes de personagem e de autor empírico, dividiu a responsabilidade enunciativa com outros sujeitos, no plano isto também ocorre quando este é apresentado como uma construção coletiva.
Desde já, deixamos claro que os planos referentes às três aulas gravadas nos foi apresentado em um único arquivo correspondendo a duas semanas de aula, elaborados em uma só oficina de planejamento.
75 Verificar em Anexo C
76 Em nossas anotações, estabelecidas a partir das conversas que tivemos com a professora Margarida,
pudemos notar que os coordenadores do programa PROJOVEM assumem a representação de principais agentes prescritores do plano. Já os professores, em segundo plano, são concebidos como uma ponte de aprendizagem, que devem seguir o que já foi previamente planejado.
Estruturalmente, MARGARIDA expõe os planos de aula divididos em três grandes grupos organizacionais: i) o primeiro grupo atende ao desenvolvimento do conhecimento sociossubjetivo dos alunos e se intitula Levantamento dos Elementos Subjetivos; ii) o segundo grupo corresponde ao desenvolvimento da aprendizagem dos conteúdos específicos da disciplina e é chamado de Planejamento Específico e; iii) o terceiro grupo integra as disciplinas, de Português à Matemática77, num trabalho de desenvolvimento das habilidades sociais e coletivas do aluno, este é chamado de Plano de Trabalho Integrado, e prioriza as atividades sociais, culturais e coletivas.
Como dito, o primeiro grupo de ações prescritas no plano de MARGARIDA corresponde a uma etapa de conhecimento sociossubjetivo. No que se refere à disciplina de Língua Portuguesa, temos a ênfase dada às seguintes temáticas:
Observamos que não há, nesta etapa, objetivos pré-fixados, mas sim apenas planos temáticos78 relacionados ao desenvolvimento da cidadania e da responsabilidade social, que devem ser trabalhados pela professora conforme suas escolhas e a sua subjetividade. Acreditamos que o uso dessas temáticas nas aulas possibilita certas vantagens no aprendizado do aluno, entre essas podemos destacar algumas já pontuadas por Gandin79 (2002, apud PEREIRA 2011, p. 24):
i) Possibilita o estudo de temas vitais, de interesse dos alunos e da comunidade;
ii) Abre perspectivas para a construção do conhecimento a partir de questões concretas;
77 No plano apresentado por Margarida há construções prescritivas para oito disciplinas, são elas:
Ciências Humanas, Língua Portuguesa, Língua Inglesa, Matemática, Ciências Naturais, Participação Cidadã, Qualificação Profissional e Informática, já deixamos evidenciado anteriormente que nossa análise será feita naquilo que corresponde à disciplina de Língua Portuguesa.
78
Lembremos que na entrevista, Margarida situa esses planos temáticos como ‘situações-problema’.
79 Utilizamos as contribuições de Gandin (2002) a respeito da pedagogia de projetos, e o adaptamos ao
iii) Ajuda o educando a desenvolver capacidades amplas, como a observação, a reflexão, a comparação, a solução de problemas, a criação;
iv) Cria um clima propício à comunicação, à cooperação, à solidariedade e à participação.
Por se tratar de um plano de aula integrado em três partes, acreditamos que tais temáticas apresentadas nesta primeira parte se unem mais à frente aos conteúdos programáticos da disciplina que aparecem no Planejamento Específico, tornando assim o ensino de língua contextualizado, conforme o paradigma de ensino Sociointeracionista, já identificado em vozes sociais expressas na entrevista.
Para tanto, temos o segundo grupo do plano de aula, subdividido em: i) Tópicos; ii) Conteúdos; iii) Objetivos; iv) Metodologia; v) Avaliação e; vi) Recursos. Para este grupo nos foram apresentadas duas seções de textos equivalentes ao que seria o trabalho docente conforme cada Tópico80, assim temos a primeira seção destinada aos Tópicos 3 e 4, e a segunda seção relacionada ao Tópico 8.
Na primeira seção, a professora prefigura uma aula sobre o Texto em Prosa, os Pronomes, as Preposições e o gênero textual Crônica; os objetivos pautados nesses conteúdos não explicitam, por meio das palavras utilizadas, quem seria o destinatário alcançável da ação, contudo, supomos que estejam direcionados ao aluno como Beneficiário, já que os verbos no infinitivo parecem direcionar a ação a outro sujeito sem ser o professor, posto aqui como mediador do conhecimento:
A partir de alguns enunciados que compõem os objetivos, a exemplo de Conhecer as ideias estabelecidas por meio do emprego de preposições, ou ainda Observar como os elementos utilizados para construir um texto contribuem para transmitir e enfatizar ideias, podemos reafirmar o uso do paradigma
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Os Tópicos fazem referência à divisão de conteúdos do Guia de Estudo utilizado pela professora nas aulas.
Sociointeracionista, já que nos parece que o ensino e estudo da gramática da Língua Portuguesa se dá de forma contextualizada, distante dos métodos de ensino que priorizam o estudo gramatical frasal, descontextualizado e abstrato.
Antecipando o que veremos nas aulas realizadas, e em concordância com o paradigma de ensino mencionado acima, temos MARGARIDA como uma professora mediadora de um ensino responsável pelo processo dinâmico da aula, e responsável pela articulação dos grupos expostos em seu plano de aula, como o Levantamento dos Elementos Subjetivos e o Planejamento Específico. Acreditamos que a articulação entre esses dois grupos está exposta na Metodologia, que segue abaixo:
Nesta primeira seção, MARGARIDA faz uso de etapas de ensino que privilegiam o estudo com os textos (orais e escritos) relacionados ao acesso da Tecnologia pelos jovens, podemos então dizer que temos, implicitamente, os planos temáticos mencionados anteriormente.
Em particular, podemos dizer que a Percepção da Realidade está ligada à primeira e a segunda etapa da Metodologia; a Coletividade aparece na terceira etapa, quando se enfatiza o uso de debates e discussões a respeito da Tecnologia.
Da mesma forma como apresentamos no plano de JACINTO, consideramos os recursos físicos utilizados pela professora (computador, internet, guia de estudo e data show) como fundamentais no processo de ensino adotado por ela, já que contribuem no desenvolvimento da aula. Além desses, acreditamos que mais itens, que não foram apresentados como recursos físicos, são tomados como instrumentos auxiliadores da aula, como o documentário, o vídeo e o texto em prosa, expostos na Metodologia.
Na segunda seção81, temos a prefiguração de uma aula destinada ao conteúdo: Sentidos Implícitos e Explícitos no texto Entrevista. Neste modelo, percebemos que, de
início, não há referência a conteúdos de análise linguística, e sim há apenas a exposição do estudo de um gênero textual, o que revela a preocupação da professora em privilegiar o ensino de língua a partir de textos, de gêneros:
Desde a primeira seção, é visível o uso dos textos no ensino de língua, na primeira tínhamos Crônica, aqui a Entrevista. Esse dado nos revela uma prática docente em concordância com as formulações dos PCN, já evidenciadas na entrevista de MARGARIDA, quando se fez emergir, a partir de vozes sociais, a utilização dos gêneros.
A ênfase dada ao ensino de língua pelo uso dos gêneros é ratificada nos Objetivos apresentados, que em sua maioria estão direcionados ao texto, expondo apenas uma formulação para a análise linguística, e mesmo esta nos parece está relacionada a um ensino epilinguístico82 de língua, vejamos:
Ainda de acordo com o que pontuamos acima, temos a Metodologia que, mesmo sucintamente, parece-nos ser encarregada de direcionar o possível ensino epilinguístico, o ensino da leitura e a interpretação textual, compondo desta forma uma aula de português que proporciona a aprendizagem do aluno no que tange à adequação e uso da linguagem em contextos específicos, tanto orais como escritos:
82 Podemos dizer que o ensino epilinguístico se dá através do uso de atividades epilinguísticas, estas,
conforme Pereira (2009b, p.240) “[…] suspendem o desenvolvimento do tópico discursivo (ou do tema ou do assunto), para, no curso da interação comunicativa, tratar dos próprios recursos linguísticos que estão sendo utilizados, ou de aspectos de interação”.
Por fim, temos, no plano apresentado por MARGARIDA, o terceiro grupo intitulado Plano de Trabalho Integrado, cujo nome nos remete a um trabalho interdisciplinar e integrador de disciplinas. Tal plano de trabalho se concentra em atividades culturais e sociais devidamente contextualizadas. Por exemplo, percebemos no excerto abaixo a temática junina, que se adéqua com o período em que recolhemos e gravamos as aulas, em que a comunidade se encontrava na organização dos festejos juninos. Observemos:
Desde já, observamos semelhanças nas atividades propostas com as que possivelmente poderiam ser exploradas em um projeto temático. As ações previstas nas atividades se articulam a vários níveis de organização estrutural de um projeto. Observemos, assim, as articulações que fizemos a partir do que pontua Pereira (2011, p.26):
i) A interdisciplinaridade Por se tratar de um tema cultural é possível entrelaçar todas as disciplinas na execução da ação, o que de fato é a função do Plano de Trabalho Integrado;
ii) A cooperação Nas atividades de ‘Confecção para ornamentação junina’ e de ‘Planejamento para as comemorações juninas do núcleo’ percebemos que cabe a cooperação de diversos participantes, desde os
professores e alunos, à parte administrativa e gestora da escola, como também comunidade extraescolar;
iii) Desenvolvimento de prática de letramento O próprio planejamento da comemoração junina, além do contato com textos informativos e a produção de um texto escrito correspondente à síntese integradora, contribui para o desenvolvimento de um letramento;
iv) Uso dos gêneros no contexto sociocomunicativo efetivo Diante de uma real execução de uma comemoração junina, todos os gêneros textuais trabalhados estão sendo efetivados comunicativamente.
Diante do exposto e das observações que fizemos a respeito de cada grupo que compõem os planos de aula apresentado por MARGARIDA, podemos concluir que: i) os conhecimentos formais continuam atrelados ao paradigma Sociointeracionista, como já tinham sido apresentados na entrevista; ii) a divisão da responsabilidade enunciativa e das ações se faz presente no plano no que se refere ao trabalho coletivo e ao trabalho interdisciplinar, além de sua própria formulação concebida em reuniões coletivas com as coordenadoras e professoras do PROJOVEM; iii) a subjetividade no plano de aula está limitada ao grupo de Levantamento dos Elementos Subjetivos.