• Nenhum resultado encontrado

2.1 A “FRUTA DE OURO” NO MAPA DO TURISMO

3.1.3 Plantando laranja, colhendo turismo?

O turismo é uma das pontes que ligam dois mundos comumente considerados apartados, mas que se encontram num “continumm”: o urbano e o rural. “As cidades transbordam e invadem o campo. As vias de comunicação entre a cidade e o campo se desenvolvem” (Krippendorf, 2000, p. 37). Como observa Canclini (1997, p.3):

Como explicar que muitas mudanças de pensamento e gostos da vida urbana coincidam com os do meio rural, se não por que as interações comerciais deste com as cidades e a recepção da mídia eletrônica nas casas rurais os conecta diretamente com as inovações modernas?

Krippendorf (2000) destaca que, periodicamente, ouvem-se os políticos afirmarem que apenas o turismo é capaz de salvar a população rural do seu isolamento, de associá-la ao progresso e de fazer com que a mesma usufrua de suas benesses. Ainda para o autor:

O turismo é muito associado a um outro objetivo político: ele deve contribuir para reconhecer o fosso econômico que separa as regiões urbanas industrializadas das

121

regiões rurais agrícolas. Ele é visto como uma tábua de salvação para muitas regiões ditas afastadas. O único meio de frear o êxodo rural é melhorar as condições de vida da população nos lugares onde a agricultura não garanta rendas suficientes, onde a indústria não se implante em razão de uma localização desfavorável e não haja nada mais a vender senão o sol, a paisagem, a neve ou o mar. Seria necessário “capitalizar” essas riquezas naturais (Krippendorf, 2000, p. 73).

Embora, atualmente, muitos estudos apontem que o turismo não pode ser visto como um elixir para curar todos os males socioeconômicos, até porque a atividade pode mesmo vir a aumentar as contradições, entende-se que ele pode significar uma opção, de acordo com o tipo de turismo que se quer desenvolver. Avançou-se muito no entendimento de algumas categorias antes amplamente associadas ao turismo, como o “progresso” e o “desenvolvimento econômico”. Indaga-se hoje: que progresso e que desenvolvimento? E para quem?

A interiorização territorial do fenômeno turístico, que, em alguns países, como no Brasil, iniciou-se pelo litoral, recebe diferentes denominações. Mas, independente da terminologia adotada, parte-se da constatação de que “o turismo pode ser um recurso para os espaços rurais, que procuram uma nova alternativa de desenvolvimento local e, ao mesmo tempo, uma oportunidade de valorizar o patrimônio, suas paisagens e sua cultura” (Ansarah, 1999, p.139).

Nesse mercado global, interligado, conectado, tudo ou quase tudo pode virar produto. Não somente coisas materiais, mas também o que repousa no campo do simbólico. Assim o turismo, enquanto atividade que se desenvolve sob a égide e os valores do capitalismo, faz nascer novos segmentos de mercado periodicamente, incorporando novidades voláteis. Uma delas é o denominado “agroturismo”, entendido como atração “às novas tecnologias de plantio e colheita e às novas formas de se trabalhar em fazendas”, onde a “principal renda da propriedade não advém do turismo, sendo este um complemento da renda ou usado apenas como estratégia de marketing de grandes produtores rurais” (Panosso Netto & Ansarah, 2009, p.27).

Tal segmento vem crescendo, impulsionado por uma espécie de nostalgia do homem urbano em relação à natureza ou ao imaginário dele sobre a natureza.

Na realidade, a vida tradicional no campo foi e ainda é muito árdua para quem tem de extrair da terra os produtos para sua sobrevivência. O lirismo que permeia o imaginário coletivo sobre a vida rural, em qualquer lugar do mundo, é produto do movimento romântico, surgido no seio das populações urbanas (Rodrigues, 2000, p.116).

122

Assim, quanto mais urbana a população se torna, mais “rural” fica seu imaginário em desfrutar o que perdeu ou imagina que perdeu.

Como explica Elesbão (2014, p.241), “O Brasil passou por um rápido processo de urbanização, havendo inversão na relação entre população rural e urbana entre os anos de 1960 e 1970”, com “uma redução na população rural a partir de 1970, sendo que, em 2010, havia apenas 15,6% de população rural ante os 84,4% de população urbana” (Elesbão, 2014, p.248). Mesmo assim, o autor coloca que houve um “significativo número de pessoas que fizeram o caminho da cidade, mas que ainda mantêm algum tipo de relação com o rural, o que alimenta, em parte, uma relação afetiva com esse espaço”. A seguir (Tabela 1), tem-se dados mais completos sobre o avanço do êxodo rural no Brasil até 2010.

Tabela 1 - População rural e urbana no Brasil de 1960-2010

Fonte: IBGE (2016), Censo Demográfico 1960, 1970, 1980, 1991, 2000 e 2010. Legenda: (1) População recenseada. (2)

Percebe-se que, na Paraíba, houve uma inversão da ocupação urbana-rural na década 1980, em que começou a prevalecer a população urbana. Daí em diante, esse número só cresce, e, em 2010, a diferença ultrapassou o dobro, com 2.838,678 de habitantes urbanos

versus 927.850 habitantes rurais. Ou seja, há menos de 40 anos, a Paraíba era um Estado

123

De acordo com o IBGE (2009), que passou a considerar, no censo agropecuário, as receitas obtidas nos estabelecimentos pelo turismo rural no ano de 2006, como atividade de turismo rural, temos:

O conjunto de atividades turísticas desenvolvidas no estabelecimento agropecuário comprometidas com a produção agropecuária, agregando valor a produtos e serviços, como hospedagem, alimentação (fornecimento de refeições prontas), recepção à visitação ao estabelecimento, recreação, entretenimento e atividades pedagógicas vinculadas ao contexto rural, etc. (Elesbão, 2014, pp.253-254).

Nessa reconfiguração do campo, que reaparece não só como espaço agrícola, mas também como lócus para outras multi ou pluriatividades, o turismo rural emerge como uma possibilidade para:

elevar a „qualidade de vida‟ da população rural, preenchendo o isolamento socioeconômico por estruturas de caráter humano, oportunizando prospecções culturais decorrentes do convívio com diferentes culturas e da possibilidade do alargamento das opções de trabalho (grifo nosso) (Sartor, 1981, citado por

Elesbão & Teixeira, 2011, p.274).

Elesbão e Teixeira (2011) chamam atenção para uma dimensão que não pode passar ao largo dessa discussão: a de que o turismo rural, para que tenha papel importante no desenvolvimento local, seja considerado “em sua totalidade, não apenas como simples fenômeno turístico, sendo necessário pensar a comunidade ou território a partir da diversidade ali presente” (Elesbão & Teixeira, 2011, p.275).

Sobre essa contaminação, própria de lugares tomados como sem fronteiras ou cercas em um contexto não só de interpenetração urbano-rural, mas de rural-global, Aliste (2014) percebe um momento profícuo para o meio rural. Para o autor, os habitantes rurais devem aproveitar as oportunidades ofertadas pelo novo contexto: globalização, tecnologias da informação e comunicação para, assim, “poner en marcha estratégias de desarrollo local que les puedan resultar beneficiosas en términos económicos y sobre todo sociales”. Aliste (2014) acredita que é possível falar ou mesmo desejar que haja, agora, uma revanche dos que historicamente têm sido os “perdedores do meio rural”, e elenca dez elementos que seriam protagonistas desta “nova paisagem social”. Destes, para efeito desse estudo, retiramos cinco. Quais sejam:

1) Cada vez es más visible la creciente diferenciación entre lo rural y lo agrário; 2) En los espacios rurales se desarrolan nuevos usos y nuevas funciones productivas y reproductivas; 3) La estructura social se hace más compleja y las relaciones entre sus distintos grupos se hacen más dinâmicas; 4) Surgen nuevos conflictos sociales y las viejas identidades locales se estarían resquebrajando; 5) La sociedad, rural sería, por tanto, mucho más frágil, pero también más compleja y heterogénea, los que produce

124

perplejidad, incertidumbre y desasosiego a muchos de sus moradores (Aliste, 2014, p.223).

Em suma, Aliste (2014, p. 224) conclui que esta nova paisagem social abrigará “nuevas y viejas políticas, nuevos y viejos actores, nuevas y viejas formas de relación social, nuevos movimientos sociales y grupos de interés compiten en la defensa y construcción de lo rural”. As questões ora assinaladas apontam para um cenário de conflito, onde as relações dialéticas entre atores revelarão novos arranjos.

Nesse sentido, há um processo de valorização do campo, principalmente pelos urbanos, que passam a enxergá-lo não mais como lugar de atraso (Elesbão & Teixeira, 2011, p.273). E essa percepção, reiteram estes autores, ocorre não devido a um olhar dos moradores sobre si mesmos, pois estes “não se reconhecem e não percebem o local onde vivem como capaz de atrair a atenção dos urbanos. É, segundo Figueiredo (1999), um duplo olhar externo, ou seja, o olhar dos urbanos e do Estado, que instituem o rural como área natural, um ambiente a ser preservado e como amenidade” (Elesbão & Teixeira, 2011, p.273). Portanto, o olhar do turista, como teorizou Urry76 (2001), pode ser um elemento de diferenciação, uma espécie de “espelho invertido” no qual nos enxergamos pelo olhar do outro.

Dentre estas oportunidades, o “turismo no espaço rural” (assim o trataremos) surge como um meio de dinamização não só da economia, mas das relações socioculturais que vão se estabelecer no campo, incorporando a atividade agrícola a outros meios de obtenção de renda e sociabilidade. Como explicita Schneider (2009, p.14):

(...) a pluriatividade é uma característica típica dos processos de desenvolvimento em que a integração dos agricultores familiares à divisão social do trabalho passa a ocorrer não mais exclusivamente através de sua inserção nos circuitos mercantis via processos de produção agropecuários ou mesmo pelas relações de trabalho (assalariamento) em atividades exclusivamente agrícolas. A pluriatividade tende a se desenvolver como uma característica ou uma estratégia de reprodução das famílias de agricultores que residem em áreas rurais situadas em contextos nos quais a sua articulação com o mercado se dá através de atividades não-agrícolas ou para- agrícolas. Objetivamente, a pluriatividade refere-se a um fenômeno que pressupõe a combinação de duas ou mais atividades, sendo uma delas a agricultura.

Almeida (2011) observa que, nos municípios que têm, em sua maioria, a agricultura em pequena escala como principal fonte econômica, gradualmente emergem a multifuncionalidade e a pluriatividade com a inserção de atividades não agrícolas para a agregação de renda e emprego e adoção de atividades remuneradas no meio rural e urbano.

76 É a presença de outros turistas (...) que é necessário para o sucesso de tais lugares, que

125

Segundo Ploeg (2008), a pluriatividade é uma forma de suplemento de renda que serve para obter fundos para investimento do camponês em compras, como combustível, sementes, fertilizantes ou mesmo alimentação para a família, que pode evitar a dependência de empréstimos bancários e de prestamistas.

No entanto, sobre essa agricultura de pequena escala, comumente denominada de agricultura familiar, recai o peso da agricultura de larga escala (ou agronegócio) voltada para o mercado externo, ocupando um lugar privilegiado no sistema capitalista, para efeitos econômicos. Tal estigmatização pode ser explicada no quadro de classificações norteadas pelo ideal de crescimento econômico, diferenciando, por vezes, negativamente, o campesinato ou agricultura familiar77 em relação ao agronegócio, como se vê neste Quadro 13, adaptado da teoria de Queiroz (2009):

Quadro 13 - Diferenciações atribuídas entre agronegócio e agricultura familiar

AGRONEGÓCIO AGRICULTURA FAMILIAR

Economia de Mercado Economia fechada

Moderno Arcaico

Exportação Subsistência

Monocultura Policultura

Latifúndio Pequenas propriedades rurais Obtenção de lucros O lucro não é objetivo primário

Produção Reprodução

Divisão do trabalho Falta de divisão do trabalho ou divisão irrelevante

Aglomerados Certo isolamento

Desenvolvimento econômico Diz-se incompatível com o desenvolvimento econômico

Fonte: Queiroz (2009). Adaptado pela autora, 2016.

Assim, propõe-se que a discussão teórica da pluriatividade não se faça de maneira desconectada do debate mais amplo sobre a persistência da forma familiar de produção dentro do capitalismo (Schneider, 2009, p.98), pois “o modo camponês de fazer agricultura não pode ser entendido isoladamente em relação ao contexto social em que emerge e dentro do qual é continuamente reproduzido”. O “conceito de „condição camponesa‟ refere-se, precisamente, a este eixo entre o campesinato e o contexto social” (Ploeg, 2008, p.52).

Assim, pode-se falar em “famílias como agentes econômicos do mundo rural” (Garcia Jr. & Hereida, 2009, p.222), em que o adjetivo familiar “não se caracteriza pelo vínculo do assalariamento, mas pela rede familiar que o econômico não explica, pois existe

77 Para efeito desse estudo, não se entrará no mérito das denominações que distinguem

“camponês” de “agricultor familiar” ou “campesinato” de “agricultura familiar”. Não negligenciando o fato de que o termo “camponês” carrega consigo o histórico de lutas camponesas para a emancipação e autonomia, prefere-se preservar os termos usados originalmente pelos autores citados e seus pontos de vista.

126 reprodução biológica, social, transmissão conhecimento e patrimônio” (Garcia Jr. & Hereida, 2009, p.216).

Uma questão premente nesta discussão é a posição que o camponês ocupa no sistema capitalista. Esse “lugar”, tão estudado e questionado, é quem revela o grau de complexidade de se entender o funcionamento de uma categoria que está, ao mesmo tempo, dentro e fora, presente e ausente, dificultando uma categorização estanque ou dada pelos termos do próprio capitalismo.

São os estudos de Chayanov, teórico russo, sobre a situação do camponês na Rússia, que influenciam uma série de estudos no mundo, e a sua “teoria dos sistemas econômicos não capitalistas”, de certa forma, é parâmetro para se estudar o campo, seja em que contexto e lugar for. Abramovay (2007) procura esclarecer mais essa questão:

O problema que preocupava Chayanov é hoje de grande atualidade nas ciências sociais como um todo: não se pode compreender o campesinato imputando-lhe categorias que não correspondem a suas formas de vida. Embora a unidade de produção camponesa lide com trabalho, bens de produção e terra, disso não decorre a presunção de que ela gera salário, lucro e renda da terra. (Abramovay, 2007, p.68)

Portanto, o camponês e sua forma de estar no mundo, resistindo e existindo, ultrapassa a lógica dos sistemas econômicos vigentes, que então só admitiam duas classificações inseridas na divisão do trabalho: ou burguês, ou proletário. E o camponês não é nenhuma coisa, nem outra78, tendo uma “existência social fugaz e inócua de certa maneira”, como coloca Abramovay (2007), para quem:

A relação do camponês com a sociedade, sob esse ângulo, o conduz fatalmente à autonegação: seu ser só pode ser entendido pela tragédia de seu devir. Sua definição é necessariamente negativa: ele é alguém que não vende força de trabalho, mas que não vive basicamente da exploração do trabalho alheio. Nesse plano, então, no mundo capitalista, o camponês pode ser no máximo um resquício, cuja integração à economia de mercado significará fatalmente sua extinção. (Abramovay, 2007, p.63)

O prognóstico da factível proletarização do camponês anunciava o seu fim. No entanto, o campesinato vai se definindo diferentemente em cada época, cada lugar, e o que

78 Abramovay (2007, p.46), em uma reflexão sobre essa questão, coloca: “mas da apropriação de

que parte do trabalho social vive o campesinato? Como definir economicamente a forma de rendimento que lhe corresponde? Se ao camponês for atribuído lucro, ele se torna um capitalista. Se receber um salário, vira operário. Se viver da renda da terra, é então um proprietário fundiário. A impossibilidade de definir claramente a natureza e a origem de seus rendimentos demonstra que o conceito de camponês em O Capital é logicamente impossível. A atividade produtiva que dá origem a sua reprodução não tem o estatuto de trabalho social, e é nesse sentido que o campesinato só pode se constituir naquele grupo de bárbaros de que falava Marx. As duas únicas classes que possuem a universalidade de incorporar nelas mesmas os elementos básicos de organização da sociabilidade contemporânea são a burguesia e o proletariado. Somente elas são, nesse sentido, classes e possuem a universalidade teórica de conceitos, de elementos que se ligam necessariamente ao conjunto do sistema teórico construído”.

127 preconizava Henri Mendras (1967) com “la fin des paysans79”, como citado por Abramovay (2007, p.46), não aconteceu, vide os processos de “campesinização, descampesinização e recampesinização”, nos quais o rural vai se estabelecer, entrar em crise e também se restabelecer, em ciclos ou “graus de campesinidade”, como teoriza Ploeg (2008). Essa “teimosia” dos camponeses em continuar existindo, como aponta Wanderley (2009, p.13), “quando se esperava que o capitalismo eliminasse esta „classe de bárbaros‟, levou os pesquisadores a se questionar sobre a natureza econômica e social do campesinato, tal como se reproduz nos diversos contextos atuais das sociedades modernas”.

Para Abramovay (2007), o comportamento camponês não se explica pela sua inserção e papel na divisão social do trabalho, mas, ao contrário, é pelo estudo de seu comportamento que se pode compreender a maneira como ele, “unidade subjetiva teleológica”, insere-se socialmente. E essa condição diferenciada do camponês faz Chayanov (citado por Abramovay, 2007, p.68) o pensar como um “sujeito criando sua própria existência”. De acordo com Ploeg (2008), as características fundamentais da condição camponesa são:

(1) a luta por autonomia que se realiza em (2) um contexto caracterizado por relações de dependência, marginalização e privações. Essa condição tem como objetivo e se concretiza em (3) a criação e desenvolvimento de uma base de recursos auto-controlada e auto-gerenciada, a qual por sua vez permite (4) formas de co- produção entre o homem e a natureza viva que (5) interagem com o mercado, (6) permitem a sobrevivência e perspectivas de futuro e (7) se realimentam na base de recursos e a fortalecem, melhorando o processo de co-produção80 e fomentando a autonomia e, dessa forma, (8) reduzem a dependência. Dependendo das particularidades da conjuntura socioeconômica dominante, a sobrevivência e o desenvolvimento de uma base de recursos própria poderão ser (9) fortalecidos através de outras atividades não agrícolas. Finalmente, existem (10) padrões de cooperação que regulam e fortalecem essas inter-relações. (Ploeg, 2008, p.40).

Ploeg (2008) discorre sobre os seis mecanismos de respostas camponesas a essa luta por se fazer notar diante de um império agrícola que tende a sufocar o pequeno agricultor. Dentre eles, destaca-se o que ele denomina “reavaliação da visibilidade”. O autor demonstra que, no Império, a produção é transferida para “não lugares”, sendo a origem dos alimentos escondida por uma fachada de imitações de produtos, e os produtores primários tornados anônimos e permutáveis. Ou seja, esses produtores não têm rosto: têm marca. São impessoais, cujas identidades e habilidades não interessam, portanto, não há possibilidade de se criar

79 Tradução: “o fim dos camponeses”. 80

“A co-produção, um dos elementos definidores do campesinato mais importantes, diz respeito à interação e transformação mútua constantes entre o homem e a natureza viva. A agricultura, a criação de animais e o turismo rural são expressões de co-produção” (Ploeg, 2008, pp.40-41).

128

empatia ou um envolvimento mais próximo com o produtor. No caso do pequeno produtor, sua produção tem origem conhecida, e uma das vantagens que pode obter é através da agricultura orgânica, característica da pequena produção. E, por mecanismos de reconhecimento, essa condição camponesa, secularmente rejeitada, busca meios para resistir e dar respostas a essa invisibilidade. Uma das formas de visibilidade camponesa é, obviamente, mediante a pluriatividade e, inserida nela, o turismo.

Woortmann (1990, p.11) coloca que a ética camponesa é constitutiva de uma ordem moral, e que esta é “uma forma de perceber as relações dos homens entre si e com as coisas, notadamente, a terra”, implicando o modo de construção do campesinato, deixando de dar peso maior ao centralismo econômico, mais comum nas análises e estudos sobre o campo. Assim, a terra não é tomada como objeto de trabalho, mas como “expressão de uma moralidade; não em sua exterioridade como fator de produção, mas como algo pensado e representado no contexto de valorações éticas”. É vista “não como natureza sobre a qual se faz o trabalho de um grupo doméstico, mas como patrimônio da família, sobre a qual se faz o trabalho que constrói a família enquanto valor. Como patrimônio, ou como dádiva de Deus, a terra não é simples coisa ou mercadoria” (Woortmann, 1990, p.12).

Retomando o conceito de desenvolvimento sustentável, ratifica-se que este “não se limita à renovação dos recursos naturais, mas também a capacidade de reprodução das sociedades humanas na sua identidade social e cultural” (Cohen & Duqué, 2001, p.287).

Para Mazoyer e Roudart (2010, p.43), “os projetos e as políticas de desenvolvimento agrícola devem, para serem legítimos, responder às necessidades das populações implicadas, estar certos de sua adesão e suscitar sua participação, sem o que as intervenções não serão eficientes”.

Para Alexander Chayanov e Jerzy Tepicht, o “campesinato existe por responder a uma necessidade social, e por ser “no interior mesmo do organismo camponês […] que serão aqui procurados os elementos que fazem dessa forma social o mais velho e mais universal modo de produção conhecido na história” (citado por Abramovay, 2007, p.63). Modo este, que ainda existe por resistir. E, apesar da alcunha de tradicional e atrasado, consegue se reinventar, mesmo que seja somente pra permanecer.

E é por meio de uma festa popular em um pequeno município do interior da Paraíba que, transversalmente, iremos apresentar e analisar questões sobre o meio rural e sua possível inserção em uma atividade socioeconômica: o turismo.

129