O termo manejo integrado de pragas (MIP) surgiu na década de 50 e consiste no uso de diversas táticas de controle de pragas, visando aspectos econômicos e poupando o meio ambiente de impactos negativos. O uso de plantas geneticamente modificadas dentro da filosofia de MIP pode implicar em grandes benefícios para o controle de pragas e a preservação do meio ambiente.
Dentre as estratégias que compõem o manejo integrado de pragas, a resistência de plantas a insetos tem sido largamente utilizada, representando um campo muito promissor (Wiseman, 1994). A resistência de plantas oferece vantagens óbvias em relação ao controle químico, uma vez que fornece proteção durante todo o ciclo da
cultura; insetos são sempre tratados no estágio mais sensível; a proteção é independente do tempo; não envolve custos de aplicação; protege tecidos da planta que são difíceis de serem atingidos com inseticidas; somente insetos que se alimentam da cultura são expostos; o material é confinado aos tecidos da planta que o expressam e, portanto, não é levado ao ambiente (Gatehouse, 1991).
A possibilidade da utilização conjunta do controle biológico e da resistência de plantas através das plantas geneticamente modificadas tem assumido grande importância nas últimas décadas, pois além da possibilidade de maior eficiência do controle biológico nas variedades resistentes, os inimigos naturais podem retardar o processo de adaptação da praga às plantas transgênicas (Arpaia et al., 1997). No entanto, nem sempre esta associação resulta em interações positivas. Esta variação se deve ao fato de que além dos efeitos provocados por esses dois métodos de controle, existem também as interações tritróficas envolvendo a planta, a praga e o inimigo natural.
Outro aspecto a ser considerado é que o uso de plantas transgênicas acarretará na diminuição do uso de inseticidas, principalmente, os de largo espectro, o que favorecerá a manutenção de populações de inimigos naturais bem como sua atuação no controle de pragas (ILSI, 1999). Portanto, as plantas transgênicas não são uma substituição aos inseticidas, mas sim uma nova abordagem dentro do contexto de MIP, inicialmente por eliminar ou reduzir drasticamente o uso de inseticidas não seletivos, favorecendo a aliança com o controle biológico e por reduzir o risco de resistência de insetos aos produtos químicos (Roush, 1997).
Por exemplo, o milho doce transgênico tem sido avaliado para o controle de H. zea e S. frugiperda. Observou-se um dano na espiga para o milho transgênico de aproximadamente 7,9 cm2 quando não se utilizou inseticida e de 1,7 cm2 quando foram feitas cinco aplicações de inseticida. Já para o milho não transgênico observaram-se danos de 323 cm2 e 172 cm2, respectivamente (Lynch et al., 1999b). Portanto, o milho
doce transgênico é uma excelente oportunidade para se obter uma produção ambientalmente mais compatível e um candidato ideal nos programas de MIP, pois seu uso poderia reduzir drasticamente a quantidade de inseticidas para o controle de H. zea e
S. frugiperda, além de produzir espigas com menor dano (Burkness et al., 2001; Lynch et al., 1999a; Lynch et al., 1999b).
Nas condições brasileiras, S. frugiperda é considerada a principal praga da cultura, mas sua importância bem como seus danos podem variar de acordo com as condições geográficas e climáticas de cada região. Estas diferenças podem ser devido à presença de hospedeiros que servem como refúgio, bem como seu tamanho e arranjo; presença de inimigos naturais; diferentes biótipos da praga; presença de outras culturas hospedeiras; número de safras da cultura por ano em cada região; além de outros fatores. Freqüentemente, quando o nível de infestação de pragas é alto na cultura do milho, o controle tem sido difícil com o uso de inseticidas convencionais, principalmente, devido à dificuldade de se atingir o alvo.
A resistência de S. frugiperda a inseticidas foi relatada inicialmente por Young & McMillian (1979) e vários estudos têm apontado sérios problemas de resistência de S.
frugiperda a inseticidas convencionais (Carpenter & Young, 1991; Diez-Rodriguez &
Omoto, 2001; Luque et al., 1987; Pitre, 1988; Yu, 1983; 1992; Yu & Nguyen, 1994), principalmente em regiões do Brasil onde se cultiva o milho durante o ano todo. Como conseqüências têm-se observado aumento de doses e pulverizações mais freqüentes de pesticidas, o que tem comprometido os programas de MIP devido ao aumento no custo de produção, maior destruição de inimigos naturais e maior impacto de inseticidas no meio ambiente. Assim, a introdução de uma tática adicional de controle, ou seja, o uso de plantas transgênicas, pode reduzir a pressão de seleção com inseticidas e possibilitar um controle mais ecológico das pragas da cultura do milho.
Amostragens têm mostrado que as plantas geneticamente modificadas controlam as pragas-alvo sem aplicação de inseticidas, o que preserva os agentes de controle biológico que por sua vez controlam as pragas secundárias. No entanto, a diversidade de artrópodes pode aumentar em culturas transgênicas e, portanto, a melhor estratégia seria utilizar as plantas transgênicas como um componente dentro de um programa efetivo de MIP (Hoy et al., 1998).
Além disso, como parte da introdução comercial de plantas transgênicas resistentes a insetos, é necessário o desenvolvimento de estratégias apropriadas para
prevenir ou retardar o desenvolvimento da resistência. Entre as várias estratégias destacam-se: utilização de novas enzimas de restrição; expressão de alta dose; refúgio para os insetos suscetíveis e monitoramento dos insetos resistentes. Com o trabalho de monitoramento da suscetibilidade de pragas é possível avaliar se o programa implementado está sendo efetivo ou não. Os programas de manejo da resistência são mais efetivos quando implementados de modo preventivo, ou seja, no início da evolução da resistência. Infelizmente, a maioria das pesquisas nesta área é iniciada somente após a constatação de falhas no controle de uma praga com o uso de um determinado agente de controle (Georghiou, 1983; Roush & Daly, 1990).
No caso do milho geneticamente modificado que vem sendo pesquisado no Brasil, as plantas expressam uma única proteína de Bt e a grande maioria expressa as proteínas Cry de Bt, as quais são estruturalmente e funcionalmente muito semelhantes, por exemplo, Cry1Ab e Cry1Ac. No entanto, as empresas já vêm buscando novas alternativas como o desenvolvimento de plantas com múltiplas proteínas de Bt e também, plantas que expressam a proteína Cry9C, ou seja, toxinas com mecanismos de ação distintos.
A utilização das plantas transgênicas é uma importante ferramenta e uma tecnologia que romperá muitas barreiras e trará importantes benefícios, mas somente o seu uso consciente permitirá isso. Além disso, deve ser considerada como mais uma tática dentro do contexto de MIP, e não como uma tática única de controle, pois senão rapidamente pode-se perder esta valiosa tecnologia. Pois, assim como para os produtos químicos, a resistência de pragas às proteínas expressas pelas plantas transgênicas pode comprometer a eficácia desta nova tecnologia.