1.3 ESCOLAS E FILOSOFIAS HELÊNICAS
1.3.3 Platônicos
78REALE, G. História da filosofia: Filosofia pagã antiga, v.1 p. 295.
O platonismo designa uma corrente filosófica baseada nas ideias do matemático grego, chamado Platão, que foi discípulo de Sócrates.
Reserva-se a Platão, o socrático por excelência, e aos seus discípulos,**** o nome de socráticos maiores. Platão (427-347), que pelo lado paterno era de raça real e pelo materno descendente de Solon, querendo fazer obra de rei no domínio da inteligência, esforça-se por reunir na poderosa unidade de um sistema original todos os pensamentos que os filósofos gregos, seus antecessores, dispersaram. Com Platão a filosofia torna-se senhora de si mesma.80
latão nasceu em Atenas, provavelmente em 427 a. C. e morreu em 347/8 a. C.81 Ele foi o primeiro discípulo do heraclitiano Crático e depois de Sócrates.82
Seu verdadeiro nome era Aristocles. Platão é apelido que derivou, como referem alguns, de seu vigor físico ou, como contam outros, da amplitude de seu estilo ou ainda da extensão de sua fronte (em grego, platos significa precisamente "amplitude", "largueza", "extensão). Seu pai contava orgulhosamente com o rei Codro entre seus antepassados, ao passo que sua mãe se orgulhava do parentesco com Sólon. Assim, é natural que, desde a juventude, Platão já visse na vida política seu próprio ideal: nascimento, inteligência, aptidões pessoais, tudo o levava para essa direção. Esse é um dado biográfico absolutamente essencial, que incidiria pro- fundamente na própria substância de seu pensamento.83
A influência do legado platônico na cultura ocidental é tão grande e estende- se a tantos campos que é muito difícil ter uma noção exata da sua profundidade e extensão. Um dos textos platônicos mais lidos, não só nos meios acadêmicos mais ligados aos estudos clássicos e à filosofia, mas também por um vasto público, é a República.
Platão travou seu primeiro contato direto com a vida política em 404/403 a.C.84 Na sua obra “Fédon”, Platão apresenta um argumento interessante e
fundamental no que diz respeito à sua teoria das Ideias. É a chamada Teoria da
80MARITAIN, J. Introdução geral à filosofia, p. 45.
81 Cf. MAZZAROLO, I. O apóstolo Paulo: o grego, o judeu e o cristão, p. 57. 82 Cf. REALE, G. História da filosofia: Filosofia pagã antiga, p. 131.
83REALE, G. História da filosofia: Filosofia pagã antiga, p. 132. 84 Cf. REALE, G. História da filosofia: Filosofia pagã antiga, p. 132.
Reminiscência, que diz que todo o nosso conhecimento não é resultado de um processo de construção, mas sim, de uma recordação de algo já visto anteriormente. A alma humana, antes de encarnar em um corpo, habita o Mundo Inteligível e contempla todas as ideias que nele existem.
Platão afirmou que o elemento racional da alma humana era imortal. Embora essa razão fosse concedida pelo Deus que formava o universo (o demiurgo), a formação do resto da pessoa humana era confiada a deuses menores que eram eles próprios criações do demiurgo (Platão, Tim. 40a, 41a-43a). Esses deuses menores também contribuíam com as partes mortais da alma — as “paixões irracionais” e os apetites. No século I d.C., até o demiurgo era considerado um deus menor, o que tomava a divindade suprema muito afastada do mundo material.85
Ao se tornar discípulo de Sócrates, Platão começa a questionar a formação aristocrática que recebeu e os modos de vida aos quais se encontrava submetido. Com essa atitude, ele problematiza os princípios em que se assentava a política de seu tempo, tornando-se crítico da mesma. Entre os vários escritos, dos quais chegaram até nós em sua totalidade, que Reale nos apresenta como trinta e seis trabalhos subdivididos em nove tetralogias:
I: Eutifron, Apologia de Sócrates, Críton, Fédon; II: Crátilo, Teeteto, Sofista, Politico;
III: Parmênides, Filebo, Banquete, Fedro; IV: Alcibiades I, Alcibiades II, Hiparco, Amantes; V: Teages, Cármides, Laques, Lísis;
VI: Eutidemo, Protágoras, Górgias, Mênon; VII: Hípias menor, Hipias maior, Íon, Menexeno; VIII: Clitofon, República, Timeu, Critias;
IX: Mino, Leis, Epinomis, Cartas.86
Um dos mais importantes dos seus escritos, foi a Republica pertence à fase central da sua produção onde é precedida pelo Fédon e pelo Banquete. 87 O mundo
que Platão contempla é não apenas simbolicamente, mas realmente, em sua mesma complexa realidade de coisa material com forma, um mundo em que o bem se
85 HAWTHORNE, F.; MARTIN, P.; REID, G. Dicionário de Paulo e suas cartas, p. 565. 86REALE, G. História da filosofia: Filosofia pagã antiga, p. 134.
manifesta informando tudo, desde a mais ínfima sombra, que só existe porque é sombra de uma luz, à mais elevada ideia, paradigma metafísico de possibilidade de toda a física, de toda a natureza.
Sua antevisão de um mundo perfeito, ideal, sem sofrimentos é uma profecia para acreditar no céu. A diferença entre a visão de universo e ao mesmo tempo de paraíso ou céu e a do cristianismo é que para este o universo conflitivo e em movimento, contrariamente a uma teoria de universo mais estático, como foi preconizada por Sócrates, primeiramente, e, de igual modo, depois, por Platão.88
Platão recebe e critica nos diálogos ambas as vertentes da influência de Parmênides, estendendo a argumentação eleática a toda a filosofia. Ao citar, copiar, imitar, comentar e criticar o filósofo de Eleia, usa os argumentos deste para estruturar as sucessivas versões com que o problema das relações entre ser e saber vai sendo exposto nos diálogos.
O universo do platonismo médio era povoado por inúmeros seres intermediários que atuavam como servos do Deus supremo, operavam também em oráculos e assistiam a sacrifícios e celebrações de mistério (Plutarco, Def. Orac. 416d-417b; Fac. Lun. 944c-d). A elevação da pessoa em direção à divindade, com o fim de libertar a alma de seu ciclo de reencarnação e ligação a um corpo, era feita por meio da procura da filosofia (Platão, Tim. 90b-c; cf. Plutarco, Fac. Lun. 943d; Gen. Soer. 593d-594a). A razão divina, do mesmo modo que foi implantada nos seres humanos, também foi posta em tipos diferentes de “corpos” que se tomaram estrelas ou semideuses. Assim, na tradição platônica já temos uma base para desenvolvimentos na religião astral mais tardia e no gnosticismo.89
Segundo Platão, o Demiurgo criou este mundo por amor ao bem e por bondade, portanto o mundo não pode ser corrompido, pois não há traço de corrupção em sua formação. Entretanto, o mal vem da irredutibilidade do caótico, ou seja, da matéria sensível ao inteligível (do irracional ao racional). Portanto, o mundo sensível, é uma espécie de imitação do inteligível, tal qual uma pintura de uma árvore é uma imitação da árvore verdadeira. O filósofo Platão foi o primeiro a trazer o conceito de
88 MAZZAROLO, I. O apóstolo Paulo: o grego, o judeu e o cristão, p. 57.
Bem ao ponto de vista ontológico, identificando-o com o principio primeiro e supremo do Uno, do qual depende toda a realidade, desta forma, o Bem se identifica com a imitação do divino, onde o Bem metafísico consiste na alma ordenada e plasmada segundo a ordem do mundo ideal.90