Nesta categoria estão contidas as pesquisas que abordam a capoeira de forma diversificada e que atribuem a esta prática uma capacidade formativa plural ou interdisciplinar. Para esta categoria, assim como no tópico sobre formação humanista, foram identificados seis trabalhos.
O primeiro deles trata-se da dissertação de mestrado defendida em 2005 no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), produzida por Gilbert de Oliveira Santos e que teve como título, Da capoeira e a Educação Física. Neste trabalho, o autor parte especialmente da vivência como praticante da arte, da experiência como professor de Educação Física, das palavras de alguns Mestres, das músicas
38 de capoeira, e de outros elementos, tais como imagens de pinturas, gravuras, fotografias e da bibliografia. Então, ele elabora em figuras e em linguagem escrita alguns sentidos/significados da capoeira e da Educação Física.
Porém, ao falar a respeito do valor da capoeira no que tange sua utilização no âmbito escolar, Gilbert Santos nos apresenta que o viés de sua utilização não deve ser apenas o da Educação Física, mas sim, que as potencialidades que esta manifestação possui devem ser abrangidas em outras discussões e outros espaços. O que pode ser visualizado nesta citação que segue:
Então, a Capoeira é uma prática social para além da Educação Física. É importante respeitar seu estatuto e atributos específicos. Há muitas maneiras de lidar e pensar o corpo, a Educação Física é uma área que estuda essas maneiras, mas não lhe é direito o monopólio dos saberes e das práticas corporais... (p. 89).
Para Gilbert Santos, essa pluralidade se faz necessária porque se é papel da escola sistematizar o que deve ser ensinado de acordo com o que está posto no Projeto Político Pedagógico de cada instituição, a capoeira da escola deverá necessariamente abdicar de incorporar algumas das características de sua prática para “pedagogizar” o que de fato se ajusta ao projeto. Pois, nas palavras dele, “nem tudo da Capoeira acomoda-se ao ambiente escolar...” (SANTOS, 2005, p. 88).
O segundo trabalho se refere à tese de doutoramento defendida no ano de 2006 por Amélia Vitória de Souza Conrado intitulada, Capoeira Angola e Dança Afro: contribuições para uma política de educação multicultural na Bahia. É um trabalho vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal da Bahia. A tese tem por objetivo realizar um estudo da Capoeira Angola e da Dança Afro, suas ações pedagógicas como meio de educação, profissionalização e formação.
Diferente do trabalho de Gilbert Santos, Amélia Conrado não trata apenas e especificamente da capoeira dita escolar, mas em como esta prática que se encontra presente em diversos ambientes e instituições – incluindo a escola – contribui para uma educação multicultural e de diferentes extensões, incluindo as de caráter humanista.
De acordo com Amélia Conrado, a relevância da capoeira está
na valorização de saberes e conhecimentos oriundos da matriz cultural africana no Brasil que precisa ser evidenciada junto a outras, compartilhada, afirmada de forma positiva nos diferentes espaços educacionais pela sua importância, pelo que oferece no nível de seus
39 códigos de linguagem, de conteúdo filosófico, técnico, humanista (CONRADO, 2006, p. 38).
Para ela, essas expressões afro-brasileiras se configuram na condição de importantes instrumentos pedagógicos devido ao fato de trazerem nos seus mais variados princípios, sejam eles históricos, filosóficos, étnicos, técnicos, criativos e educacionais, possíveis formas de colaborar na construção de uma consciência crítica de sujeitos sociais mais participativos (CONRADO, 2006).
O terceiro deles diz respeito à tese de doutorado de Paula Cristina da Costa Silva intitulada O ensino-aprendizado da capoeira nas aulas de educação física escolar. Defendida em 2009, este trabalho foi desenvolvido junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação, na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). O objetivo de Paula Silva foi discutir possibilidades de ensino-aprendizado da Capoeira na Educação Física escolar.
Paula Silva compreende a capoeira como uma linguagem na qual sua gestualidade, sua musicalidade, seus aspectos históricos e sua ritualidade compõem um acervo a ser apropriado pelos alunos de modo que eles possam compreendê-la e praticá-la. Por isso, seu trabalho encontra-se localizado na categoria que diz respeito à pluralidade de valores e potencialidades (SILVA, 2009).
Mesmo tendo espaço central de discussão a disciplina de Educação Física, Paula Silva não atribui a esta disciplina o monopólio do estudo sobre a capoeira, ao contrário, ela chama a atenção sobre a possibilidade desta manifestação ser objeto de estudo de outras disciplinas que compõem o currículo escolar. Nas palavras dela é importante enfatizar que a Educação Física
não deve ser o único componente curricular a estudar a Capoeira. Penso que a educação física tem muito a contribuir com o ensino-aprendizado da Capoeira na escola, mas essa manifestação cultural tem em seu cerne uma ampliada gama de temas que podem ser estudados nas aulas de arte, história, literatura, geografia, entre outros componentes curriculares (SILVA, 2009, p. 210).
No ano de 2013, Giuliano Pablo Almeida Mendonça defendeu sua dissertação de mestrado intitulada Capoeira na escola: análise e reflexões acerca de sua legitimação nas aulas de Educação Física das Escolas Estaduais da DIREC 13 – Jequié-Bahia. Trata-se de um trabalho desenvolvido junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação Física da Universidade São Judas Tadeu, em São Paulo.
40 Este é um estudo bem delimitado e específico, seu objetivo geral é o de investigar se a capoeira está sendo abordada nas aulas de Educação Física na região da DIREC 13 no estado da Bahia, notadamente em Jequié, e caso não esteja, é intensão de Giuliano Mendonça compreender e analisar os motivos pelos quais isso ocorre, tendo como material de análise o discurso dos professores.
O diálogo com a proposta de Gilbert Santos se faz presente porque, para ambos, a capoeira é analisada exclusivamente em sua relação com a educação, tendo como viés para isso a disciplina de Educação Física. Nos dois casos, tanto em Mendonça quanto em Santos, é perceptível que mesmo esta disciplina tendo um lugar de destaque, o valor que a capoeira carrega ultrapassa as delimitações impostas pela Educação Física. Ou seja, é atribuída a esta prática uma pluralidade de valores e competências.
Nas palavras de Giuliano Mendonça,
a Capoeira pode e deve ser inserida nas aulas de Educação Física escolar, mas não a consideramos apenas como uma luta. Claro que entendemos que ela possui essa característica também, porém, defendemos que ela tem uma riqueza de características que vão além dessa nomenclatura. Se fôssemos indagados em que classificação a colocaríamos, destacaríamos de uma forma em que pudesse ser contemplada em todas as divisões de blocos de conteúdos existentes na Escola. Ela é um conteúdo interdisciplinar, que possui diálogo e possibilidades de estudo, vivência e intervenção, não somente dentro da área Educação Física (dança, jogo, luta, esporte), como também em outras disciplinas escolares (como a Geografia, História, Artes, Ética, dentre outras) (MENDONÇA, 2013, p. 84-85).
Mendonça ainda vai mais além quando se refere a multiplicidade de possibilidades em outras disciplinas ao tratar da capoeira. Para ele, a capoeira possui a capacidade de nos guiar para um novo entendimento do que é o conteúdo escolar, que não se encontra “departamentalizado” dentro de um bloco de conteúdo ou área, mas sim, que a capoeira em sua gênese e desenvolvimento histórico, conserva uma série de argumentos que a impossibilita de ser categorizada (MENDONÇA, 2013).
O quinto trabalho é de autoria de Vitor Andrade Barcellos, Currículo e Capoeira: negociando sentidos de “cultura negra” na escola. Defendido em 2013, a dissertação foi desenvolvida junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Vitor Barcellos buscou neste trabalho discutir a presença da capoeira na escola não apenas enquanto espaço físico – como outros que podem sediar os treinos/aulas e as rodas (associações de moradores, academias esportivas, clubes etc.). O cerne da questão para ele era também os caminhos pelos quais uma determinada política pública, no caso, o
41 Programa Mais Educação, pudesse fomentar diálogos de saberes no currículo e incitar deslocamentos de sentidos de conhecimento escolar.
Vitor Barcellos aponta que quando a capoeira é incluída em feiras interdisciplinares ou culturais por exemplo, o sentido que na maioria das vezes lhe é atribuído é meramente o lúdico, assumindo caracterizações denominadas por ele de “folclóricas” e da perspectiva do espetáculo. Ou seja, como se fosse uma prática “exótica” ou “estranha” aos objetivos educativos (BARCELLOS, 2013).
Seguindo a mesma linha que os autores anteriores, Barcellos defende que a capoeira possui uma multiplicidade de valores e competências que são inerentes ao currículo da escola. Nas palavras dele, a capoeira é uma prática
extremamente rica para o ensino nas escolas, por seus diferentes “lados”: corporal, musical, cultural, identitário. Se por um lado, nas escolas particulares – onde haveria uma “maioria de crianças brancas” – ela pode ajudar a entender e valorizar a “cultura negra” na formação do Brasil, por outro, nas escolas públicas – onde haveria uma “maioria de crianças negras” – ela seria importante para fortalecer processos de identificação dos “negros”. “Identidade negra” é visto, assim, como algo específico, que não é subsumido na “identidade nacional”, exigindo um trabalho específico e um contato com processos de identificação trazidos pela Capoeira (BARCELLOS, 2013, p. 156-157).
Então, a capoeira seria este conteúdo chave capaz de promover uma interação entre as discussões relacionadas ao processo de fortalecimento da identidade dos alunos que compõem a escola, tanto das escolas públicas quanto das particulares, que é de fato o que consta na Lei de nº 10.639/03 – ratificada em 2008 através da 11.645/08, já que determina a obrigatoriedade do estudo da cultura e história afro-brasileira em todas instituições de ensino do país.
O que vai no sentido contrário do quadro diagnosticado por ele, já que apesar da capoeirapoder ser significada de diferentes maneiras, o que prevaleceu foi “um sentido de Capoeira como ‘valores’ e linguagem corporal, dissociada do conhecimento escolar” (BARCELLOS, 2013, p. 176). Ou seja, o diálogo com o conhecimento escolar não está acontecendo de forma propriamente dita.
O último trabalho inserido nesta categoria diz respeito a tese de doutoramento de Neuber Leite Costa intitulada Capoeira, política cultural e educação, desenvolvida junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), também no ano de 2013. O intuito de Neuber Costa não foi discutir e refletir sobre a capoeira dita escolar, mas sim compreender as consequências das políticas culturais da capoeira, em
42 especial os projetos Cultura Viva e Capoeira Viva, para suas comunidades, principalmente no que diz respeito a sua formação. Ou seja, a discussão e resposta a nossa problemática é conduzida neste trabalho de forma transversal, porém, de maneira bastante clara.
Ao tratar sobre o Cultura Viva31 – programa cujo objetivo foi estimular a produção cultural do país em todo o território brasileiro a partir de uma perspectiva pioneira pelo Ministério da Cultura, no caso, com contornos voltados para um perfil de origem tradicional e popular –, Neuber Costa aponta que o mais significativo neste programa é o estímulo para que “os próprios geradores da cultura assumam esse papel ativo, apoiados pelo Estado, nos locais onde realmente a cultura acontece e é perpetuada” (COSTA, 2013, p. 94).
É a partir dessa discussão que a escola aparece em destaque, já que se trata de uma instituição responsável por buscar uma democratização e produção dessa cultura. E a capoeira, segundo Neuber Leite é uma importante ferramenta que pode ser utilizada nos currículos escolares, nos mais diversos componentes (COSTA, 2013).
Nas palavras dele,
Oralidade, circularidade, tradição, memória, ritualidade, historicidade, corporeidade, identidade e singularidade são aspectos que se traduzem como essenciais e pertencentes historicamente ao universo de ensino- aprendizagem dessa manifestação cultural (COSTA, 2013, p. 192).
Neste sentido, em Neuber Costa a capoeira é trazida como manifestação da nossa cultura e instrumento que deve ser utilizado na educação por apresentar essa multiplicidade de elementos e ainda por possuir a capacidade de nos conscientizar sobre quem nós fomos para entendermos quem somos.
Por fim, escolhemos locar a tese de Amélia Conrado e a dissertação de Giuliano Mendonça na categoria voltada para a pluralidade de valores e potencialidades porque este quesito é de fato o que mais predomina ao longo dos dois trabalhos. Entretanto, seria injusto de nossa parte não apontar que a formação humanista, principalmente, na parte final da tese e da dissertação, ganha um espaço de destaque bastante visível.
Para Amélia Conrado, a capoeira é uma prática privilegiada porque carrega uma pluralidade de convivência, em que pessoas de diferentes idades, nacionalidade, sexo, etnia, níveis culturais interagem. Isso faz com que seja fundamental, através dessa vivência, o
31 O Programa Nacional de Cultura, Educação e Cidadania – Cultura Viva foi criado pela Portaria nº 156, de 06 de julho de 2004, do Ministério da Cultura, publicada no Diário Oficial da União em 7 de julho de 2004. Este programa constituiu em uma das ações mais importantes da gestão de Gilberto Gil, que havia assumido a pasta do MinC em 2003.
43 exercício do respeito entre as diferentes culturas, das relações pessoais em equilíbrio de força, do lugar de cada um, fazendo com que se sejam aproveitadas e criadas diversas oportunidades de destacar questões desta natureza, contribuindo assim para uma mudança de postura e educação que poderá se expandir para outros espaços (CONRADO, 2006).
Guiliano Mendonça acredita que o professor, munido de uma boa leitura acerca da capoeira, com habilidade e criatividade, consegue fazer com que seja dissociada essa imagem, afinal, que a capoeira se transfigure não apenas como um jogo, luta ou dança. Mas também, de entender a capoeira como uma abertura para que sejam discutidas questões como preconceitos, sejam eles discriminatórios com relação a raça, a religião, etc. uma vez que ela dispõe de uma abertura de discussões extremamente abrangente para o cotidiano, para o que a sociedade vivencia em seu dia-dia (MENDONÇA, 2013).