OS JARDINS DO ÓCIO
69 Pode o princípio divino ser representado em uma forma
sensível (visível)? Não, dirão uns (os iconoclastas), porque essa forma material trai a essência do divino e, ao propor a ilusão de uma similitude, faz o signo ser tomado pela coisa e conduz os cristãos à idolatria, Sim, dirão os outros (os iconó- dulos), porque nem toda imagem é necessariamente simili tude ou visa à identificação do signo com a coisa.
Toda a discussão se dá em torno da distinção entre uma imagem "semelhante a" e uma imagem "produzida para". Em -resumo, em redor da distinção entre imagem natural e imagem artificial, entre eídolon e eikon, simulacro e retórica. Compreendamos aqui o que significa "produzir segundo o princípio, ou modelo", e "copiar o modelo". Pe netremos os arcanos de uma distribuição providencial dos signos e das coisas que eles assinalam, ou, se quisermos, de uma economia geral dos signos.
Quando se pretende semelhante a seu modelo divi no, a imagem material é traição, pois exibe aquilo que é, em essência, invisível. Vertente sensível de uma presen ça ideal, ela divide o que é único e, pior ainda, substitui a ordem do espírito pela ordem da matéria. Habitada pe la homoousia, ou semelhança entre essências, ela usurpa a essência daquilo que se considera que ela possa figurar e se adona daquilo que não pode ser. Toda imagèm é, na pers pectiva iconoclasta, tomada no jogo de substituição fala ciosa da homoousia. Por isso é condenável.
Há outras maneiras de analisar o estatuto da imagem, retrucam os iconófilos, pela voz do patriarca Nicéforo. Des
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sa imagem fundada na semelhança de essência temos, cla ramente, um e o mais alto exemplo: o Cristo, imagem do Pai, é a ele idêntico em essência, e contudo é ta^ibém sua imagem de carne, a encarnação. Mas é aqui justamente que se tem um caso particular, uma divina exceção ao ca ráter da imagem. Inútil pensar que nós outros, criaturas, poderíamos rivalizar com essa homoousia. Condenar sua prática é, por isso, absurdo. Seria o mesmo que castigar e fustigar algo que nos é impossível por natureza.
Porque se Deus "realiza" absoluta e perfeitamente a operação da homoousia, a saber, a adequação perfeita e es sencial do modelo e de sua imagem, nós outros só pode mos admirar e venerar sua obra, tentando simplesmente dar, para fins apologéticos, a imagem da imagem.
Se assim é, o perigo passa a ser, então, o de confundir em uma mesma vindita toda forma de produção de ima gens, supondo que toda forma de semelhança é do tipo dessa única homoousia.
Ora, existem imagens de outro tipo, não apenas viá veis, sem traição, mas até mesmo necessárias para com preender o mistério divino e convocar a graça de sua contemplação perfeita. Para tanto, basta estabelecer a legi timidade de se entregar a uma análise, de tipo aristotélico, dos diferentes sentidos do termo "imitação".
Levar em conta e apoiar-se na imagem-produção, aquela que Aristóteles chama de mímesis. Aqui, não é o modelo que é diretamente imitado, mas o modo de pro dução do modelo. Assim, o célebre "imitar a natureza"
71 não significa que se vão "copiar" os objetos que ela ofe rece, mas a "economia" pela qual a natureza ou Deus age no mundo. Aqui, a relação da imagem com o modelo não é uma relação de identidade, mas uma relação homônima: um mesmo nome designa aqui dois objetos diferentes.
Como se diz no livro i das Categorias:
são chamadas de homônimas as coisas que só têm em comum o nome, mas a noção segundo a qual o nome é diferente pela essência..."homem"indica, desse modo, o homem vivente, mas também o homem representa do em uma pintura.
Relação de heterogeneidade que não suprime a relação, mas a assegura ao separar os termos. Com efeito, para que haja relação, é necessária a esquiz(o), a separação do que é posteriormente reunido - toda a questão do símbolo deri va dessa constatação.
Podemos, pois, produzir a homonímia, a homoiesis,
sem para isso substituir - por metáfora ou metonímia - a coisa pela imagem que ela iconiza. Nesse sentido, o ícone não é a parte de um todo, nem sua repetição material.
Do mesmo modo, a mímesis aristotélica não é simples cópia, mas produção original: poíesis. A tragédia não é si mulacro das ações humanas, mas produção de um conjun to de traços, que por uma linguagem elevada, provocando piedade e temor, obedecendo a leis específicas, às regras do gênero, propõe ações exemplares à admiração e ao re
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conhecimento dos atenienses. Cabe a eles preencher esses traços, reunir os fragmentos em uma totalidade mnêmica. Do mesmo modo, o poeta "imita" o processo produtivo da natureza, cuja palavra de ordem é a economia. A distribui ção e a partilha de um bem comum em fragmentos que re fletem inteiramente sua potência.
Um distanciamento produtivo governa, desse modo, a fabricação do ícone, distinto por natureza daquilo que ele evoca. O ícone, produzindo-se como imagem artificial, pro duz ele mesmo uma tensão para, um ítpòcm [prosti]. Ele pertence à ordem da prática, está voltado para o uso.
Em resumo, ele pertence à ordem da sedução e da per suasão retórica. Ele é, antes de qualquer coisa, um "traço". Traço de união ou flecha atirada, apelo e convocação de uma unidade - a da Santíssima Trindade - no fragmento material. Longe de estabelecer aí uma similitude, ele pro põe simplesmente um suporte para o reconhecimento.
Desse modo, ele manifesta a potência do princípio di vino, que se mostra em todos os pontos da natureza, não por efeitos isolados uns dos outros, mas de maneira total e única até naquilo que nos parecem fragmentos. Essa facul dade de se dividir em mil fragmentos permanecendo único provém justamente da natureza divina, e o ícone, essa for ma construída para a arte, esse artifício humano, participa do desígnio geral da Providência, ao qual obedece.
Com efeito, se a natureza se comporta como ecônoma e dispensa seu estoque, partilhando-o com exatidão (salvo erros mínimos), vê-se Deus agir do mesmo modo, instau rando o plano geral de uma partilha. Com a distinção entre
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