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69 Pode o princípio divino ser representado em uma forma

No documento Anne Cauquelin (páginas 38-42)

OS JARDINS DO ÓCIO

69 Pode o princípio divino ser representado em uma forma

sensível (visível)? Não, dirão uns (os iconoclastas), porque essa forma material trai a essência do divino e, ao propor a ilusão de uma similitude, faz o signo ser tomado pela coisa e conduz os cristãos à idolatria, Sim, dirão os outros (os iconó- dulos), porque nem toda imagem é necessariamente simili­ tude ou visa à identificação do signo com a coisa.

Toda a discussão se dá em torno da distinção entre uma imagem "semelhante a" e uma imagem "produzida para". Em -resumo, em redor da distinção entre imagem natural e imagem artificial, entre eídolon e eikon, simulacro e retórica. Compreendamos aqui o que significa "produzir segundo o princípio, ou modelo", e "copiar o modelo". Pe­ netremos os arcanos de uma distribuição providencial dos signos e das coisas que eles assinalam, ou, se quisermos, de uma economia geral dos signos.

Quando se pretende semelhante a seu modelo divi­ no, a imagem material é traição, pois exibe aquilo que é, em essência, invisível. Vertente sensível de uma presen­ ça ideal, ela divide o que é único e, pior ainda, substitui a ordem do espírito pela ordem da matéria. Habitada pe­ la homoousia, ou semelhança entre essências, ela usurpa a essência daquilo que se considera que ela possa figurar e se adona daquilo que não pode ser. Toda imagèm é, na pers­ pectiva iconoclasta, tomada no jogo de substituição fala­ ciosa da homoousia. Por isso é condenável.

Há outras maneiras de analisar o estatuto da imagem, retrucam os iconófilos, pela voz do patriarca Nicéforo. Des­

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sa imagem fundada na semelhança de essência temos, cla­ ramente, um e o mais alto exemplo: o Cristo, imagem do Pai, é a ele idêntico em essência, e contudo é ta^ibém sua imagem de carne, a encarnação. Mas é aqui justamente que se tem um caso particular, uma divina exceção ao ca­ ráter da imagem. Inútil pensar que nós outros, criaturas, poderíamos rivalizar com essa homoousia. Condenar sua prática é, por isso, absurdo. Seria o mesmo que castigar e fustigar algo que nos é impossível por natureza.

Porque se Deus "realiza" absoluta e perfeitamente a operação da homoousia, a saber, a adequação perfeita e es­ sencial do modelo e de sua imagem, nós outros só pode­ mos admirar e venerar sua obra, tentando simplesmente dar, para fins apologéticos, a imagem da imagem.

Se assim é, o perigo passa a ser, então, o de confundir em uma mesma vindita toda forma de produção de ima­ gens, supondo que toda forma de semelhança é do tipo dessa única homoousia.

Ora, existem imagens de outro tipo, não apenas viá­ veis, sem traição, mas até mesmo necessárias para com­ preender o mistério divino e convocar a graça de sua contemplação perfeita. Para tanto, basta estabelecer a legi­ timidade de se entregar a uma análise, de tipo aristotélico, dos diferentes sentidos do termo "imitação".

Levar em conta e apoiar-se na imagem-produção, aquela que Aristóteles chama de mímesis. Aqui, não é o modelo que é diretamente imitado, mas o modo de pro­ dução do modelo. Assim, o célebre "imitar a natureza"

71 não significa que se vão "copiar" os objetos que ela ofe­ rece, mas a "economia" pela qual a natureza ou Deus age no mundo. Aqui, a relação da imagem com o modelo não é uma relação de identidade, mas uma relação homônima: um mesmo nome designa aqui dois objetos diferentes.

Como se diz no livro i das Categorias:

são chamadas de homônimas as coisas que só têm em comum o nome, mas a noção segundo a qual o nome é diferente pela essência..."homem"indica, desse modo, o homem vivente, mas também o homem representa­ do em uma pintura.

Relação de heterogeneidade que não suprime a relação, mas a assegura ao separar os termos. Com efeito, para que haja relação, é necessária a esquiz(o), a separação do que é posteriormente reunido - toda a questão do símbolo deri­ va dessa constatação.

Podemos, pois, produzir a homonímia, a homoiesis,

sem para isso substituir - por metáfora ou metonímia - a coisa pela imagem que ela iconiza. Nesse sentido, o ícone não é a parte de um todo, nem sua repetição material.

Do mesmo modo, a mímesis aristotélica não é simples cópia, mas produção original: poíesis. A tragédia não é si­ mulacro das ações humanas, mas produção de um conjun­ to de traços, que por uma linguagem elevada, provocando piedade e temor, obedecendo a leis específicas, às regras do gênero, propõe ações exemplares à admiração e ao re­

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conhecimento dos atenienses. Cabe a eles preencher esses traços, reunir os fragmentos em uma totalidade mnêmica. Do mesmo modo, o poeta "imita" o processo produtivo da natureza, cuja palavra de ordem é a economia. A distribui­ ção e a partilha de um bem comum em fragmentos que re­ fletem inteiramente sua potência.

Um distanciamento produtivo governa, desse modo, a fabricação do ícone, distinto por natureza daquilo que ele evoca. O ícone, produzindo-se como imagem artificial, pro­ duz ele mesmo uma tensão para, um ítpòcm [prosti]. Ele pertence à ordem da prática, está voltado para o uso.

Em resumo, ele pertence à ordem da sedução e da per­ suasão retórica. Ele é, antes de qualquer coisa, um "traço". Traço de união ou flecha atirada, apelo e convocação de uma unidade - a da Santíssima Trindade - no fragmento material. Longe de estabelecer aí uma similitude, ele pro­ põe simplesmente um suporte para o reconhecimento.

Desse modo, ele manifesta a potência do princípio di­ vino, que se mostra em todos os pontos da natureza, não por efeitos isolados uns dos outros, mas de maneira total e única até naquilo que nos parecem fragmentos. Essa facul­ dade de se dividir em mil fragmentos permanecendo único provém justamente da natureza divina, e o ícone, essa for­ ma construída para a arte, esse artifício humano, participa do desígnio geral da Providência, ao qual obedece.

Com efeito, se a natureza se comporta como ecônoma e dispensa seu estoque, partilhando-o com exatidão (salvo erros mínimos), vê-se Deus agir do mesmo modo, instau­ rando o plano geral de uma partilha. Com a distinção entre

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No documento Anne Cauquelin (páginas 38-42)

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