CENA 1: Do mito da cientificidade à/na contemporaneidade
1.4 Poderíamos falar de uma “nova ordem científica”?
Esta encenação será dedicada a circunscrever, na obra de Sousa Santos, sua abordagem epistemológica do fazer científico, cujos movimentos iniciais ocorreram a partir da segunda metade da década de 1980. Ancorando seus estudos em uma visão hermenêutica e pragmática, o referido autor procura compreender o lugar que as ciências sociais ocupam no âmbito da ciência ou, mais precisamente, dos estudos de cunho científico. Dois de seus textos a esse respeito serão, aqui, abordados: Um discurso sobre as ciências, de 1988 e Introdução a uma ciência pós-moderna, de 1989.
Em seu primeiro texto, que resulta de uma aula inaugural, proferida na Universidade de Coimbra, no ano de 1985, Sousa Santos aponta para uma possível dissolução do paradigma dominante na ciência moderna, a partir do qual se cristaliza(ra)m muitas das representações acerca do caráter científico de determinado estudo. Esse caráter usualmente está assentado sobre uma série de fatores que envolvem, dentre outros, o rigor metodológico, a logicidade e a racionalidade dos procedimentos de pesquisa. O autor vê tal empreendimento de forma negativa, argumentando que
o rigor científico, porque fundado no rigor matemático, é um rigor que quantifica e que, ao quantificar, desqualifica, um rigor que, ao objectivar os fenómenos, os objectualiza e os degrada, que, ao caracterizar os fenómenos, os caricaturiza. É, em suma e finalmente, uma forma de rigor que [...] reprime a pergunta pelo valor humano do afã científico assim
concebido. Esta pergunta está, no entanto, inscrita na própria relação sujeito/objecto que preside à ciência moderna, uma relação que interioriza o sujeito à custa da exteriorização do objecto, tornando-os estanques e incomunicáveis (SOUSA SANTOS, 1988, p. 11-12).
Com o propósito de problematizar a existência e o colapso desse paradigma dominante, Sousa Santos (1988) volta seu olhar para o que chama de tempo presente, ou seja, a contemporaneidade, compreendida como abrangendo as décadas finais do século XX (a partir do período pós-estruturalista) e as décadas iniciais do século XXI, que, em suas palavras, teria começado antes de começar. Esse momento é concebido pelo autor como uma complexa fase de transição entre paradigmas, na qual estaria emergindo uma nova concepção de ciência, marcada pela época pós-moderna.
Essa ciência pós-moderna é vista como fruto de uma multiplicidade de condições, dentre as quais se destaca a questão teórica, uma vez que o paradigma dominante estaria em decadência devido a uma maior profundidade do conhecimento, que permitiu depreender a fragilidade dos pilares sobre os quais se sustenta a ciência moderna. Afirma o autor que “chegámos a finais do século XX possuídos pelo desejo quase desesperado de complementarmos o conhecimento das coisas com o conhecimento do conhecimento das coisas, isto é, com o conhecimento de nós próprios” (SOUSA SANTOS, 1988, p. 11).
Se tal constatação se mostra formulável, na época em que vivemos, talvez ela indicie nossa (re)aproximação do pensamento nietzschiano, assim como a possibilidade de dialogarmos com suas proposições, formuladas ainda no final do século XIX. Sendo assim, com base na leitura de Sousa Santos (1988), podemos afirmar que temos procurado responder à questão já colocada por Nietzsche (2001, p. 09), a qual consiste em entender “o que sabe o homem, na verdade, de si mesmo” e o que pode ele tomar como um conhecimento verdadeiro, se a natureza “lhe dissimula a maior parte das coisas, mesmo no que concerne a seu próprio corpo, a fim de mantê-lo prisioneiro de uma consciência soberba e enganadora [...]?”.
Ao encontro desse questionamento, a afirmação apresentada por Sousa Santos (1988, p. 9) “de que não conhecemos do real senão o que nele introduzimos, ou seja, que não conhecemos do real senão a nossa intervenção nele” se aproxima do postulado nietzschiano que toma a verdade apenas como uma construção, uma rubrica. Segundo Nietzsche (2001, p. 11), “a ‘coisa em si’ [como sendo precisamente a verdade pura e sem conseqüência], enquanto objeto para aquele que cria uma linguagem, permanece totalmente incompreensível e indigna de seus esforços”. Desse modo, para o filósofo
alemão, é pelo fato de esquecer que tudo o que possui é uma impressão sobre o real (a qual é, por sua vez, metafórica), que o homem toma as coisas como objetos puros.
Considerando-se que o raciocínio, cientificamente elaborado acerca de determinado objeto, não se sustenta senão sobre metáforas, isto é, sobre interpretações do que possa ser esse referido objeto, a própria racionalização/racionalidade, em si, é passível de falha. Nesse sentido, Sousa Santos (1988, p. 8) acrescenta que “são hoje muitos e fortes os sinais de que o modelo de racionalidade científica [...] atravessa uma profunda crise”.
A crise desse modelo de cientificidade, assim como o anúncio de sua debilidade, reside, para o autor, mais precisamente, nas “distinções básicas” em que tal paradigma se assenta. Assim sendo, polarizações como sujeito/objeto, tomadas como chave no paradigma da ciência moderna, podem ser desconstruídas no paradigma emergente de conhecimento, uma vez que, deixando de ser visto como o polo oposto ou externo, o objeto passa a ser tratado como um continuum do sujeito, dissolvendo-se a barreira dicotômica entre um e outro. Segundo o autor,
O conhecimento do paradigma emergente tende assim a ser um conhecimento não dualista, um conhecimento que se funda na superação das distinções tão familiares e óbvias que até há pouco considerávamos insubstituíveis, tais como natureza/cultura, natural/artificial, vivo/inanimado, mente/matéria, observador/observado, subjectivo/objectivo, colectivo/individual, animal/pessoa (SOUSA SANTOS, 1988, p. 14).
Se compreendermos as colocações do autor em consonância com o momento histórico-social que vivenciamos, poderemos entender o porquê da disseminação de textos que procuram desestabilizar essas chamadas distinções básicas, como é o caso tanto das reflexões de Derrida (2001), que problematiza a hierarquização e a polarização logocêntricas, quanto das (re)leituras de autores como Nietzsche (2001), que questiona, em seu cerne, a distinção, também considerada “básica”, entre verdade e mentira. Em conformidade com as ponderações apresentadas por Sousa Santos, seria a fragilidade do edifício logocêntrico, sede do racionalismo, associada à radicalidade dos estudos a seu respeito, que possibilitou o questionamento de suas verdades basilares.
Em nosso entendimento, a aproximação passível de ser esboçada entre o olhar de Sousa Santos e o nietzschiano, assim como seu retorno a filósofos como Bachelard, por exemplo, produzem efeitos na leitura epistemológica que o autor desenvolve, a qual gira em torno de um chamado círculo hermenêutico. Este funcionaria “desconstruindo um a um os diferentes objectos teóricos que a ciência constrói sobre si própria e, com eles, as
diferentes imagens que dá de si, a fim de tornar compreensível por que razão foram construídos esses objectos e não outros, essas imagens e não outras” (SOUSA SANTOS, 1989, p. 12).
Em sua proposta de reflexão sobre o desenrolar da ciência, Sousa Santos mobiliza, como podemos perceber, a noção de desconstrução, a qual, embora não sendo remetida diretamente aos estudos derridianos, evoca, por meio de sua alusão, essa linha de pensamento, consistindo em mais um ponto na tessitura que buscamos urdir. Nas palavras de Sousa Santos,
a desconstrução faz-se mediante o apelo ao inobjectivável e ao inimaginável que tornam ou tornaram socialmente possível os objectos e as imagens científicas em uso. Do mesmo modo que, como diz Bachelard, a teoria do objectivo deve ser construída contra o objeto (1972:250), assim também só aplicando a ciência contra a ciência é possível levá-la a dizer, não só o que sabe de si, mas tudo aquilo que tem de ignorar a seu respeito para poder saber da sociedade o que esperamos que ela saiba (SOUSA SANTOS, 1989, p. 12).
Ao fazer menção à desconstrução da ciência, tal como esta vem sendo compreendida, o autor reafirma a importância de uma “desdogmatização” do conhecimento científico, colocando novamente em relação os polos demarcados e afastados pela chamada ciência moderna. O objetivo de sua abordagem é, assim, “desloca[r] o centro da reflexão do conhecimento feito para o conhecimento no processo de se fazer, do conhecimento para o conhecer” (SOUSA SANTOS, 1989, p. 53). Movimento semelhante entre a ciência feita (science faite) e a ciência em desenvolvimento (science en train de se faire) é proposto por Latour (1995), ao argumentar que a Ciência (com maiúscula), na verdade, nunca existiu. Trata-se, na concepção do autor (da qual compartilhamos), de um ideal de objetividade estrita, que faz com que os envolvidos no processo de produção do conhecimento vivam tal ideal “como uma falta, uma incapacidade de ser verdadeiramente cientista. É sua parte humana”33 (LATOUR, 1995, p. 38).
Tal mal-estar, também presente nos relatos dos participantes desta pesquisa, será abordado mais pontualmente nas cenas dedicadas à discussão dos recortes analisados. Nestes, observaremos traços de mal-estar e de estranhamento – heimlich/unheimlich – no/do discurso universitário-científico, compreendendo essas noções com base na leitura
33
Tradução nossa, a partir do excerto: « c’est pourquoi ils le vivent comme une déchéance, comme une incapacité d’être vraiment scientifique. C’est leur part humaine ».
de Freud (1976, 2010), para quem o mal-estar se dá como um desajuste, uma sensação de desamparo e de desconforto, decorrente da inserção do homem na cultura, ou seja, nas leis que regem o contato e o convívio com o outro.
Por ora, entendemos que o diálogo com a abordagem proposta por autores como Sousa Santos e Latour permite questionar a linearidade e a unidimensionalidade do modo como a produção de conhecimento é vista, encaminhando-nos a compreendê-la, como processo, em sua multiplicidade e fragmentabilidade. Além disso, o olhar para esse processo, a partir da concepção de que o sujeito nele também se constitui, encaminha- nos a pensar na relação de imbricação entre o sujeito e os objetos aos quais se dedica. Dito diferentemente, possibilita-nos tomar esse processo como relação, o que implica dizer que os sentidos não são intrínsecos aos objetos, nem dependentes puramente da interpretação de um sujeito, os sentidos se constituem na relação, no espaço entre uns e outros.
A ideia de que haveria uma rede de relações e não mais uma distinção clara e simples entre sujeitos e objetos, tal como elabora Sousa Santos (1988), pode ser compreendida também em uma aproximação com o viés da desconstrução, defendido por Derrida, principalmente no que concerne à noção de différance, formulada pelo autor. Para Derrida,
a différance é o jogo sistemático das diferenças, dos rastros de diferenças, do espaçamento, pelo qual os elementos se remetem uns aos outros. Esse espaçamento é a produção, ao mesmo tempo, ativa e passiva (o a da différance indica essa indecisão relativamente à atividade e à passividade, aquilo que não se deixa ainda ser comandado e distribuído por essa oposição), dos intervalos, sem os quais os termos ‘plenos’ não funcionariam (DERRIDA, 2001, p. 33).
Entendemos, desse modo, que o trabalho de Sousa Santos dialoga com algumas das noções derridianas, trazendo elementos significativos para problematizarmos o modo como se constitui o discurso científico. No entanto, não devemos nos esquecer de que assumir a perspectiva da desconstrução, como estamos fazendo, implica interessarmo- nos também pelo caráter problemático de nossas ficções teóricas. Devemos, assim, fazer este gesto duplo de reafirmar, transformando, tal como requer uma leitura desconstrutora, ou seja, “uma leitura dividida, diferenciada, até mesmo aparentemente contraditória” (DERRIDA e ROUDINESCO, 2004, p. 205). Sendo assim, trataremos, a seguir, de
algumas concepções desenvolvidas por Sousa Santos que nos suscitam
A primeira delas concerne às próprias designações “ciência pós-moderna” ou “conhecimento pós-moderno”, utilizadas na ausência de melhor expressão, como assegura o sociólogo. Em nossa concepção, sua alusão à “ambiguidade e complexidade do tempo científico presente” permite compreendermos que as especificidades de que trata concernem mais ao tempo científico do que à ciência, propriamente dita. Logo, interessaria menos pensar sobre o que caracteriza a ciência como pós-moderna do que sobre o funcionamento do conhecimento científico na contemporaneidade. Esse deslocamento, aparentemente simples, do olhar, no entanto, possibilita problematizar essa forma de se pensar a ciência, como o fez Kuhn (1992), opondo um novo paradigma ao paradigma supostamente em crise.
O segundo ponto a ser questionado está relacionado à filiação teórico- epistemológica da qual parte o autor, ou seja, a teoria kuhniana dos paradigmas científicos. Conforme apresentamos na subcena 1.1, a compreensão do desenvolvimento da ciência em termos de paradigmas consiste não só em uma tentativa de classificação do real e do suposto conhecimento produzido sobre ele, mas também em uma forma de escamotear a disseminação de saberes e sentidos contraditórios que são produzidos e que coabitam em um mesmo discurso ou em um mesmo paradigma. Tais saberes e sentidos, segundo a perspectiva discursivo-desconstrutivista que adotamos, não se deixam delimitar em periodizações, ou seja, não se estabilizam, durante determinado período histórico (ou paradigma), para virem a efervescer em outro período, provocando uma crise.
Acreditamos que compreender a produção do conhecimento científico, contemporaneamente, implica o questionamento da própria organização da ciência em termos de paradigmas, o que, por sua vez, autoriza-nos a levar em consideração essa disseminação de saberes e de sentidos, a alteridade e a exterioridade, muitas vezes foracluídas. Essa heterogeneidade, tomada como sinal de crise de um paradigma, é, para nós, um traço constitutivo, impossível de ser controlado ou aprisionado sob qualquer delimitação.
A noção de crise, por sua vez, também merece ser posta à prova, pois teorizar a existência de uma crise no desenrolar do desenvolvimento científico implica considerar a possibilidade de os sentidos serem estáveis e, de certa forma, reguláveis no momento anterior ou posterior a ela. Dito diferentemente, a noção de crise parece funcionar como uma noção que aponta para um desequilíbrio apenas momentâneo, o que pressupõe, por um lado, a existência de um equilíbrio entre as forças envolvidas no processo e, por outro,
a possibilidade de retorno ou de reinstauração deste equilíbrio. Conforme acreditamos, a relação com o saber, seja ele científico ou não, não se dá de forma harmônica, com pequenas fases de sobressaltos ou de transição. A instabilidade, o embate e o conflito, compreendidos por Kuhn (1992) e por Sousa Santos (1988) como índices de um período de crise, são, para nós, traços constantes, intrínsecos e determinantes nesse processo.
Sendo assim, outra indagação que se nos apresenta consiste em saber por que a época em que vivemos é caracterizada, pelo último autor, como uma fase de transição para uma ciência pós-moderna e não como esse ideal de ciência em funcionamento na contemporaneidade, com algumas reconfigurações. Como decorrência dessa questão, outras se fazem relevantes: até que ponto poderíamos falar que essa ciência de que Sousa Santos assinala indícios está ainda por vir? Que traços a marcariam como um “novo” modo de conceber a ciência e não como uma reafirmação do mesmo?
Acreditamos, compartilhando da formulação de Coracini (2005, p. 16), que é impossível “polarizar as duas perspectivas que se imbricam, se interpenetram para construir o momento complexo, confuso, epistemologicamente híbrido que estamos vivendo”. Entendemos, então, esse momento como marcado não só pelo distanciamento, mas também pela aproximação aos “mitos da modernidade”; uma época em que os sentidos produzidos são “a cada momento diferentes e, ao mesmo tempo, semelhantes” (CORACINI, 2005, p. 19).