CENA 3: A busca pela unidade protetora de um lugar
3.3 Sob um ideal de pesquisador
isso/ você pode aquilo ou você não pode//”.
Dito diferentemente, embora se inscrevendo no espaço compartilhado por uma comunidade científica (aqui, lembramos que o termo “comunidade” deriva de “comum- unidade”, o que pressuporia uma igualdade ou uma partilha de opiniões e de ideias), a P18 é imposta uma posição inferior, marcada não só pela estaticidade do verbo ser, mas também pela demanda de obediência (você é aluna [...] você pode [...] você não pode). Desse modo, o pesquisador em formação é definido por meio da voz do outro, que recorre à fórmula típica da definição, ou seja, o “indicativo presente da terceira pessoa: S é P” (DERRIDA, 1998, p. 24): você é aluna, você é estudante. Esse discurso-outro é, no entanto, também seu, porque é a partir dele que P18 se significa como aluna, mesmo refutando (denegando, portanto) a posição de subalternidade que lhe é atribuída.
A partir dos recortes que discutimos e da problematização que empreendemos, acreditamos ser possível apontar para uma divisão que marca os pesquisadores em formação. Estes, embora vivenciem a ilusão de serem os únicos agentes em suas narrativas, responsáveis por sua própria história e pelo lugar (único) que alcançaram, como afirmamos na subcena anterior, só podem (se) dizer de um lugar intervalar e heterogêneo, constituído na relação com a alteridade. Sustentados sobre essa relação, tais pesquisadores assumem, ao mesmo tempo, um lugar de poder, perante a sociedade, e um lugar de acentuada pequenez, frente à academia, frente aos pesquisadores com formação.
Na subcena seguinte, voltar-nos-emos para um aspecto já recorrente nos recortes trabalhados nesta encenação, qual seja, a imagem do cientista como pesquisador ideal. Esta parece funcionar como uma espécie de mito à sombra do qual os pesquisadores em formação se dizem, seja afirmando o anseio constante, porém vão, de alcançá-lo, seja (de)negando tal ideal.
3.3 Sob um ideal de pesquisador
A questão não é “como ser cientista?”, mas “como se reconhece um cientista?”. Que paixões o distinguem? Que compromisso, que ninguém lhe impôs racionalmente, confere valor à sua busca? (STENGERS, 2002, p. 42).
Retomando o pressuposto de que as representações são determinantes na constituição de identidades, procuraremos sinalizar de que modo, nos recortes trazidos
para esta cena, essa questão pode ser abordada. Com o intuito de problematizar as representações que sustentam o imaginário dos pesquisadores em formação e que emergem em seu dizer, remontamos à hipótese de nossa pesquisa, a qual defende que a constituição de sua identidade se dá em um movimento de aproximação-afastamento com relação a uma imagem espectral de cientista, construída por representações que possuem, como matriz especular, a ciência na modernidade.
É com base nessas representações que os recortes seguintes se organizam. Nestes, entendemos que a imagem de cientista é traçada como um ideal, o qual funciona como telos, lugar final de todo percurso em busca de conhecimento. A instauração desse lugar (ou desse ser) supostamente completo, produto do conhecimento acumulado, auxilia na construção de uma justificativa e na aceitação, por parte do pesquisador em formação, de sua incompletude, já que este se diz, ainda, em processo. Seja como modelo já dado, seja como aspiração a alcançá-lo, tal imagem está atrelada, na maioria das vezes, ao que o pesquisador em formação entende por ciência, como podemos observar em R16, no qual P3 fala sobre como foi seu interesse por física.
R16) deixa eu ver// a: eu sempre quis ser cientista/ desde moleque// desde/ sei lá/ desde que eu me entendo por gente eu sempre quis ser cientista/ então ou eu ia ser biólogo ou químico ou físico/ sempre// um dos três sempre eu quis ser/ e daí eu não sei/ no colegial eu vi que física era mais legal/ me interessou mais e eu fui pra física/ mas eu sempre quis ser /sempre quis ser/ a:/ ciência básica/ sempre/ uma coisa pura (P3 – Ciências Exatas).
O fragmento “deixa eu ver”, que dá início ao recorte e à narrativa de P3, permite entrevermos um apelo à consciência, como uma forma de externalizar, de trazer para o campo da visão, algo, até então, não visto. Trata-se, em nosso entendimento, de uma tentativa, feita por P3, de tornar visível e, consequentemente, consciente, sua história, suas lembranças, suas escolhas. Esse trazer à consciência é discursivizado por meio de um dos cinco sentidos do ser humano, o olhar, o que possibilita compreendermos que tratamos, já nesse momento do recorte, de uma instância da imagem, a qual nos abre caminho para adentrarmos o registro do imaginário.
Além disso, no referido recorte, é possível observar que a vontade de ser cientista é vista por P3 como algo constitutivo e que o acompanha desde que este “se entende por gente”. Esse dizer possibilita compreender que, para o enunciador, trata-se de um querer consciente, pois a expressão “desde que eu me entendo por gente” remonta a uma
suposta consciência de si mesmo, sugerindo uma busca pela origem desse querer. Marcada na materialidade linguística, a vontade de ser cientista está relacionada a um querer constante e incessante, como podemos apontar na reiteração dos fragmentos “eu sempre quis ser cientista”, repetido duas vezes no recorte, e “eu sempre quis ser”, repetido três vezes.
Na representação desse anseio, vemos esboçada a figura do cientista construída a partir das chamadas ciências exatas e biológicas (“biólogo ou químico ou físico”). O caráter científico dos procedimentos de pesquisa desenvolvidos em tais áreas parece ser tomado, por P3, como algo já-dado e isento de questionamentos ou de reformulações, o que nos possibilita apontar para a estabilização e a naturalização dos sentidos em torno de tais âmbitos. Em outras palavras, só se é cientista quando se está vinculado a uma das referidas áreas consideradas científicas.
Uma vez inscrito nessa ordem mais ampla, segundo P3, o cientista se restringe a um único domínio de saber, o que pode ser observado no marcador de alternância “ou”, que faz alusão ao atravessamento de um discurso em que incide um imaginário, segundo o qual o cientista é especialista (expert) em apenas uma área (“ou eu ia ser biólogo ou químico ou físico”). De forma semelhante, no fragmento “um dos três sempre eu quis ser”, podemos vislumbrar a cristalização desse imaginário, já que P3 não cogita a possibilidade interdisciplinar de vir a ser os três, ou dois dos três, por exemplo. As ciências são tomadas como domínios estanques, não passíveis de mescla ou de imbricação64.
Além disso, o ideal de pesquisador, nesse imaginário, remonta à “ciência básica”, simbolizada como “uma coisa pura”. Tal referência à pureza coloca em jogo múltiplas possibilidades de sentido, como, por exemplo, a concepção de ciência não só como um fazer límpido e transparente, mas também verdadeiro e completo. Nesse sentido, podemos entender que a ciência poderia se explicar por si mesma, bastando-se a si mesma, pois sua pretensa pureza indicia também a ausência de misturas, de relação com outros âmbitos ou mesmo com a sociedade.
Desse modo, irrompe, em R16, uma representação de cientista ancorada em um ideal de ciência, no qual se afirma, logocentricamente, não só uma “distinção clara e objetiva entre sujeito e objeto” (ARROJO, 2003, p. 10), mas também uma separação entre a ciência (dita pura) e outros fazeres teórico-práticos ou a ciência aplicada. Essa cientificidade é concebida como a observação imparcial e distanciada dos objetos, sem a “contaminação” por meio destes últimos ou por meio do próprio observador. A esse
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respeito, Arrojo argumenta ser esta uma espécie de ilusão do homem ocidental pela qual este “crê poder olhar o ‘real’ e o outro com olhos neutros; crê, em suma, poder ‘descobrir’ ‘verdades’ que não sejam construídas por ele mesmo, nem ‘contaminadas’ pelo seu desejo” (ARROJO, 2003, p. 15). Desse modo, o imaginário que emerge no dizer toma, como matriz especular, esse ideal de ciência.
Todavia, no excerto “sempre quis ser/ a:/ ciência básica/ sempre/ uma coisa pura”, apesar de observarmos uma hesitação e uma reformulação que rompem o fio do dizer, o movimento de sentido continua em uma mesma direção, sugerindo uma mescla entre a imagem do cientista (sujeito), com a qual P3 se identifica, e a da ciência (objeto). Entendemos que, nesse recorte, a separação, constantemente vista como estanque, entre sujeito e objeto torna-se mais tênue, pois é essa aproximação que autoriza o participante a começar seu enunciado falando de si e a acabá-lo, falando da ciência à qual se dedica. Desse modo, embora afirmando, conscientemente, um imaginário que gira em torno da concepção de ciência como algo puro e desvencilhado do sujeito, P3 deixa entrever traços da imbricação entre um e outro, o que indicia, ao mesmo tempo, seu afastamento desse ideal. Observamos representações semelhantes também em R17, a seguir.
R17) meu marido/ por exemplo/ ele é cientista/ ele é pesquisador na área de ciências/ digamos/ tradicionais/ né/ a área dele é genética/ genética de plantas mas ele é agrônomo/ mas muita gente na área dele é biólogo/ assim/ então/ digamos/ a biologia/ e na área dele as pessoas fazem graduação/ mestrado/ doutorado/ tudo assim emendado [...] eu acho que eu tive essa influência de emendar mestrado na graduação e vi que nossa área é diferente [...] então eu falo assim pra ele/ o meu laboratório é a sala de aula/ então eu preciso da sala de aula/ (P5 – Ciências Humanas).
No recorte supracitado, P5 parece não conceber, em um primeiro momento, sua prática de pesquisa acadêmica como um fazer científico. O lugar de cientista é dado ao outro (ao marido), atualizando uma memória em torno não só do lugar desprivilegiado da mulher, no âmbito científico, mas também do status daquilo que é considerado como ciência. Observamos, também, que P5 reformula, metonimicamente, seu dizer, talvez, em uma tentativa de explicar por que afirma que o marido é cientista: “meu marido/ por exemplo/ ele é cientista/ ele é pesquisador na área de ciências/ digamos/ tradicionais/ né/
a área dele é genética/ genética de plantas mas ele é agrônomo/ mas muita gente na área dele é biólogo/ assim/ então/ digamos/ a biologia”.
Essa reformulação – que se caracteriza por uma espécie de redizer (“ele é cientista/ ele é pesquisador na área de ciências/ digamos/ tradicionais”), passível de ser vista nos itens lexicais grifados, no excerto supracitado – marca, na materialidade linguística, o atravessamento de um discurso, no qual somente as “ciências tradicionais” recebem o nome de ciência. Observamos que, ao redizer, P5 tenta fechar o sentido de seu enunciado, delimitando os efeitos que, sem querer, evoca ou pensa ter evocado em seu ouvinte. Nesse retorno sobre si mesmo, segundo Authier-Revuz (1998, p. 14), “o dizer representa-se como não falando por si, o signo, em vez de preenchê-lo, transparente, no apagamento de si, de sua função mediadora, interpõe-se como real”. Esse gesto nos leva a conjeturar que os sentidos latentes emergem, no fio do dizer, justamente quando o enunciador tenta silenciá-los.
No recorte em questão, a imagem de cientista é definida a partir de sua relação com um domínio de conhecimentos considerado científico, o que permite depreender, com base na leitura de Popper empreendida por Stengers (1993, p. 43), que um “verdadeiro” cientista deve “pertencer a um campo que dá ao cientista razões para ter esperanças que sua teoria resistirá, um campo em que a possibilidade de ‘progresso’ seja considerada estabelecida”. Independentemente da conduta do pesquisador, é essa filiação a determinado campo que determina seu lugar.
Nesse sentido, podemos observar também os efeitos que o marcador discursivo “mas” produz no excerto seguinte, destacado do recorte em questão. Ao afirmar “meu marido/ por exemplo/ ele é cientista [...] mas ele é agrônomo/ mas muita gente na área dele é biólogo/ assim/ então/ digamos/ a biologia”, P5 o inscreve como cientista, a partir de seu pertencimento a determinado âmbito de saber, a biologia. Mesmo sendo agrônomo (o que implicaria não ser “cientista”, já que as ciências agrárias não gozariam do mesmo estatuto de ciência conferido à biologia, por exemplo), seu marido está inscrito, para P5, em uma área na qual há uma grande concentração de biólogos (logo, de “cientistas”), o que faz com que sua pesquisa acadêmica, no ramo de “genética de plantas”, seja considerada biologia e, consequentemente, seja vista como ciência.
Assim como em R16, observamos que o ideal de pesquisador presente no dizer de P5 tem como matriz de sentido representações vigentes na modernidade. Dentre estas, salientamos a imagem do cientista como aquele que tem no laboratório seu lugar de atuação. Essa referência também se mostra na afirmação de P5: “o meu laboratório é a
sala de aula”. Para problematizarmos esse fragmento, mobilizamos as palavras de Foucault, para quem o laboratório é visto como um
local autônomo [...] no qual se estabelecem certas verdades de ordem geral sobre o corpo humano, a vida, as doenças, as lesões, que fornece certos elementos de diagnóstico, certos sinais de evolução, certos critérios de cura, e que permite experimentações terapêuticas (FOUCAULT, 2009, p. 57).
O gesto de considerar que a sala de aula é um laboratório faz com que ambos os lugares compartilhem de características semelhantes, ou seja, a sala de aula, a partir do dizer de P5, também pode ser vista como o lugar onde “se estabelecem certas verdades de ordem geral”. Ao colocar em equivalência a sala de aula e o laboratório, entendemos que esse enunciador também inscreve seu fazer acadêmico no âmbito científico, pois, concebido como o lugar do cientista, ainda nos termos de Foucault (2009, p. 58), o laboratório é tido “como local de um discurso que tem as mesmas normas experimentais da física, química ou biologia”.
Observamos que, na referida afirmação, não há modalizações, tampouco uma comparação entre sala de aula e laboratório, o que implica considerarmos que, para esse interlocutor, ambos os lugares são equivalentes (“o meu laboratório é a sala de aula”), em uma relação de “parasinonímia” (BEACCO e MOIRAND, 1995), ou seja, uma relação semântica de reformulação na qual, por meio da estrutura sintática, laboratório e sala de aula se autodefinem. Nesse sentido, podemos conjeturar que os saberes que circulam em um lugar e em outro também são considerados semelhantes, em sua perspectiva, o que permite a identificação desse interlocutor com traços dessa imagem de cientista.
Assim, o dizer de P5 possibilita que observemos, em funcionamento, a premissa de que
só a ciência da natureza constitui um verdadeiro modelo de ciência. Como tal, as ciências humanas, ou não são verdadeiras ciências, ou são ciências (em sentido fraco) apenas na medida em que se aproximem, o mais possível, dos modelos e métodos usados nas ciências da natureza (sentido forte) (PEREIRINHA, 2009, p. 16).
A busca pela cientificidade, no dizer de P5, também é estabelecida por intermédio de uma comparação, que pode ser observada na divisão entre “a área dele” e a “nossa área”. Tal comparação, apesar de afirmar uma diferença (“vi que nossa área é diferente”), possibilita uma aproximação a esse modelo de ciência (a biologia) e de cientista (o
biólogo). Essa aproximação decorre de outra divisão, que funciona no imaginário desse interlocutor, em torno da dicotomia teoria/prática. É, assim, pelo viés da prática, tomando o laboratório e a sala de aula como o local da prática científica, que a referida aproximação pode ser possível.
Em R18, a seguir, P6 também relaciona a imagem do cientista a um ideal de ciência, considerando relevante seu aspecto investigativo.
R18) o meu orientador/ ele é muito assim de esmiuçar coisas// a:/ que nem meu orientador/ o meu ex-orientador/ é:/ aceitava os resultados e expunha os resultados/ a:/ aconteceu isso// o meu orientador daqui de [nome da cidade]/ ele quer saber por que/ quer evitar/ se é alguma coisa ruim que tá acontecendo na reação/ quer evitar a formação desse subproduto/ essa coisa que a gente não quer/ ele quer entender as coisas/ ele checa tudo/ amarra tudo assim/ tenta isso/ tenta aquilo/ tenta aquilo/ porque// quer entender bem/ assim// bem mais a fundo a pesquisa que a gente faz// e eu cresci um monte quando eu vim pra cá porque eu/ eu era uma relatora na verdade/ de/ de coisas que aconteciam// e agora eu penso mais/ eu discuto/ eu tento investigar// (P6 – Ciências Exatas).
Em um primeiro momento, a imagem do cientista, no dizer de P6, está relacionada a uma forma de agir, ou seja, não depende da filiação a um domínio específico do conhecimento, mas de uma conduta, que é definida a partir de traços observados na figura e na postura do orientador. Nesse sentido, o referido dizer sustenta uma concepção de pesquisador como um expert ou, nos termos de Voltolini (2009, n. p.), como um superespecialista, o qual está sempre “em busca do máximo controle sobre o mínimo problema, cada vez mais focal”. Essa busca pelo controle à qual se refere o autor pode ser depreendida no excerto “ele quer saber por que/ quer evitar/ se é alguma coisa ruim que tá acontecendo na reação/ quer evitar a formação desse sub-produto/ essa coisa que a gente não quer/ ele quer entender as coisas/ ele checa tudo/ amarra tudo”, no qual os fragmentos grifados sugerem a vã tentativa do pesquisador de dominar esse objeto que lhe escapa o tempo todo.
Tal controle absoluto é ilusório, como é possível depreender do dizer de P6, uma vez que o pesquisador, mesmo acreditando ser um sujeito racional e consciente, não consegue entender ou evitar os resultados indesejados. Observamos que, ao reiterar essa vontade (“quer saber” e “quer entender”, associadas a “quer evitar”, repetido duas
vezes no recorte e reafirmado por “a gente não quer”), P6 deixa entrever sua impossibilidade, pois a própria expressão “quer evitar” (e não simplesmente evita) que irrompe no dizer, já denuncia que, aí, o controle não passa de um querer.
Apesar de essa mestria ser impossível, P6 afirma que o pesquisador é ativo frente ao objeto que, passivo, sofre sua ação. É o pesquisador que, soberanamente, opera, tentando, amarrando, checando, querendo entender/saber/evitar, o que nos leva a inferir que, nesse dizer, sujeito e objeto estão em polos hierarquicamente opostos. Tal separação presentifica uma representação de ciência não só como sendo da ordem do controle de seu objeto e de seus produtos (“checa tudo, amarra tudo”), mas também do conhecimento profundo e completo (“quer entender bem/ assim// bem mais a fundo”).
Além disso, o cientista é discursivizado como aquele que procede por meio de tentativas e erros (“tenta isso/ tenta aquilo/ tenta aquilo”), visando a um fim e a um resultado positivo ou, poderíamos dizer, positivista (“porque quer entender bem mais a fundo a pesquisa que a gente faz”). Trata-se do recurso ao modelo de ciência e de cientista advindo das chamadas ciências experimentais ou empíricas (POPPER, 1975), nas quais o conhecimento resultaria de um processo cumulativo. São as diversas tentativas que, somadas, fornecem subsídios para que o pesquisador atinja seu objetivo, seu telos: entender a pesquisa de forma aprofundada, nesse caso.
No entanto, podemos considerar que, ao mesmo tempo, a construção dessa imagem de cientista se afasta de um imaginário de ciência no qual o papel do cientista é o de observador, ou seja, de porta-voz da natureza e de seus fenômenos que, supostamente, falariam por si mesmos. Isso porque, na formulação de seu dizer, P6 recorre a uma oposição entre o pesquisador que relata e o pesquisador que investiga, distanciando-se da forma de agir do primeiro, que apenas aceita e expõe os resultados, ou, dito diferentemente, que não interfere no que seu objeto estaria “revelando”. Essa função de “relatora”, nos termos de P6, não condiz com sua imagem do que o cientista vem a ser, já que não contempla o caráter investigativo da pesquisa e, podemos dizer, da ciência.
Nesse sentido, poderíamos considerar a ênfase de P6 na dimensão investigativa como um movimento que se afasta de uma dimensão técnica da ciência, presente nos dizeres de outros enunciadores. Tal movimento é possível se considerarmos que essa dimensão, em detrimento da discussão e da investigação, privilegia o mercado e os “objetos que ela [a ciência] põe no mundo” (VOLTOLINI, 2009, n. p.), como veremos na subcena 4.2. Atentamos, ainda, para o fato de a imagem de cientista, construída
discursivamente em R18, estar relacionada a traços que compreendem o gesto de “pensar mais”, de “discutir” e de “tentar investigar”. Desse modo, podemos conjeturar também que o pesquisador não visa a se anular ou a negar sua interferência em prol da voz supostamente neutra da ciência ou dos dados da natureza. Ele manipula e produz seu conhecimento, ou, como dirá P14, em R46, ele busca “fazer a coisa acontecer”.
Assim, o dizer de P6 permite que observemos o fazer científico como artifício, como algo que é construído e não natural, já que os resultados indesejáveis, os “subprodutos”, tendem a ser evitados. Para isso, o cientista deve agir, tentando cercear sua produção e os efeitos de sentido de seu dizer. Além disso, como sugere a sequência “eu cresci um monte [...] agora eu penso mais”, essa imagem de pesquisador vem reafirmar o ideal “sujeito da ciência”, ancorado na máxima cartesiana do penso, logo sou.