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II. REFLETINDO PODER NA TEORIA SOCIAL

2.1. PODER EM MAX WEBER

Max Weber (1905) na sua definição mais conceitual e abstrata da noção de poder não vai diferir do até aqui posto pelos dois dicionários: a capacidade de Alguém (A) obter obediência de outrem (B). Deste conceito mais amplo de poder (que se configura como um tipo de relação – ação – social) vão se desprender também os seus outros importantes conceitos sobre tipos de dominação que tratarei adiante.

Weber (1905) trata o poder como sendo a capacidade de induzir ou influenciar o comportamento de outra pessoa, seja utilizando-se de coerção, manipulação ou de normas

estabelecidas. Poder para Weber significa a probabilidade de impor a própria vontade dentro de uma relação social, mesmo que contra toda resistência e qualquer que seja o fundamento dessa probabilidade. Ao mencionar o termo fundamento, Weber está se referindo a certos recursos necessários à legitimação desse poder. Ou seja, é necessário ter algo a mais em relação às outras pessoas para que se possa “mandar”. Toda relação social envolve relações de poder; ainda que os recursos e fundamentos dessa relação sofram alterações, gerando diferentes tipos de poder (político, econômico, eclesiástico, institucional, tradicional, carismático).

Conforme compreensão do pensamento weberiano, sendo a sua definição do poder construída como um tipo ideal puro, um modelo conceitual, e genérico, é dele que se desprendem com uma tênue diferenciação as noções de dominação, legitimação e autoridade.

A ideia de que poder pode ser traduzido como um sinônimo de dominação é, certamente, o núcleo duro do que seja o poder no estudo da política e a visão mais comum - alguém ou algum grupo está impondo sua vontade e seu objetivo a outros - inclusive aos que se mostram relutantes ou contrários a ele. Quanto maior for a capacidade de impor a própria vontade e atingir o correspondente objetivo, maior será o poder. Definir, no entanto, todo o exercício do poder, como apenas circunscrito ao núcleo básico de situações de emissão e obediência de ordens ou mandatos deixaria aparentemente de lado muitas outras situações latentes cujas “ordens” são menos visíveis ou concretas a olho nu, mas que nem por isso, menos reais em seus efeitos, especificamente em se tratando de comportamentos ocasionados por valores introjetados (através das crenças na tradicionalidade e na carismatização enquanto poder). A dominação seria de fato uma manifestação especial do poder.

O conceito de dominação costuma ser aplicado no âmbito das ciências políticas a casos muito mais específicos e concretos (a exemplo de predomínio da vontade de A sobre B numa relação de mando e obediência). Essa lógica de dominação também pode se apoiar em “bases jurídicas”, fazendo daí surgir a noção de legitimação, ou seja, aquilo que vai possibilitar a crença dos (as) dominados (as) de que a dominação seria legítima, sendo, portanto, fundamental ao seu exercício. Assim, a noção de autoridade, que cruza com esta de legitimidade, refere ao estado que permite o uso de certo poder, mas que, para tanto, necessita de preceitos que, segundo Weber (1905), estão ligados - em seu estado ideal - a uma estrutura social e a um meio administrativo diferente para cada um dos tipos de poder em questão – sejam eles do tipo de poder carismático, tradicional ou racional-legal, para serem legitimados. Em seu famoso livro Economia e Sociedade (1922), Weber descreve e constroi os tipos ideiais puros de poder: o carismático, tradicional e o racional-legal. Mas, é interessante

ressaltar, mais uma vez, que estas três modalidades de poder descritas por Max Webber, tratam, na verdade, de idéias conceituais de poder, não no sentido de que deveriam ser estes os existentes na realidade, mas no sentido de serem projeções “utópicas” que não podem ser encontrados de forma pura na realidade e que ajudam o (a) pesquisador (a) a guiarem suas análises da realidade social e histórica, podendo apresentar-se nela, frequentemente, nos mais variados e complexos tipos de combinações.

No tipo de poder carismático, a obediência é resultante do carisma de um e/ou uma líder. Trata-se da modalidade de poder que se apoia na devoção a um (a) senhor (a) e a seus dotes sobrenaturais (carisma). Neste caso, as qualidades pessoais da liderança (tais como faculdades mágicas, revelações, heroísmo e poder intelectual ou de oratória) influênciam seus discípulos ao depósitar suas confianças em alguém que é visto como um herói, uma heróina, santa, santo, salvador, salvadora ou exemplo de vida. Este poder só se extingue quando há perda de credibilidade ou quando as virtudes que geravam tal influência sofrem desgaste e a dominação só dura enquanto há carisma. Nesta modalidade, sabe-se que o poder é pessoal e obedece-se à pessoa por suas qualidades excepcionais e não por uma posição ocupada por ela formalmente ou por uma dignidade advinda das tradições.

Neste tipo de poder, o (a) líder carismático (a) é visto pelos liderados como alguém que possui uma missão a ser executada no mundo e, por isso, muitas vezes, nem necessita de regras e pode ser considerado como acima de toda lei imposta; necessitando, apenas, de suas qualificações carismáticas para cumprir seus desígnios. Há ocasiões em que o líder se desprende da tradição por causa da revolução ou renovação que anuncia e a aceitação de suas ordens é de caráter obrigatório, desde que outra, também de origem carismática, não se oponha, quando há uma disputa entre líderanças, onde somente a comunidade e a força do carisma de ambas estejam em questão serão comparadas, mensuradas e irão decidir de qual lado ficarão. Embora, às vezes, quando o carisma se mostra em oposição à ordem legal o conflito também se estabelece. Este tipo de poder é bastante encontrado no ambito religioso, visto como um dos maiores impulsores de movimentos messianicos e revolucionários, mas por ser fundamentado em qualidades extremamente pessoal do (a) lider em sua forma mais pura.

A noção de poder tradicional destaca que se obedece às tradições, tendo como base de legitimação e de escolha de quem a exercerá, as tradições e costumes de uma dada sociedade, personificando as instituições enraizadas no seio desta sociedade na figura do (a) líder. Nesta modalidade de poder, acredita-se na santidade das ordenações e dos poderes senhoriais, em um “estatuto” existente desde o principio, com o poder, emanando da dignidade própria,

santificada pela tradição do (a) líder, de forma fiel. Nas bases constitutivas dos Candomblés tradicionais baianos se reconhece este tipo de poder. Sendo que, hierarquicamente, quem ordena, necessariamente, obedece a critério de senioridade na tradição e quem obedece são os (as) súditos (as), ou seja, filhos (as) de santos alocados (as) no nível menor dentro da estrutura hierarquica do terreiro. As regras são determinadas pela tradição e regidas pela honra e a boa vontade do (a) senhor (a), que é considerado (a) justo (a), prevalecendo princípios de equidade material, em detrimento dos formais, na atividade administrativa. Observa-se que no Ilê Asé Ogum Omimkayê esse tipo de poder é gerado como tradição e, neste caso, a autoridade da iyalorixá advém do lugar que ela ocupa na estrutura hierarquica do terreiro e pelo seu carisma.

Na modalidade racional-legal Weber expressa a ideia de formalidade e o poder se apresenta enquanto fruto de normas, regras, estatutos e leis sancionadas e obedecidas pela sociedade ou organizações. Tais regras estabelecidas de forma legal, racional e burocrática definem a quem caiba obedecer e até quando obedecer, tornando possível a aceitação, por parte dos (as) subordinados (as), de um (a) superior (a) devido uma consciência de que este tem direito de dar ordens, ou seja, reconhecem que a autoridade está no cargo ocupado e não na pessoa que o ocupa, que só pode exercer a dominação dentro dos limites estabelecidos pelo cargo ocupado. Sendo assim, a associação dominante é eleita ou nomeada pelas leis e regras definidas por todos (as), com a idéia básica de que qualquer direito pode ser criado ou modificado mediante um estatuto sancionado corretamente, ou seja, que leve em consideração as necessidades de todos (as) os (as) envolvidos (as), e os (as) subordinados (as) são membros da associação.

Este poder caracteriza-se por ser impessoal, obedecendo-se à regra estatuída e não à pessoa; a administração é extremamente profissional e também está subordinada ao estatuto que a nomeou, não possui influência pessoal e/ou sentimental e seu funcionamento tem por base a disciplina do serviço. As nomeações ao exercicio do poder obedecem a exigências e competências profissionais para a atividade de um cargo; são baseadas em contratos de serviço, recebem um pagamento fixo de acordo com o cargo ocupado e possuem iguais chances de ascensão de acordo com as regras pré-estabelecidas.

Esta forma de poder nos remete diretamente às instituições burocráticas, onde quem ordena é dito superior e os que obedecem são os profissionais. Tal dominação só foi possível com a consolidação do sistema capitalista de produção, que realizou a transição de uma sociedade baseada em valores tradicionais para uma orientada para objetivos, com regras e controle racional dos meios para atingir os fins presentes nas empresas capitalistas privadas,

na estrutura moderna do Estado, nas forças armadas e (no campo religioso pesquisado) na existência legal da Associação Religiosa “Fonte de Vida” do Ilê Axé Ogum Omimkayê sob o Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica - CNPJ de nº: 07.950.947/0001-02. Pois, para que uma comunidade religiosa tenha existência legal ela precisa constitui-se numa organização religiosa com atas e estatutos registrados em cartório.

Registrados os estatutos, a comunidade religiosa passa a ser reconhecida legalmente e pode exercer os direitos e deveres assegurados a todas as religiões. Observa-se que cada um dos associados constitui uma individualidade e a Associação uma outra; tendo cada um seus bens, direitos e obrigações, sendo que há, entre os associados, direitos e obrigações recíprocas. Portanto, Associação Religiosa “Fonte de Vida” do Ilê Axé Ogum Omimkayê é uma pessoa jurídica de direito privado tendo por objetivo a realização de atividades culturais, sociais, religiosas, recreativas etc., sem fins lucrativos e, enquanto o próprio terreiro, legalmente o representa no âmbito institucional.

Weber nos ofereceu uma construção intelectual bastante sólida sobre o conceito de poder, exagerando, propositalmente alguns aspectos da realidade para alcançar as “tipologias puras” pretendidas como guias conceituais que quando bem utilizados na análise, podem possibilitar uma melhor compreensão das combinações conceituais dos tipos de poder presente nas mais diversas sociedades em toda história da humanidade, e operar como uma ferramenta teórica poderosa do pensamento racional no seu complexo movimento de buscar compreender e desvelar a realidade social.

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