II. REFLETINDO PODER NA TEORIA SOCIAL
2.5. PODER EM MICHEL FOUCAULT
Para Foucault, o poder não existe, o que existe são as relações de poder. No entender de Foucault, o poder é uma realidade dinâmica que ajuda o ser humano a manifestar sua liberdade com responsabilidade. A ideia tradicional de um poder estático, que habita em um lugar determinado, de um poder piramidal, exercido de cima para baixo, em Foucault é transformada. Ele acredita no poder como um instrumento de diálogo entre os indivíduos de uma sociedade. A noção de poder onisciente, onipotente e onipresente não tem sentido na
nova versão, pois tal visão somente servia para alimentar uma concepção negativa do poder. Portanto, a abordagem de Foucault (1992) sobre o micro poder que consiste na produção de pensamentos, seres, coisas, conjunto de estratégias e táticas onde a educação, disciplina, forma de representação adquirem uma grande importância para se pensar uma visão libertária do poder. Pois, o poder é um aspecto de toda e qualquer relação entre as pessoas, não existindo uma única forma de poder, mas muitos poderes diluídos nas relações sociais.
Segundo Gledhill (2000), Foucault define o poder de maneira característica, negando- lhe a reduzi-lo ao controle negativo da vontade dos demais através da proibição, se opõe a abordar as formas dominantes do conhecimento social meramente como ideologia que legitimam as relações opressivas. Entende ele que, para Foucault, essas formas de conhecimentos só podem constituir o fundamento das ”tecnologias de dominação” sobre as pessoas no momento em que podem definir um campo de conhecimento aceito como verdade. Coloca que a produção desse “regime de verdade” constitui a dimensão positiva do poder. É positiva porque as relações de poder conformam sujeitos que atuam e pensam de uma determinada maneira que não se pode reduzir a uma “falsa consciência” (saber/poder). Ainda, segundo o autor em questão, Foucault sustenta que necessitamos compreender como se produz os regimes de verdades para poder entender como se poderão subverter as práticas sociais. Pois, para julgar e subverter o poder é necessário, antes, realizar uma análise crítica racionalista ao poder. Ademais, segundo ele, Foucault sustenta também que as relações de poder no nível micro (família, escola, terreiro) não podem se reduzir a uma extensão ao âmbito doméstico do poder encarnado no Estado, senão que possui uma “relativa autonomia” frente ao poder do Estado e de classe (GLEDHILL, 2000, p. 205).
No pensamento de Foucault (1992) não encontramos uma definição acabada do poder, pois não foi esse seu objetivo. A elaboração foucaultiana do poder, não teve a pretensão de construir um arcabouço teórico metodológico universalizante, pois surgiu de análises particularizadas (Jurkewics, 1997, p.111). Entretanto, sua grande contribuição reside no fato dele ter provocado um deslocamento com relação à ciência política que limitava ao âmbito do Estado o fundamental exercício sobre o poder. Para Michel Foucault não existe um, mas muitos poderes diluídos, em todo o corpo social. Neste caso, o exercício do poder ou dos poderes, não se resume à imposição e a tomada de decisões de uns grupos sobre outros, mas de todos. Isto significa frisar que o poder é algo que se exerce, que se efetua, que “funciona como uma máquina com muitas engrenagens” (Perrot, 1995, p. 03).
Em Michel Foucault, a discussão filosófica sobre o poder está relacionada diretamente com a questão do saber. Em sua análise, deslocando-o do binômio dominador/dominado,
parte dos lugares que constroem a dinâmica do poder. Este filósofo contemporâneo, na ocasião em que realizava estudo sobre a história da penalidade, começou a formular a questão do poder para dar continuidade à sua pesquisa.
No livro História da Sexualidade, Michel Foucault desenvolve cinco proposições que compreende relações de poder. Citarei apenas três das cinco visto serem as de maior interesse para nossa pesquisa.
1. O poder se exerce sempre a partir de inúmeros pontos e em meio a relações desiguais e móveis. Não é algo que se adquira ou possua; por isso mesmo não é possível guardá-lo ou deixa-lo escapar. Todas as pessoas exercem poder de uma forma ou de outra, mesmo aquelas aparentemente destituídas de poder. Assim, as mulheres também o exercem, não sendo ou ocupando sempre a posição de vítimas passivas de tudo que lhes ocorre.
2. No princípio das relações de poder, não há uma oposição binária e global entre dominadores/dominados. Ao contrário, “as correlações de forças múltiplas que se formam e atuam nos aparelhos de produção, famílias, grupos restritos e instituições, servem de suporte a amplos efeitos de clivagem que atravessam o conjunto do corpo social”.
3. As relações de poder são sempre intencionais e objetivas. Isto não quer dizer que estejam direcionadas a um sujeito ou grupo, mas que, nelas, os interesses se encontram dirigidos por um dispositivo de conjunto.
Estas proposições são aplicadas tanto no macro, quanto no micro poder. Pois, ao estudar as relações de micro poder, Foucault destaca que não há relação em que o poder não esteja presente, seja no âmbito político/público, seja no âmbito das relações cotidianas domésticas, afetivas, de trabalho, etc (Foucault, 1983, p.90). A análise do poder em Foucault nos permite entender que não existe um, mas muitos poderes diluídos nas relações sociais. A dinâmica das relações no âmbito do micro poder, por exemplo, são, entre outras, as que materializam-se no corpo de homens e mulheres. Com isto, este filósofo desconstrutivista “redimensionou e ampliou o escopo e modo de operacionalizar e tratar o conceito de poder, equiparando-o ao do saber e colocando- o na dinâmica das relações humanas” (Bergesch, 2002, p.136). Dessa forma, opondo-o a visão de um conceito estático, considera o poder como algo dinâmico, valorizando não apenas o resultado, mas o processo de sua formação. Para Bergesch (2002, p.134), Michel Foucault entende o poder como uma relação dinâmica de diferente estratégia dos indivíduos, operando, o tempo todo, presente e proveniente de todos e em todos os lugares, como uma unidade visível. Neste caso, os lugares são a multiplicidade de correlações de força, do jogo que, através de lutas e enfrentamentos constantes, transformam, reforçam e invertem.
Para Michel Foucault (1992) não existe saber neutro, todo saber tem sua gênese em relações de poder, uma vez que saber e poder se implicam mutuamente. Portanto, todo saber é político e todo ponto de exercício do poder é, ao mesmo tempo, um lugar de formação de saber, e todo saber assegura o exercício de um poder.
De acordo com Gledhill, (2000, p. 234), o conceito de poder em Foucault nos apresenta outra apresentação a explorar o modo que o poder penetra nas relações sociais cotidianas e nas vidas dos indivíduos.
Por último, Foucault (1992) destaca que poder é o nome dado à situação estratégica complexa numa sociedade determinada, ele é relacional e não necessariamente é exercido de cima para baixo. Já Perrot (1992) assinala que poder no singular tem uma conotação política e designa, basicamente, a figura central do poder, mas no singular ele se estilhaça em fragmentos múltiplos e é equivalente a influências onde as mulheres têm sua parcela.