3.1 MERCADOS IMPERFEITOS: BREVE REVISÃO
3.1.10 PODER DE MERCADO E PODER DE MONOPÓLIO
A análise antitruste está arraigada no poder de mercado.
Danos ou restrições à concorrência só podem ser causados por empresas detentoras desse poder, que é, portanto, condição necessária para haver ilicitude do ponto de vista da lei. Mas não é suficiente, pois a ilicitude ainda depende da constatação de efeitos anticompetitivos (efetivos ou potenciais) que decorram de uma conduta ou de um ato de concentração. (KUPFER; HASENCLEVER, 2013, p. 287).
Mesmo que provoquem, certos atos de concentração, efeitos negativos sobre a concorrência, esses atos podem levar a ganhos de eficiência, conforme explica Kupfer e Hasenclever (2013). E dentre esses ganhos estão, por exemplo a redução de custos associados com a economia de escala e escopo, aumentos de produtividade e qualidade, bem como aperfeiçoamentos tecnológicos, redução nos custos de transação, dentre outros.
Nesses casos, há um consenso no sentido de que tais condutas ou atos de concentração não devem ser proibidos quando seus eventuais efeitos restritivos forem devidamente compensados pelas eficiências por eles geradas; caso contrário, a aplicação da lei provocaria ineficiências nos mercados e teria um resultado contrário ao interesse social. (KUPFER; HASENCLEVER, 2013, p. 287).
Por outro lado, trazendo para o lado do monopólio, qual é o motivo que leva algumas empresas a possuírem um considerável poder de monopólio? “[...] o poder de monopólio está baseado na capacidade de definir o preço acima do custo marginal e que a quantidade em que o preço ultrapassa o custo marginal depende do inverso da elasticidade da demanda com a qual a empresa se defronta”. (PINDYCK; RUBINFELD, 2010, p. 323). Desta maneira, pode-se concluir, dado que o inverso da elasticidade da demanda seja igual a 1
𝐸 e, dando que E é a elasticidade, quanto menor for a elasticidade da curva de demanda da empresa, quanto maior será o poder de monopólio que a empresa terá. Dessa forma, o determinante do poder de monopólio é a elasticidade da demanda da empresa. Os fatores que determinam a elasticidade da curva de demanda de uma empresa são:
✓ A elasticidade da demanda de mercado. Como a demanda da própria empresa será pelo menos tão elástica quanto a demanda do mercado, a elasticidade da demanda do mercado limita o potencial de poder de mercado.
✓ O número de empresas atuando no mercado. Se existirem muitas empresas, será pouco provável que qualquer uma delas tenha possibilidade de influenciar significativamente no preço de mercado.
✓ A interação entre as empresas. Mesmo que apenas duas ou três empresas estejam atuando no mercado, nenhuma delas terá possibilidade de elevar o preço com lucro caso exista uma agressiva concorrência entre elas, com cada empresa procurando capturar a maior fatia possível de mercado. (PINDYCK;
RUBINFELD, 2010, p. 323).
Assim, conforme Pindyck e Rubinfeld (2010), no primeiro caso, caso haja apenas uma empresa, o caso de um monopolista puro, a curva de demanda será exatamente a curva de demanda do mercado, e nesse sentido, o grau de poder do monopólio dependerá da elasticidade dessa curva de demanda do mercado. No entanto, o mais comum são várias empresas competindo no mercado, nesse caso, a elasticidade da demanda do mercado definirá o limite inferior para a elasticidade da demanda de cada empresa.
Um segundo ponto, apresentado por Pindyck e Rubinfeld (2010), é o do número de empresas, com um fator determinante da curva de demanda de uma empresa – e, portanto, do poder de monopólio. Ceteris paribus, o poder de monopólio cairá à medida que aumentar o número de empresas que atuem no mercado. Dessa maneira, quanto maior a quantidade de empresas que compitam no mercado, tanto maiores serão as dificuldades para elas de aumentar o preço e evitar a perda de venda para a concorrência. Quando algumas empresas são responsáveis pela maior parte das vendas de um mercado, diz-se que é altamente concentrado.
Como exemplo, um mercado onde três empresas detêm 90% e as outras 5, detêm o restante.
Neste mercado, as três empresas poderiam ter poder de monopólio de modo conjunto. “Por vezes se diz (nem sempre em tom de brincadeira) que a concorrência é o maior temor das empresas norte-americanas”. (PINDYCK; RUBINFELD, 2010, p. 324). Um importante aspecto dessa estratégia de desestimular a entrada de novos concorrentes é a identificação de meios que possam atuar como barreiras de entrada.
O terceiro e último ponto discutido, segundo Pindyck e Rubinfeld (2010), trata da interação entre as empresas. A forma de interação entre as empresas concorrentes é um fator determinante do poder de monopólio. Elas podem competir agressivamente no mercado sempre procurando vender a um preço abaixo do valor da concorrência, de modo a aumentar a sua presença no mercado. Como efeito, o preço deve cair a nível praticamente competitivos, isto fará com que o poder de mercado seja reduzido. Por outro lado, as empresas podem acordar e agir de modo a não concorrer entre si, ou agir em conluio, o que é uma violação antitruste, de maneira a limitar os níveis de produção e elevar os preços. “Como o aumento coordenado de preços pelas empresas, em vez de um aumento individual, apresenta maiores probabilidades de lucro, a união das empresas pode gerar um substancial poder de monopólio”. (PINDYCK;
RUBINFELD, 2010, p. 324).
Analisando o mundo da tecnologia, e da era digital sobre o seu funcionamento, Lancieri e Salowski (2020) mencionam que quase a totalidade dos estudos desenvolvidos enfatizam o papel dos dados nos mercados digitais. E neste aspecto, três diferences relatórios alemães (CMA, ACCC e AdC) informam que o controle sobre os dados é fundamental para o poder de mercado das plataformas digitais. Assim, diferentes tipos de dados são importantes para os mercados de pesquisa geral, redes sociais e a própria publicidade online. A coleta e o tratamento de diferentes tipos de dados, o que também inclui os dados pessoais, são fundamentais para o marketing digital. “[...] em alguns mercados, os algoritmos desempenham
um papel essencial no processamento de dados brutos em inferências que podem ser usadas para melhorar produtos e serviços” (LANCIERI; SALOWSKI, 2020, p. 15).
3.1.10.1 MENSURAÇÃO DO PODER DE MONOPÓLIO
Pindyck e Rubinfeld (2010), esclarecem que existe uma forma de mensurar o poder de mercado. Essa regra, foi introduzida pelo economista Abba Lerner em 1934, e é denominada Índice de Lerner de Poder de Monopólio, o qual trata da diferença entre o preço e o custo marginal, dividido pelo preço, tal como segue:
𝐿 = (𝑃 − 𝐶𝑀𝑔)/𝑃 (10.1) o Índice de Lerner tem sempre valores variando entre 0 e 1. Para empresas perfeitamente competitivas P=CMg, do que se conclui que L = 0. Assim, quanto maior, ou mais próximo de 1 for o L, tanto maior será o poder de monopólio. Ainda de acordo com Pindyck e Rubinfeld (2010), esse índice de poder de monopólio pode ser expresso pela elasticidade da demanda com a qual a empresa se defronta. Dessa forme, tem-se:
𝐿 =𝑃−𝐶𝑀𝑔
𝑃 = −1
𝐸𝑑 (10.2) Onde 𝐸𝑑 é a elasticidade da curva de demanda da empresa, e não do mercado. Cabe salientar, conforme expõe esse autor expõe na nota de rodapé:
Três problemas podem surgir quando o índice de Lerner é aplicado na análise de políticas governamentais para as empresas. (1) Como o custo marginal é de difícil mensuração, frequentemente é empregado o custo variável médio para fins de cálculo do índice de Lerner. (2) Se a empresa pratica preços abaixo do preço ótimo (possivelmente para evitar uma fiscalização rigorosa), o potencial poder de monopólio não será detectado pelo índice. (3) O índice ignora os aspectos dinâmicos do preço, tais como os efeitos da curva de aprendizagem e das mudanças na demanda.
(PINDYCK, 1985, p. 193-222 apud PINDYCK e RUBINFELD, 2010, p. 320).