4. PERSPECTIVAS TEÓRICAS SOBRE ORGANIZAÇÃO, PODER E
4.2 O PODER NAS ORGANIZAÇÕES
Observou-se, na revisão bibliográfica, que uma das principais indagações nos estudos sobre organizações, nos últimos vinte anos, diz respeito à problemática do poder e da burocracia nas organizações18. Embora o conceito de poder seja
bastante utilizado, em análise organizacional é de difícil compreensão.
Dentre as perspectivas teóricas e analíticas nos estudos sobre o poder duas chamaram a atenção deste estudo. A primeira é a análise sociológica weberiana do poder, enquanto dominação. A segunda é a construção filosófica do poder disciplinar em Michel Foucault. A perspectiva weberiana foi utilizada principalmente pelos estudos funcionalistas desenvolvidos pela Escola de Chicago19, nos anos trinta e, posteriormente, influenciou praticamente todos os
continentes.
A contribuição de Foucault sobre poder na análise organizacional é mais recente e foi a que mais influenciou estudos sobre o poder nas organizações na abordagem pós-moderna de análise organizacional (HARDY; CLEGG, 2001; ROWLINSON e CARTER, 2002; KNIGHTS, 2002; ABEL et al, 2002; SILVEIRA, 2005).
18 Foram identificados, durante a revisão bibliográfica para este estudo, em sua maioria na forma
eletrônica, 21 artigos sobre o poder e 49 artigos e um livro, cuja temática é a burocracia nas organizações no Brasil e no mundo. A maioria deles se refere à concepção weberiana de burocracia e/ou de poder.
19 A Escola de Chicago foi, entre os anos 20 e 30 do século passado, o mais importante centro de
ensino e pesquisa em Sociologia dos Estados Unidos, tendo a sociologia das instituições e das organizações uma das linhas de pesquisa. Robert Merton e Talcot Parsons, professores dessa Escola tornaram-se uns dos mais influentes pensadores das organizações nas décadas seguintes.
O que interessa na abordagem foucaultiana não é o poder possuído ou adquirido e sim na formação discursiva – a combinação de um conjunto de distinções lingüísticas, formas de raciocínio e práticas materiais, que juntos organizam instituições sociais e produzem formas particulares de sujeitos e nesse sentido (ALVERSSON; DEETZ, 2006). Talvez a obra mais importante desse autor sobre poder seja “Vigiar e punir” na qual parte de uma arqueologia para a genealogia sobre o conceito de poder20. Burrell (2006) observa que essa obra “vira a teoria
das organizações de cabeça para baixo”, como refere ao trazer para as organizações a relação entre poder e conhecimento social sobre o corpo.
A importante contribuição da Sociologia compreensiva de Max Weber mostrou- se relevante neste estudo, particularmente, para o entendimento do desenvolvimento sócio-histórico das diversas formas de conformação e realização do poder e da dominação, bem como a conformação e papel da burocracia, enquanto forma de poder nas organizações.
Para Weber, poder é “a possibilidade de uma pessoa ou um número de pessoas realizarem sua própria vontade numa ação comum mesmo contra a resistência de outras que praticam a ação” (WEBER, 1994). Essa concepção surge atrelada aos conceitos de ação social21 e de desencantamento do mundo22, tendo propósitos e
objetivos diferentes em duas de suas obras, as quais trata a temática do poder.
20 O Foucault arqueologista imaginava que o Estado tinha poder sobre o corpo (origem da medicina
social), mas, no Foucault genealogista (Vigiar e Punir), as instituições assumem esse papel.
21 Ação social - conduta de muitos agentes que se orientam reciprocamente em conformidade com
um conteúdo empírico do próprio sentido de suas ações. A diferença entre ação social e relação social é que, na primeira, a conduta do agente está relacionada diretamente para sua conduta de outro (ou outros), enquanto que, na segunda corresponde à conduta de cada qual entre múltiplos agentes envolvidos, orienta-se por um conteúdo de sentido compartilhado.
22 O conceito de desencantamento do mundo na obra weberiana, analisado por Pierrucci (2003),
Na primeira, A política como vocação23, pensar o poder é pensar a política. Nessa
perspectiva, as concepções de Estado, política e burocracia são mais relevantes para o entendimento sobre o poder. Na segunda obra, Economia e Sociedade24, a
concepção de poder aparece atrelada à concepção de ação social. A concepção de poder é mais precisa e só pode significar a probabilidade de alguém encontrar obediência à sua ordem. Para compreender o poder nas organizações, o autor não se preocupa apenas em entender o poder em si, mas as formas de dominação que se apresentam numa organização burocrática. Nessa perspectiva, Weber constrói uma tipologia25 para assim apreender a realidade concreta. Ao compreender a
racionalização como um dos elementos principais da contemporaneidade, o pensador apostou que o tipo racional visando fins é aquele correspondente à verdadeira racionalidade e, nesse sentido, a burocracia ganha grande importância no pensamento weberiano sobre a política e o poder.
Weber toma a dominação como fundamento para a legitimidade, afirmando que seus fundamentos estão atrelados a diversos motivos, como a submissão no
23 Neste trabalho, o autor considera amorfo seu conceito de poder, pois, segundo ele, “Todas as
qualidades de uma pessoa e todas as situações possíveis podem pôr alguém em condições de impor sua vontade, numa situação dada; por isso, o conceito sociológico de ‘dominação’ é de grande importância para uma maior compreensão sobre o poder/política”.
24 Weber, M. Economia e Sociedade. 3 ed. Brasília: UnB, 1994. v. 1.
25 Dominação racional-legal ou burocrática, tradicional, carismática. Na dominação legal, o seu
tipo mais puro é a dominação burocrática, cuja idéia básica é que qualquer direito pode ser criado e modificado, mediante estatuto sancionado corretamente, no que diz respeito à sua forma; todavia, afirma Weber, nenhuma dominação é exclusivamente burocrática e tampouco é possível encontrar um quadro administrativo que seja, de fato, puramente burocrático e a burocracia não é o único tipo de dominação legal; existe administração por comitês, parlamento etc. A dominação tradicional é baseada na crença, na santidade ou poderes existentes há muito tempo, ou seja, baseia-se na tradição e seu tipo puro é a dominação patriarcal. É do tipo quem manda é o senhor e quem obedece são os súditos. O conteúdo das ordens está fixado pela tradição. A terceira e última base da dominação é a carismática, que decorre da devoção afetiva à pessoa do senhor e aos seus dotes sobrenaturais (carisma), heroísmo, poder intelectual. Seus tipos puros são a dominação do profeta, do herói guerreiro e do demagogo e, nesse tipo de dominação, obedece-se exclusivamente à pessoa do líder, devido às suas qualidades excepcionais. Entretanto, afirma que a dominação carismática é uma relação social especificamente extra-cotidiana e puramente pessoal (Weber, 1994).
costume e também no afeto. Ao mesmo tempo que esse autor reconhece que a dominação repousa nesses fundamentos e existe costumeiramente apoio jurídico ao qual se fundamenta sua legitimidade, ela é instável. As organizações, segundo Weber (1994), incorporam uma estrutura de dominação em seu funcionamento e, assim sendo, autoridade, estrutura, ideologia, cultura e técnica estão invariavelmente saturados e imbuídos de poder, mas a tradição dominante toma as estruturas de poder ocultas no desenho formal da organização como um dado a ser aceito. Gabriel Cohn, um dos especialistas em Weber, no Brasil, nota que o esquema weberiano é especialmente poderoso, quando se trata de analisar os processos que envolvem caracterização da relação de forças em um processo social dado e, de modo geral, seu ponto forte está na contribuição que pode dar ao estudo das situações empíricas de conflitos de interesses e de poder, sempre que esses sejam tomados nas suas manifestações particulares (COHN 1979; p. 13).
Diversos estudos sobre o poder foram identificados na revisão bibliográfica deste trabalho e dois deles merecem destaque. O primeiro foi realizado por Stokes e Clegg (2002). Interessados em analisar mudanças organizacionais, estudam o setor público australiano a partir da categoria poder, identificam que esse conceito tem sido cada vez menos utilizado no debate sobre esse setor na realidade estudada. Ressaltam que as teorias que conformam as reformas de organizações públicas têm envolvido expressões de dúvidas como visão, missão, eficiência das organizações, de forma quase religiosa, em substituição à análise de poder nas organizações. O segundo, realizado por Peiro e Meliá (2003), analisa o poder formal e informal em uma organização, referindo o poder formal como a capacidade de impor e recompensar e o informal corresponde à arbitragem e à expertise. O poder formal é ligado à hierarquia e é assimétrico e o poder informal é recíproco e tem uma relação negativa com o conflito.