4 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS
4.3 SELEÇÃO DAS CATEGORIAS DE ANÁLISE DAS ENTREVISTAS
4.3.2 Relação com os stakeholders
4.3.2.2 Poder Público
No nível federal, há uma relação relativamente tensa, pela possibilidade de emanação de projetos e verbas dos quais a ADESCO pode eventualmente beneficiar-se; ao mesmo tempo em que há exigências de contrapartidas e temor, por parte da associação, principalmente em períodos de crise e austeridade econômica, como houve nos últimos anos e ainda perdura, de que haja cortes de verbas que são uma importante fonte de financiamento para empreendimentos futuros e modernização dos vigentes.
Uma ramificação do primeiro setor que, embora não faça parte de suas atribuições, está a ele vinculada circunstancialmente, é o assédio da classe política, cujas tentativas reiteradas de ingerência na gestão da ADESCO – as quais são percebidas, por todos os entrevistados, como oportunistas – têm sido, até o momento, frustradas.
Foi relatado por um(a) dos(as) entrevistados(as), cuja identidade não será informada em decorrência da natureza intrincada do tema em que toca, que “dentro da Associação, uma coisa que a gente tem (como pensamento) desde o início é não se meter com política. A gente não ‘levanta bandeira’ para ninguém. Nunca permitimos reunião de político aqui, por mais que aleguem ter boas intenções”.
Foi consensual a opinião de que, de maneira geral, eles querem tirar proveito da associação, que está atenta à peculiaridade do situacionismo que caracteriza a conjuntura política. Alegou-se que o apoio de determinados candidatos ou partidos, além de indesejado, poderia ensejar o uso “eleitoreiro” da organização e fazer com que esta sofresse represálias em um contexto adverso, no qual aqueles que a apoiaram fossem saíssem derrotados de algum pleito:
A gente sabe em política acontece aquilo de “um ganhou o outro perdeu”; no outro ano, o outro ganhou, e o que havia vencido antes perdeu... E se isso acontece e você recebeu apoio de algum que foi derrotado, aqueles que
ganharam nem sequer vão se dar ao trabalho de recolher o nosso lixo; trocar as lâmpadas dos postes daqui (Chã de Jardim)...
Ainda na esfera pública, órgãos de fiscalização e regulação, pela própria natureza de seu papel, demandam da associação uma série de exigências para que seu funcionamento ocorra dentro dos parâmetros legalmente estabelecidos, fazendo até mesmo com que algumas das metas da ADESCO sejam estabelecidas com base no atendimento a essas disposições. Rejane Ribeiro destaca que
O MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária) sempre faz exigências e cobranças; e ele fiscaliza. No caso da fábrica, por exemplo, se ele (o MAPA) fizer determinada cobrança, a gente ‘coloca ela’ como meta. Por exemplo: o teto de resfriamento que compramos, apesar de caro, a gente conseguiu com muito esforço, porque foi uma obrigação imposta pelo MAPA.
No que tange à regulação e atendimento a normas legais, ainda, a SUDEMA se coloca como um importante stakeholder, na medida em que é o órgão responsável pelo Parque Estadual onde as atividades de ecoturismo da ADESCO são desenvolvidas. Nas palavras de Francisco Cabral, “é a SUDEMA que pode determinar o que se pode fazer ou não dentro da mata; ele (o órgão SUDEMA) é responsável para que ela permaneça desse modo”.
Por fim, uma crítica contumaz a respeito da atuação do poder público foi a falta de proatividade de uma parcela das instituições em oferecer suporte à associação, especialmente nos momentos em que estava recém-criada. O relato de um dos entrevistados que, em razão do teor crítico do comentário, terá a identidade preservada neste trecho, frisa que:
Principalmente no início, não tinha ninguém que viesse atrás da gente. Tudo foi muito assim: queríamos (ADESCO) fazer algo, aí buscavávamos cursos, íamos atrás dos órgãos (públicos), e nem sempre tínhamos um ‘sim’ como resposta. Mas aí quando a Comunidade começou a entrar em evidência, a sair na imprensa, todos esses órgãos (públicos), ou a maioria deles, que fazem parte da nossa realidade hoje, que de certa forma ajudam e são parceiros, eles começaram a abrir as portas. Um exemplo disso a gente tem com a EMATER15, que auxilia nos projetos como PNAE27 e PAA28, que compram os alimentos da produção da agricultura familiar, e aí se encaixa a polpa de fruta (Doce Jardim). Tinha também – não tem mais – o COOPERAR aqui na cidade, que era nosso parceiro, que era vinculado ao Governo do Estado, e que auxiliava também a Comunidade nesses projetos rurais.
27 O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) é um programa do Governo Federal que oferece
alimentação escolar e ações de educação alimentar e nutricional a estudantes de todas as etapas da educação básica pública (FUNDO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 2018).
28 O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) tem como fim promover o acesso à alimentação e incentivar a
agricultura familiar. Para tanto, o programa compra alimentos produzidos por meio de agricultura familiar, com dispensa de licitação, e os destina às pessoas em situação de insegurança alimentar e nutricional e àquelas atendidas pela rede socioassistencial, pelos equipamentos públicos de segurança alimentar e nutricional e pela rede pública e filantrópica de ensino (SECRETARIA ESPECIAL DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL, 2018).
A participação nestes programas, aliás, reflete um contraponto aos obstáculos ou desafios que por vezes a legislação impõe; afinal, é também por força de lei que produtos oriundos de agricultura familiar são comprados pelas redes municipal e estadual de ensino, propiciando à ADESCO, através da polpa de fruta Doce Jardim, que atende aos pré-requisitos estabelecidos pelos programas, uma importante clientela e fonte de receitas.
Se há um olhar crítico negativo em relação a alguns atores sociais que orbitam na esfera pública, é notável que outros exemplos também nesta seara são diametralmente opostos, tendo sido ressaltados apenas fatores positivos. A organização mais enaltecida pelos entrevistados foi a Universidade Federal da Paraíba, que participou direta ou indiretamente – por meio de cursos oferecidos e da atuação de um docente de seu quadro, o professor Carlos Barreto, respectivamente – da idealização, incubação e desenvolvimento da ADESCO. Atualmente ainda exerce um papel ativo e estreito vínculo com a associação. A universidade também doou a madeira que deu origem às mesas e cadeiras do Vó Maria, tendo sido este fornecimento um importante insumo para a composição do restaurante.