O amicus curiae detém certos poderes processuais, o de apresentar memoriais, juntar documentos, sustentar oralmente suas razões, bem como recorrer da decisão que indefere sua intervenção.
Nessa perspectiva, se a intervenção do amicus curiae é uma necessidade do regime democrático e um imperativo na solução dos principais temas constitucionais, afigura-se coerente permiti-lo manifestar-se no processo das mais variadas formas, seja por escrito, seja oralmente, com amplos poderes processuais. (CUNHA JÚNIOR, 2004, p. 162).
Os poderes processuais do amigo da corte foram perfeitamente examinados pelo Ministro Celso de Mello, que os amplia consideravelmente, revendo anterior posicionamento na mesma ADI 2.130-SC:
Entendo que a atuação processual do amicus curiae não deve limitar-se à mera apresentação de memoriais ou a prestação eventual de informações que lhe venham a ser solicitadas. Cumpre permitir-lhe, em extensão maior, o exercício de determinados poderes processuais, como aquele consistente no direito de proceder à sustentação oral das razões que justificaram a sua admissão formal na causa. Assim permitindo, o STF não só garantirá maior efetividade e atribuirá maior legitimidade às suas decisões, como, sobretudo, valorizará, sob perspectiva eminentemente pluralística, o sentido essencialmente democrático dessa participação processual, enriquecida pelos elementos de informação e pelo acervo de experiências que o amicus
curiae poderá transmitir à Corte Constitucional, notadamente num processo
como o de controle abstrato de constitucionalidade, cujas implicações, sociais, econômicas, jurídicas e culturais são de irrecusável importância e de inquestionável significação. (STF, ADIN (MC) 2130-SC, rel. Min. Celso de Mello, j. 20.12.2000, DJU 2.2.2001).
A norma insculpida no §2º do art. 6º da lei 9.882/99 (BRASIL, 2009), que dispõe sobre o processo e julgamento da arguição de descumprimento de preceito fundamental, faculta ao relator autorizar a sustentação oral e juntada de memoriais, por requerimento dos interessados no processo:
Art. 6o Apreciado o pedido de liminar, o relator solicitará as informações às autoridades responsáveis pela prática do ato questionado, no prazo de dez dias.
§ 1o Se entender necessário, poderá o relator ouvir as partes nos processos que ensejaram a argüição, requisitar informações adicionais, designar perito ou comissão de peritos para que emita parecer sobre a questão, ou ainda, fixar data para declarações, em audiência pública, de pessoas com experiência e autoridade na matéria.
§ 2o Poderão ser autorizadas, a critério do relator, sustentação oral e juntada de memoriais, por requerimento dos interessados no processo.
Salienta Dirley da Cunha Júnior (2004, p. 166) que, a expressão “interessados” deve ser interpretada para abranger todos aqueles órgãos e entidades de representatividade social e política, inclusive o Advogado-Geral da União e o Procurador-Geral da República, e não somente os legitimados ativos da arguição.
Vale lembrar que o Excelso Supremo Tribunal Federal não admitia a sustentação oral do amicus curiae, porém, as razões da Suprema Corte não se justificavam pelos seguintes motivos:
Em primeiro lugar, o §2º do art. 7º da Lei Federal 9.868/99, fonte normativa para a intervenção do „amigo‟, não estabelece forma para a sua manifestação. Não havendo previsão legal a respeito, o ato processual (manifestação) pode ser efetivado por qualquer forma (oral ou escrita), desde que atinja a finalidade (que, no caso, é a de ajudar o tribunal no julgamento). Vale, pois, a regra do art. 154 do CPC. Em segundo lugar, a permissão de sustentação oral conferida aos representantes judiciais da requerente e das autoridades ou órgãos responsáveis pela expedição do ato (art. 10, §2º, Lei Federal n. 9.868/99) não pode servir como argumento de que, ipso facto, fica proibida a manifestação oral desde especial auxiliar do juízo. [...] Em terceiro lugar, também não se pode dizer que a concessão da palavra prejudicará a celeridade do julgamento. (DIDIER JÚNIOR, 2007, p. 361).
Todavia, “o STF reviu o seu posicionamento anterior, permitindo a sustentação oral do amigo da corte (ADI 2675/PE, rel. Min. Carlos Velloso e ADI 2777/SP, rel. Min. Cezar Peluso, j. 26 e 27.11.2003)”. (DIDIER JÚNIOR, 2007, p. 362).
A sustentação oral do amicus curiae deve ser admitida como corolário de sua atuação e para que, na última oportunidade possível, possa ele levar ao conhecimento de todos os Ministros votantes sua específica colaboração sobre a matéria, que, em última análise, justifica sua própria intervenção. (BUENO, 2008, p. 171).
Entendimento esse que Nelson Nery Júnior e outros acompanham (2002, p. 1.408), ou seja, admitem amplos poderes processuais ao amicus curiae, inclusive com a possibilidade de sustentação oral. Entendem, entretanto, que não tem o amigo do tribunal legitimidade recursal.
Nesse mesmo diapasão, o professor Ricardo de Oliveira Paes Barreto (2003, p. 195) ensina que diferentemente da assistência, quando a intervenção guarda interesse pessoal, temos a figura do amicus curiae, quando uma parte que não integra a lide originária, usualmente órgão público que não é parte no processo,
age como colaborador informal do julgador, não possuindo, entretanto, legitimação para recorrer das decisões ali proferidas.
Ressalva, Carlos Gustavo Rodrigues Del Prá (2004, p. 76), que o amigo do tribunal que intervém voluntariamente tem legitimidade recursal para impugnar a decisão que indefere a sua intervenção:
Em conclusão, pensamos que se deve reconhecer a legitimidade recursal do amicus curiae, especificamente para fins de impugnar a decisão que indefere a sua intervenção. A legitimidade decorreria de uma perspectiva potencial, ou seja, é legitimado a recorrer daquela decisão porquanto é legitimado a pleitear a sua intervenção. O interesse, de outra parte, adviria de uma perspectiva concreta e atual, ou seja, o efetivo indeferimento de sua intervenção.
Acompanha esse entendimento o professor Cassio Scarpinella Bueno (2008, p. 172), no sentido de que se aplica à hipótese a diretriz do sistema processual civil de que toda decisão monocrática proferida no âmbito dos tribunais é recorrível por intermédio do recurso de agravo. E nem poderia ser diferente, pois se considerar-se o inegável prejuízo que a decisão que indefere o ingresso do amicus
curiae tem aptidão para lhe causar, revelando-lhe, assim, seu interesse recursal.
A ausência de prazo legal para a manifestação do amigo da corte dá ensejo a uma controvérsia em sede da doutrina e na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal.
Segundo a lei, deferida a participação do interessado no processo, terá ele o prazo do art. 6º, parágrafo único da Lei 9.868/99, para apresentar a sua manifestação, que é de 30 dias. Embora não haja norma escrita, o amicus
curiae terá o mesmo prazo das partes para produzir a sua sustentação oral.
(BUENO FILHO, 2005, p. 26).
Evidencia Cassio Scarpinella Bueno (2008, p. 166) que diversos autores sustentam que, à falta de regra expressa, aplica-se ao amigo do tribunal o mesmo prazo de trinta dias que o parágrafo único, do art. 6º, da lei nº 9.868/99, que concede aos réus da ação direita de inconstitucionalidade para prestarem suas informações. Partilham desse entendimento Edgard Silveira Bueno Filho e Gustavo Binenbojm.
Revela Carlos Gustavo Rodrigues Del Prá (2004, p. 70) que a possibilidade de manifestação do amicus curiae não é ilimitada, ao contrário, tem um limite intransponível: o momento imediatamente anterior ao julgamento da ADIn. Assim, superada a fase instrutória, tendo o relator já lançado seu relatório, deverá indeferir pedidos de manifestação de novos amici curiae. Nada impede, porém, que,
aqueles que já admitidos se manifestem após esse momento, por memoriais ou mesmo sustentação oral.
Por ser uma forma de assistência, a intervenção do amicus curiae pode se dar a qualquer tempo, antes do julgamento da ação. É que tal como na assistência o amicus pegará o processo no estado em que se encontra. Desse modo, se o julgamento já tiver se iniciado com a leitura do relatório, não poderá promover a sustentação oral. Entretanto será admitida a entrega de memoriais aos demais julgadores. (BUENO FILHO, 2005, p. 26).
Sobre o mesmo assunto, Dirley da Cunha Júnior (2004, p. 164) ensina que apesar da razoabilidade do entendimento de que o prazo para a intervenção corresponde ao da prestação das informações, a melhor posição é aquela que fixa como termo final a data anterior ao julgamento da ação.