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2 POLÍCIA COMUNITÁRIA

1.1 POLÍCIA COMUNITÁRIA E SUAS INTERFACES

Os termos “polícia comunitária” e “policiamento comunitário” muitas vezes são usados como sinônimos, mas não têm o mesmo significado. “Polícia comunitária” é um termo mais amplo, que abrange várias instituições que devem ser envolvidas na melhoria da segurança de uma região, entre elas, a polícia (BONDARUK, SOUZA, 2004; SENASP 2007). Para Marcineiro (2009, p. 102) “A expressão ‘Polícia Comunitária’ remete a um significado mais abrangente, ou seja, contém todas as atividades relacionadas à resolução dos problemas que comprometem a qualidade de vida de uma comunidade.”.

O termo “policiamento comunitário” se refere à atividade de policiamento, que é feito exclusivamente pelas forças de segurança. Assim, uma das funções da polícia, dentro de um programa de polícia comunitária, é efetuar o policiamento comunitário (BONDARUK, SOUZA, 2004; SENASP, 2007). Para Marcineiro (2009, p.

103) “[...] o policiamento comunitário é o agir da polícia nas comunidades, ele tem como escopo a prevenção de delitos, porém, efetua, também, ações repressivas.”.

O termo polícia no Brasil é muito mais amplo do que as atividades desenvolvidas apenas pelas forças de segurança. O poder de polícia é exercido também pelo Estado através de outras agências, por isso é importante a diferenciação dos termos, para que se compreenda que a Polícia Comunitária envolve muito mais do que apenas as ações específicas de policiamento, exercidos pela polícia militar. (MARCINEIRO, 2009)

A polícia comunitária envolve o relacionamento entre a comunidade e a polícia, de forma a buscarem juntos soluções para os problemas enfrentados, principalmente os problemas que podem refletir em desordens públicas. Para conseguir atuar em situações que não são eminentemente de polícia, é necessário o envolvimento de outras instituições ou grupos, o que autores como Trojanowicz e

Bouqueroux (1994) e Bondaruk e Souza (2004) chamam de os “Seis Grandes”, que são: “a polícia”; “a comunidade”; “as autoridades civis eleitas”; “a comunidade de negócios”; “a mídia”; e “as outras instituições”. No Quadro 1 apresentamos os seis grandes da polícia comunitária.

QUADRO 1 - OS SEIS GRANDES DA POLÍCIA COMUNITÁRIA

1º Grande A POLÍCIA 2º Grande A COMUNIDADE

3º Grande AS AUTORIDADES CIVIS ELEITAS 4º Grande A COMUNIDADE DE NEGÓCIOS 5º Grande AS OUTRAS INSTITUIÇÕES 6º Grande A MÍDIA

FONTE: O AUTOR (2019).

No Brasil “a polícia”, que representa o “primeiro grande” da polícia comunitária, tem as suas funções divididas em cinco instituições policiais, além da guarda municipal, conforme o artigo 144 da Constituição Federal (CF), conforme podemos observar em seu texto.

Art. 144. A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos seguintes órgãos:

I - polícia federal;

II - polícia rodoviária federal;

III - polícia ferroviária federal;

IV - polícias civis;

V - polícias militares e corpos de bombeiros militares. (BRASIL, 1988)

Os parágrafos 1º ao 10º do artigo 144 da CF, regulamentam e atribuem as funções a cada uma destas polícias. Cabe ressaltar que o artigo 8º ainda possibilita a criação de guardas municipais, que também atuarão no sistema de segurança pública. Como as funções são compartimentadas, cabendo a uma instituição o policiamento preventivo (antes do delito acontecer) e a outra instituição o policiamento repressivo (investigação depois da eclosão do delito), no Brasil entendemos que as polícias estaduais são de ciclo incompleto. (BRASIL, 1988;

MARCINEIRO, 2009)

Desta forma, ao considerar “a polícia”, dentro dos “seis grandes” da polícia comunitária, devemos incluir todas estas instituições policiais. Desde o patrulhamento preventivo, realizado pelos policiais militares comunitários, quer seja a pé, a cavalo, em viaturas, incluindo o atendimento de ocorrências pela polícia civil e pela polícia científica, caso tenha ocorrido uma violação de bens jurídicos, tudo deve ser prestado de uma forma eficiente e integrada, de forma que a população confie no trabalho policial. (TROJANOWICZ, BUCQUEROUX, 1994; BONDARUK, SOUZA, 2004)

O envolvimento das instituições policiais, “a polícia” dentro dos “seis grandes” da polícia comunitária ainda depreende a participação, nas ações de polícia comunitária de todos os membros destas instituições, desde os chefes até os patrulheiros mais modestos (TROJANOWICZ, BUCQUEROUX, 1994; BONDARUK, SOUZA, 2004). Como ficou claro, nem todos os policiais vão realizar ações de policiamento comunitário, mas apoiar as ações de polícia comunitária, quer seja na divulgação das ações da polícia comunitária, apoio logístico, fornecimento de recursos humanos, ou seja, tudo o que estiver ao alcance de todos os policiais, deve ser feito.

Se o chefe é importante porque decide, os demais colaboradores são importantes porque fazem. A resistência tem força equivalente da cúpula para a base e da base para a cúpula. Estando o chefe e os demais funcionários comprometidos a estratégia é institucionalizada.

(MARCINEIRO, 2009, p. 193)

Infelizmente a resistência interna tem se mostrado uma dificuldade na implantação dos programas de polícia comunitária no Brasil. Como o constatado no programa Ronda do Quarteirão, implantado pela polícia militar do Ceará, onde “A separação que existe dentro da própria PM é apontada pelos policiais do Ronda como a maior resistência e tem colocado os policiais do Ronda e o restante da PM em situação de tensão, sobretudo no que toca às condições de serviço.”. (SOUSA, 2008, p. 84)

O programa Ronda do Quarteirão enfrentou

[...] uma onda de despeito, inveja e sabotagem por parte de policiais militares que compunham o Policiamento Ostensivo Geral (POG), ou seja, o modelo de polícia profissional tradicional, desde praças a oficiais, [que] teve

início antes mesmo da execução do Programa. (CRUZ, BRASIL, 2012, p.

333)

O fator da resistência interna às inovações foi constatado por Bayley e Skolnick (2002, p. 223-224)

Quais os obstáculos se colocam no caminho da implementação de uma política de prevenção do crime voltada para a comunidade? Talvez os maiores sejam aqueles que se encontram dentro das organizações de polícia tradicionais. Toda e qualquer organização resiste a mudanças, mas é difícil imaginar uma mais resistente do que a polícia. Não é fácil transformar os cavaleiros azuis em organizadores da comunidade.

Os “cavaleiros azuis” a que se refere são os policiais estadunidenses, uma referência à cor do uniforme utilizado por eles.

A sensibilização dos demais atores para participar da polícia comunitária, os outros cinco dos “seis grandes”, deve partir da polícia, por isso, toda a instituição policial deve estar sensibilizada, para então sensibilizar o restante dos envolvidos da importância da polícia comunitária (MARCINEIRO, 2009).

O “segundo grande” da polícia comunitária, “a comunidade”, deve se envolver, segundo Trojanowicz e Bucqueroux (1994, p. 3) “[...] incluindo todo mundo, desde os líderes comunitários formais e informais, tais como os presidentes de associações cívicas, sacerdotes e educadores, até os organizadores de atividades comunitárias e até os cidadãos comuns da rua.”.

A participação da comunidade é fundamental. No Brasil, a Constituição Federal de 1988 chama a comunidade à participação na segurança pública, no caput do artigo 144: “A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio [...]”. (BRASIL, 1988, grifo nosso)

[...] a segurança pública não é só repressão e não é problema apenas de polícia, pois a Constituição, ao estabelecer que segurança é dever do Estado, direito e responsabilidade de todos (art. 144), acolheu a concepção [...] segundo a qual é preciso que a questão da segurança seja discutida e assumida como tarefa e responsabilidade permanente de todos. (SILVA, 2009, p. 779)

Todos somos responsáveis pelas ações de segurança em nossa comunidade. Daí a importância da participação da comunidade no processo, podendo indicar os problemas, e discutir as possíveis soluções para tais. A

participação comunitária é fundamental para a realização de programas de polícia comunitária (SENASP, 2007). A participação comunitária se dá através das reuniões dos conselhos comunitários de segurança, associações de moradores, da indicação de prioridades na solução de problemas, entre outras formas. Sem a mobilização e participação da comunidade nos assuntos de segurança, a polícia não alcança os mesmos resultados no enfrentamento à criminalidade. (MARCINEIRO, 2009)

O componente “as autoridades civis eleitas”, que é o “terceiro grande” da polícia comunitária, é composto pelos políticos, do executivo ou legislativo, que possam ter impacto nas decisões relativas à melhoria das condições de cidadania da comunidade. (TROJANOWICZ, BUCQUEROUX, 1994; BONDARUK, SOUZA, 2004). Por constituírem autoridades detentoras do poder político, a aproximação com os políticos deve ser feita de maneira muito cautelosa, deixando claro que haverá ganhos nas condições de cidadania daquela comunidade envolvida, o que pode gerar ganhos políticos para estas autoridades. Detentores do poder de alavancar ou arruinar o projeto, devem ser tratados com cautela e profissionalismos, mostrando que as parcerias poderão gerar ganhos para todos. (MARCINEIRO, 2009)

Apesar de fazer parte da comunidade, “a comunidade de negócios” é tratada de forma apartada entre os “seis grandes”. Ela é o “quarto grande” da polícia comunitária que vamos tratar aqui. Por comunidade de negócios entendem todos os comércios e empresas, de qualquer tamanho, que realizem suas atividades na área em que estão sendo aplicadas as ações de polícia comunitária (TROJANOWICZ, BUCQUEROUX, 1994). A participação, tal qual na “comunidade” está na participação nas decisões relativas ao policiamento, porém, “a comunidade de negócios” também poderá prestar apoio financeiro ao policiamento comunitário (BONDARUK, SOUZA, 2004). Além disso, “Este grupo é constituído por pessoas empreendedoras que têm destacada habilidade criativa e podem ser muito úteis na identificação de formas criativas para a resolução de problemas.”. (MARCINEIRO, 2009, p. 195)

No relacionamento com “a comunidade de negócios” é muito importante deixar claro que, ao auxiliar as atividades de policiamento comunitário, eles não estão comprando um policiamento privilegiado, e sim estão colaborando para o

interesse comum, não havendo tratamento diferenciado deste ou daquele colaborador. (SENASP, 2007; MARCINEIRO, 2009)

As “outras instituições”, que consistem no “quinto grande” da polícia comunitária, são todas as envolvidas com educação, religião, justiça, saúde, ou quaisquer outros serviços públicos. Aqui incluímos, por exemplo, a Prefeitura, as Secretarias municipais e estaduais, e o Ministério Público. Como são, muitas delas, instituições públicas (municipais, estaduais ou federais), devem ser as primeiras a serem contactadas quando da aplicação de um programa de polícia comunitária em determinada região, pois o seu apoio na mobilização comunitária será fundamental.

(MARCINEIRO, 2009)

O último dos “seis grandes” da polícia comunitária é a “a mídia”, que terá a contribuição não apenas na divulgação dos eventos realizados pela polícia comunitária, mas também, por sua formação e capacidade, poderão auxiliar na conscientização da comunidade da importância do engajamento e participação neste programa (MARCINEIRO, 2009). E quando se trata de “a mídia” não são apenas as grandes empresas de comunicação que devem ser atingidas. A imprensa local, rádios comunitárias, jornais do bairro, redes sociais locais, também devem ser envolvidos, por terem uma grande penetração na comunidade local. (SENASP, 2007)

Com o envolvimento e a participação de todos os “seis grandes” é possível que haja benefícios para todos os envolvidos.

Se as forças policiais encorajarem a prevenção baseada na comunidade, enfatizarem a interação com o público fora das situações de emergência, aumentarem a contribuição do público na definição de políticas e descentralizarem o comando, poderão ser creditados benefícios substanciais, tanto para a comunidade como para a polícia. (SKOLNICK, BAYLEY, 2006, p. 93)