2 POLÍCIA COMUNITÁRIA
1.2 PRINCÍPIOS DO POLICIAMENTO COMUNITÁRIO
Na seção anterior indicamos quem são as instituições, grupos e pessoas que podem, e devem estar envolvidos nas decisões e deliberações a respeito de segurança, em uma área com o policiamento comunitário, tal qual, uma área policiada por Unidade Paraná Seguro. Cabe relembrar que as UPSs têm a sua doutrina de policiamento fundamentado sobre a filosofia de polícia comunitária, por
isso a importância do estudo aprofundado desta filosofia para se compreender as UPSs.
Como foi anteriormente destacado, a filosofia de polícia comunitária se difundiu entre as polícias no mundo, porém, constata-se que as práticas indicadas como de polícia comunitária nem sempre cumprem os seus princípios fundamentais.
Podemos identificar este problema, quando citam sobre as suas pesquisas junto a instituições policiais, asseveram Skolnick e Bayley (2006, p. 15-16)
[...] ao mesmo tempo que todo mundo fala sobre ele [o policiamento comunitário], o consenso acerca de seus significado ainda é pequeno.
Como resultado, inovações práticas sob a rubrica do policiamento comunitário não são muito comuns. Em alguns lugares, houve mudanças genuínas nas práticas policiais. Em outros, o policiamento comunitário é utilizado para rotular programas tradicionais, um caso clássico de colocar vinho velho em garrafas novas.
Atento a este movimento, Goedert Filho (2016) realizou uma pesquisa documental tentando identificar se as práticas realizadas pela Polícia Militar do Paraná, classificadas, ou não, pela instituição, como prática de polícia comunitária, poderiam ser consideradas “ações comunitárias”. Em sua pesquisa encontrou ações que não passavam de mero assistencialismo, porém também encontrou ações comunitárias, concluindo que
[...] as práticas policiais, de interações ou intervenções, quando pautadas nos direitos humanos, transcendem o assistencialismo e o entretenimento, trazem esperança para o futuro e alcançam as relações diárias da PMPR com a sociedade, qualificando-se como novo paradigma na Segurança Pública. (GOEDERT FILHO, 2016, p. 151)
Assim, como as práticas de polícia comunitária vão ocorrer com as mesmas instituições policiais que temos, apenas havendo uma mudança de paradigma e de filosofia de trabalho, se faz necessário haverem princípios que indiquem quais práticas de fato representam um policiamento cooperativo entre a polícia e a comunidade (MARCINEIRO, 2009).
A tentativa de organizar estes princípios foi escrita por Trojanowicz e Bucqueroux (1999). Ao todo, eles indicaram dez princípios que norteiam as ações de polícia comunitária. São estes: 1. Filosofia e estratégia organizacional; 2.
Comprometimento com a concessão de poder à comunidade; 3. Policiamento descentralizado e personalizado; 4. Resolução preventiva de problemas, a curto e
longo prazo; 5. Ética, legalidade, responsabilidade e confiança; 6. Extensão do mandato policial; 7. Ajuda para as pessoas com necessidades específicas; 8.
Criatividade e apoio básicos; 9. Mudança interna; e 10. Construção do futuro.
Por estes princípios a polícia se compromete a realizar uma mudança na sua maneira de agir, adotando a polícia comunitária como uma nova maneira de pensar
“[...] que permite à polícia e às pessoas trabalharem estreitamente juntas em novas maneiras para resolver os problemas da criminalidade”. (TROJANOWICZ, BUCQUEROUX, 1999, p. 9)
O foco da polícia passa a ser preventivo, comprometendo-se, os escalões superiores, a conceder o poder de decisão aos policiais subordinados. A instituição policial também se comprometerá em conceder poder à comunidade nas decisões das ações de segurança pública. (TROJANOWICZ, BUCQUEROUX, 1999)
A Polícia Comunitária, apesar de dispor e de se valer de novas técnicas e tecnologias para o exercício da prática policial, acredita que nada produza resultados mais satisfatórios do que seres humanos dedicados, imbuídos do espírito de cooperação, trocando experiências e trabalhando juntos.
(MARCINEIRO, 2009, p. 113)
Destes princípios também se extrai que o policial comunitário deverá trabalhar numa localidade em que ele é conhecido, e o conhecem. Isso minimiza a ação psicológica do anonimato, que pode incentivar práticas desviantes de conduta por parte dos profissionais de segurança pública (MARCINEIRO, 2009). Para que haja esta personalização do serviço policial, é necessária a interação policial-comunidade, uma construção que deve acontecer ao longo do tempo, por isso, os policiais comunitários devem permanecer prestando serviços em uma mesma comunidade por longos períodos de tempo, evitando as transferências comuns no seio policial.
Os policiais comunitários devem realizar a “[...] ampliação das ações policiais para além das situações emergenciais relacionadas ao crime, alcançando práticas preventivas.” (GOEDERT FILHO, 2016, p. 119). Prestando apoio para “[...] as pessoas com necessidades específicas” (TROJANOWICZ, BUCQUEROUX, 1999, p.
13). A aproximação entre a comunidade e o policial, havendo este conhecimento mútuo, levará a uma prestação de serviços mais direcionada para a realidade local.
Além disso, o agir ético e responsável do policial levará a uma maior confiabilidade
da comunidade local em suas ações. (BONDARUK, SOUZA, 2004; MARCINEIRO, 2009)
Com base nos elementos, características e princípios até aqui estudados, podemos, então, definir um conceito do que é o policiamento comunitário: “O Policiamento Comunitário, portanto, é uma filosofia de patrulhamento personalizado de serviço completo, onde o mesmo policial trabalha na mesma área, agindo numa parceria preventiva com os cidadãos, para identificar e resolver problemas.”
(SENASP, 2007, p. 42)
Fundamentado neste conceito, Ribeiro e Montandon (2014, p. 235) indicam que a “[...] descentralização, envolvimento com a comunidade e ênfase na solução de problemas passaram a ser identificados como elementos estruturantes do próprio conceito.”.
A descentralização, como elemento estruturante, compreende a delegação de decisões sobre as ações para comandantes de patente mais baixa, que estão mais próximos à comunidade e que podem discutir e chegar a uma conclusão junto com a comunidade a que prestam serviço. A estes policiais, mais próximos da comunidade, caberá aplicar, avaliar e aperfeiçoar as atividades desenvolvidas pela polícia, adaptando-as para a realidade local. Esta participação da população nas decisões tomadas quanto às ações de segurança configura o segundo elemento estruturante. A participação da comunidade vai além de propostas de ações a serem tomadas, envolvendo também a fiscalização do trabalho policial. (RIBEIRO, MONTANDON, 2014)
Além da descentralização e da participação comunitária, o conceito de policiamento comunitário está fundamentado no preceito da ênfase na solução de problemas. (RIBEIRO, MONTANDON, 2014)
Nesse cenário os policiais, em conjunto com as lideranças comunitárias, devem ser capazes de mapear as principais demandas da comunidade - que, muitas vezes, não incluem apenas os crimes ocorridos na área -, priorizar as mais graves ou que causem mais clamor, compreender os fatores que determinam a ocorrência do crime, intervir sobre eles e informar à comunidade os resultados da ação em termos de prevenção do delito.
(RIBEIRO, MONTANDON, 2014, p. 236)
Atentos para a dificuldade de se definir o que é o policiamento comunitário, na prática, e observando programas de polícia comunitária em cinco continentes,
Skolnick e Bayley (2006) observaram que existem quatro elementos, quatro regras, que normalmente são aplicadas nos programas de policiamento comunitário e deixaram de ser apenas retórica e passaram a ser executados na prática.
Prevenção comunitária do crime, reorientação do patrulhamento, aumento da responsabilização e descentralização do comando. São esses, assim, os quatro componentes programáticos que sempre se repetem quando o que se traz para a ideia de policiamento comunitário é mais do que apenas um discurso vazio. (SKOLNICK, BAYLEY, 2006, p. 35)
Podemos observar que para a atividade de polícia comunitária ser realizada, alguns elementos são apontados como essenciais pelos mais diversos autores: a participação comunitária; a descentralização do comando e o foco na prevenção são os principais deles. (TROJANOWICZ, BUCQUEROUX, 1999; SKOLNICK, BAYLEY, 2006; ZOUAIN, RICCIO NETO, ZAMITH, 2006; RIBEIRO, MONTANDON, 2014)
Além desses elementos acima citados, para a implantação de um programa de polícia comunitária, segundo Zouain, Riccio Neto e Zamith (2006) é necessário também convencer as autoridades: “O convencimento do Estado e das autoridades políticas e legais para respaldar as ações. Necessariamente, é impositiva a geração de uma aliança entre cidadão-Estado como forma de assunção de um novo modelo”.
(ZOUAIN, RICCIO NETO, ZAMITH, 2006, p. 379)
Para os autores também é necessário o convencimento dos policiais sobre a importância do programa a ser implantado: “O convencimento da polícia, de uma forma geral, a se sujeitar a mudar os seus métodos convencionais e aceitar uma interferência externa para delimitar o campo de abrangência e definir o escopo de atuação.”. (ZOUAIN, RICCIO NETO, ZAMITH, 2006, p. 379)
Dentro dessa gama de possibilidades de atuação comunitária das polícias, vamos agora indicar o que os pesquisadores apontam como ações de policiamento comunitário ocorridos no Brasil, e como o governo federal tem incentivado que mais programas deste tipo sejam implantados pelas polícias estaduais.