2. Capítulo I: Ditadura e reparações – Memórias e poder
2.6. Sobre “Homens de Ferro”
2.6.3. Política e transbordamento
Ao tratarem das relações entre ferroviários e política partidária sobressai no testemunho de Valter Domingues Costa, filho do ferroviário Walter Quaresma, uma interessante observação no processo eleitoral de seu pai, que foi eleito para dois mandatos como vereador em Macaé. Sendo cassado em 20 de abril de 1964, em Reunião Extraordinária da Câmara Municipal de Macaé, “consoante à intervenção necessária, justa e patriótica das Forças Armadas, no sentido de preservação da paz e liberdade do povo”.45Assim como sobressai no testemunho do ferroviário Lauro Martins, as relações dos ferroviários macaenses com a eleição para presidência do país.
45 Ata da Reunião Extraordinária realizada em 20 de abril de 1964. Relatório da Comissão Municipal da Verdade de Macaé. Câmara Municipal de Macaé (RJ): 2016. p. 47 e 48.
Seja em âmbito local ou nacional, é importante atentar para a questão da legenda partidária à qual se vinculavam esses candidatos ferroviários. Embora no trecho seguinte do testemunho de Valter Domingues apareça o registro de que a legenda partidária não era o mais importante, é preciso entender qual o sentido de suas palavras. Considerando que a representação política exercida por um candidato ferroviárionunca fora a expressão de uma vaidade política individual. Mas sim o desejo de representação, no meio parlamentar, da classe trabalhadora à qual ele representava. Se na formação dessa classe os ideais originários do Partido Comunista haviam balizado ideologicamente a sua conscientização, naturalmente, esses ideais precisavam estar presentes na legenda partidária à qual os ferroviários se vinculavam. Considerando, no entanto, as constantes perseguições ao Partido Comunista e a inconstância da legalidade de sua legenda, o Partido Socialista Brasileiro passou a ser uma opção estratégica no cenário político nacional. No fundo, como veremos no terceiro capítulo, os ferroviários com identidade sindical sólida eram identitários do “Partidão”, embora, politicamente fizessem se representar por partidos mais brandos e legalmente aceitos.
Retomando, portanto, ao processo eleitoral que levou seu pai à vereança, Valter Domingues Costa respondeu que, “se lembrava como se fosse aquele dia”. E disse que:
A campanha para a eleição e depois para a reeleição do meu pai era muito simples.
Como era um dos candidatos do setor ferroviário, sindicalista, e a massa eleitoral que representava sua classe era preponderante no município, era fácil concorrer com o apoio de sua classe.
Como os ferroviáriosrepresentavam uma massa eleitoral altamente conscientizada e unida em torno de seu sindicato, uma candidatura oriunda da organização classista era tranquila.
Não era importante a legenda político-partidária que apoiasse uma candidatura dessa natureza. Mas o Partido Socialista Brasileiro, PSB foi uma legenda aliada às candidaturas sindicalistas até mesmo pela sua própria ideologia.
(Testemunho do Sr. Valter Domingues Costa para a Comissão Municipal da Verdade de Macaé – em 04 de dezembro de 2014. Relatório da Comissão Municipal da Verdade de Macaé. Câmara Municipal de Macaé (RJ): 2016. p. 85 e 86.)
Importa destacar nessas anotações o sentido de simplicidade apontado por Valter Domingues Costa em seu testemunho, já que esse senso refere-se a uma época na qual a consciência política ferroviária já era algoconsistente no município e a possibilidade da eleição para vereador se dava com certa tranquilidade. Tanto que, em 1964, além de Walter Quaresma (seu pai), foram também cassados os vereadores Alberto Ramires e Alcebíades Vieira. Três vereadores ferroviários, além de seus suplentes, representantes de outras
categorias trabalhistas, Ricardo Moacir Leite e Santos (médico), Abílio de Miranda (professor) e Valdir Curvelo (ferroviário). No entanto, historicamente, não podemos imaginar que a construção desse lugar na sociedade macaense tenha sido fácil, mas resultado das lutas da categoria desde início do século XX contra as posições patronais dos ingleses da Leopoldina. Ou seja, estamos tratando de um tempo em que boa parte do trabalho já tinha sido feito, embora em termos políticos o trabalho nunca fique totalmente pronto. É um processo contínuo, como aparece no registro das memórias de Lauro Martins:
(Sobre representatividade nas eleições locais) Sim, a gente sempre colocava nossos representantes aqui (na Câmara), um número até bom, geralmente os ferroviários. Não só existiam os ferroviários de esquerda, como os contrários a nós também.
Não era todo ferroviário que era de esquerda, tinham aqueles que eram contra o socialismo, não apoiavam as greves e eram contra os companheiros de esquerda que conseguíamos eleger lá na Câmara. O Walter Quaresma e o Aristóteles eram de esquerda, se candidataram, alguns ferroviários votaram neles. Houve até um caso de um ferroviário de direita, que era presidente da Câmara na época, que ajudou a cassar o mandato do Rombiara, o nome dele era Roberto Garrido.
(Sobre eleições nacionais) Jango tinha uma relação muito próxima com os ferroviários através de Batistinha, Presidente do Sindicato dos Ferroviários. Batistinha chamava-se Temisthócledes Batista, um homem inteligentíssimo e muito sério, lutava pela classe dos ferroviários, um ícone. Acho difícil que haja outro de seu quilate e com sua postura como líder sindical.
Eram tão próximos, ele e Jango, que no exílio de Jango no Uruguai ele foi junto, tinham uma relação muito afetiva.
Quando Jango assumiu o poder nós estávamos no auge de nossa força política no Brasil (as esquerdas), Juscelino havia nos aberto um leque muito grande; a UDN fez uso do marketing na candidatura de Jânio da Silva Quadros, ele estava em evidência como governador de São Paulo. Os ferroviários tinham compromisso com Jango e Jango era muito forte na classe operária. Ele participava de uma eleição inusitada, o candidato a presidente tinha chapa só de candidato a presidente e outra chapa só para candidato a vice-presidente. No final, Jânio veio com Milton Campos candidato a vice da UDN, nós apoiamos a candidatura de Marechal Henrique Batista Duffles Teixeira Lott, que não gostava da gente e nem nos queria em seu palanque, mas Jango abriu o palanque para os ferroviários, fazendo uma campanha disparada para vice-presidente.
Jango deu uma surra no candidato a vice de Jânio e no próprio Jânio. O vice acabou por ter mais votos que o próprio presidente, pois era simpático e aguerrido na questão sindicalista, era um sucessor de Getúlio Vargas.
Jango tinha sido ministro do trabalho, instituindo o salário mínimo, o 13º salário e uma série de conquistas do trabalhador. Os trabalhadores por sua vez estavam com Jango para o que desse e viesse.
(Em relação às medidas _ Reformas de Base_ anunciadas pelo então presidente João Goulart após o episódio do parlamentarismo e o Golpe de 1964) Não só para o golpe militar, mas também para a insatisfação da classe conservadora, pois ele (Jango) anunciou os projetos da reforma agrária, foi para os conservadores um baque terrível.
Pois a reforma agrária seria realizada por bem ou na marra, o país não poderia mais ter essa característica colonial, com latifúndios concentrados nas mãos de meia dúzia de famílias.
A reforma agrária não só era um ponto base de seu governo, como também ele queria que o lucro produzido no país permanecesse aqui, o que não ocorria naquele
momento, pois o país não tinha grandes empresas nacionais, somente multinacionais.
Além, é claro, de taxar grandes fortunas, para diminuir as desigualdades sociais do Brasil, Jango foi quem arrancou com estas ideias no governo dele, para começar a traçar as linhas de um país mais humano e com mais igualdade. Jango pagou caro por isso, mas não abrimos mão dele e ficamos com ele até o fim.
(Testemunho do Sr. Lauro Martins para a Comissão Municipal da Verdade de Macaé – em 19 de junho de 2014. Relatório da Comissão Municipal da Verdade de Macaé. Câmara Municipal de Macaé (RJ): 2016. p. 68 e 69.)
Além de todas as prerrogativas históricas que vinculavam os trabalhadores ao então Presidente João Goulart, a bandeira da reforma agrária, de longe, vinha sendo motivo de discussões no município de Macaé, tendo nos anos 1950 se tornado um campo de lutas colaborativas dos ferroviários.
A exemplo das Ligas Camponesas em Pernambuco, o ideário da reforma agrária em Macaé esteve vinculado ao também nordestino, Generino Teotônio de Luna. Liderança nata, que ao se estabelecer em Macaé aproximou-se dos ferroviários e de outras lideranças sensíveis à causa para organizar os camponeses na região rural da Fazenda Virgem Santa (hoje bairro Virgem Santa), conforme abordaremos no quarto capítulo desse trabalho. Com a criação de uma associação de agricultores, desfiles anuais no Dia do Trabalhador e a posse de terras, Generino dialogava com as propostas de João Goulart, mas sucumbiria em seus propósitos concomitantemente à queda do presidente.
Contou-nos o Sr. Lauro que, já ocupando o cargo de Presidente da República, Jango participou de um encontro informal com ferroviários no Rio de Janeiro, por intermédio do líder sindicalista Batistinha, no qual ele teve a oportunidade de estar presente. A importância da categoria ferroviária no país e o apoio à Campanha da Legalidade para que Jango assumisse, mesmo sob ameaça, em 1961, fizeram do Presidente muito próximo aos ferroviários brasileiros. Segundo o Sr. Lauro, seria impossível esquecer a simplicidade de Jango e a sua capacidade de “inflamar” os trabalhadores no incentivo e desejo de construção de um Brasil novo, falando a eles ali tão proximamente. Recordou o ferroviário que, o Presidente dizia que não era possível o país continuar com características coloniais mantidas até então. E que a reforma agrária era uma prerrogativa urgente para a democratização interna, diminuição das desigualdades e do crescimento desordenado das cidades, ao mesmo tempo, que seria fundamental para a autonomia do país. Discurso que, segundo o Sr. Lauro,
fez com que ele e outros ferroviários presentes voltassem para Macaé cheios de ânimo, como se estivessem prenhes de esperança no presidente e no país que poderia ser construído.46