2. Capítulo I: Ditadura e reparações – Memórias e poder
2.6. Sobre “Homens de Ferro”
2.6.5. Prisões e torturas
Após a consumação do golpe, inúmeras prisões arbitrárias foram realizadas em Macaé e região. Considerando o perfil ferroviário-sindicalista da cidade, a ordem era, antes de qualquer coisa, prender para depois averiguar. O que fez com que um número enorme de trabalhadores, oriundos da ferrovia ou não, passassem por situações até então não imaginadas para uma cidade politizada, porém tranquila, como era o caso de Macaé.
A despeito das justificativas golpistas, a ditadura inaugurou no país um novo marco regulador em relação às prisões. Pela primeira vez o preso deixava de ser um indivíduo considerado uma ameaça para a sociedade, oriundo das classes marginalizadas do sistema, para se configurar como indivíduos trabalhadores, com famílias constituídas e endereços fixos. Além, de no caso de Macaé, ser conhecidos por todos.
De locus do controle social as prisões da ditadura passavam à condição de locais de coibição de formas de pensamento e, portanto, de punições políticas. Abrindo espaços para torturas e eliminações referentes ao novo sistema político vigente, e não em relação ao controle e à segurança da sociedade como um todo. Por outro lado, a manutenção da ambiguidade que acompanha a história das prisões no mundo não deixava de estar presente naquele contexto. Já que, se a princípio se prendia para proteger a sociedade de um problema social, esse problema havia obrigatoriamente que ter sido produzido por ela mesma. Da mesma forma que o avanço do sistema capitalista e o convívio com as disparidades sociais
geradas pelo sistema eram responsáveis pelo avanço da politização dos trabalhadores, da formação dos sindicatos e, por fim, das expectativas de conseguirem condições políticas e sociais melhores. Retornando, portanto, ao velho jogo de forças apontado por Poulantzas.
Mantinham-se através da prisão as consequências de cunho originalmente religioso ligado ao verbo penitenciar: o aviltamento, a humilhação, e a exclusão social como características tradicionalmente produzidas pela história das prisões, de modo geral (AGUIRRE et al., 2009). Embora, em termos de ditadura, nada fosse generalista.
Das memórias de Márcia Certório, ressurge o dia da prisão do seu pai, Alberto Certório, na Estação Ferroviária de Conceição de Macabu – RJ:
Meu pai foi preso porque ele não fugiu. Ele ficou no lugar. Ele não abandonou o trem.
Os amigos que não foram presos saíram do local. É como se deixassem o trem à deriva. Meu pai não saiu do lugar. Ele permaneceu no lugar. Era como se o meu pai dissesse: “_Não tenho nada a temer. Vou ficar aqui.” Entendeu?
(...)
Minha irmã diz que depois de preso em Conceição de Macabu, meu pai foi trazido para Macaé. E daqui de Macaé foi levado para o Rio de Janeiro.
Minha irmã conta isso... Ela lembra de muita gente em casa, na casa da minha mãe, sem saber para onde meu pai foi levado. E a minha irmã mais velha diz que foi por intermédio do político Celso Peçanha49, que foi através de telefonemas dele, depois de bastante tempo, que se descobriu onde meu pai estava. E foi a partir daí que meu pai foi solto. Se não fosse ele, meu pai ia sumir...
E o relato do meu pai, quando ele chegou, foi de que sofreu tortura, de que ele ficou nu em cima de latas, de duas latas, e ali ele era interrogado para dizer o que ele não sabia dizer. Quando interrogavam ele, levavam o amigo dele (Luiz Peruzzi), que foi preso com ele na Estação de Trem de Conceição de Macabu, para outra sala. E faziam barulho. E a gente sabe que eles tinham recurso de gravação, como se estivessem torturando e falavam... “_Esse aqui já era, virou comida de peixe.” E ele foi ficando ali, sem comida, sem nada, só naquela tortura ali... E o meu pai, depois, quando foi solto, foi para a casa da irmã dele em Friburgo. Uma irmã casada (já falecida). E a família deu apoio a ele. A família cuidou dele em Nova Friburgo. Minha irmã conta assim... chegou lá como um mendigo, na casa da irmã dele.
(...)
(Após a prisão e o retorno do pai para casa)Meus irmãos mais velhos que presenciaram e tem esse tipo de lembrança contam que ele ficou muito deprimido, chorava muito. Não parava de chorar. E não podia ouvir barulho.
Pelo que eles contam, eu acho que a tortura foi física e psicológica. Meu pai era um homem alto, muito alto. Meu pai ficar em cima de uma lata nu. O constrangimento.
Ele não tirava a roupa perto de ninguém.
Para a época, na década de 60, era desonroso estar nu na presença de outra pessoa, de outro sexo, em cima de uma lata, tendo que se equilibrar, ouvindo coisas ditas em outra sala, sendo perguntando a respeito de coisas que “você” não sabe e sem entender
49 Político campista, ligado ao PTB; governador do Estado do Rio de Janeiro (1961-1962) pelo PSD.
o porquê você está ali. A violação da integridade vai a um nível que não temos legitimidade para falar sobre.
Você imagina... meu pai era um homem muito íntegro. Imagina uma pessoa passar isso aí... Os relatos que eu tenho são esses. Ele não falava sobre isso. Eu posso dizer para vocês que meu pai nunca falou sobre isso comigo. O que eu sei é tudo relato dos meus irmãos mais velhos.
(Esse assunto) Ainda é um tabu. Não sei se vocês viram o depoimento da Miriam Leitão (Jornalista). Ela colocou na mídia, depois de muito tempo sem falar sobre isso, ela falou. Por que ela não falava? Eu entendo que meu pai fez a mesma coisa que a Miriam: deu curso à vida. Ele optou pela vida, quando escolheu esse tipo de critério (o silêncio). E tal como a Miriam Leitão fez (...). E vai colocando tudo na gaveta, conforme o depoimento que deu à Marília Gabriela.50E ela não sabe se um dia abrirá essa gaveta.
(Testemunho da Sra. Márcia Certório para a Comissão Municipal da Verdade de Macaé – em 24 de setembro de 2014. Relatório da Comissão Municipal da Verdade de Macaé. Câmara Municipal de Macaé (RJ): 2016. p. 79-81.)
A situação da prisão de Alberto Certório, em seu local de trabalho, na Estação Ferroviária de Conceição de Macabu, denota em primeiro lugar dois parâmetros em encontro.
Duas formas de ações divergentes em suas origens e, portanto, em estranhamento e confronto.
O testemunho de sua filha, Márcia Certório, o tempo todo referencia a postura íntegra e reservada de seu pai, apontando para um modelo de conduta que circulava entre o trabalho, a religião católica e a vida em família. Um ethos próprio do cotidiano das cidades do interior, balizadas por uma cultura de moralidade e ética próprias. Sentido que, naquele momento da prisão, vinha à tona em não abandonar o posto de trabalho, não deixar o trem à deriva. Visto que, pela sua lógica, não havia feito nada de errado e, portanto, não tinha nada a temer.
Por outro lado, em confrontamento à postura pessoal, a ação dos responsáveis pela sua prisãodivergia completamente daquele ethos originário, obedecendo a novos parâmetros sóciopolíticos incompreensíveis dentro da continuidade circular da vida de Alberto Certório, e de tantos outros, vitimados pela ditadura. De modo que é possível compreender, que um novo tempo, de novas referências éticas (ou de ausências delas) estava se impondo junto com o golpe civil militar. O golpe se estabelecia como se fosse uma mudança de regras no meio do jogo.
Outros três pontos em específico sobressaem desse relato: a tortura, o estado pós-tortura, o silêncio.
50 Jornalista brasileira, esteve à frente de vários programas famosos de entrevistas na TV.
Dentre as várias modalidades de desrespeito e gradações de violações sofridas, o testemunho ressalta a especificidade do momento dos interrogatórios. Muito embora, desde a prisão incompreendida, passando por tratamentos inadequados em cidades diferentes até chegar ao Rio de Janeiro, se complementem dentro de um leque de desrespeito aos direitos humanos e, por conseguinte, violações à vida com impactos físicos e psicológicos.
A modalidade de tortura imposta a Alberto Certório, especificamente na hora dos interrogatórios, se registrou em testemunhos sobre o período como uma prática muito utilizada pelos militares. Tecnicamente simples, sem depender de grandes aparatos estruturais, compunha-se de duas latas estreitas sobre as quais o interrogado precisava se equilibrar, mantendo-se nu, com um pé em cada uma delas. A humilhante condição da nudez, sob constante ameaça, tornava-se fácil de ser suportada mediante os golpes que eram desferidos nas partes íntimas do interrogado, ali expostas. No caso dos homens, o alvo desses golpes era a bolsa escrotal, já que devido à sensibilidade dos testículos, as pancadas provocavam dores lancinantes que induziam ao encolhimento do corpo, embora eles precisassem continuar em equilíbrio sobre as latas. Condição de sofrimento propícia para se arrancar informações, até mesmo asnão sabidas pelos prisioneiros políticos.
A desumanidade dos tratamentos impostos no cotidiano da prisão, coroados com as sessões de torturas, deixavam marcas indeléveis nos presos gerando graves desiquilíbrios físicos e psíquicos naqueles que conseguiam deixar aquele ambiente vivos. O estado visual deplorável ao qual Alberto Certório chegou à casa da irmã em Nova Friburgo denota a ação da prisão política sobre o corpo físico, agora macerado, que para o novo regime parecia tão descartável quanto às ideologias trabalhistas nele contidas. Marcado após a tortura, o corpo parecia trazer em si os próprios algozes, que visíveis ou não, mantinham-se presentes, profundos na subjetividade do preso, do ex-preso, do para sempre perseguido político como marca imaterial perene. Daí, o psiquismo somatizar no corpo feito em desespero, a audição de ruídos que, provavelmente, remetiam à condição indefesa da prisão. Quando o choro compulsivo do “pai de família” exprimia alguma coisa de inconfessável, ou de intraduzível, à todos aqueles que estiveram à sua volta após o seu retorno.
O relato de outro filho de preso político ferroviário, embora aparentemente mais ameno, nos aponta o caos estabelecido pela detenção de seu pai, Walter Quaresma. Preso em pleno local de trabalho, as Oficinas Ferroviárias de Imbetiba, que depois de passar pela triagem em Macaé fora levado para a base da Marinha em Niterói.
Meu pai foi preso por algumas semanas, e depois de perder o emprego na ferrovia passou a responder um pesado processo policial-militar por longos anos. Foi absolvido por unanimidade pelo Tribunal Militar que o julgou, e também os outros companheiros de Macaé, de todas as absurdas acusações que lhes imputaram.
(sobre mais alguém da família ter sido preso) Não, ninguém mais foi preso, mas todos nós sentíamos muito ameaçados até mesmo pelas difíceis condições de vida que se seguiram, sem meios seguros de sobrevivência da família.
(Testemunho do Sr. Valter Domingues Costa para a Comissão Municipal da Verdade de Macaé – em 04 de dezembro de 2014. Relatório da Comissão Municipal da Verdade de Macaé. Câmara Municipal de Macaé (RJ): 2016. p. 85.)
A condição de restrições financeiras e sociais com as quais a família Quaresma passou a conviver não foi exclusividade dela. A prisão seguida de demissão foi um modelo utilizado pelos militares sobre os trabalhadores, reduzindo-os à humilhante posição de necessitados.
Condição essa que, mais do que humilhar pela necessidade material, implicava em exilá-los a um espaço social externo à condição original na qual haviam construído suas trajetórias, que era a de trabalhadores. Considerando, ainda, o desemprego como uma situaçãoproblemática para qualquer pessoa no mundo capitalista, adicionemos a essa condição de desempregado o valor reverso do emprego na cidade que havia se constituído identitariamente no entorno da ferrovia, transbordado em conscientização política e, agora, convivendo com o revés desse processo, numa espécie de epicentro regional de ações da Ditadura civil-militar.
Finalmente, passamos aos fragmentos dos dois últimos testemunhos, rememorados pelos próprios ferroviários Waldyr Tavares e Lauro Martins, que viveram na pele as vida. Aí então, com o pessoal da Anistia, eu disse: “_Mas o companheiro Amorim vai levar o senhor até lá dentro.” E eles fotografaram tudo lá.
Eles me conheciam como comunista. Disseram que eu era comunista. E tinham a ordem de prisão de todo elemento de esquerda... aquela coisa toda. Me prenderam muito tempo depois. Eu fui preso aqui na porta. Mas eu fiquei muito protegido. Aqui não faltava lugar pra eu bater e encontrar abrigo. Esses velhos companheiros que eu comecei a conversa falando deles com vocês (Chico disso e Chico daquilo...); teve um que colocou o filho dele trepado em cima da mangueira para vigiar, para eu tomar um pouco de sol no quintal dele. E ele dizia: “_Aqui filho da puta nenhum entra não, não pega você, não!” E dali eu comecei a sair. Ia para casa de um e de outro. E me segurando... vendo o que fazer, esperando a reação. Dali me levaram direto para a delegacia e depois para o xadrez.
Cumpri pena no Rio de Janeiro. Na cadeia de vigilância do Centro do Rio. Tem uma cadeia ali, velha, que ela tem uma galeria e o xadrez é de um lado e de outro. Nós ficamos eu, Juarez Pereira Moreira – que chamavam de Zebê e Onézimo Monteiro, que era um sujeito bom, mas muito falador, falando bobagem na hora errada. Ficamos nós três.
Quando acabamos de ser condenados por um tribunal de araque, porque depois disso eu me formei em Direito e fui entender daquele julgamento. Aquilo lá foi preparado para condenar e não para julgar. Nós fomos condenados.
(...)
Era um mês de junho. E de lá já saímos direto para a cadeia.
Essa CLD foi de junho de 1967. Nós saímos da cadeia perto do AI-5. Se a gente fica, eu não estava aqui dando essa entrevista emocional, se demorasse mais dois meses.
Fiquei preso por uns seis meses, por aí... Mais um pouquinho. E completamos por aqui (Macaé).
No Rio de Janeiro só ficamos presos nessa cadeia, no Maracanã. Não houve mudança de local.
(Testemunho do Sr. Waldyr Tavares para a Comissão Municipal da Verdade de Macaé – em 19 de junho de 2014. Relatório da Comissão Municipal da Verdade de Macaé. Câmara Municipal de Macaé (RJ): 2016. p. 74 e 75.)
Da narrativa de Waldyr Tavares, agora já no momento extremo do conflito entre partidários do golpe, representados pela polícia e pelo exército, contra os ferroviários
“comunistas”, quando a perspectiva de prisão eminente já havia se tornado uma realidade para muitos companheiros de trabalho e de sindicato, sobressai, mais uma vez, a solidariedade vigente naquele momento. Que avaliada pela perspectiva dicotômica entre golpe e resistência, nos parece se comportar como uma relação discreta de cunho revolucionário, no sentido de apoio e completude, quando se extinguia a liberdade, os direitos, e a própria democracia.
Waldyr fora ajudado pelos seus vizinhos, velhos companheiros da Rua Antero Perlingeiro, que o conheciam e sabiam de suas ideias e das bandeiras de enfrentamento pacífico levantadas por ele junto com seus outros companheiros ferroviários. De modo que, ser solidário, proteger o amigo, fazia parte de uma ordem cotidiana cultural construída ao longo dos anos. Que naquele momento entrava em colapso, desorganizada pela ação da ditadura.
Sobressai ainda de suas memórias a trajetória das pessoas presas naquele momento de convulsão social na cidade, quando a própria delegacia não comportava a enorme quantidade de indivíduos tornados presos de uma hora para outra. Mais de uma centena de pessoas foram recolhidas, muitas no próprio local de trabalho, alterando o conceito ilibado concernente ao pai de família trabalhador, para o de comunista, consequentemente, ameaçador e desordeiro.
De modo que poucos foram presos na Delegacia da cidade, simplesmente por falta de espaço.
O que levou imediatamente à cooperação de membros da elite local com o regime implantando a partir do empréstimo, feito pela diretoria, do Ginásio do Clube Ypiranga para servir de prisão temporária e imediata ao Regime civil-militar. Ou seja, o Ypiranga passou a ser o primeiro lugar de prisão para muitas pessoas naquele momento, visto o espaço da Delegacia ter se tornado diminutomediante aquele evento extraordinário. Do Ypiranga, onde estiveram presos algo em torno de uma centena e meia de pessoas, os considerados sem envolvimento profundo com o comunismo ou com agitações sindicais foram libertos após alguns dias. Já os considerados envolvidos, foram transferidos para a região do Rio de Janeiro, com destino desconhecido na época. Mais tarde, após as solturas, soube-se que haviam sido levados para a Fortaleza de Santa Cruz da Barra, popularmente conhecida como Ponta d’Areia, em Niterói. Podemos dizer que esse foi o caminho mais comum percorrido, embora o caso de Waldyr se configure como uma exceção, que por ter conseguido se livrar da prisão imediata, não chegou a ser levado para o Ypiranga. Mas teve passagens pela delegacia local, e mais tarde, em 1967, foi julgado e cumpriu prisão no Rio de Janeiro. Onde ele conta qual foi o tipo de tortura experimentado.
(Sobre sofrer tortura) Tortura insuportávelnão foi. Mas foi um tipo de tortura.
Primeiro, julgaram a gente como pessoas ruins. Ficamos com vários outros presos.
Não quero julgar ninguém, mas ficamos no meio de vários bandidos. E graças à audácia e à fineza de trato do companheiro Zebê, que é o Juarez, ele tinha facilidade tremenda de lidar com as pessoas, inclusive com os bandidos. Ele ouvia muito rádio.
E conhecia os bandidos (risos). Um negócio incrível, rapaz! Ele sabia que fulano foi preso no morro tal... sicrano em situação tal... Aí ele fez “aquela chegada maneira” mangueira. Nós éramos 14 presos na cela. Mandava ligar a mangueira e jogava água no chão, molhando o chão todo e depois jogava água na gente, dizendo que estava muito calor. E isso em pleno mês de junho. Dois presos saíram de lá com pneumonia e eram caras novos. Um com 21 anos. Não eram velhos, não. Era esse tipo de coisa...Tudo isso era feito por um homem que nos tratava com toda a educação, mas um certo tipo de sarcasmo. Era esse tipo de coisa e psicológica...
Também tinha um outro tipo de tratamento. Era comum engatar a arma e apontar como se fosse atirar. Não era com a gente, não. Era com os outros. Até que um dia eu fui chamado: “_ Waldir Tavares”. “_Sou eu, e saí”. Eu pensei: “hoje chegou o meu dia...”. O cara dizia que tinha duas senhoras querendo me visitar.
E eu vi ao longe batendo as mãos e gesticulando para mim. Era a minha cunhada e a irmã do meu cunhado. Era a Cléia e a Tenira, irmã da minha mulher. Elas ainda estão vivas. E nessa ida para eu encontrar com as minhas cunhadas, o cara me alertou “_Não vai fugir, não, heim.” E o cara engatou a arma, dizendo para eu ir ter com as visitas.
Eu fiquei esperando o tiro. E eu duvidei das visitas. Achei que ele ia atirar em mim.
Ao me encontrar com as cunhadas elas disseram: “_Eu vi tudo!” E eu falei para elas que não era para me matar, mas para me assustar. Minhas cunhadas viram. E elas
perguntavam: “_Vocês vão sair daí quando?” E eu respondia: “_ Não sei...” Esse era o tipo de tortura!
Um cara era tratável, mas fazia coisas absurdas. Outro era um cara maluco, falava coisas provocativas. E o outro cara era durão, mas não perturbava.
(Sobre os nomes dos carcereiros) Eles não eram chamados pelo nome. Ninguém era chamado pelo nome. Eram chamados por “sujeito”, ou “cara” ou, ainda, “amanhã entra outro”, mas não pelo nome.
E outras nuances aconteceram no julgamento, mas aquilo não era julgamento.
Quando saímos da 1ª Região, fomos entregues a um Comissário (antes de descer para o xadrez) e ele nos perguntava o que nós tínhamos feito. E nós dissemos “nada não”.
E ele disse “guenta aí que vocês vão descer”. Descer era ir para o Maracanã.
E nunca mais que prendiam a gente. Já eram onze horas da noite. E o comissário começou a dizer que iria sair no outro dia de manhã. Mais tarde ele disse: “_Vocês ficam fazendo esse negócio de política aí, e deu nessa merda”.
(Testemunho do Sr. Waldyr Tavares para a Comissão Municipal da Verdade de Macaé
(Testemunho do Sr. Waldyr Tavares para a Comissão Municipal da Verdade de Macaé