2 CONTEXTUALIZANDO A POLÍTICA DE EDUCAÇÃO, A QUESTÃO DA
2.1 Política Pública, Neoliberalismo e Educação
A primeira dificuldade para o estudo conceitual sobre políticas públicas se ampara no seu caráter polissêmico. A língua inglesa nos ajuda a entender um pouco mais o conceito de política, pois diferente da língua portuguesa, no primeiro caso há uma definição mais rebuscada. Muller e Surel (2002) trazem contribuições sobre o emprego do termo em inglês que significa ao mesmo tempo: a esfera política (polity), a atividade política (politics) e a ação política (policies). A primeira leva em consideração os processos sociais como contexto histórico, político, cultural de uma determinada sociedade. A segunda significa a formação da política, que se configura como a delimitação do campo de interesse, a formação de agendas, onde serão planejadas as propostas políticas. E a terceira se refere à implementação do programa de ação de uma política.
Aqui nos filiamos a essa última definição e assumimos as políticas públicas como conjuntos de ações definidas, implementadas e/ou desativadas pelo governo, que produzem efeitos em uma determinada sociedade em um determinado período histórico. Políticas públicas são aqui entendidas como o “Estado em ação”
(AZEVEDO, 2003), ou seja, é o Estado que, para implantar um determinado projeto de governo, atua através de programas de ações voltadas para setores específicos da sociedade.
Os projetos e programas são construídos a partir de exigências e embates advindos de grupos organizados da população, em uma determinada conjuntura. Ou seja, os grupos organizados vão reivindicar o atendimento dos seus interesses por parte do Estado e este, de acordo com o projeto de sociedade que esteja sendo implantado (o referencial normativo global), vai atender totalmente, em parte, ou não atenderá a essas demandas. Quando estas são atendidas é através de programas e projetos que são formulados e implementados, ou seja, através de programas de ação.
Assim, toda política pública possui um referencial, chamado de referencial normativo setorial, que é a orientação que é feita para solucionar determinado problema. Essa orientação é composta pelos saberes a respeito dos problemas do setor (conhecimento técnico e científico predominante) e de valores, crenças, símbolos e normas que predominam na sociedade e no setor num determinado momento (AZEVEDO, 2003).
Por outra parte, é preciso entender que as políticas públicas são condicionadas pelo modelo socioeconômico assumido em dada sociedade. Nesse sentido, recordamos que o final da década de 1970 foi marcado pela reestruturação econômica que se pautou em uma abordagem neoliberal e viu emergir a implementação de políticas públicas de cunho neoliberal em muitos países, impactando os vários setores da sociedade da época. O fenômeno da globalização permitiu certa unificação da crise do capital em escala mundial, como afirma Corsi (2010, p. 02):
Observa-se crescente tendência de abertura comercial e financeira das economias nacionais, uma onda de inovações tecnológicas, a reestruturação dos processos produtivos, a intensificação dos fluxos de capitais e a realocação espacial de inúmeros setores industriais para a periferia, sobretudo para o Leste Asiático. Os países latino- americanos enfrentando severas crises de endividamento externo e inflacionária (processos articulados à nova situação internacional) tiveram enormes dificuldades de se inserir de forma dinâmica nessa nova ordem. Abandonaram as estratégias desenvolvimentistas e assumiram as políticas recomendadas pelo chamado Consenso de Washington.
Nesse contexto, é possível dizer que as políticas públicas voltadas para o setor educacional, desde a década de 1990, vêm assumindo, nos seus referenciais, características da abordagem neoliberal, que, por sua vez, tem raízes no liberalismo clássico, que se colocou como doutrina das sociedades capitalistas para justificar suas formas de organização da produção voltadas para o lucro e para a acumulação do capital. Ou seja, os objetivos econômicos e ideológicos do projeto neoliberal (o mercado livre, a redução da responsabilidade do Estado no atendimento das necessidades sociais) também influenciaram no setor educacional. Ball (2001, p. 102) destaca:
A educação está, cada vez mais, sujeita às “prescrições e assunções normativas do economicismo e o tipo de cultura na qual a escola existe e pode existir” (LINGARD, LADWIG& LUKE, 1998 p. 84) é articulado dentro desta lógica. Atualmente este fenômeno é, por vezes, chamado de “governo conjunto” no qual a formação de habilidades ou aquilo que Ainley (1999) denomina “política de aprendizagem” é o princípio orientador e integrador.
Durante os anos de 1990 estas concepções foram difundidas e orientaram os referenciais dos programas governamentais, ao mesmo tempo em que foram amplamente desconsiderados os referenciais que privilegiam a cidadania e a emancipação do sujeito. Segundo Marrach (1996, p. 18-20), a retórica neoliberal atribui um papel estratégico à educação ao defender que esta deve:
a) Preparar o indivíduo para adaptar-se ao mercado de trabalho, justificando que o mundo empresarial necessita de uma força de trabalho para competir no mercado de trabalho nacional e internacional. b) Fazer da escola um meio de transmissão da ideologia dominante e dos princípios doutrinários do neoliberalismo, a fim de garantir a reprodução desses valores. c) Incentivar o funcionamento da escola de forma semelhante ao mercado, adotando técnicas de gerenciamento empresarial, pois são mais eficientes para garantir a consolidação da ideologia neoliberal na sociedade.
Assim, o neoliberalismo remete para a educação o desafio de formar os indivíduos para que tenham competências para o mundo do trabalho que é cada vez mais disputado, em virtude da seletividade e diminuição dos postos de trabalho, por sua vez, como decorrência de processos de produção de bens e serviços que empregam tecnologias excludentes de mão de obra. Sendo assim, na abordagem neoliberal, a concorrência por conhecimento qualificado aumenta a exclusão social.
Além disso, a educação passa a contar com uma concepção diferente de cidadania: uma cidadania baseada nas regras do mercado. Como acrescenta Marrach, “no discurso neoliberal a educação deixa de ser parte do campo social e político para ingressar no mercado de trabalho e funcionar à sua semelhança” (1996, p. 43).
A educação contemporânea prioriza a conquista das habilidades e o domínio da informação e da produção que ora proporciona oportunidade, ora a exclusão:
A forma como se codifica-se e transmite-se o conhecimento está de acordo com a dos grupos privilegiados, são as pessoas que não dominam as habilidades impostas por tais grupos que correm risco de ficar excluídas dos diferentes âmbitos da sociedade informacional (CREA, 1999 apud FLECHA; TORJADA, 2000, p. 24).
Em meio a esse contexto neoliberal, várias medidas de política vão sendo adotadas com o objetivo de adequar os setores sociais às suas prerrogativas. No âmbito educacional não é diferente, e propostas vão ser lançadas, como a questão da política de avaliação educacional e de outras medidas de regulação do setor educação. Assim, nos últimos anos o processo das políticas públicas para avaliação da educação vai ser discutido, ajustado e formulado no âmbito global e local, o que representa, segundo Werle (2010), uma contaminação das influências provocadas pelos organismos e projetos internacionais.
Sobre isso, Rodríguez (2004) complementa:
Os anos de 1990 se caracterizaram por uma série de acordos nacionais para renovar os sistemas educativos. Estes pactos educativos procuravam modernizar os sistemas de ensino adaptando-os às exigências da economia globalizada. As reformas educativas fizeram parte da agenda política, que visava a reformar toda a gestão das políticas públicas, focalizando especialmente a descentralização, como meio de transferência das responsabilidades da gestão e execução dos serviços educativos da União para os estados e municípios (p. 17).
Nesse mesmo sentido, na última década do século XX aumenta a necessidade de discutir a qualidade da educação. No contexto atual, a discussão sobre a qualidade da educação em nível nacional é responsabilidade de todos, a qual deve ser compartilhada com o governo federal em regime de colaboração com estado, município e Distrito Federal juntamente com a sociedade (pais, professores, gestores, alunos).
No bojo dessa discussão, a política de avaliação educacional entra como um elemento relevante para o debate sobre qualidade da educação, já que a avaliação está sempre sendo referida e relacionada à qualidade educacional. Nesse contexto, vemos se desenhar e se fortalecer no Brasil uma política cada vez mais estruturada na avaliação dos sistemas educacionais que vai sendo adotada também pelos diferentes entes federais.