1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
1.3 AS POLÍTICAS AFIRMATIVAS
1.3.1 Políticas Afirmativas - Brasil e Venezuela
Mesmo estando atuante no Brasil anteriormente, foi a partir da década de 70 que o movimento negro entra em cenas com mais força no cenário dos movimentos sociais e políticos brasileiros. Por pressão desses movimentos e da presença de intelectuais, inclusive intelectuais negros, com novas abordagens dessas questões, o Estado começa a discutir estratégias para combater o racismo.
A entrada em cena do movimento negro se dá juntamente com o crescimento da participação da sociedade civil brasileira, a partir do processo de redemocratização. Dagnino (2002, p. 279) destaca que a “construção da democracia não se dá de forma linear, mas contraditório e fragmentado”. Chamando a atenção para a extrema complexidade do Estado, a autora ressalta que entre este e a sociedade civil existem conflitos e tensões maiores ou menores, dependendo do quanto compartilham – e com que centralidade o fazem – as partes envolvidas.
Dentre os momentos marcantes nas estratégias dos movimentos negros brasileiros em visibilizar as questões raciais no país vale salientar a estratégia de consagrar o dia 20 de novembro como dia Nacional da Consciência Negra,
destacando papel do líder de um dos mais importantes quilombos, o de Palmares. A luta de Palmares simboliza a resistência, e o dia 20 de novembro tornou-se referência nas ações contra todas as formas de discriminações raciais.
Outros momentos de destaque na atuação dos Movimentos Negros foram às várias marchas organizadas, na qual foram mobilizados milhares de afrodescendentes por todo o país, com destaque para a de novembro de 1995, por ocasião do aniversário de 300 anos da morte de Zumbi dos Palmares. O movimento negro organizou uma marcha a Brasília que contou com a participação de milhares de ativistas e conseguiu uma audiência com o então presidente Fernando Henrique Cardoso. Outra marcha de destaque ocorreu em 2005, com o slogan “Zumbi dos Palmares pela Vida e Cidadania”.
Faz-se mister registrar aqui as mais recentes conquistas que tiveram a participação direta desses movimentos e que simbolizam uma vitória histórica pelas demandas raciais do país: a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial e a
confirmação, por unanimidade pelo Supremo Tribunal Federal, da
constitucionalidade da reservas de vagas em universidades públicas com base no sistema de cotas raciais.
Na Venezuela, mais recentemente em 1999/2000 foi criada a Rede de Organizações Afro-venezuelanas – ROA e outros movimentos afro-venezuelanos com o objetivo reunir associações e organizações do movimento negro que denunciaram a situação dos afro-venezuelanos no país. Conforme o documento, a ROA "é um órgão permanente organizacional que busca superar o legado do racismo e da exclusão estrutural que está sendo infligida ao povo de ascendência Africana em nosso país"12.
Segundo Silva (2012), os movimentos negros na Venezuela tinham, na época, como principais reivindicações, o seguinte: a contagem dos afro-venezuelanos através da realização de censo; o ingresso das comunidades negras no sistema educacional com o objetivo de melhorar o índice escolaridade desse seguimento e a inclusão da temática racial nos currículos escolares; a criação de leis antirracistas; e a criação, por parte do governo, de instâncias que garantam o direito da população negra.
12 Disponível em: <http://lib.ohchr.org/HRBodies/UPR/Documents/session12/VE/ROA-RedOrganiza
As tensões sempre estiveram presentes na relação entre movimentos negros e o poder constituído, nos diferentes períodos da realidade sul-americana. São divergências que causam tensões, por exemplo, com relação a constatações sobre as desigualdades econômicas e sociais. Com base em pesquisas estatísticas de institutos não governamentais, como também a partir da década de 80, no Brasil, através dos dados do IBGE, fica cada vez mais notório o quão desigual são Brasil e Venezuela em termos raciais, e não somente em termos econômicos e sociais, como muitos acreditavam e ainda acreditam. Contudo, é incorreto afirmar que não ocorreram mudanças ao longo das histórias desses países.
Outro aspecto importante foi à formação de uma espécie de consenso entre os movimentos negros da necessidade de desconstrução ideológica do mito da relação harmoniosa entre os diferentes segmentos raciais no Brasil, a chamada “democracia racial”. O mesmo ocorreu como a ideia da “mestiçagem” na Venezuela, especialmente a partir da crise dos anos 80. Constatou-se que a maioria da população dos referidos países, incluindo também os afrodescendentes, acreditava nesses mitos.
Apesar de algumas conquistas, inclusive no que diz respeito à afirmação dos movimentos negros nos referidos países, estas não garantiram a viabilização de políticas públicas de forma ampla até o final do século XX. As iniciativas que ocorreram até então foram isoladas e pontais. A necessidade de implantação de políticas públicas, em especial no campo da educação, é uma das respostas à derrota do projeto político aprovado durante a abolição, que não contemplou as demandas dos escravos, apesar das lutas ocorridas durante a escravidão. O projeto de nação que foi sendo consolidado na república brasileira e venezuelana, conforme já sinalizado, teve como ideal o modelo europeu de sociedade. As políticas públicas a serem implantadas nesses países deveriam ter o objetivo de eliminar as sequelas históricas causadas pela forma como se processou o fim da escravidão. Entretanto, isso não ocorreu.
Uma política pública com o objetivo de atender especificamente aos afrodescendentes, segundo Nascimento, foi pensada pela primeira vez no Brasil na Assembleia Nacional Constituinte de 1946, quando foi proposta pela Convenção a inclusão de políticas públicas para a população afrodescendente e um dispositivo constitucional definindo a discriminação racial como crime de lesa-pátria.
Em que contexto histórico contemporâneo se estruturam as políticas afirmativas na Venezuela? É importante registrar, segundo Carvalho e Guolart (2011), que a mentalidade típica da época da escravidão não impediu a mobilização dos africanos escravizados na Venezuela, como em outras áreas das Américas. Naquele país, em especial, ocorreram movimentos de resistência, os “cumbes”, e sublevações contra o domínio escravista e o colonialismo espanhol, liderados por afro-venezuelanos a exemplo do herói José Leonardo Chirinos.
Mas, de acordo com a questão inicial, um caminho de resposta é, segundo Carvalho e Guolart (2011, p. 106), a eclosão da crise da dívida em 1983 e a piora dos índices econômicos e sociais que “concorrem para erosão do pressuposto da “mestizaje” no que tange à inexistência de preconceito contras os afro-venezuelanos”.
Em se tratando do Brasil, a sociedade tem resistido à adoção de política pública especifica para população negra. As políticas afirmativas foram utilizadas pela primeira vez no país de forma efetiva muito tardiamente, e só foram implementadas devido às mobilizações dos movimentos negros organizados e aos compromissos internacionais assumidos pelo governo brasileiro de promover ações contra discriminação racial e pela igualdade nas diversas conferências mundiais, a exemplo da III Conferência de Durban.
Na Venezuela, a primeira constituição bolivariana do governo Hugo Chaves teve como foco os povos indígenas. Foi ficando evidente que existia uma ausência, segundo Carvalho e Guolart, de menções específicas na Constituição sobre os afrodescendentes. É importante que tal atitude política tenha sido notada pela sociedade civil e pelos movimentos afrodescendentes, que começaram a emitir sinas de articulação em favor da causa da igualdade racial. Segundo os referidos autores, a sociedade civil teve a “percepção que a Revolução Bolivariana em seu primeiro momento atuara timidamente sobre a questão afrodescendente” (CARVALHO & GUOLART, 2011, p. 107).
Durante a Conferência de Durban, os países sul-americanos, incluindo os do Mercosul, particularmente Brasil e Venezuela, assumiram o compromisso de adotar a eliminação da desigualdade racial nas metas a serem alcançadas por suas políticas. No Brasil isso deveria equivaler, por exemplo: a torná-las capazes de alterar o padrão de desigualdade nos índices educacionais de negros e brancos que, segundo os dados produzidos pelo IPEA, mantiveram-se inalterado por quase todo o
século vinte, apesar da ampliação do acesso à educação; realizar ações na área de saúde de forma a permitir igualar a expectativa de vida de brancos e negros, que é em média de cinco anos menor para os negros; promover o acesso ao mercado de trabalhos nas diferentes ocupações, igualdade nos rendimentos, acesso à terra, moradia, cultura e tecnologia.
Segundo Werneck (2002, p. 1), em seu artigo O Dia seguinte: a Conferência
Mundial Contra o Racismo e suas Consequências, “poucos se deram conta que foi na era FHC que o Brasil assumiu público e internacionalmente a vigência do racismo em nosso território, bem como de sua força em estruturar as relações sociais no país”. Chama atenção também que foi na “era FHC que o Estado brasileiro busca implementar as primeiras políticas de ação afirmativas voltadas para inclusão social de afrodescendentes, mas de um século após o fim da escravidão”. A pesquisadora assinala que, entretanto, a “Era FHC” incorporou muito pouco, ou quase nada, das propostas que as organizações negras vêm defendendo há muito tempo.
Jaccoud (2008) fez um rápido balanço sobre políticas e programas que foram viabilizados como forma de garantir a promoção da igualdade racial no Brasil. Primeiro constata que é necessária a intervenção pública atuando com o objetivo de combater a discriminação e o racismo. Identifica entre os anos de 1980 a 2000 momentos que define como “três gerações de iniciativas” de atuação governamental. Na primeira, durante a década de 80 do século XX, a linha de ação tem como norte a promoção da cultura negra. Neste período é criada, em 1988, a Fundação Palmares.
Já no final da década de 80 há uma intensificação do combate à discriminação, com a criminalização do racismo. Aqui a autora identifica a segunda fase das iniciativas, que conta com grandes mobilizações em decorrência da Constituição de 1988. Seu marco é a aprovação da Lei Caó, Lei 7.719/1989, na qual o racismo é classificado como crime inafiançável, punível com prisão. Meados de 1990 marcam o começo da terceira geração de políticas governamentais, na qual Jaccoud destaca o início do debate sobre ações afirmativas e combate ao racismo institucional e a criação da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Este é citado também como um momento de viabilização das ações afirmativas de acesso ao Ensino Superior, bem como da Lei 10.639/03 e do Programa de Oportunidades para Todos.
Com relação às políticas afirmativas, os afrodescendentes brasileiros tiveram ganhos parciais, apesar da conjuntura neoliberal, uma vez que mesmo de forma
tardia políticas formam viabilizadas tanto pelo executivo, durante o governo do presidente Luis Inácio Lula, como devido a iniciativas das Câmaras Federal, Estadual e Municipal. Podem ser destacadas as seguintes ações políticas: Lei de nº 10.639, de 09 de janeiro de 2003, que alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação nº 9394 de 1996, no artigo 26, e estabeleceu a inclusão no currículo da Rede Oficial de Ensino à obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira; Lei nº 12.288 de 20 de julho de 2010, que institui o Estatuto da Igualdade Racial, que altera as leis nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, 9.029, de 13 de abril de 1995, 7.347, de 24 de julho de 1985, e 10.778, de 24 de novembro de 2003; Política Nacional Integral da Saúde da População Negra e criação de organismo para encaminhamento das questões raciais, a exemplo das Secretarias da Igualdade Racial nos âmbitos Federal, Estadual e Municipal.
Mas, dentre as ações afirmativas implementadas no Brasil as de maior repercussão foram as chamadas política de cotas, criadas com o objetivo de assegurar o acesso de afrodescendentes às universidades brasileiras. Como resultado do julgamento da ação de inconstitucionalidade pelo Supremo Federal, o programa tem sido ampliado e implementado em quase todas as universidades federais do Brasil. Vale destacar também o papel desempenhado pelos cursinhos de pré-vestibular para afrodescendentes, que em um dado momento contribuíram de forma decisiva para o acesso de alunos afrodescendentes às universidades.
Na Venezuela também foram instituídas políticas afirmativas, principalmente a partir de 2005, no segundo período do governo Hugo Chaves. Carvalho e Guolart (2011, p. 107) ressaltam que, apesar do foco da Constituição Bolivariana ter sido os povos indígenas, esta “despontou como a primeira da história do país a indicar o caráter multiétnico e pluricultural do Estado venezuelano. Foi pioneira também ao destacar, em seu artigo 21, o problema da discriminação racial e a necessidade de coibi-lo”.
Assim foram viabilizadas as seguintes políticas e ações afirmativas no segundo mandato do governo do presidente Hugo Chaves: Decreto do 10 de maio como o Dia Nacional dos Afro-venezuelanos, Decreto Presidencial para a eliminação do Racismo no Sistema Educacional de 2005, incluindo artigos na Nova Lei da Educação de 2009 sobre os afrosdescendentes; criação de Cátedra Libre África em 2006; estabelecimento, em 2006, da Comissão Presidencial Contra o Racismo e Discriminação; e Lei Orgânica Contra a Discriminação Racial de 2011.