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ponto 6 a morte – o baú da eternidade

O som de uma corneta anuncia a chegada das vendedoras do baú da eternidade. Três mulheres puxam um carro de mão onde está estampando os dizeres comerciais “ Baú da Eternidade”. As figuras das vendedoras cantam:

Parará pá pá pá - Parará pá pá pá Não precisa de bagagem para embarcar A viagem é de graça é só você subir Parará pá pá - Parará pá pá (Y, 2018, p.05)

Um dos vendedores percebe que errou o caminho, ele analisa o mapa, e ao perceber que não há solução chama os amigos vendedores para oferecerem os produtos à plateia.

Esta cena foi baseada na carta da morte do tarot de Waite. Mas, a inspiração foi apenas de ordem mística, no sentido de revelar uma mudança de rotina da vida de um individuo, fugindo do significado de morte.

Figura 28: cena da morte – três figuras cômicas vendem bilhetes do Baú da Eternidade.

Cena 10 – ponto 9 (um estrela se banha na fonte)

Em uma fonte de água presente no bosque de Y, uma musa se banha cantando: “eu sou uma estrela que dos céus desceu, venha meu amado, meu amado meu” (Y, 2018, p.05). Por trás da fonte duas musas se acariciam olhando para a que se banha na fonte, num ato de voyerismo. Esta cena foi baseada na carta de tarot a Estrela.

Figura 29 – cortejo saindo da Shefira de nº 04, passando pela 6º e para chegar até a cena das Estrelas, Shefira de nº 09

Cena 11 – ponto de nº 7 (O Pedágio)

O mestre pede aos expectadores que paguem o pedágio antes de continuar a jornada. Quando o mestre condutor da jornada leva os caminhantes para pagarem um valor pela a experiência vivida. Um altar repleto de doações, espolio e pagamentos efetuados por aqueles que entenderam o sentido de caminhar em Y. É justamente nesta ocasião que o mestre cobra a passagem, ou seja, o pedágio, que pode se configurar como uma joia que o caminhante carrega, um amuleto, uma peça de roupa, dinheiro, ou mesmo parte de seus cabelos, pedaços de unhas, saliva, sangue, urina – excreções que pertencerão ao altar da passagem.

Deixar algo de si neste altar, é uma forma de materializar sua passagem pelas terras de Y. Os elementos doados, pagos e oferecidos nesta cena receberão um caráter de peça de museu, que após a instauração cênica poderá ser visto como um objeto visual. Assim como as peças de museu sacro de ex-votos.

A cada doação dada o mestre referencia o patrono da casa, chamado de mestre San Mequetrefe, personalidade fictícia criada unicamente para a cena e que é representada por uma estatua de concreto. San Mequetrefe é comparável a um Exu-protetor de terreiro, entidade oriunda das tradições afro-brasileiras que tem a função de abrir os caminhos quando é feito um pedido.

Figura 31: altar de recolhimento do pedágio Cena 12 – ponto de nº 10 (O Banquete na Casa de Chapelão)

Após o pagamento do pedágio os espectadores adentram a casa do mestre chapelão, onde são recebidos por Musas-Servas que dançam ao som de tambor. O público é

recepcionado pelo mestre chapelão que saúda a chegada dos mesmos e pede para servir uma comida aos caminhantes

Eis que estamos diante de um dos momentos mais deslumbre do ritual-teatral da instauração. É quando os espectadores-instauradores são recebidos em uma grande clareira em formato circular. No centro deste local há uma grande fogueira que ilumina, aquece e purifica a cena-instaurada.

De todos os lados surgem as Musas-Servas, que são figuras semelhantes às Ninfas gregas. Elas representam um elemento da natureza: água, fogo, terra e ar. Um tambor é tocado por um músico servo, ele toca o instrumento durante todo o tempo, sua função é propiciar um clima de imersão na cena, de maneira que o espectador-instaurador seja conduzido pela música. Todos dançam. Os espectadores instauradores são participantes ativos do ato teatral- ritual.

De longe aparece o Mestre Chapelão, o patrono da cena. Ele saúda os visitantes com boas vindas. O Chapelão convida a todos para ficarem a vontade em suas terras. Ele entende que todos vieram de muito longe e devem estar cansados. Assim, manda as Musas-Servas servirem comida e bebidas, mas antes, eles terão se purificarem para receber a alimentação. A purificação é realizada também pelas Musas-Servas, que limpam o corpo do visitante com ervas – elas são as benzedeiras que retiram as cargas de cansaço presente no corpo. Elas tem a missão de curar as doenças e afastar os espíritos. As Musas-Servas se configuram como Atrizes-Xamãs e estão à disposição do Mestre Chapelão para realizar todos os fascínios mágicos, teatrais e religiosos.

O Mestre chapelão anuncia: Eis o último banquete, comam e bebam pela a última vez. Quem comer deste alimento terá parte comigo e com a terra sagrada de Y, quem beber este delicioso néctar receberá o poder da fluidez e da felicidade. Seja bem vindos ao Reino da felicidade passageira. Aproveitem, pois este é o último momento de suas vidas errantes nesta longa jornada de Y... salve, salve, salve!

A comida é servida. Ela é apetitosa, quente e apimentada. Em seguida uma bebida agridoce é ofertada para aliviar a pimenta da comida. Os sabores despertam o paladar dos espectadores.

Enquanto o banquete é degustado o Mestre Chapelão traz revelações espirituais. Estando em êxtase ele conversa com os espíritos que trazem conselhos de alerta para alguns espectadores. Após, ele se despede e agradece ao mestre-guia que conduziu todos até ali.

Com a saída do Mestre Chapelão as Musas-Servas realizam uma última dança. Ao terminar elas recolhem um punhado de areia no chão e jogam sobre a fogueira e entoam um

nome de um elemento. Por ultimo se despede o tocador que sai executando uma música percussiva compassada.

Figura 32: saída do público da área de encenação - ritual final

De longe surgem os servos de Cronus, os mesmos que receberam os visitantes no inicio de toda a jornada. Eles anunciam que o tempo está findo. Os ponteiros de todos os relógios voltam a girar. O tempo corre e caso os espectadores não saiam neste momento ficaram para sempre presos nas terras de Y.

Os servos gritam de longe: eu sou Cronus, o tempo!

Todos saem de Y. A noite é misteriosa e repleta de espectros. Tudo é teatral: o medo da mata escura, os barulhos e as vozes balbuciadas a esmo. Fim da jornada de Y.

CARTA DOS ENAMORADOS PARA O ATOR-XAMÃ ARTAUD - ASPECTOS (IN)