Feita a análise das respostas a este inquérito – como não pode deixar de ser, não há unanimidade de opinião, quanto à credibilidade deste programa.
Como pontos fortes que favorecem o NO, são apresentados dezoito argumentos que o positivam; e como pontos fracos são esgrimidos oito argumentos que o desvalorizam e rejeitam.
5.1. Pontos considerados favoráveis ao NO
Estas razões favoráveis (“algumas vantagens comuns”), apresentadas pelos inquiridos, submetemo-las a uma ligeira clarificação, corrigindo certos aspetos ortográficos e contraindo o seu número, nos casos em que repetição semântica do seu conteúdo (7 e 8), ou quando é possível a sua junção (4 e 12, 5 e 6). Teremos, assim, a seguinte argumentação pró-NO:
- aumenta o grau formal de escolaridade da população;
- potencia o interesse dos formandos pela conclusão dos estudos; - aumenta a qualificação dos recursos humanos;
- conduz à partilha de experiências e à oposição ao individualismo originando uma forma de aprendizagem cooperativa e interativa;
- valida e certifica sabres e experiências dos formandos adquiridas ao longo da vida; - diminui o esforço necessário à aquisição de mais graus académicos, mediante a
rentabilização do tempo e a troca de experiências, a vários níveis; - facilita a aquisição de certificados;
- permite a obtenção dos mesmos graus de escolaridade, mas por vias diferentes; - assegura uma escolaridade àqueles que abandonaram, precocemente, a escola e que
a procuram, de novo, por razões profissionais, ou de formação social – realizando um dos princípios da escola publica;
- atua dentro dos pressupostos da escola ativa, ao instruírem, os formandos, a sua história de vida, enformados pelo trabalho de projeto;
- permite considerar este programa como uma das mais importantes decisões políticas das últimas décadas, no domínio da qualificação e da promoção humana da população portuguesa pois ao promover a generalização do nível secundário como qualificação mínima, eleva a sua promoção base;
- possibilita ultrapassar situações de insucesso escolar não superadas, até então, pelos adultos;
83 - gera satisfação no adulto pelo reconhecimento e valoração das suas aptidões,
permitindo a personalização dos processos;
- permite a adaptação da escola pública aos seus programas e currículo;
- utiliza o processo de avaliação centrado no aluno, porque assenta na sua auto- avaliação, a partir das suas vivências e saberes;
- reduz a percentagem de população sem qualquer habilitação formal, ou com baixas qualificações, e aumenta o contingente de pessoas com o 3.º Ciclo, o Ensino Secundário e o Ensino Superior.
5.2. Pontos considerados desfavoráveis ao NO.
O caráter negativo, atribuído pelos inquiridos ao programa, assenta nas seguintes asseverações feitas:
- o NO não favorece o desenvolvimento cognitivo e psicomotor dos alunos;
- provoca discrepâncias inaceitáveis, relativamente à educação e formação regulares, criando injustiças que redundam no descrédito do NO;
- é uma via de obtenção fácil de graus académicos, assumindo estes um caráter formal sem conteúdo cognitivo;
- a certificação através da validação de saberes adquiridos, ao longo da vida, cria injustiças face aos alunos que seguem o percurso escolar regular;
- é necessário um núcleo curricular que possibilite a aquisição de uma formação geral letrada, humanística e cientifica, a partir da qual vários diversidades e diversificações possam ser construídas, gerando percursos individuais;
- os gastos relacionados com a formação NO são elevados;
- em termos legislativos, o funcionamento do NO está bem estruturado, mas são escassos os recursos organizados, para o seu desenvolvimento;
- são escassas as informações provenientes do MEC;
- é muito reduzida a disponibilidade de tempo, para frequentar ações de formação, atinentes ao NO;
- dada a oposição extrema de conteúdos e métodos entre a formação regular e aquela do NO, há um elevado grau de dificuldade em abandonar o “modus fasciendi” específico da primeira, próprio da sua formação académica e do respetivo percurso profissional;
- os formandos utilizam uma diversidade de recursos, dado o perfil de formação e cursos do NO.
5.3. Considerações finais
Se, como afirmamos atrás (item 4.1.3, pág. 81, parágrafos 7 e 8), do ponto de vista da conceção política do programa do NO, nos parece haver coerência, entre os seus
84 princípios e objetivos – tal não acontece com as estratégias propostas. De facto, há “grande incoerência nos princípios da mobilidade entre vias vocacionais já que um aluno que termina o 12.º ano pela via do Novas Oportunidades pode candidatar-se ao ensino superior, sem preparação para isso.”
E, continuamos, “também a utilidade da formação pode ser contestável para lá do objetivo da certificação pois, se ela não é prática nem dirigida ao contexto de trabalho, não são realizados os dois principais objetivos operacionais do Programa o que obriga a questionar a distância entre certificação como detenção de um diploma e a qualificação como preparação para uma tarefa ou uma profissão.”
De facto, hoje em dia e cada vez mais, uma sociedade moderna exige dos seus elementos humanos uma preparação, capacidade científica e técnica mais e mais avançadas, sob pena de fragilizar, profissionalmente e, logo, a própria qualidade de vida de cada um e todos os cidadãos – donde, também a da sociedade no seu conjunto.
Neste campo, vários são os países que construíram sistemas educativos de sucesso, porque respondentes às várias exigências de conhecimento e de capacidade técnica que a atual evolução científica e tecnológica impõem, sem piedade por qualquer espécie de amadorismo ou demagogia – sistemas esses institucionalizados não só a nível dos percursos normais de estudos, mas também abrangendo a “reformação” dos estratos sociais científica ou tecnologicamente mais deficientes, ou que vão ficando carenciados de um “agiornamento”, de um pôr-se em dia revigorante, em termos profissionais e anímicos; e cujos resultados se vêm refletindo na qualidade, prestigio e consequente credibilidade internacional, quer quanto ao fator humano, quer quanto ao produto realizado em países como o Japão, Israel, Singapura, Coreia do Sul, Alemanha.
No caso desta última, foi feita uma forte aposta no ensino vocacional, em parceria com as entidades patronais e sindicatos, além dos centrais da indústria e do comércio, em regime diurno e noturno, tendo em vista o universo dos mais jovens (âmbito do ensino secundário) e dos menos jovens, combinando a sala de aula com os estágios profissionais. Entre nós e no mesmo sentido, impõe-se, também, um similar sistema de formação, “reformação” e aperfeiçoamento no que à classe dos seniores e “descolarizados” se refere (são o objeto específico deste trabalho), nas áreas das humanidades, das científicas e das tecnológicas, cujos respetivos cursos deverão assentar em “curricula” adequados à necessária formação cognitiva e técnica, tornando-os apelativos para frequentadores e futuros empregadores.
Com isto, constrói-se ou reconstrói-se um projeto (necessário, “necessaríssimo” …, que o projeto, em si, é indiscutível) de Novas Oportunidades verdadeiramente formativo e preparador, para a vida profissional dos formandos, assim como potenciador de valor acrescentado para o todo da sociedade portuguesa.
85 (… além de que exigiria mais professores, facto obviamente benéfico, em época de descalabro do emprego docente!...)
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