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4 ESTUDO DE CASO “PROJETO CRIANÇA FELIZ”: análise, avaliação e

4.3 PROCESSO DO PROJETO CRIANÇA FELIZ

4.3.4 Pontos Fracos do Projeto Criança Feliz

Ao reconhecermos que a evangelização, a pregação da Palavra e o apoio às praticas esportivas são pontos fortes e contribuem para o cumprimento dos objetivos do Projeto, não podemos desprezar os aspectos que ameaçam o processo de desenvolvimento deste Projeto. Os pontos fracos do Projeto apontam para aspectos que exigem uma ação estratégica, uma retomada ao ponto inicial onde seja possível rever o que é necessário para eliminar os fatores de risco e os fatores que impossibilitam o avanço e desenvolvimento de ações potenciais.

Encontramos três aspectos que se destacaram como pontos fracos do Projeto para os gestores:

 A falta de voluntários, um maior envolvimento por parte dos membros da igreja;  A falta de profissionais especialistas como: psicólogos, médicos, dentistas e outros;  Falta acompanhamento às famílias dos participantes do Projeto.

Além desses três pontos os líderes da Igreja consideraram como pontos fracos:  Falta capacitação e treinamento para os voluntários;

 Poucos mantenedores para o Projeto.

Os pontos destacados nesta questão confirmam o diagnóstico anterior relatado pela pesquisadora em sua primeira pesquisa no Projeto Criança Feliz. Em seu Projeto “Voluntariado em Ação”410

, sugerido ao Conselho da Igreja Presbiteriana de Vila Buenos Aires, como forma de colaborar para a capacitação e treinamento dos voluntários, a pesquisadora reconheceu que,

Apresentar as dificuldades enfrentadas nestes 2 anos do Projeto “Criança Feliz”, traz a dimensão do trabalho a ser realizado e seus objetivos concretos. O Projeto tem uma programação, mas não está ligado a um Plano Estratégico, o que permite alguns equívocos. A ausência de uma gestão organizacional, de um Projeto Pedagógico e de um pedagogo para coordenar as ações do projeto provoca deficiências como: Falta suporte pedagógico para orientar as ações pertinentes a faixas etárias; não são realizados cursos de capacitação, atualização e treinamento para desenvolvimento e desempenho individual e coletivo; o grupo tem uma visão limitada da ação social e suas implicações e desconhece conceitos importantes do Terceiro Setor, Infância e Políticas Públicas para Infância e Adolescência; os voluntários necessitam ampliar sua visão de cidadania e autonomia.411

Em primeiro plano consideremos a falta de voluntários. A participação de voluntários em um Projeto Social como o Projeto Criança Feliz está diretamente ligada a visão que a Igreja possui sobre a relevância de Projetos Sociais enquanto oportunidade de demonstrar o amor e a compaixão ao próximo, é a solidariedade em ação como expressão da graça do evangelho num mundo perdido e sem esperança.

Sendo a evangelização um ponto forte esta deve ser realizada dentro de um plano organizacional que capacite as pessoas envolvidas a fazerem o melhor da melhor forma. A extensão deste plano organizacional deve atingir o preparo espiritual e o preparo organizacional. Embora evangelizar seja uma ordem imperativa para todos os crentes412, quando se trata de evangelizar crianças e adolescentes é necessário um treinamento específico. Mas neste caso a evangelização acontece em um contexto que envolve ações cidadãs, ações solidárias na esfera social. Somos desafiados a entender o chamado de Deus

410

VASCONCELOS, Marisa. Projeto “Voluntariado em Ação”. 2009. Trabalho apresentado à Disciplina de Gestão, no 6º semestre, Faculdade de Pedagogia, Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2009. 411

Cf. Ibid. 412

BÍBLIA. Bíblia de Estudo de Genebra: Marcos. Tradução de João Ferreira de Almeida. São Paulo: Cultura Cristã, 1999. cap.16, vers.15.

para uma ação efetiva em todas as áreas que se faz necessária a atuação da Igreja de Cristo. O serviço social, a assistência social e as ações sociais demandam a convicção de que

O chamado de Deus é para o serviço. Mas como vivemos tal chamado de Deus ‒ e aí está o que entusiasma ‒ fica em aberto. O chamado de Deus nos permite flexibilidade e a mutabilidade, concedendo-nos completa abertura à direção do Espírito. Na Igreja, podemos celebrar deslumbrante diversidade e pluralidade das vocações de nossas irmãs e irmãos. Podemos nos regozijar nas maneiras empolgantes e significativas que outros “em Cristo” estão vivendo seu chamado para a salvação e o serviço. [...] Na palavra e no testemunho, na missão e no ministério, as possibilidades para a obra de Deus em Jesus Cristo são ilimitadas. Mas nós, limitados como somos, somos abençoados com a graça do chamado de Deus para sermos tudo o que podemos ser como povo de Deus e vivermos nossas vocações em quaisquer direções que formos conduzidos.413

Deste modo, o voluntariado deve ser tratado como um propósito para o desempenho de vocações concedidas por Deus para o bem dos que estão ao nosso redor.

Quando uma Igreja se envolve com Projetos Sociais, nem sempre ela está preparada para atender às implicações e demandas que geram um movimento desta natureza. A princípio existe a ingenuidade de achar que apenas a disposição e o amor ao próximo serão suficientes para a manutenção prática do trabalho. Existe também a necessidade de um despertar espiritual que levará os líderes e membros a buscarem soluções práticas para viabilizar ações socioeducativas e capacitadoras.

No entanto, não para neste aspecto nossa interpretação, pois o voluntariado se desenvolve como um serviço prestado por várias pessoas em várias áreas simultaneamente.

Muitas vezes o não envolvimento com os Projetos Sociais como voluntários é resultado do temor de não saber o que fazer, como fazer e porque fazer. O espírito assistencialista que sustentou por muito tempo as intenções de muitos cristãos, ainda não foi totalmente abolido do meio eclesiástico. Alguns paradigmas ainda não foram superados, por isso Bill Hybells afirma que,

Em toda igreja, há voluntários altamente capacitados, e também com baixa qualificação. (Quando falo em baixa qualificação não me refiro a QI ou habilidades sociais. Estou apenas falando de talento, disponibilidade, experiência de vida, fase da vida e comprometimento com Cristo). Algumas pessoas em sua igreja se envolverão somente se você oferecer oportunidades de voluntariado que exijam alta qualificação. Temos de nos certificar de que nossas igrejas têm capacidade de oferecer oportunidades de trabalho voluntário que demandam alta, média e baixa qualificação. E então passamos a procurar pessoas para ocupar essas posições.414

413

MACKIM, Donald K. (Ed.). Grandes temas da tradição reformada. São Paulo: Associação Evangélica Literária Pendão Real, 1998. p. 305.

414

HYBELS, Bill. Os sete mitos do voluntariado. Mundo Cristão, Notícias, São Paulo. Disponível em: <http://www.mundocristao.com.br/noticiasdet.asp?cod_not=32>. Acesso em: 23 out. 2013.

Existe ainda o pensamento deformado sobre ações solidárias, sobre o ser voluntário e sua repercussão na sociedade e em sua própria existência como cristãos. Vemos aqui uma das crises que abalam os projetos sociais em Igrejas Protestantes,

É dessa forma que podemos ter programas aparentemente parecidos, em sua práxis, mas com concepções e resultados totalmente diferentes. Diversos projetos “cristãos” elaboram estratégias, baseadas na cosmovisão humanista secular, trazendo soluções de cunho exclusivamente materialista, não se preocupando em transformar o sistema de crenças e a realidade espiritual da comunidade ajudada. Constituem-se, portanto, em projetos cristãos na motivação, porém não no conteúdo. Num outro extremo, existem grupos que desprezam as questões materiais, atribuindo à transformação uma causa meramente espiritual ou “mágica”.415

Essa é uma das etapas mais desafiadoras da pesquisa, enquanto momento de análise e interpretação, porque abarca questões que envolvem conhecimento, missão e concretização de uma visão junto ao Projeto.

A constatação de que falta capacitação e treinamento para os voluntários do Projeto é recorrente para a pesquisadora, este relato ficou registrado em sua primeira pesquisa com o Projeto. Esta é uma resposta que persiste em ecoar durante estes anos de existência do Projeto. Os voluntários já expressavam esta necessidade quando entrevistados pela primeira vez, mas observamos que as crises conciliares e a troca de ministros afetaram o desenvolvimento da proposta inicial, para que haja uma ação capacitadora é necessário que a liderança da Igreja esteja engajada em incentivar, investir e apoiar estas iniciativas. Hybels ao comentar sobre os

mitos existentes sobre voluntariado afirma que “Numa igreja em que o ambiente é saudável e altamente funcional, equipe ministerial e voluntários mantêm um diálogo consistente sobre o desempenho do voluntariado e se o trabalho ainda lhes parece adequado”.416