6. RESULTADO E ANÁLISE DOS DADOS
6.1. Não adesão e “carência”
6.1.1. Por que precisamos chamar o outro de “carente”?
Sá (2008) realizou um trabalho com profissionais de um Pronto Atendimento, no estado do Rio de Janeiro. O objetivo foi, basicamente, aproximar-se das representações/imagens/afetos que os profissionais construíram com relação à população, refletindo sobre as implicações disso para o cuidado. Dentro dessa ideia, a autora trouxe uma reflexão acerca das demandas – para
além do tratamento médico – que os pacientes sugeriam. Percebeu que havia uma classificação da população como “carente” e refletiu sobre essa posição oferecida aos pacientes.
Nesse sentido, Sá (2008) referiu que a categorização “carência” acabava por encobrir ou apagar aquilo que no outro é traço humano, portanto, próximo/semelhante. Assim, a carência permitiria ao conjunto intersubjetivo, formado por profissionais/trabalhadores, marcar uma separação, um afastamento e uma diferença radical com relação a este outro.
A necessidade de uma separação pode estar a serviço de uma diferenciação: profissionais providos x pacientes desprovidos. Isso porque “não ter condições socioeconômicas, não ter suporte familiar e ainda ter uma doença” torna-se uma reunião de desfavorecimentos insuportáveis ao lugar “protegido” de quem possui o saber e a solução para o problema da doença. Assim, como o profissional acaba sendo exposto a realidades muito difíceis, urge a necessidade de defesa e esta poderia se manifestar por meio de uma urgência por “diferenciamento” – que, caso não bem elaborada, pode vir a se transformar em uma urgência por distanciamento, prejudicando a relação assistencial.
Sob este aspecto, Campos (2005) afirma que, no contexto da saúde, acontecem processos de identificação entre trabalhadores e usuários. Se a população é vista como pobre, desvalida, desrespeitada, sem valor, após um tempo, a própria equipe se sentirá assim. Sugere- se que mecanismos como esse estão por trás da produção de impotência em série de que adoecem muitas equipes de saúde. Também pode acontecer que, na tentativa de se defender desse espelho desagradável, a equipe se feche, tentando uma discriminação maior entre o nós e os outros. Criam-se barreiras que evitam o contato com aquilo que tanto dói.
Verifica-se, portanto, que lidar com o sofrimento – em suas diferentes versões – naturalmente suscita um desconforto que, muitas vezes, busca-se evitar. Entretanto, as defesas só se armam mediante a algo que represente uma ameaça. Assim, há de se considerar que os profissionais são ameaçados pelas realidades com as quais são convocados a lidar, porque o drama humano se presentifica a cada atendimento. Ao mesmo tempo, na falta de espaço para a singularidade, generalizações podem surgir e, assim, categorizações, culminando, por fim, em simplificações.
Rosa (2002b) escreveu sobre os efeitos de se escutar – analiticamente – pacientes inseridos em um contexto de pobreza extrema e exclusão social. Em seu trabalho, há reflexões importantes, pois percebe que psicólogos, ao atenderem tais pacientes, acabavam por justificar
as resistências dos mesmos ao trabalho (não adesão ao tratamento?) como falta de recursos (carência?). A autora relembra Freud (1919) ao enunciar os efeitos do encontro com o “estrangeiro”, ou seja, os impactos de se confrontar/esbarrar com o “estranho” que o outro representa, atentando para o fato de que o horror provocado advém justamente da familiaridade – inconsciente – daquilo que se percebe no outro. Assim, a escuta de tais sujeitos, estudados pela pesquisadora, pode se tornar insuportável, uma vez que “levanta o recalque que promove a distância social e permite-nos conviver alegres, surdos, indiferentes ou paranoicos, com o outro miserável” (p. 8).
Assim, há de se considerar que o incômodo que esta realidade impõe ao profissional pode fazer com que este lance mão de diferentes construções acerca do outro, por exemplo esta categorização do “carente”, com o objetivo de marcar uma separação. Porém, ao mesmo tempo em que promove uma proteção ao profissional, impede uma visualização completa do outro, dificultando qualquer tipo de intervenção.
Trata-se de uma “facilitação” que gera – como produto – uma dificuldade a mais, na prática assistencial.
Além de promover uma diferenciação, a “carência” também pode ter, por função, uma generalização que, ao mesmo tempo, facilita por tornar desnecessário atentar para a complexidade de cada caso. Porém, impede o cuidado ao singular de cada “não aderente”, tornando mais distante a resolutividade.
Nesse sentido, Sá (2008) também refere que a carência material da população (acesso a bens, serviços, conhecimento e informação) se misturava a uma carência de referências de sentido para suas vidas, que apareceu, na pesquisa, sob a forma de uma população “doente de orientação”. O que a autora sugere é que a realidade era dotada de demandas e sofrimentos tão difusos que os profissionais acabavam julgando-se incapazes de “lidar” ou responder. E, mediante a isso, a categorização de carência facilitava pelo fato de encobrir a diversidade de demandas, o que os levaria a ter de lidar com os próprios limites, ou seja, com a própria carência. Entretanto, todo esse movimento era feito sem a percepção de que os profissionais, paradoxalmente, mantinham-se colados a este real, sem a capacidade de distanciamento, elaboração e sem a possibilidade de uma reflexão mais produtiva sobre a realidade em que atuam e sobre o outro com quem interagiam. Tornou-se uma categoria encobridora e estigmatizadora.
Seja pela necessidade de marcar uma separação, seja pela função de encobrir a singularidade de cada paciente, nota-se a relação - trazida pelos profissionais - entre “não adesão” e “carência”, quase como variáveis dependentes, tornando difícil a visualização de uma saída que não fosse a resolução dos problemas sociais. De certo, a busca por estas melhorias sempre serão imprescindíveis para o favorecimento da saúde da população, entretanto, tais limites não podem impedir a responsabilização dos atores diretamente envolvidos no tratamento de buscarem a construção – conjunta – de caminhos possíveis para o exercício do cuidado (ao outro e a si mesmo).