4.4 Documentos Oficiais
4.4.1 Portaria Capes 80/1998 (Doc 13)
Após uma série de discussões onde a Capes procurava uma nova proposta para pós-graduação brasileira em nível stricto sensu, foi elaborada a portaria Capes número 80 de 16 de dezembro de 1998, que dispõe sobre o reconhecimento dos mestrados profissionais e dá outras providências. Possui caput e sete artigos dispostos ao longo de duas páginas.
O primeiro artigo já evidencia que o MP se submeteria à sistemática de avaliação dos cursos de mesmo nível, ou seja, do mestrado acadêmico. Em seguida no artigo 2º, o Doc. 13 expõe os requisitos e condições para que um curso seja tido como MP:
a) estrutura curricular clara e consistentemente vinculada a sua especificidade, articulando o ensino com a aplicação profissional, de forma diferenciada e flexível, em termos coerentes com seus objetivos e compatível com um tempo de titulação mínimo de um ano; b) quadro docente integrado predominantemente por doutores, com produção intelectual divulgada em veículos reconhecidos e de ampla circulação em sua área de conhecimento, podendo uma parcela desse quadro ser constituída de profissionais de qualificação e experiência inquestionáveis em campo pertinente ao da proposta do curso; c) condições de trabalho e carga horária docentes compatíveis com as necessidades do curso, admitido o regime de dedicação parcial; d) exigência de apresentação de trabalho final que demonstre domínio do objeto de estudo, (sob a forma de dissertação, projeto, análise de casos, performance, produção artística, desenvolvimento de instrumentos, equipamentos, protótipos, entre outras, de acordo com a natureza da área e os fins do curso) e capacidade de expressar-se lucidamente sobre ele (CAPES, 1998, p.1 e 2).
Para a CAPES, “a principal diferença entre o Mestrado Acadêmico (MA) e o Mestrado Profissional (MP) é o produto, isto é, o resultado almejado”. No MA, pretende-se pela imersão na pesquisa formar, a longo prazo, um pesquisador. No MP, também deve ocorrer a imersão na pesquisa, mas o objetivo é formar alguém que, no mundo profissional externo à academia, saiba localizar, reconhecer, identificar e, sobretudo utilizar a pesquisa de modo a agregar valor a suas atividades, sejam estas de interesse mais (CAPES, 2005, p, 3).
Severino (2006, p. 11) afirma que com a publicação do Doc. 13, começou então uma investida “lenta e gradual com vistas à implementação deste novo modelo de curso de pós-graduação stricto sensu”, apresentado como uma forma
eficaz para assegurar a flexibilização da pós-graduação bem como sua maior expansão. Os cursos já existentes que antes eram denominados como “profissionalizante”, agora são tratados como “profissional”, sem que se tenha justificado esta mudança de nomenclatura, conforme aponta Nosella (2005). Com a posse da atual direção da Capes, a proposta foi retomada com renovado vigor passando a ser sua efetiva implementação meta prioritária da Agência.
No bojo destas discussões estava a necessidade de flexibilização da pós- graduação, de modo a sanar a necessidade em se formar profissionais pós- graduados aptos a elaborarem novas técnicas e processos (SEVERINO, 2006). Esta flexibilização possuía ramificações no sentido de tornar este projeto mais plausível dentro da realidade universitária brasileira. Desde a estrutura até a forma como a dissertação seria apresentada estariam sujeitas a esta maleabilidade. De acordo com o artigo 2º, o trabalho final poderia ser apresentado na forma de projetos, análise de casos, performance, produção artística, desenvolvimento de instrumentos, equipamentos, protótipos, dentre outras maneiras.
De acordo com Severino (2006, p. 12) havia realmente uma necessidade de flexibilização da pós-graduação stricto sensu, porém no sentido pedagógico no caráter da pesquisa e não na forma como a pós-graduação brasileira havia se consolidado em meio à inexistência de uma tradição em pesquisa no Brasil:
A flexibilização deveria ser feita no âmbito de uma revisão da pedagogia da pesquisa, sem sacrificar o essencial que é a efetiva iniciação à pesquisa e não perdendo de vista o risco de interpretações interesseiras e enviesadas por parte de instituições sem projetos culturais muito claros. Esse enviesamento já vem ocorrendo em algumas universidades particulares que estão oferecendo cursos dessa natureza, à revelia até mesmo dos critérios contidos na referida Portaria. Também creio que têm reconhecimento geral a necessidade e a relevância das iniciativas educacionais para o atendimento específico da demanda de atualização e aprimoramento técnicos dos profissionais das diversas áreas do conhecimento, o que é também de responsabilidade das instituições universitárias. O problema é que ocorre uma grande ambiguidade quando se fala de pós-graduação em sua relação com a profissionalização. Pós- graduação tem um óbvio sentido como sequência temporal. Mas substantivamente é preciso delimitar melhor seus significados.
É possível perceber que a preocupação com a finalidade e os objetivos do mestrado profissional vai além das delimitações firmadas no Doc. 13, trazendo à baila a questão sobre quais interesses motivaram sua publicação. Como bem
ressalta Evangelista (2002), é necessário que consigamos extrair dos documentos mais do que eles têm a nos relatar objetivamente, ou seja, é preciso compreender as entrelinhas que envolvem a atmosfera deste documento, de sua criação aos seus impactos. Será possível visualizar estas características ocultas após a triangulação via ADC entre os documentos do BM, os documentos oficiais e as definições dos mestrados profissionais em Educação no próximo capítulo.
A análise lexical encontrou os seguintes termos com mais ocorrências: „Profissional‟ 14 (catorze) vezes, „Produção‟ 3 (três) vezes, „Pesquisa‟ 3 (três) vezes. Apesar de a palavra „Custo‟ não aparecer nestes termos, o conceito de financiamento sobre os mestrados profissionais é evidenciado no artigo 6º quando o Doc. 13 pontua que os “cursos da modalidade tratada nesta portaria possuem vocação para o autofinanciamento” sendo que este aspecto deve ser “explorado para iniciativas de convênios com vistas ao patrocínio de suas atividades” (CAPES, 1998, p. 2). Esta orientação está em consonância com vários documentos elaborados pelo BM e analisados anteriormente nesta pesquisa (Doc. 2, Doc. 3, Doc. 6, Doc. 7, Doc. 8, Doc. 10 e Doc. 12). A necessidade de se revisar a forma como os custos são gerenciados pelo governo brasileiro repercutiu diretamente na forma como o sistema de financiamento dos mestrados profissionais se configurou no Doc. 13. Em alguns editais destes programas, a exigência para que o aluno esteja inserido no mercado formal de trabalho é situação sine qua non para que sua matrícula seja efetivada, haja vista que a maior parte dos cursos de MP não possuem bolsas provenientes de instituições de fomento à pesquisa. É a chamada “qualificação em serviço”.