• Nenhum resultado encontrado

4.4 Documentos Oficiais

4.4.3 Portaria MEC nº 17/2009 (Doc 15)

A Portaria Normativa nº17 de 28 de dezembro de 2009 dispõe sobre o mestrado profissional no âmbito da Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES. Contém cinco páginas e possui 14 artigos, introduzidos por uma série de considerações. Estas considerações iniciais abordam a necessidade de se normatizar os cursos de mestrados profissionais já existentes e delimitar o espectro de ação dos cursos que ainda viriam a existir, como por exemplo, o Mestrado Profissional em Educação.

Tais considerações possuem caráter de busca de legitimação por parte da CAPES em demonstrar a necessidade de uma abertura da pós-graduação, em sentido stricto sensu, para atender à demanda do mercado por profissionais altamente qualificados. De oito pontos abordados, quatro iniciam-se pela palavra „necessidade‟:

CONSIDERANDO a necessidade de estimular a formação de mestres profissionais habilitados para desenvolver atividades e trabalhos técnico-científicos em temas de interesse público; CONSIDERANDO a necessidade de identificar potencialidades para atuação local, regional, nacional e internacional por órgãos públicos e privados, empresas, cooperativas e organizações não- governamentais, individual ou coletivamente organizadas; CONSIDERANDO a necessidade de atender, particularmente

nas áreas mais diretamente vinculadas ao mundo do trabalho e ao sistema produtivo, a demanda de profissionais altamente qualificados; [...] CONSIDERANDO a necessidade de capacitação e treinamento de pesquisadores e profissionais destinados a aumentar o potencial interno de geração, difusão e utilização de conhecimentos científicos no processo produtivo de bens e serviços em consonância com a política industrial brasileira (BRASIL, 2009, p. 1).

Esta ênfase em introduzir as normatizações do documento em uma atmosfera de mudanças significativas também denota quais são as bases para o pensamento originador desta portaria. Ainda que tenha sido assinada pelo então ministro Fernando Haddad, na gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ambos filiados ao Partido dos Trabalhadores (PT), o aspecto neoliberal está presente no discurso deste documento, comprovando que as orientações emitidas pelo BM em relação ao ensino superior no Brasil e, principalmente, à pós- graduação no tocante à pesquisa e produção de conhecimentos, surtiram efeito ao evidenciar os cursos de mestrado profissional como nova forma de oferta da pós- graduação stricto sensu.

A necessidade de mudança na pós-graduação brasileira para que esta conseguisse auxiliar no desenvolvimento do Brasil, seja na colocação indireta de Severino (2006) ou nas orientações enfáticas do BM, se mostrava cada vez mais urgente diante das transformações ocorridas na sociedade após a metade do século XX. Com o avanço rápido da tecnologia e com as novas possibilidades de comunicação em tempo real, as parcerias em pesquisa científica se apresentaram de uma outra forma como até então acontecia. Avançados centros de pesquisa conseguiam difundir seus experimentos mais rapidamente e ao um número maior de interessados, o que levou ao maior interesse do mercado em absorver (ou ignorar) estas novas tecnologias e, em contrapartida, colocar situações práticas do dia a dia onde o ônus da solução recairia sobre os centros de pesquisa, que, por sua vez, deveriam conseguir responder à altura, visando à redução dos custos de produção para que a inovação proposta fosse atraente e rentável do ponto de vista de sua fabricação e utilização.20

20 Um exemplo dessa situação pode ser evidenciado na criação dos veículos elétricos. Em um

primeiro momento, seu alto custo de produção e manutenção não justificava sua inovação tecnológica. Por mais que este tipo de veículo propiciasse um nível extremamente pequeno de poluição, e em alguns casos, nível zero de emissão de poluentes, o mercado não quis assumir o custo da mudança de infraestrutura adequada para dar o suporte necessário para que esta tecnologia pudesse se expandir. Outra situação encontrada é a falta de profissionais qualificados para efetuarem as devidas manutenções que veículos com esta tecnologia demandariam, como a troca das células das baterias, desenvolvimento de sistemas de diagnóstico de falhas e outras

Isto justificaria, em certo grau de comparação, a necessidade de se qualificar a mão de obra profissionalmente dentro das instituições de pesquisa. Este ambiente inovador por natureza seria o lócus ideal para que se desenvolvessem inovação e tecnologia a um nível de custo mercadologicamente aceitável. Eis as possibilidades que os mestrados profissionais criam, segundo o Doc. 15:

Art. 3º O mestrado profissional é definido como modalidade de formação pós-graduada stricto sensu que possibilita: I - a capacitação de pessoal para a prática profissional avançada e transformadora de procedimentos e processos aplicados, por meio da incorporação do método científico, habilitando o profissional para atuar em atividades técnico-científicas e de inovação; II - a formação de profissionais qualificados pela apropriação e aplicação do conhecimento embasado no rigor metodológico e nos fundamentos científicos; III - a incorporação e atualização permanentes dos avanços da ciência e das tecnologias, bem como a capacitação para aplicar os mesmos, tendo como foco a gestão, a produção técnico- científica na pesquisa aplicada e a proposição de inovações e aperfeiçoamentos tecnológicos para a solução de problemas específicos (BRASIL, 2009, p. 2).

Estas possibilidades que o mestrado profissional cria não se enquadram nos propósitos das pesquisas realizadas no âmbito das Ciências Humanas, Sociais e Aplicadas, conforme documento elaborado pelo Grupo de Trabalho do CNPq, Ciências Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas (CHSSA) sobre a política de ciência, tecnologia e inovação para a área. Contudo, esta modalidade de pós- graduação chegou a esta área, sendo o primeiro programa de pós-graduação profissional em Educação criado em 2009.

Esta incompatibilidade de objetivos e funções fica mais clara quando analisamos os objetivos do MP expressos no Doc. 15:

I - capacitar profissionais qualificados para o exercício da prática profissional avançada e transformadora de

situações que poderiam vir a acontecer. Esta tecnologia ainda não implacou devido a uma série de fatores, mas principalmente por dois motivos: a justificativa do mercado em afirmar que, de certa forma, os trabalhadores não são qualificados em um nível onde se possa produzir determinado tipo de pesquisa e criação de novos produtos dentro das próprias empresas de modo a conseguir absorver este tipo de tecnologia e implementá-la adequadamente. E um outro motivo um pouco obscuro mas pertinente é a questão do boicote a esta tecnologia por parte da indústria petrolífera, que veria seus lucros diminuírem em função da ascensão de uma tecnologia mais limpa do ponto de vista dos danos ao meio ambiente.

procedimentos, visando atender demandas sociais, organizacionais ou profissionais e do mercado de trabalho; II - transferir conhecimento para a sociedade, atendendo demandas específicas e de arranjos produtivos com vistas ao desenvolvimento nacional, regional ou local;

III - promover a articulação integrada da formação profissional com entidades demandantes de naturezas diversas, visando melhorar a eficácia e a eficiência das organizações públicas e privadas por meio da solução de problemas e geração e aplicação de processos de inovação apropriados;

IV - contribuir para agregar competitividade e aumentar a produtividade em empresas, organizações públicas e privadas. Parágrafo único. No caso da área da saúde, qualificam-se para o oferecimento do mestrado profissional os programas de residência médica ou multiprofissional devidamente credenciados e que atendam aos requisitos estabelecidos em edital específico.

A incompatibilidade de estrutura lexical já indica que a proposta do MP não possui vínculos com a realidade encontrada na Educação como um todo. Palavras e expressões como „prática avançada e transformadora de procedimentos‟, „aplicação de processos de inovação apropriados‟, „agregar competitividade‟, „aumentar a produtividade de empresas‟ se mostram muito próximas dos ideais economicistas de educação expressos pelos documentos elaborados pelos organismos internacionais, sendo o BM seu principal articulador, como retratado nesta pesquisa. Estes vocábulos estão longe da realidade encontrada no universo da pesquisa em Educação desenvolvida nos programas de mestrado acadêmico existentes no Brasil. A realidade da educação brasileira e os desafios que ela nos coloca não pode ser reduzida aos caprichos idealistas e materialistas da busca incessante pelo lucro, pela redução de custos e pela expropriação de bens materiais e intelectuais que o neoliberalismo aplica na sociedade atual.

Seguindo a linha de raciocínio implantada pelo BM, o Doc. 15, em seu 11º artigo, deixa claro que o quesito „custo‟ foi elaborado de acordo com as orientações dos documentos analisados anteriormente. Exceto em áreas excepcionalmente priorizadas, ainda que não definidas pelo Doc. 15, o mestrado profissional não pressupõe, a qualquer título, a concessão de bolsas de estudos pela CAPES.

4.4.4 Plano Nacional de Pós-Graduação - PNPG 2011/2020 Vol. 1