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3 Documentos que organizaram o Ensino Médio e o Ensino Técnico durante o governo

3.1 Ensino Médio

3.1.1 Portaria n.º 438/1998 e Documento Básico do Enem

A Portaria n.º 438, de 28 de maio de 199812, instituiu o Exame Nacional do Ensino Médio. Segundo o Documento Básico do Enem (1998a), a partir da Nova LDB o Ensino Médio passou a ser concebido como etapa conclusiva da educação básica e com a função de preparar o aluno para prosseguir nos estudos, ter uma participação efetiva na sociedade e inserir-se no mercado de trabalho.

A avaliação por meio do Enem foi implantada com o objetivo de medir o desempenho do aluno, com o intuito de: promover a autoavaliação do estudante, visando à continuidade da formação e inserção no mercado; fornecer subsídios de acesso ao ensino superior; e constituir-se como modalidade de acesso a cursos profissionalizantes pós-ensino médio (BRASIL, 1998c).

O principal fundamento da base epistemológica do exame era o conceito de cidadania que priorizava a formação ética, o pensamento crítico e a autonomia do aluno, ao terminar a educação básica. Segundo o MEC, o Enem não testava conteúdos, mas o domínio de competências (BRASIL, 1998a).

O exame era fundamentado na avaliação de 5 competências e 21 habilidades para o desenvolvimento da vida acadêmica, da cidadania e da inserção no mundo do trabalho. No artigo 2º da portaria, dentre as competências avaliadas, destacam-se:

I – dominar a norma culta da Língua Portuguesa e fazer uso das linguagens matemática, artística e científica;

II – construir e aplicar conceitos das várias áreas do conhecimento para a compreensão de fenômenos naturais, de processos histórico geográficos, da produção tecnológica e das manifestações artísticas;

III – selecionar, organizar, relacionar, interpretar dados e informações representados de diferentes formas, para tomar decisões e enfrentar situações- problema;

IV – relacionar informações, representadas em diferentes formas, e conhecimentos disponíveis em situações concretas, para construir argumentação consistente;

V – recorrer aos conhecimentos desenvolvidos na escola para elaboração de propostas de intervenção solidária na realidade, respeitando os valores humanos e considerando a diversidade sóciocultural (BRASIL, 1998c).

As habilidades avaliadas relacionam-se às competências mencionadas e referem-se, especificamente, aos conteúdos escolares. Além da prova objetiva, a avaliação continha uma proposta de redação, também fundamentada em competências, na qual o participante deveria: demonstrar domínio da norma culta da escrita; compreender a proposta de redação e desenvolver

o tema em um texto dissertativo-argumentativo; selecionar e organizar as informações para defender um determinado ponto de vista; demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos; e elaborar uma proposta para solucionar o problema abordado (BRASIL, 1998c).

Até 2008, o Enem manteve essa configuração, tomando por referência os PCN, a LDB, a Reforma do Ensino Médio e as Matrizes Curriculares de Referência para o SAEB. De acordo com o Documento Básico (1998a), a realização anual do exame poderia fornecer uma imagem realista e atualizada da educação brasileira.

No referido documento (1998a), foi destacada a importância da formação básica, não só para a continuidade da vida acadêmica, mas também para a inserção no mercado de trabalho, cada vez mais competitivo. O ensino médio constituiu-se como uma etapa quase decisiva na trajetória escolar do aluno, pois alguns poderiam cursar o ensino profissionalizante e/ou superior, ingressando ou não no mercado, enquanto a maioria ingressaria apenas no mercado de trabalho, caso ainda não estivesse inserida nele, sem precisar prosseguir nos estudos. Assim, a transição do ensino médio para o ensino superior ou profissionalizante retrata o que Althusser (1999, p. 168) chama de “parqueamento”: a maioria dos estudantes atinge mais ou menos o mesmo nível de ensino, com acesso a determinados conteúdos, necessários para que constituam a massa de trabalhadores para suprir as necessidades do sistema capitalista, enquanto os outros terão acesso a conteúdos mais elaborados, que lhes permitirão ocupar melhores postos no mercado, de acordo com a divisão do trabalho social.

Atualmente, com a realização do Enem, é possível que alunos maiores de 18 anos obtenham uma certificação de nível médio, caso não tenham concluído essa escolaridade em idade adequada, conforme determinado pela Portaria Normativa n.º 4, de 11 de fevereiro de

201013. Além disso, em apenas quatro anos (1998-2002), um crescimento significativo na utilização do Enem em processos seletivos de acesso ao ensino superior contribuiu para sua consolidação (FREITAS, 2007, p. 160).

Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, na edição de 24 de junho de 2005, o ministro da Educação durante o governo FHC, Paulo Renato de Souza, deu a seguinte declaração sobre os conteúdos do ensino médio:

Eu não me preocuparia tanto com o que está sendo passado de conteúdo. Você veja, por exemplo, o Enem. O Enem é um exame de raciocínio. Toda a informação de conteúdo que ele precisa, ele fornece no enunciado das perguntas. Qualquer um de nós, se tiver tempo, é capaz de responder o Enem. Eu demoraria muito mais tempo do que um aluno de ensino médio, mas eu seria capaz responder aquelas provas porque é uma prova que exige, basicamente, a capacidade de raciocinar14 (SOUZA, 2005).

A declaração do ex-ministro deixou clara a opção por uma educação que priorizasse o “aprender a aprender”, voltada muito mais às competências que o indivíduo teria que desenvolver durante a sua vida, submetendo-se a diferentes situações em relação tanto ao prosseguimento dos estudos quanto ao ingresso no mercado de trabalho. Nessas condições, a escola contribui mais para desenvolver a capacidade do aluno de adaptar-se a determinadas situações do que para instrumentalizá-lo com a apropriação de conteúdos historicamente desenvolvidos pela humanidade, os quais, de acordo com Saviani (2000), são importantes ferramentas para que o dominado se liberte da condição de dominação.

13 A Portaria Normativa n.º 4, de 11 de fevereiro de 2010, está disponível em

<http://download.inep.gov.br/educacao_basica/enem/legislacao/2010/portaria4_enem_certificacao_ensino_medio.pd f>. Acesso em: 23 maio 2012.

Contraditoriamente, do ponto de vista lógico, mas coerentemente com uma reforma educacional implementada a partir de fragmentos, o documento com os dispositivos que instituíram o Enem foi publicado antes das Diretrizes Curriculares para o Ensino Médio.

Ao caracterizarem o ensino médio como etapa que deve preparar o aluno para a inserção no mercado, a Portaria n.º 438 e o Documento Básico do Enem tratam a escola como responsável pela reprodução da qualificação da força de trabalho, conforme destaca Althusser (1999) em relação tanto à qualificação quanto ao submetimento à ideologia dominante, uma vez que o Enem reforça a competição e a meritocracia.

A prioridade das competências em detrimento dos conhecimentos acumulados relaciona- se ao savoir-faire (saber fazer) revestido pela ideologia dominante (ALTHUSSER, 1999). No caso dos documentos, esse savoir-faire estaria de acordo com a pedagogia das competências, que prioriza o caráter utilitarista de alguns conhecimentos e não os considera uma ferramenta que permitiria à classe trabalhadora o acesso aos mesmos saberes de que a classe dominante se apropria e utiliza, em favor da sua dominação.

Essa prioridade dos conhecimentos utilitaristas (as competências que se almejam atingir através do ensino) como, por exemplo, o “aprender a aprender”, revela que o ensino médio segue a lógica da reestruturação produtiva do modo de produção capitalista, visando a formar um trabalhador flexível e polivalente.

Posteriormente, veremos outros aspectos do ensino médio que se relacionam com a teoria althusseriana da escola como AIE.