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Posição do sujeito e fronteamento de objeto

No documento A ordem de palavras no português medieval (páginas 158-166)

Capítulo 5 – Apresentação dos resultados

5.2. Sentenças subordinadas

5.2.5. Posição do sujeito e fronteamento de objeto

Em termos quantitativos observamos que, diferente do que ocorre com as orações matrizes, nas subordinadas os sujeitos pré-verbais predominam sobre as ordens (X)VS, em uma proporção de 93% (1.174 sentenças em um total de 1.265) para 7% (91 sentenças), respectivamente. Ao observar os resultados por século, notamos que essa proporção se mantém estável: no século 13 são 96% de casos de SV para 4% de VS; no século 14 a proporção de SV para VS é de 86% para 14%, respectivamente; por fim, no século 15 temos 92,5% de SV para 7,5% de VS. A distribuição dos dados, assim como seus valores absolutos, pode ser observada na tabela abaixo. SV (X)VS TOTAL Século 13 432 / 96% 19 / 4% 451 / 100% Século 14 138 / 86% 23 / 14% 161 / 100% Século 15 604 / 92,5% 49 / 7,5% 653 / 100% TOTAL 1.174 / 93% 91 / 7% 1.265 / 100%

Tabela 23: Posição do sujeito nas orações subordinadas dos séculos 13, 14 e 15.

Em relação ao tipo de objeto que aparece à frente do verbo nos contextos XV, observamos que os pronomes demonstrativos são maioria, especialmente quando acompanhados do complementizador quando, em que sua ocorrência é quase categórica. Nos textos Testamento de Dom Afonso e Documentos portugueses do Noroeste e região de Lisboa não houve nenhum caso de fronteamento de objeto com pronome demonstrativo; Costumes de Santarém apresentou alguma ocorrência somente 1 caso e sem pronome demonstrativo. No texto narrativo José de Arimateia os pronomes demonstrativos são maioria, e fica evidente que a retomada anafórica é uma estratégia narrativa para manter a continuidade da prosa, tanto nas orações matrizes quanto nas encaixadas. Neste documento encontramos 11 dados com ordem OVS, sendo 8 com fronteamento de pronome demonstrativo e 3 com fronteamento de outros objetos. No século 14 foram encontrados 13 dados na Crónica Geral de Espanha, sendo 12 com demonstrativos. No século 15, a Demanda do Santo Graal

retornou 24 dados, sendo 14 com fronteamento de demonstrativo e 10 com fronteamento de outros tipos de objeto. Os dados estão organizados na tabela abaixo.

ODEMVS OVS Total

Século 13 8 / 73% 3 / 27% 11 / 100%

Século 14 12 / 92,5% 1 / 7,5% 13 / 100%

Século 15 14 / 58,5% 10 / 41,5 24 / 100%

Total 34 / 71% 14 / 29% 48 / 100%

Tabela 24: Fronteamento de objeto nas orações subordinadas dos séculos 13, 14 e 15.

A variação no século 15 sugere que neste século alguma mudança está em curso. Como veremos nos capítulos 6 e 8, o português clássico apresenta baixas taxas de fronteamento de objeto. Nossos dados parecem indicar que o fronteamento de demonstrativos é um ponto de diferença entre as duas gramáticas e que a mudança de uma para outra começa a ser visível a partir do século 15.

5.2.6. Interpolação

No corpus analisado, as buscas para orações subordinadas com interpolação clítica retornaram 483 resultados em um total de 7.401 orações dependentes. Nestas o clítico geralmente está contíguo ao complementizador, isto é, está entre o complementizador e um outro elemento, que pode ser um PP, um ADVP, um DP, um NP ou outro clítico. Ainda que em baixa proporção, também foram computadas orações em que essa contiguidade não se aplica, licenciando ordens em que há um elemento entre o complementizador e o clítico.

Nos textos não narrativos, com exceção do Costumes de Santarém que, como vimos, aparenta uma natureza híbrida – nem narrativo nem não narrativo – não foram computados dados de interpolação. No século 13 foram levantados 117 casos, sendo 3 nos Costumes e 114 no José de Arimateia. No primeiro texto todos os dados apresentam contiguidade entre complementizador e clítico e este está interpolado entre o complementizador e um PP (217) ou advérbio (218). No segundo texto foram computados 5 casos em que não há contiguidade entre o complementizador e o clítico (219, 220); o restante apresenta contiguidade entre o complementizador e clítico, que pode ocorrer antes de um advérbio (221), pronome demonstrativo (222), ou PP (223).

(217) e da fferida asinaada se o co~ ela fezer per jurameto estar-lhe a 60

varas o caualeyro a outro caualeyro e o peo~ a outro peo~. (CS1294_SPL,3.80;

Costumes de Santarém; século 13)

(218) e sse for metudo na dizi´ma paga-la a outra parte que o hy meteu seno~

for chamado e entregado ante. (CS1294_SPL,6.183; Costumes de Santarém;

século 13)

(219) E apareceolhe Jesu Cristo aquele dia e deixou com ele tam gram

claridade, quando se houve de partir, que nunca lhe mais faltou e nam cuidou

(220) E, como a luz vier, tu irás diante d'arca e tu e tua companhia fareis i

orações e darei -vos- uu novo estabelecimento, que ainda vos nunca dei, ca

eu sagrarei teu filho e faei-lo clerigo de missa... (JAR38,.15; José de Arimateia;

século 13)

(221) E aquele ungimento foi tomado da redoma que o anjo tinha, que tirara

quando quis entrar Josefes em a arca, assi como vos ja disse. (JAR41,.47;

José de Arimateia; século 13)

(222) Depois que me isto disse, ergueome em alto, (JAR07,.4; José de

Arimateia; século 13)

(223) E tão asinha que se em ela assentou, tomou Nosso Senhor tal vingança

que ambos os olhos lhe cayrõo da cabeça. (JAR41,.43; José de Arimateia;

século 13)

No século 14 foram levantados 77 dados, sendo 3 nas Vidas de Santos de um Manuscrito Alcobacense e 74 na Crónica Geral de Espanha. No primeiro texto todos os casos apresentam contiguidade entre complementizador e clítico, e após o clítico há um advérbio (223) ou um PP (224). Na Crónica 3 dados não apresentam contiguidade entre complementizador e clítico (225, 226, 227) e o restante exibe a ordem complementizador-clítico, podendo ocorrer após este um advérbio (228), um PP (229), um DP (230) ou um pronome demonstrativo (231).

(223) E aquel que me ally trouvera me disse: - Anda e hir-t’ey mostrar tua madre (VIDASSANTOS_SPL,3.87; Vidas de Santos de um Manuscrito

Alcobacense; século 14)

(224) Nom te abastava trinta mil mouros que me per forca de baptismo tiraste

e hofereceste ao teu Deos? (VIDASSANTOS_SPL,9.210; Vidas de Santos de

(225) Quando dom Munho Sallido lhe aquello ouvyu dizer, disselhe: - Aa,

treedor e homen maao! (CGE374,.21; Crónica Geral de Espanha; século 14)

(226) E~ maao dia vos eu dou soldadas, pois que vos a Munho Salido me

assy vedes desonrrar e me no~ dades delle direito; e o que ainda he peor, que semelha que vos nõ pesa ende! (CGE373,.19; Crónica Geral de Espanha;

século 14)

(227) E o conde, tãto que as leteras vyu, e~vyoulhe dizer per seu recado que

se vehessem a elle a Burgos, ca ja o hy acharyam. (CGE378,.66; Crónica

Geral de Espanha; século 14)

(228) E, por este milagre que ally Deus fez por elle, maldisse aquelles que o

falssame~te acusarõ e seu linhagem que delles vehesse, (...) (CGE381,.31; Crónica Geral de Espanha; século 14)

(229) E sabede, amigos, que tal logar cuydo de filhar e~ a lide que, se me com

elle e~contro, eu averey mester o vosso aguardame~to. (CGE332,.16; Crónica Geral de Espanha; século 14)

(230) E os mãdadeiros, quando a elle chegarom, disseronlhe o que lhe o

conde mandava dizer. (CGE332,.6; Crónica Geral de Espanha; século 14) (231) Ruy Vaasquez, quando lhes aquello ouvyo, começouhos de

louvamynhar e a dizer assy: - Filhos, estes agoyros muy bõos som, ca dam a

entender que do alheo guaanharemos algo e do nosso nõ perderemos nada.

(CGE373,.7; Crónica Geral de Espanha; século 14)

Na Demanda do Santo Graal encontramos 289 ocorrências de orações dependentes com interpolação clítica. Diferente do que acontece nos outros textos, na Demanda levantamos 22 casos com interpolação com os vocábulos en, ar e er

(232, 233). O restante ocorre com advérbios, PPs (234), DPs (235), NPs (236) e pronomes demonstrativos (237). Em relação ao tipo de advérbio, são particularmente frequentes os que expressam valor temporal e locativo (238, 239). No que respeita à contiguidade entre complementizador e clítico, 13 casos não apresentam essa característica (240, 241).

(232) – Jrmãão, disse Boorz, eu nom posso aquj mais star mas uos ficade e comendo uos a Deos, ca nom sey se uos er ujrey mais, (…). (DSG180,.25; Demanda do Santo Graal; século 15)

(233) Esto fez elle porllo que disera que, se alguu fosse retraudo, que a culpa

se en tornasse sobre aquelle que o seu scudo leuaua. (DSG372,.8; Demanda do Santo Graal; século 15)

(234) Morto e scarnido me ha este caualeiro que se de aquj vay. (DSG195,.11;

Demanda do Santo Graal; século 15)

(235) E nõ auja hy tal dos outros que lhe tanto mall fezesem como Gualuã e

Estor que erã da outra parte e nõ no conheciam. (DSG252,.8; Demanda do

Santo Graal; século 15)

(236) - Senhor, disse Dalides, nom ha coussa no mundo per que ficasse e, sse

me força fezerdes, eu me matarey com mjnhas mããos. (DSG75,.13; Demanda do Santo Graal; século 15)

(237) Entã abrio Galuam os olhos e ujo e Queya disse: - Eu cujdaua que erades

Boorz que se partio de mj pouco ha por hir depollo caualeyro que me esto fez.

(DSG96,.12; Demanda do Santo Graal; século 15)

(238) Be~to seja Deos que uos aquj adusse. (DSG183,.14; Demanda do

(239) E ssabede que eu som aquelle que des oje mais nõ no quitare~ por

hirmãão, porlla deslealdade de que lhe oje vy fazer. (DSG258,.15; Demanda

do Santo Graal; século 15)

(240) - Amigo, dise el rei, pois Deos e a uentura uos a espada deu, nom

tardara mujto ho scudo. (DSG19,.32; Demanda do Santo Graal; século 15)

(241) E emtam lhe disse hua uoz: - Boorz nom tenhas majs conpanha a teu

jrmaao mas uaite dereitame~te contra o mar e nõ te detenhas nenhur ca

Parsiuas te hi atende. (DSG180,.17; Demanda do Santo Graal; século 15) Em relação ao tipo de complementizador que ocorre nos contextos de interpolação, não parece haver um padrão; foram observados como, quando, que, ca, qual, como, quem, onde, pois, porque, entre outros. Todos ocorrem em variação em todos os textos, sendo que o mais frequente.

Os dados com interpolação clítica trazem importantes informações sobre a periferia esquerda do português medieval, evidenciando que existe mais de uma posição à esquerda do verbo. Observe-se o exemplo abaixo.

(242) E, como a luz vier, tu irás diante d' arca e tu e tua companhia fareis I

orações e darei-vos uu novo estabelecimento, que ainda vos nunca dei, ca

eu sagrarei teu filho e faei-lo clerigo de missa, ca eu lhe darei minha carne e

meu sangue a goardar e darei-lhe outro tanto como tu viste, quando me deceste

da cruz e me levaste ao muimento. (JAR38,.15; José de Arimateia; século 13)

Casos como (242), em que não há contiguidade entre complementizador e pronome clítico, sugerem que, assim como nos contextos matrizes, nas subordinadas algumas posições estão disponíveis à esquerda do verbo, corroborando uma análise do português medieval como uma língua V2 simétrica.

5.2.7. Resumo

Os dados de orações subordinadas expostos na última seção trazem informações importantes sobre a sintaxe da gramática em estudo. Com base em uma análise empírica, é possível depreender que a periferia esquerda das orações dependentes do português medieval é uma estrutura complexa e que licencia o fenômeno V2 com diferentes tipos de verbo, e não exclusivamente com verbos “ponte”. As ordens V>2 e V1 também ocorrem em menor proporção, sendo V1 bastante rara. Em relação à posição do sujeito, nos contextos subordinados, as ordens com sujeito pré-verbal são a maioria, representando 93% dos dados.

Os pronomes demonstrativos também desempenham um papel importante nas orações subordinadas. Observamos que nos contextos de fronteamento de objeto as sequências com quando + pronome demonstrativo são especialmente frequentes. Além disso, alguns complementizadores parecem licenciar o uso de demonstrativos – fronteados ou não –, como quando, enquanto e mentes. Note-se que todos eles expressam valor temporal. Mais uma evidência interessante relacionada aos demonstrativos é o fato de que no âmbito das subordinadas estes pronomes só ocorrem em textos narrativos. Nos séculos 13 e 14 a taxa de demonstrativos é elevada, caindo no século 15.

Em relação aos dados de interpolação, observamos que estes são bastante frequentes em orações dependentes. São mais comuns os casos em que há contiguidade entre o complementizador e o clítico, mas também são possíveis estruturas em que há um elemento à frente do clítico, ainda que em baixa proporção. São vários os tipos de sintagmas que ocorrem em contextos de interpolação clítica, mas é somente no século 15 que observamos construções de interpolação com os advérbios medievais er, ar e en.

No documento A ordem de palavras no português medieval (páginas 158-166)