3.3 Beyond a reasonable doubt
3.3.4 Possíveis compreensões
Não há consenso nos Estados Unidos, tanto no âmbito dos estados, quanto na esfera federal com seus 11 US Circuit Courts, se os jurados devem ou não receber qualquer instrução sobre o significado de beyond a reasonable doubt. Há cortes que exigem que a instrução sobre o significado dele seja dada, outras que proíbem e outras que não exigem, nem proíbem. A própria Suprema Corte, por meio do Justice O Connor, referiu, em 1994, que a constituição não impõe esse dever221.
Aparentemente a não instrução, ou uma instrução vaga não ensejam eventual reversão do julgamento, e por isso tem sido adotada como estratégia processual. O sétimo circuito federal chegou a defender que o critério é autoevidente, de modo que qualquer tentativa de o esclarecer acabaria por gerar confusões. Todavia, esse argumento não se sustenta, pois, como já referido, os próprios magistrados, versados na dogmática jurídica, possuem concepções completamente divergentes sobre o assunto. O nono circuito federal já consignou que não há prova
220 LAUDAN, Larry. Is reasonable doubt reasonable? Legal Theory, n. 9, 2003. p. 9.
221 DIAMOND, Henry A. Reasonable doubt: to define, or not to define. Columbia Law Review. v. 90, n. 1716, 1990. p. 1717-1721.
demonstrável ou confiável de que haja uma definição razoavelmente apropriada e que seja de uso comum ou bem entendida pelos cidadãos em geral222.
Não há, portanto, um sentido unívoco para beyond a reasonable doubt para as cortes criminais americanas. O objetivo da instrução é alertar os jurados para que não exagerem em dúvidas teóricas, quando da tomada de decisão, bem como que o standard criminal é mais alto do que o cível e do que aquele das decisões do dia a dia, e que a perda da liberdade deve ser encarada como uma medida drástica.
Rejeitam-se as dúvidas que carecem de razões epistêmicas específicas, sendo meramente metafísicas ou essencialmente filosóficas e expressas em termos probabilísticos, como a ideia de que não podemos ter cem por cento de certeza de nada223.
Há que se destacar que não importa o estado mental de convicção do julgador, mas como chegou a ele, assim como um cientista que, antes de aceitar a teoria, aprende como avaliar provas e sua influência na teoria224. No âmbito do direito civil, quando sobrevém uma ação por inadimplemento do contrato, não se espera que o pleito seja julgado conforme um particular estado mental, mas que as provas sejam avaliadas quanto ao suporte que conferem à versão fática propugnada.
Por cerca de duzentos anos, no direito anglo-americano, a noção de beyond a reasonable doubt foi identificada com moral certainty. Esta concepção nunca foi tratada exclusivamente na perspectiva subjetiva do estado mental dos julgadores, mas sempre relacionada às provas. Somente seria próprio alcançar a moral certainty quando houvesse diversas linhas de provas independentes que apontassem na mesma direção. Os jurados eram informados de uma forma geral sobre características lógicas e epistêmicas que um caso deveria apresentar antes de se considerar culpado o réu, além da dúvida razoável. O standard perdeu com o tempo esse conteúdo substantivo, tornando-se um mero mantra225.
222 DIAMOND, Henry A. Reasonable doubt: to define, or not to define. Columbia Law Review. v. 90, n. 1716, 1990. p. 1722; LAUDAN, Larry. Is reasonable doubt reasonable? Legal Theory, n. 9, 2003.
p.17.
223 TUZET, Giovanni. Assessment criteria or standards of proof? An effort in clarification. Artificial Intelligence and Law [0924-8463], 2018. p. 6.
224 LAUDAN, Larry. Por qué un estándar de prueba subjetivo y ambiguo no es un estándar. El estándar de prueba y las garantías en el proceso penal. Buenos Aires: Hammurabi, 2011. p. 105-106.
225 LAUDAN, Larry. Is reasonable doubt reasonable? Legal Theory, n. 9, 2003. p. 23-24.
Em 1995, a Court of Appeals da província canadense da Colúmbia Britânica apreciou o caso Regina v. Brydon. Cinco membros dessa corte analisaram vultosa quantidade de artigos e decisões envolvendo o standard beyond a reasonable doubt e desenvolveram um modelo de instrução ao júri focado na racionalidade. A instrução diz, em suma, que uma dúvida razoável é aquela baseada na razão, processo lógico mental, diversa de uma dúvida fantasiosa ou especulativa, ou fundada em simpatia ou preconceito. Para esta dúvida é preciso haver uma razão lógica, relacionada às provas do processo. Inclui-se qualquer conflito entre os elementos de juízo, após considerar as provas como um todo (prova como resultado), bem como a ausência de uma prova tida por essencial. Além disso, a dúvida não pode tomar por premissa a ideia de que nada é certo, ou impossível, ou que qualquer coisa é possível. Isso porque a apreensão da verdade na sua inteireza é uma tarefa impossível, buscando-se aqui um alto grau de corroboração ao conhecimento da verdade226.
Outras contribuições têm auxiliado na melhor compreensão do standard além da dúvida razoável. Laudan analisa uma formulação objetivista na qual uma condenação estará justificada se, e somente se: (a) a hipótese de culpabilidade puder explicar a maioria dos fatos mais importantes do caso e (b) a hipótese de inocência não puder explicar nenhuma prova importante que seja inexplicável pela hipótese da culpabilidade227. O direito alemão, após a Segunda Guerra Mundial,
226 “A reasonable doubt is exactly what it says – a doubt based on reason – on the logical process of the mind. It is not a fanciful or speculative doubt, nor is it a doubt based upon sympathy or prejudice. It is the sort of doubt which, if you asked yourself “why do I doubt?” you can assign a logical reason by way of an answer. A logical reason in this context means a reason connected either to the evidence itself, including any conflict you may find exists after considering the evidence as a whole, or to an absence of evidence which in the circumstances of this case you believe is essential to conviction. If you have a nagging question in the back of your mind about the guilt of the defendant, you must examine and resolve that question to your own satisfaction one way or the other. In the end you must be convinced of the guilt of the defendant beyond a reasonable doubt. You must not base your doubt on the proposition that nothing is certain or impossible or that anything is possible. You are not entitled to set up a standard of absolute certainty and to say that the evidence does not measure up to the standard. In many things it is impossible to prove absolute certainty. If, after a careful consideration of all the evidence in this case, there remains in your mind a reasonable doubt as to the guilt of the accused, the Crown has failed to meet the standard of proof which the law requires, the presumption of innocence prevails and you must – not may – acquit. On the other hand, if a careful consideration of all the evidence leaves you with no reasonable doubt as to the guilt of the accused, the presumption of innocence has been displaced and it is your duty to convict.” MULRINE, Thomas V. Reasonable doubt: how in the world is it defined? American University International Law Review 12, n. 1, 1997.
p. 217, 224-225.
227 LAUDAN, Larry. Por qué un estándar de prueba subjetivo y ambiguo no es un estándar. El estándar de prueba y las garantías en el proceso penal. Buenos Aires: Hammurabi, 2011. p.
107-passou a diferenciar as dúvidas abstratas das concretas. Por abstratas têm-se as dúvidas que são em si possíveis e, concretas, aquelas que têm fundamento em fatos reais, em elementos de prova. A possibilidade meramente abstrata ou teórica de que um acusado não seja o autor do delito não é suficiente para impedir a sua condenação228. O standard penal, então, corresponderia a um alto grau de probabilidade não infirmado por nenhuma dúvida concreta229.
Na maioria das áreas da vida em que há uma investigação sobre a verdade, o tipo de advertência usual, para assegurar que esta busca seja racional, envolve especificações de tipos de provas ou testes necessários para justificar o raciocínio bem fundado. Como a explicação de quando uma hipótese é bem ou mal suportada pelas provas, ou quando é adequado inferir uma determinada conclusão a partir de certas premissas. Isso não significa tarifar os elementos de prova, mas tão somente expor modelos ou paradigmas de argumentações sólidas de forma exemplificativa.
Se fatos não improváveis são atestados por várias testemunhas dotadas de credibilidade, com alegações consistentes e não contraditórias, duvidar deles não seria razoável230.
A investigação envolve, em primeiro lugar, ser atingido por uma questão. Se a resposta não é facilmente encontrada, faz-se uma conjectura sobre o que, se for verdade, responderia à questão. Descobrindo as consequências da conjectura, confere-se até que ponto elas resistem a qualquer prova que já se tenha e a qualquer outra que se possa obter. Depois julga-se manter a conjectura inicial, modificá-la, abandoná-la, começar de novo a investigação, ou suspender o julgamento até que mais provas apareçam. A investigação é mais bem conduzida quanto mais perspicazes e informadas as conjecturas, rigoroso o raciocínio, minuciosa a busca de provas e honesta a pesagem das provas. Os conceitos de investigação e de prova estão intimamente interligados. A prova com relação a
112; LAUDAN, Larry. La elemental aritmética epistémica del derecho II: los inapropiados recursos de la teoría moral para abordar el derecho penal. In: Estándares de prueba y prueba científica.
Ensayos de epistemología jurídica. Madrid: Marcial Pons, 2013.
228 TARUFFO, Michele. Conocimiento científico y estándares de prueba judicial. Boletín Mexicano de Derecho Comparado. Nueva serie. Año XXVIII, n. 114, septiembre-diciembre de 2005. p. 1311.
229 Outra compreensão, que segue na mesma direção, diz que, do confronto entre as hipóteses alternativas, deve-se averiguar se há dúvidas internas, isto é, contradições ou incapacidade explicativa, ou externas, vale dizer, existência de uma hipótese alternativa dotada de racionalidade, amparada nos elementos de juízo. POLI, Roberto. Gli standard di prova in Italia. Revista de Processo, São Paulo, v. 43, n. 280, jun. 2018. p. 421, 454-455.
230 LAUDAN, Larry. Is reasonable doubt reasonable? Legal Theory, n. 9, 2003. p.19.
afirmações factuais e empíricas é uma malha complexa na qual provas experienciais (as provas dos sentidos) e as razões (as crenças de fundo) trabalham juntas, como as pistas e ramificações entrecruzadas em um jogo de palavras cruzadas231.
O que distingue uma dúvida razoável de uma não razoável é que a primeira corresponde ao suporte nos elementos probatórios. Decidir se a tese da acusação, ou da defesa, é a mais forte com base no suporte das provas é uma questão objetiva. Observa-se que é perfeitamente possível interpretar esse standard de prova sem que se apele ao estado mental “crença” como, por vezes, denuncia a jurisprudência norte-americana. Este é precisamente o prisma pelo qual se analisam os critérios de suficiência probatória neste estudo.