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POTENCIALIDADES E BARREIRAS AO PROCESSO DE EMPODERAMENTO DAS

6 O PROCESSO DE EMPODERAMENTO DAS PARTICIPANTES DO PROJETO

6.4 POTENCIALIDADES E BARREIRAS AO PROCESSO DE EMPODERAMENTO DAS

EMPODERAMENTODASPARTICIPANTESDOPROJETOELAS:

Esta pesquisa buscou analisar as possibilidades de empoderamento de mulheres participantes do projeto ELAS. O referencial principal partiu da perspectiva da construção de uma condição de agente, segundo referencial de Sen (2000), na qual as mulheres participantes do projeto decidem agir de forma a provocar mudanças em sua situação de vida, alicerçadas pelas condições fornecidas pelo projeto ELAS, que buscou oportunizar o empoderamento individual, social e político dessas mulheres, a partir do acesso ao microcrédito.

A perspectiva teórica do empoderamento individual e econômico vincula a expansão de poder do indivíduo, causada pelo acesso à renda, ao aumento de suas liberdades, ampliação de seu bem-estar e desenvolvimento de sua condição de agente. Neste processo, haveria o desenvolvimento posterior do empoderamento social e político desses indivíduos, que passariam a influenciar instâncias de deliberação e de tomada de decisão, tornando-se sujeitos com poder de agenda em temas que afetam sua vida e sua comunidade.

No nível individual, percebeu-se que dentre os fatores motivadores das entrevistadas para buscar um empréstimo estavam: a difícil situação econômica vivida por suas famílias, que foi destacada por todas durante as entrevistas; a vontade de realizar uma atividade produtiva mais compatível com sua realidade de vida, com menos problemas em comparação com o mercado formal e que permitisse também a maior convivência com os filhos; e a independência econômica frente ao seu marido.

122 Os relatos demonstraram que o acesso ao microcrédito e o desenvolvimento de um empreendimento ampliaram a sensação de bem-estar dessas mulheres pelo impacto positivo gerado, principalmente em suas famílias, a partir da ampliação da capacidade de consumo. Desse modo, elas vieram a conhecer uma nova situação: de reconhecimento e respeitabilidade dentro de seus lares.

Em relação a seus companheiros, notou-se que a busca por independência financeira a partir de seu pequeno empreendimento não desafiou a posição de seus maridos dentro de seus lares, pois as entrevistadas declararam discutir o início de sua atividade com eles.

Os maridos, por sua vez, endossaram o desejo de suas mulheres por perceberem que a atividade escolhida não influenciaria negativamente o desempenho das atividades domésticas e de cuidados executadas por suas esposas. As entrevistadas, inconscientemente temerosas de retaliações em sua nova realidade produtiva, não discutiram uma redistribuição de tarefas domésticas, priorizando a convivência pacífica dentro de seu lar e a harmonia de seu relacionamento.

As relações de gênero dentro dessas famílias, portanto, não sofreram modificações. Houve a ampliação da “esfera doméstica” juntamente com a nova “esfera produtiva”, com ocupação das horas de descanso e lazer de que essas mulheres poderiam desfrutar, mas abdicaram para conseguirem desempenhar suas antigas tarefas domésticas com suas novas tarefas de empreendedora, ampliando o benefício masculino de contar com uma esposa sempre presente na esfera do lar.

Em relação à autoestima das entrevistadas, já ampliada pela melhoria de vida daqueles que amam, notou-se que houve uma complementaridade desempenhada pelos cursos profissionalizantes do projeto ELAS, por permitirem o desenvolvimento da capacidade de articulação e fala dessas mulheres. Esta situação demonstrou o isolamento que permeou a vida das entrevistadas, até então restritas ao espaço de seus lares e convívio apenas com seus companheiros, parentes e filhos.

O empoderamento social e político, por sua vez, apresentou pouco desenvolvimento na realidade das entrevistadas, tanto por conta de restrições da instituição responsável pelo projeto ELAS – o Banco Palmas – em oferecer espaços de discussão, quanto pela dificuldade das entrevistadas em participar de iniciativas que ocupem o tempo destinado a seus empreendimentos e tarefas domiciliares.

123 Outro fator limitante da análise do empoderamento social e político foi o espaço de tempo analisado nesta pesquisa, bastante limitado devido ao escopo de uma dissertação de mestrado.

Esta esfera de empoderamento é mais complexa e possui maior necessidade de maturação por parte dos indivíduos. Mesmo assim, este nível de empoderamento apresentou potencialidades de desenvolvimento pelas entrevistadas, que podem ser aprimoradas futuramente, tendo em vista seu interesse em participar de outros espaços, caso sejam propostos pelo Banco Palmas.

Deve-se levar em conta que a dificuldade primária para este fator de análise é a incapacidade de um indivíduo em articular ideias e se comunicar pois, nessas condições, não é possível influenciar decisões que tratem de seu bem-estar e de sua comunidade – uma dificuldade apresentada pelas entrevistadas, antes da participação no projeto ELAS. As funcionárias do projeto ELAS, ex-integrantes do projeto, por sua vez, atingiram um processo de empoderamento completo a partir das três esferas analisadas, tendo apresentado uma história bastante similar com as atuais participantes do projeto, incluindo sua dificuldade em se expressar. Este fator pode indicar uma trajetória futura de empoderamento paritário nas três esferas estudadas, caso novas ações sejam tomadas para estimular o debate e participação feminina na comunidade.

O acesso ao microcrédito, portanto, apresentou potencialidades e barreiras ao processo de empoderamento das mulheres pesquisadas. Deve-se levar em consideração que este processo não é linear ou exatamente igual para todos os indivíduos, sendo influenciado por fatores externos que podem não ter sido citados nas entrevistas.

Para facilitar a análise de dados da pesquisa, formulou-se um quadro sintético com os elementos analisados a partir das discussões teóricas e práticas da pesquisa empírica, buscando apontar as potencialidades e barreiras detectadas na construção do processo de empoderamento das mulheres pesquisadas.

Tabela 5: Potencialidades e barreiras no processo de empoderamentode gênero das entrevistadas

Potencialidades Barreiras

Acesso à política de crédito

Aumento da jornada de trabalho das entrevistadas

Investimento dos recursos em sua atividade

Manutenção da divisão sexual do trabalho

124 Renda gerada pelo trabalho,

melhorando sua condição de

vida e da família Baixa escolaridade das mulheres Reconhecimento da mulher

dentro do espaço doméstico

Não participação em espaços de deliberação

Atividade que faz sentido em

sua trajetória

Aumento da auto-estima

Capacidade de diálogo

Fonte: Adaptado de Zorzi (2008)