PARTE II: Um modo de narrar
3.4 O POVO DA SOPA
Uma voluntária anônima tem a fama de distribuir a melhor sopa no centro de Aracaju. Não se sabe onde mora ou o que faz nas outras horas do dia, mas quem já provou sua sopa sabe que é a melhor das que são servidas todas as noites. Há quem defenda a sopa que passa às 9 horas, mas como a da voluntária anônima chega às oito, o tempero da fome que enriquece toda comida já fez seu serviço. De qualquer modo, o povo que dorme embaixo do prédio Maria Feliciana aceita aquilo que lhes chega; seja sopa ou qualquer outra caridade, em forma de comida ou de roupa.
Algumas noites, esse povo se faz nômade pelo centro da cidade e em vez das pedras portuguesas do Maria Feliciana, dormem sobre calçadas modernas, embaixo das marquises das agências bancárias que ficam ao redor da praça Fausto Cardoso, mas por ali também, se encontram na rota das sopas. Quando fora da rota, cuidam de voltar ao Maria Feliciana e esperaram a sopa que irá lhes esquentar pela noite adentro. Para a espera da sopa, levam consigo bagagens e crianças que brincam com qualquer objeto que encontram, e eles assim contam:
(...) as regiões pelas quais precisamos viver espalhados por motivos econômicos são tão grandes, tanto os nossos inimigos e tão imprevisíveis os perigos que nos esperam em toda parte, que não podemos manter as crianças afastadas da luta pelas existência, pois se o fizéssemos, isso representaria seu fim prematuro104.
Novidade recente é a sopa vir acompanhada pelo evangelho. Gente que distribui sopa e junto faz uma pregação, lendo a bíblia e falando sobre deus. Diz- se que não é do agrado de alguns moradores essa evangelização que vem junto com a comida, mas ponderam entre a fome e a paciência, e a necessidade da sopa grita mais alto. Alguns carros de sopa já adentram a rua onde ficam os prostíbulos e não é estranho encontrar evangelizadores que se acocoram com as bíblias nas mãos para ler e pregar aos que ficam deitados no chão. O cheiro
104 KAFKA, F. Josefina ou o povo dos camundongos. In:__. O Artista da Fome e a Construção/ Trad.
Modesto Carone. http://www.atelierpaulista.com/wp-content/uploads/2012/02/Franz-Kafka-Um- Artista-da-Fome-e-a-Constru%C3%A7%C3%A3o-Rev.pdf. P. 26
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da sopa é inebriante, tornando difícil a tarefa de resistir à pregação. A Anônima voluntária, que tem a fama de melhor sopa servida aos moradores de rua, também aderiu ao movimento de evangelização e criou um mecanismo que revolucionaria os modos habituais de evangelização dos moradores de rua no centro de Aracaju.
Sua chegada agora é triunfal. Quando seu carro chega, dois homens bem vestidos pulam com violões e convidam a plateia a balançar o corpo em nome de deus durante a entrega de sopa. Porém, os que esperam a sopa nas calçadas dizem:
Nossa vida é dura e, mesmo quando procuramos nos livrar
de todas as preocupações diárias, já não sabemos nos elevar a coisas tão distantes do nosso cotidiano como a música. Mas não o lamentamos muito; nem mesmo chegamos a esse ponto; consideramos como a nossa maior vantagem uma certa esperteza prática, da qual evidentemente necessitamos com a máxima premência105
Agora ficou mais fácil de reconhecê-la quando chega, basta seguir o som. A música serve para animar a entrega “e para reunir em torno de si esta multidão
do nosso povo quase sempre em movimento, correndo de lá para cá em função de objetivos nem sempre muito claros”106. Quando a pregação começa, a música
cessa e os violeiros passam a empunhar a bíblia.
De vez em quando, um batalhão acompanha a Anônima na entrega de sopa. São jovens de sua igreja que buscam evangelizar os que vivem na rua, para salvar suas próprias almas do inferno. Muitas vezes aparecem na praça Fausto Cardoso, talvez porque o cenário seja mais adequado para o registro fotográfico que fazem dessa missão. Acontece também de na entrega de sopa evangelizadora muita gente se encontrar dormindo profundamente embaixo dos bancos e sobre papelões. Esse misto de sono e fome alimentam histórias de briga entre o povo da rua.
Uma vez, embaixo da marquise de um Banco, um dos rapazes que passa a noite por ali dormia de braços abertos e, estando em diagonal, os membros superiores acabaram por repousar sobre um papelão posto ao seu lado cujo
105 KAFKA, F. Josefina ou o povo dos camundongos. In:__. O Artista da Fome e a Construção/ Trad.
Modesto Carone. http://www.atelierpaulista.com/wp-content/uploads/2012/02/Franz-Kafka-Um- Artista-da-Fome-e-a-Constru%C3%A7%C3%A3o-Rev.pdf.. P. 20
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dono havia ido pegar a sopa entregue pelos religiosos. Quando o dono do papelão voltou viu o braço do rapaz pousado em seu papelão, e irritado perguntou ao rapaz que dormia: “o que é isso?”; e logo comentou: “aí já é invasão de propriedade”107. O rapaz que dormia profundamente nada ouviu, e o que
estava com a sopa na mão decidiu colocar seu papelão em outro lugar.
“Sem dúvida ela não nos salva nem nos dá forças, é fácil fazer passar-se
por salvador deste povo acostumado ao sofrimento”108, é uma imagem que
ocorre entre o povo que vive na rua. Afinal, o pouco que a Anônima lhe dá ajuda- os a se manter ali. Ela talvez acredite que este povo a levará para o céu, e que eles possam, através da evangelização, seguir pelo mesmo caminho. Entretanto, suas tentativas na rotina do povo da rua, tem efeito questionável. Na verdade, eles creem que quem os salva dos perigos constantes são seus companheiros, e assim o dizem: “Nossa vida é muito intranquila, cada dia traz surpresas,
temores, esperanças e sustos, de tal forma que o indivíduo não poderia absolutamente suportar tudo se não tivesse dia e noite o apoio dos companheiros”109
Em frente ao Maria Feliciana, a Anônima segue levando sua sopa, mesmo sabendo que tantas outras são levadas aos moradores de rua,
nenhum indivíduo isolado poderia fazer o que, neste sentido, o povo como um todo consegue. Evidentemente a diferença de forças entre o povo e o indivíduo é tão gigantesca, que basta atrair o protegido ao calor da sua proximidade que ele fica suficientemente protegido110. E de algum modo a “proteção” chega. Sentada no banco da pracinha que fica entre o edifício Maria Feliciana e o Hotel Palace, uma das prostitutas da região observa carros e mais carros de sopa chegar entre fotos e pregações. Ela recusa a sopa que lhe oferecem, e diz que se for comer todas as sopas que são levadas vai acabar gorda e prefere ficar longe das selfies com os doadores de sopa.
107 Fala de um rapaz que dormia sob a marquise de um banco no dia 17/09/2014, como é possível ver
nos Diários de Experiência, p. 108
108 KAFKA, F. Josefina ou o povo dos camundongos. In:__. O Artista da Fome e a Construção/ Trad.
Modesto Carone. http://www.atelierpaulista.com/wp-content/uploads/2012/02/Franz-Kafka-Um- Artista-da-Fome-e-a-Constru%C3%A7%C3%A3o-Rev.pdf. P.25
109 Idem, P. 22-23 110 Ibdem. P.24
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Já na praça Fausto Cardoso, há sempre menos sopa e mais músicas. No alpendre dos Bancos, os rapazes que ali se reúnem para dormir escutam de longe a música entoada em nome de deus, anunciando a chegada de sopa. Antes que a sopa seja entregue, uma roda de religiosos se forma e aqueles que vão em direção à sopa é incluindo num momento de oração. Para convidar os que estão deitados sobre um papelão, um rapaz se aproxima com um violão e produz uma melodia agradável. Certa vez, um dos que estavam ali deitados teve a ideia de pedir como caridade não a sopa, mas o violão a ser emprestado. O jovem religioso ficou receoso, mas emprestou. O rapaz, que havia pedido o violão, de imediato tocou a música Pais e Filhos111. A música cantada em voz
alta contagiou a todos ali, inclusive os que tiravam um cochilo passaram a cantar a música aos sussurros de olhos fechados, de forma que um dos que estava de pé gritou “O bom de viver na rua é isso!”112. Quem chegava se posicionava e
com caixas jogadas faziam batuque, tentando acompanhar o ritmo da música. Foi quando dois carros pararam ao lado dos rapazes e dele surgiu mais um violão. Com os dois violões, os rapazes passaram a entoar a música Mosca na Sopa113, mudando para Wind of Change114, depois uma outra não muito
conhecida cuja banda não era possível decifrar naquele momento, mas que, durante a qual, todos que passavam a noite sobre a calçada se empolgaram e cantaram as músicas sorrindo, “(...) e o riso em si mesmo, está sempre ao nosso
alcance; apesar de toda miséria da nossa vida, um riso discreto é natural entre nós.”115
No meio da cantoria, entretanto, os donos dos violões os pegaram de volta. Talvez incomodado com o tipo de música que subvertia o roteiro da rotina das cantorias que se davam por ali à noite. A alegria da música compartilhada deu lugar a uma pregação que lembrava a “necessidade” de “saírem do mundo das drogas” para então se tornarem cidadãos. Alguns foram até lá escutar as
111 LEGIÃO URBANA. Renato Russo, Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá: Pais e filhos. In:_____. As quatro
estações. 1989. 1CD. Faixa 2.
112 Fala de um rapaz que fazia da rua sua morada, na noite de 01/10/2014, como é possível ver nos
diários de Experiência, p. 120
113 SEIXAS, R. Mosca na sopa. In:_____. Kring-há, Bandolo!. 1973. 1CD. Faixa 2
114 SCORPIONS. Klauss Meine: Wind of Change. In:_____. Crazy World. 1991. 1CD. Faixa 7
115 KAFKA, F. Josefina ou o povo dos camundongos. In:__. O Artista da Fome e a Construção/ Trad.
Modesto Carone. http://www.atelierpaulista.com/wp-content/uploads/2012/02/Franz-Kafka-Um- Artista-da-Fome-e-a-Constru%C3%A7%C3%A3o-Rev.pdf. P. 24
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palavras trazidas pelos religiosos, enquanto outros permaneciam conversando, escutando um senhor que dizia ter perdido tudo por causa do crack, mas que fazendo piada disso, contou ter deixado uma casa para o filho “para ele saber que o pai bêbado dele deu a ele alguma coisa”116.
“Assim passou o tempo da primeira geração, mas nenhuma das seguintes foi diferente; sem interrupção só se intensificava a destreza e com ela a belicosidade”117
116 Fala de um rapaz que fazia da rua sua morada, na noite de 01/10/2014, como é possível ver nos
diários de Experiência, p. 121
117 KAFKA, F. O brasão das cidades. In:_____. Narrativas de Espólio. Trad. Modesto Carone. São Paulo:
62 Quantas noites cortei É importante dizer Que é preciso amar, é preciso lutar E resistir até morrer Quanta dor cabe num peito Ou numa vida só É preciso não ter medo É preciso ser maior
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4. CONSIDERAÇÕES
Kafka, em O Artista da Fome, conta a história sobre um jejuador cuja arte ninguém mais se interessa. Em tempos outros, toda cidade se ocupava com os artistas da fome. Adultos iam vê-lo tanto por divertimento como por causa da moda, enquanto as crianças olhavam com assombro “o homem pálido, de malha escura, as costelas extremamente salientes, que desdenhava até uma cadeira para ficar sentado sobre a palha espalhada no chão”118.
Além dos espectadores, havia também vigilantes escolhidos pelo público, curiosamente açougueiros, segundo Kafka, que se revezavam na vigilância para que o artista da fome não se alimentasse por algum método oculto. Mas isso era apenas uma formalidade, pois os iniciados sabiam que pela honra de sua arte, por circunstância alguma o jejuador comeria alguma coisa.
Um exemplo disso é que “ele cantava, enquanto tinha forças, no período
de vigia, para mostrar às pessoas como era injusto suspeitarem dele. Mas isso pouco ajudava, porque então eles se admiravam da sua destreza para comer até cantando”119. Mesmo durante o jejum, ele não culpava sua magreza à falta de
alimentação, sentia que isto acontecia devido a uma insatisfação consigo mesmo, pois só ele sabia como era fácil jejuar. No quadragésimo dia, as portas da jaula eram abertas, o momento era assistido por uma plateia entusiasmada como também por uma banda militar e médicos. Duas moças sorteadas e demonstrando alegria por isso, iam ao seu encontro tirá-lo da jaula. Neste momento, a cabeça do jejuador caia sobre o peito, as pernas, para se sustentarem, apertavam-se uma contra a outra na altura dos joelhos, raspando o chão. E assim viveu por muitos anos, a maior parte do tempo num estado melancólico, pois achava que ninguém o levava a sério.
Alguns anos mais tarde, o artista da fome já não tinha o mesmo prestígio, e se viu abandonado pela multidão. Foi quando um circo se aportou na cidade e, estando já velho e entregue ao fanatismo do jejum, o artista da fome viu
118 Kafka, F. O artista da fome. In:__. O Artista da Fome e a Construção/ Trad. Modesto Carone. http://www.atelierpaulista.com/wp-content/uploads/2012/02/Franz-Kafka-Um-Artista-da-Fome-e-a- Constru%C3%A7%C3%A3o-Rev.pdf P. 12
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naquilo uma oportunidade. As pessoas foram aos poucos se acostumando com a ideia de se chamar atenção para o artista da fome nos tempo atuais, embora sua jaula estivesse abandonada perto dos estábulos, no fundo do circo. O jejuador assim pôde continuar jejuando tão bem quanto quisesse, e isso não representava nenhum esforço para ele. “Mas ninguém contava os dias, ninguém,
nem mesmo o jejuador conhecia a extensão do seu desempenho, e seu coração ficou pesado”120.
Alguns dias depois isso chegou ao fim, o jejuador, esquecido, foi achado por acaso no meio da palha apodrecida. Foi então que os funcionários lhe perguntaram a razão do jejum, e ele erguendo a cabecinha, já excessivamente pesada, disse-lhes: “Porque eu não pude encontrar o alimento que me agrada. Se eu o tivesse encontrado, pode acreditar, não teria feito nenhum alarde e me empanturrado como você e todo mundo”121. Na jaula onde o jejuador deu seu
último suspiro, foi alojada uma pantera de corpo nobre, “provido até estourar de tudo o que era necessário”122, que dava a impressão de carregar consigo a
própria liberdade.
O corpo do jejuador, assim como tantos outros corpos que encontrei nas andanças pelas ruas de Aracaju, são corpos frágeis, corpos que encolhidos ou estirados no chão encarnam uma recusa, uma renúncia ao mundo marcado pelo exercício extremo de rotinas extenuantes, renuncia esta que tomo também como uma decisão de resistência.
Nesses seres que somos confrontados a uma surdez que é uma audição, uma cegueira que é vidência, um torpor que é uma sensibilidade exacerbada, uma apatia que é puro pathos, uma fragilidade que é indício de uma vitalidade superior123.
Ao realizar a pesquisa, recusei à maneira de Nietzsche124 interpretações
humanistas, repletas de sentido ou piedade a respeito dos corpos extraviados, corpos que compõe junto ao cinza petrificado da cidade. Assim é que, em
120 Kafka, F. O artista da fome. In:__. O Artista da Fome e a Construção/ Trad. Modesto Carone. http://www.atelierpaulista.com/wp-content/uploads/2012/02/Franz-Kafka-Um-Artista-da-Fome-e-a- Constru%C3%A7%C3%A3o-Rev.pdf P.18
121 Idem, P. 19 122 Ibdem. P. 19
123 PELBART, P. O corpo, a vida, a morte. In:__. Kafka, Foucault: sem medos/ Coord. Edson Passetti.
Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2004 . P. 143
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Crepúsculo dos ídolos125, Nietzsche alerta que os “melhoradores da
humanidade” estão injetados de moralidade, e sua ladainha está fadada a negar a vida, “em vez de criar, isto é, de inventar novas possibilidades de vida, buscam adequar-se aos valores existentes, querem para si um lugar ao sol e, com isso, mantêm o status quo”126. Para além de uma visão humanista, acredito numa
força destas corpos, uma força que os permite resistir e criar modos de expandir- se.
Durante esse percurso meu corpo também deixou de ser o mesmo, as reverberações deste fazer me acompanharam. Fui atravessada por histórias que me marcaram, seja pelos sapatos que me calejaram127, seja por histórias que
me fizeram outra nesse mundo e que me deixaram curvada, magra, fraca. Indisposta a pôr o vivido no papel, diante da força dos acontecimentos que me dispus a vivenciar, mas tendo que fazê-lo, o corpo não aguentou. Porém, Deleuze&Guattati vão dizer que essa debilidade é própria do escritor, pois
Ele viu na vida algo muito grande, demasiado intolerável também, e a luta da vida com o que o ameça, de modo que o pedaço de natureza que ele percebe, ou os bairros da cidade, e seus personagens, acedem a uma visão que compõe, através deles, perceptos desta vida, deste momento, fazendo estourar as percepções vividas(...128).
Assim, “essa deformidade, esse inacabamento, seriam uma condição mesma da literatura, pois é ali onde a vida se encontra em estado mais
embrionário, onde a forma ainda não “pegou” inteiramente.”129. Desse modo,
talvez os personagens de Kafka e os personagens das ruas precisem de seu esvaziamento, da palidez, da descamação da pele devido a cachaça, no limite do corpo morto, “para dar passagem a outras forças que um corpo “blindado” não permitiria”130. O artista da fome e os moradores de ruas (artistas da fome do
presente) têm em comum a resistência efetuada pelos seus corpos.
125 NIETZSCHE, F. Crepúsculo dos ídolos. Porto Alegre, RS: L&PM, 2011
126 DIAS, R.M. Nietzsche, vida como obra de arte. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011. P. 67 127 Em 24/09/14, relatado nos Diários de Experiência, p. 113
128 DELEUZE, G & GUATTARI, F. O que é a filosofia? P. 202
129 PELBART, P. O corpo, a vida, a morte. In:__. Kafka, Foucault: sem medos/ Coord. Edson Passetti.
Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2004. P. 142
66 O corpo: superfície de inscrição dos acontecimentos (enquanto a linguagem os marca e as ideias os dissolvem), lugar de dissociação do Eu (que supõe a quimera de uma unidade substancial), volume em perpétua pulverização131
O corpo é histórico, e as marcas que efetuam no corpo do jejuador e dos moradores de rua são marcas de suas histórias. Seus corpos fracos não aguentam mais o processo “civilizatório”, o adestramento e a disciplina que os coagem por dentro e por fora, todo um sistema de cruelda.e. Assim como sugere Pelbart, “seria preciso retomar o corpo naquilo que lhe é mais próprio, sua dor no encontro com a exterioridade, sua condição de corpo afetado pelas forças do mundo, mas nem por isso doente, como o cristianismo pretende”132.
No centro de Aracaju, a entrega de sopa e a evangelização chegam onde as políticas públicas não se efetivam. A força do viver dos corpos que fazem daquele local sua moradia acaba aprisionada por um olhar que não os enxerga em sua potência. Ainda que suas vidas estejam em vulnerabilidade, a potência surge de um viver fragilizado, pois “o corpo é sinônimo de um certa impotência, e é dessa impotência que ele agora extrai uma potência superior”133. O exercício
desse viver também pode se efetuar na ética do cuidado de si, que “requer conhecimento, um comportamento e o modo de conduzir-se em relação aos demais, evitando o abuso de poder (a tirania), a escravidão a seus desejos”134,
cuidar de si é governar-se e cuidar dos demais. No entanto, religiões do cristianismo substituem o cuidado de si ao introduzir a salvação, e depois disso, a razão, o pensar e o atuar segundo esta ideia. Entendem o cuidado de si como uma renúncia de si, deslocando a ética do cuidado de si para uma ética da obediência a um sistema de normas.
Os corpos sofrem, isso é algo intrínseco a existência. O sofrimento é uma condição. Ao perseverar na existência o corpo efetua uma resistência. “Todo sofrer deve chamar um agir, mas um agir que não impeça o sofrer; as patologias do vivente reclamam uma medicina, mas uma medicina que respeite as
131 FOUCAULT, M. Nietzsche, a genealogia e a história. In__: Microfísica do Poder/ organização Roberto
Machado. – 2. ed. – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2015. P. 65
132 PELBART, P. O corpo, a vida, a morte. In:__. Kafka, Foucault: sem medos/ Coord. Edson Passetti.
Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2004. P. 145
133 Idem, P. 145
134 PASSETI, E. Pequenas obediências, intensas constatações. In:__. Kafka, Foucault: sem medos/ Coord.
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patologias como uma condição de vida”135. Assim é que o trabalho da Política de
Redução de Danos, a qual pude conviver em Aracaju, busca respeitar as escolhas exercidas pelos sujeitos, onde o uso de drogas é considerado um problema de saúde, promovendo saúde a partir da redução dos danos causados pelo uso de drogas e prevenindo o surgimento de doenças sexualmente transmissíveis através de uma conversa amistosa. No entanto, esta é uma política pública que surge atrelada à biopolítica, que promove o controle da sociedade sobre os indivíduos através do corpo, corpo este que é merecedor de atenção tanto pela biopolítica, quanto pela Política de Redução de Danos. Em A