II. Objetivos I Resumo
2. Prática e gestão processual 1 Generalidades
Ao Ministério Público compete, nos termos do artigo 219.º da Constituição da República Portuguesa e dos artigos 1.º e 3.º, alínea h), ambos do Estatuto do Ministério Público, entre o mais, exercer a ação penal, orientada pelo princípio da legalidade, e a direção da investigação criminal.
No que diz respeito ao processo penal, compete em especial ao Ministério Público, de acordo com o disposto no artigo 53.º, n.º 2, alíneas a) a e), do Código de Processo Penal, receber as denúncias, as queixas e as participações, apreciando o destino a dar-lhes; dirigir o inquérito; deduzir acusação e sustentá-la, efetivamente, na instrução e no julgamento; interpor recursos, ainda que no exclusivo interesse da defesa; e promover a execução das penas e das medidas de segurança.
2.2. Aquisição de notícia do crime
De acordo com o preceituado no artigo 241.º do Código de Processo Penal, “[o] Ministério Público adquire notícia do crime por conhecimento próprio, por intermédio dos órgãos de polícia criminal ou mediante denúncia”.
O crime de favorecimento pessoal reveste algumas especificidades a este respeito. Desde logo, não será muito comum a aquisição da notícia do crime na sequência de denúncia para o efeito. De facto, o crime de favorecimento pessoal não terá, regra geral, uma dimensão espácio-temporal que permita que o mesmo seja percecionado por terceiros externos ao mesmo. A título de exemplo, imagine-se a situação em que B, numa rua pejada de transeuntes, decide atirar para o caixote do lixo um taco de basebol, utilizado na prática de um crime de ofensas à integridade física cometidas por A. Como é bom de ver, os terceiros que presenciam esta situação não estão, à partida, investidos de conhecimentos suficientes que lhes permita percecionar o ato em questão como consubstanciando a destruição de uma prova material.
Igual raciocínio valerá, por maioria de razão, para a aquisição de notícia do crime por parte do Ministério Público por conhecimento próprio.
Assim, como se compreenderá, pelos motivos expostos, a aquisição da notícia do crime relativo a esta criminalidade ocorrerá, regra geral, por intermédio dos órgãos de polícia criminal, no âmbito da investigação do crime pressuposto.
2.3. Da abertura de inquérito
A notícia do crime dá lugar à instauração de inquérito, o qual, atento o disposto no artigo 262.º, n.º 1, do Código de Processo Penal, “compreende o conjunto de diligências que visam investigar a existência de um crime, determinar os seus agentes e a responsabilidade deles e descobrir e recolher as provas, em ordem à decisão sobre a acusação”.
Tendo em consideração a natureza pública do crime de favorecimento pessoal, será suficiente para espoletar a abertura do inquérito a aquisição da notícia do crime (artigo 48.º do Código de Processo Penal).
Em termos de competência para a realização do inquérito, o artigo 264.º, n.º 1, do Código de Processo Penal estabelece que será competente o Ministério Público que exercer funções no local em que o crime tiver sido cometido31.
2.4. Do planeamento da investigação
Tal como já tivemos oportunidade de ver, ao Ministério Público compete o exercício da ação penal, mediatizada pela direção da investigação criminal, orientada pelo princípio da legalidade. O corolário desta competência funcional resulta na ilegitimidade de adoção de critérios de oportunidade absolutos, i.e., selecionando quais os concretos crimes que deverão ser investigados. Com efeito, compete ao Ministério Público a investigação de todos os factos suscetíveis de indiciar a prática de um crime.
Ainda assim, isso não significa, como é bom de ver, que todos os inquéritos justifiquem o mesmo grau de afetação temporal, material e de recursos humanos. Semelhante atuação equivaleria igualmente a uma denegação de justiça, porquanto os casos de “maior relevância” seriam negligenciados, com as consequentes repercussões ao nível do seu desfecho final.
31 A este respeito, é importante ter em consideração que o artigo 47.º, n.º 1, alínea e), do Estatuto do Ministério Público confere ao DCIAP a competência para coordenar a direção da investigação do crime de branqueamento de capitais, bem como, nos termos do n.º 3 do mesmo preceito, para dirigir o inquérito e exercer a ação penal quando a actividade criminosa ocorrer em comarcas pertencentes a diferentes distritos judiciais, justificando uma investigação centralizada da investigação e, ainda, quando a complexidade da factualidade ou a dispersão territorial o justifique, neste caso, após despacho nesse sentido emitido pelo Procurador-Geral da República.
Por esse motivo, no início de uma investigação – de cada uma – devem ser feitas opções quanto ao grau de afetação de meios a orientar, devendo serem priorizadas aquelas que tenham maior possibilidade de sucesso e que contendam de forma mais desvaliosa com o sistema jurídico.
Naturalmente que “a atribuição de prioridades a dadas investigações deve, porém, ser efectuada de forma objetiva, consistente e transparente com recurso a critérios escrutináveis”32/33.
Por outro lado, deverá estabelecer-se um planeamento da investigação funcionalizado ao seu fim último, i.e. à prolação de despacho final. O Ministério Público é o dominus do inquérito, pelo que é sobre si que impende em primeira e última linha a responsabilidade relativa ao desfecho do inquérito.
Aquando do planeamento da investigação, deverá ponderar-se da efetiva necessidade de delegação da competência de investigação em órgão de polícia criminal, bem como acerca da necessidade de criação de equipas de investigação (nomeadamente equipas multidisciplinares estando em causa crimes complexos, v.g. o branqueamento de capitais). Adicionalmente, o planeamento da investigação deve ponderar cronologicamente as etapas de recolha de prova, porquanto a concreta ordenação das diligências pode ser fundamental para não fazer perigar as necessidades de segredo que se façam sentir.
Estando em causa a investigação do crime de favorecimento pessoal deverão ser ponderadas as eventuais vantagens/desvantagens decorrentes da investigação do referido crime conjuntamente com o crime antecedente.
2.5. O primeiro despacho de inquérito
Num momento cronologicamente anterior à delegação de competências de investigação, e por forma a evitar a pendência desnecessária de diversos inquéritos como o mesmo objeto, deverá ser determinada a realização de pesquisas nas bases de dados existentes acerca de processos pendentes relativos a um suspeito que já se encontre identificado, fazendo-se desde logo menção a que, caso existam processos pendentes, os mesmos deverão ser apresentados de imediato ao Magistrado para efeitos de apreciação de eventual conexão processual.
Caso a moldura penal dos factos indiciados o justifique, deverá ser solicitada, desde logo, pesquisa nas bases de dados sobre anteriores suspensões provisórias do processo do suspeito.
32 As guidelines são sugeridas pelo DCIAP no seu “Manual de Boas Práticas no Combate à Corrupção”,
2011/2012, p. 21, o qual pelo argumento de autoridade importa levar em linha de consideração.
33 A priorização assente em critérios objetivos, consistentes e transparentes viabilizará a sua sindicância externa por terceiros (des)interessados, legitimando a decisão concretamente adotada, blindando-a à crítica.
Caso seja decidida a delegação de competência de investigação, o Ministério Público deverá elaborar um despacho o mais completo possível, procurando atalhar possíveis caminhos de investigação, especificando quais as concretas diligências que in casu deverão ser realizadas e concretizando, sempre que possível, quais as concretas diligências de recolha de prova a realizar.
Adicionalmente, deverão ser indicadas, se possível, quais as concretas questões a colocar, o que permitirá obter ganhos de eficiência nos prazos de inquérito e eficácia nas investigações. As boas práticas exigirão que o Magistrado mantenha a todo o tempo o controlo sobre o processado, tenha a orientação da investigação devidamente circunscrita e esgote as diligências que se afiguram necessárias.
Apenas desta forma se assegura uma direção efetiva do inquérito e é possível assegurar que todas as diligências pertinentes serão realizadas, evitando-se a constante devolução do inquérito para realização de novas diligências que poderiam ter sido solicitadas em momento anterior ou para corrigir diligências realizadas de forma desadequada às necessidades dos autos.
Importa não perder de vista que é o Magistrado do Ministério Público que tem de ter noção quais os concretos elementos de que necessita para aquilatar da existência de um crime. A direção efetiva do inquérito e o controlo do processado exigirão a fixação de prazos concretos para a conclusão das diligências de investigação. Todavia, a direção efetiva e o controlo do inquérito não serão materialmente exercidos se o Magistrado não fixar consequências para o caso da não remessa oficiosa do inquérito por parte dos órgãos de polícia criminal. Assim, o Magistrado deverá especificar desde logo no Despacho para que o funcionário diligencie por insistências.
A título de exemplo, segue o que consideramos um primeiro despacho adequado e com aplicação ao crime em estudo no presente trabalho.
Primeiro Despacho.
Nos presentes autos investigam-se factos suscetíveis de configurar, em abstrato, 1 (um) crime de favorecimento pessoal, previsto e punido pelo artigo 367.º, n.º 1, do Código Penal.