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Práticas avaliativas na educação: problemas e perspectivas

No documento Organizador Carlos Alberto Vasconcelos (páginas 167-175)

A avaliação é um dos pontos mais importantes de todo o processo educacional, por isso a relevância de se ter um cuidado com a formação inicial e continuada de professores, no sentido de que esses futuros pro-fessores ou os profissionais que já estão em atuação tenham concepções bem sólidas sobre o processo avaliativo de forma a favorecer todo o pro-cesso de formação do aluno.

No entanto, pesquisas mostram que os cursos de Licenciatura não possuem uma disciplina específica para discutir avaliação, somente no curso de Pedagogia na disciplina de Didática a temática é abordada, mes-mo assim, de forma superficial – numa carga horária de 60 horas, somen-te duas aulas é destinada para tal (BOAS; SOARES, 2016). Observa-se um descaso com a avaliação; todo licenciando será avaliador na sua

pro-fissão, e como avaliar seus futuros alunos se a sua formação não permite aprender? Por isso, as mesmas autoras elucidam que avaliação é um tema tão importante em todas as profissões que deveria ser dado mais impor-tância, visto que qualquer aluno poderá se tornar professor universitário. As práticas avaliativas vivenciadas pelos licenciandos continuam quase exclusivamente centradas no professor, as quais se resumem em atribuições de notas por meio de provas, conforme Barbosa (2011) e Boas e Soares (2016). Ademais, conforme Santos e Castilho (2013 a 2016), entre os anos de 2004 e 2015 57% dos alunos foram avaliados durante a graduação por meio de avaliações tradicionais. Com isso, per-cebe-se que os professores não estão e não foram preparados para serem avaliadores, nem formarão avaliadores, visto que as práticas avaliativas que estão presentes nas salas de aulas dos cursos de formação docente se baseiam no tradicionalismo, em que os conteúdos são apresentados para serem memorizados e não problematizados pelos alunos.

Para mudarmos o cenário avaliativo que vivenciamos nos cursos de formação de professores, é preciso que se conceba a avaliação como aprimoramento e revisão do ensino-aprendizagem. Para isso, Luckesi (2011) afirma:

A avaliação deverá ser assumida como um instrumento de compreensão do estágio de aprendizagem em que se encontra o aluno, tendo em vista tomar decisões suficien-tes e satisfatórias para que possa avançar no seu processo de aprendizagem. Se é importante aprender aquilo que se ensina na escola, a função da avaliação será possibilitar ao educador condições de compreensão do estágio em que o aluno se encontra, tendo em vista poder trabalhar com ele para que saia do estágio defasado em que se encontra e possa avançar em termos dos conhecimentos necessá-rios. Desse modo a avaliação não seria tão somente um instrumento para a aprovação ou reprovação dos alunos, mas sim um instrumento de diagnóstico de sua situação, tendo em vista a definição de encaminhamentos adequa-dos para a sua aprendizagem. Se um aluno está defasado não há que, pura e simplesmente, reprová-lo e mantê-lo nesta situação (p. 81).

É sabido que os cursos de licenciaturas não percebem a avaliação como um caminho que leva à aprendizagem, que pode ser acompanhado, negociado com o aluno. Tanto os professores quanto os alunos compreen-dem avaliação como instrumento que servirá para medir quanto o aluno sabe sobre aquele conteúdo e que a sua nota poderá resultar na aprovação ou reprovação. Assim, não se produz aprendizagem, não se desenvolve o senso crítico e não se forma aluno capaz de atuar na sociedade.

Neste sentido, é muito pertinente quando Gatti (2016) alerta que as práticas educativas institucionalizadas determinam, em grande parte, a formação de professores e, na sequência, de seus alunos. Desse modo, o futuro professor será reflexo do seu professor. Assim, é importante que o docente seja um exemplo, que tenha uma concepção de avaliação da aprendizagem como acompanhamento, que oriente sua prática e o edu-cando, oportunizando a aprendizagem.

Os estágios nos cursos de licenciatura, como coloca Gatti (2016, p. 167), são um “ponto crítico a considerar [...] na maioria das licencia-turas sua programação e seu controle são precários, sendo a simples observação de aula a atividades mais sistemática, quando é feita”.

Nessa lógica, Libâneo (2003):

A sala de aula implica uma aproximação entre a teoria e a prática. A aprendizagem se realiza mais facilmente e com maior compreensão e retenção quando acontece nos vários ambientes profissionais, fora da sala de aula, por-que coloca o aprendiz mais em contato com a realidade. O conhecimento da realidade parte da leitura da prática referente à disciplina estudada, de forma a se superar uma prática sem reflexão e uma teoria que não consegue atin-gir a prática; (p. 8).

Assim sendo, as práticas de estágio, que possibilitariam ao licenciando a experiência de estar como professor, refletindo sobre sua ação avaliativa e se desvinculando de práticas avaliativas conservadoras, são momentos tão raros que nem chegam a ser significativos na formação de professores.

Dessa forma, é importante repensar a avaliação, buscando superar o antigo conceito e práticas avaliativas como constatação de um certo nível de aprendizagem do aluno. Para isso, Libâneo (2003) nos esclarece:

Não é possível uma efetiva mudança nas práticas de en-sino universitário sem ações e mudanças na organização e gestão do curso. A organização e gestão das escolas têm sido abordadas de um ponto de vista burocrático, admi-nistrativo, envolvendo os níveis hierárquicos de exercício do poder, os colegiados acadêmicos e as formas de toma-da de decisões. Embora esses aspectos sejam relevantes, não é nesse sentido que afirmamos a relação entre a sala de aula e a organização da escola, mas no sentido de que tudo o que ocorre na sala de aula deve estar em conso-nância com o que ocorre no âmbito de decisões em torno do projeto pedagógico, dos objetivos de ensino, do currí-culo, das formas convencionadas de relações professor--alunos e procedimentos de ensino. Se a aula é um espaço de aprendizagens, também a organização do trabalho es-colar é um espaço de aprendizagens (p. 9).

Como se vê, é primordial esse diálogo entre organização do trabalho e gestão com o que acontece na sala de aula/professor, pois ele deve ser peça fundamental nas decisões educacionais, visto que ele conhece a realidade, pois está diretamente vivenciando as experiências de apren-dizagens com os alunos. Dessa forma, os projetos políticos, os currí-culos, os objetivos de ensino, a avaliação devem ter consonância com as práticas docentes e com as decisões. Na educação não é interessante fragmentar, departamentalizar, mas sim, integrar.

Considerações finais

Fica clara a importância da avaliação da aprendizagem na formação de professores, do mesmo modo que fica nítido o desinteresse nos cur-sos de formação por essa temática. Neste contexto, o docente aprende a avaliar enquanto estuda, pois são dessas experiências ao longo de sua trajetória de formação que estão fundadas as práticas avaliativas. Com

isso, o que temos nos espaços de formação são processos avaliativos conservadores, pautados na concepção de avaliação como verificação, medida, utilizando-se de provas e notas com o objetivo meramente de aprovação ou reprovação e não como acompanhamento do ensino aprendizagem. A falta de interesse com a avaliação na própria formação de professores nos cursos de licenciatura desvaloriza a carreira do pro-fessor e propaga o descaso dado aos seus saberes, uma vez que o mais importante é a formação específica dos licenciandos. É fundamental, portanto, que os cursos de formação repensem a concepção de avaliação e passem a praticá-la de maneira a orientar a sua prática a situar o aluno em sua aprendizagem.

A articulação entre teoria e prática na formação docente, que é uma das preocupações apresentadas nos documentos legais, continua sem nenhuma alteração. O estágio, uma das experiências mais importantes em relação à formação docente, que oportuniza ao aluno desenvolver a capacidade de relacionar teoria e prática docente, mostra-se precário nos cursos de licenciatura. A falta de articulação entre as universidades e as escolas de educação básica causa no professor recém formado um choque de realidade. Teoria e prática se complementam, por isso a vi-são da universidade em relação à escola de educação básica precisa, ur-gentemente, ser mudada. Para isso, é importante promover projetos de integração e participação que contemplem as necessidades da educação básica, só assim aproximaremos a teoria da prática.

Portanto, é preciso rever o processo educativo, pois é notório que o atual contexto da formação docente não prepara o professor para práti-cas avaliativas consistentes e eficazes, nem o sistema de educação pública no Brasil dá condições para isso. Para mudarmos esse cenário de educa-ção do país, é importante adotarmos uma concepeduca-ção de avaliaeduca-ção eman-cipatória, inclusiva, valorizando as aprendizagens e promovendo políti-cas públipolíti-cas de forma a consolidar a formação e a valorização docente.

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DE TECNOLOGIAS DIGITAIS: EXPERIÊNCIAS

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