• Nenhum resultado encontrado

1.2 O saber científico

1.2.5 Pré-natal: trabalho educativo e interdisciplinar

Todos os argumentos acima expostos colaboram para o atual entendimento na Odontologia, de que é extremamente necessário atender as mulheres ainda grávidas. Esse atendimento constitui, hoje, uma das maiores preocupações da Odontopediatria (VIEIRA, AMORIM, ORIOLI, 1999; MATTA et al., 2001b).

O papel da “Odontologia pré-natal” (ou “Odontologia intra-uterina”, termo polêmico) é o restabelecimento da saúde bucal da gestante, proporcionando-lhe melhores condições para receber seu bebê (MAEDA, TOLEDO, PANDOLFI, 2001), além da educação dos pais sobre a sua própria saúde bucal no sentido de adotarem hábitos saudáveis que favoreçam também a saúde bucal de seus filhos (CASAMASSIMO, 2001; OLIVEIRA, 2002).

Considera-se que a assistência e a educação realizadas durante a gestação possuem um profundo efeito sobre a saúde bucal de mães e filhos (ROSELL, MONTANDON- POMPEU, VALSECKI JUNIOR, 1999; TORRES et al., 1999). Parte-se do pressuposto de que assim como crianças pequenas podem ser prejudicadas pelos inadequados hábitos de higienização bucal e de dieta de suas mães (MATTA et al., 2001b), elas também podem ser

beneficiadas pela saúde e educação/motivação das mães (SARNAT, AVIVA, RAVIV, 1984), pois seus conhecimentos, atitudes e comportamentos refletem nas crianças, que perpetuam os hábitos aprendidos na infância por toda a vida (BLINKHORN, 1978; 1981; TSAMTSOURIS, STACK, PADAMSEE, 1986; BARBOSA, CHELOTTI, 1997; SANTOS-PINTO et al., 2001; OLIVEIRA, 2002).

Gomez, Weber e Emilson (2001) em um estudo prospectivo constataram a eficácia de medidas preventivas dadas a gestantes e continuadas após o nascimento das crianças, a cada seis meses, através de um programa de prevenção à carie, no Chile. Houve uma redução significativa da doença: 89% das crianças participantes do programa, aos seis anos não desenvolveram a cárie, contra 62% das crianças do grupo controle.

Entretanto, o pré-natal habitual não envolve questões relacionadas à saúde bucal (CORSETTI, FIGUEIREDO, DUTRA, 1998; CASAMASSIMO, 2001). A falta de integração entre os profissionais da Odontologia e os que trabalham com gestantes e bebês é evidente e pode ser entendida a partir da origem e da evolução histórica da profissão de cirurgião- dentista (FARIA, OLIVEIRA, PORDEUS, 1997), que vale aqui um breve comentário.

Segundo a excelente revisão de Freitas (2001), inicialmente a Odontologia era uma atividade indiferenciada dentro das práticas médicas, mas a partir do século XVIII, a Medicina sofreu uma divisão básica entre clínica e cirurgia. Com o maior status dado à primeira, os médicos restringiram suas atividades ao campo clínico, repassando as demais tarefas, consideradas menores ou menos dignas, a seus auxiliares, como o barbeiro, responsável pelo corte de barba, cabelos, extração de dentes e aplicação de sanguessugas para sangrias. Surgiu assim a Odontologia, como uma especialidade médico-cirúrgica, que cristalizaria sua prática na tradição do trabalho individual, tecnicista, preocupada com a resolução curativa e imediata de problemas (historicamente) emergenciais, já que derivada da cirurgia, sem espaço para práticas preventivas.

uma ação coordenada entre a comunidade médica geral e a odontológica é necessária no sentido de estabelecer protocolos que beneficiem a saúde bucal de gestantes, o desenvolvimento saudável de suas gestações e a saúde bucal dos bebês (FARIA, OLIVEIRA, PORDEUS, 1997; GAFFIELD et al., 2001).

De um modo geral, os médicos ocupam uma posição privilegiada, especialmente no período pré-natal e nos primeiros anos de vida das crianças, pelo contato precoce e freqüente que estabelecem, podendo conscientizar os pais sobre a importância do tratamento odontológico imediato e encaminhá-los para esse atendimento. Mas para tanto, é necessário que a população médica esteja alerta para essa conduta aconselhável (OLIVEIRA, 2002).

Os estudos, usualmente realizados com médicos, entretanto, demonstram que a conscientização destes profissionais que precocemente entram em contato com as famílias ainda precisa ser trabalhada.

Faria, Oliveira e Pordeus (1997) entrevistaram médicos ginecologistas-obstetras e pediatras e observaram que os primeiros não têm como rotina dar informações sobre a prevenção da cárie para a gestante e seu futuro bebê. Já os pediatras relataram ter este costume, apesar do conceito de inevitabilidade da cárie ainda estar presente entre os entrevistados. As autoras concluíram que embora a preocupação com a cárie ter sido manifestada, muito ainda deve ser feito em relação à abordagem de sua prevenção junto aos médicos.

Gonzaga et al. (2001) constataram que enquanto 50% dos ginecologistas-obstetras que entrevistaram relataram encaminhar as gestantes para o dentista como parte dos exames pré- natais, apenas 13,4% das pacientes confirmaram ter recebido tal orientação.

Oliveira (2002) associou estatisticamente a informação médica recebida pelas mães com a visita ao dentista e concluiu que apesar dos médicos pediatras encaminharem pouco as crianças para o atendimento odontológico precoce, sua orientação foi decisiva para as mães levarem seus filhos ao dentista, sendo que o principal motivo pelo qual as mães

levaram as crianças, nestes casos, foi a prevenção de doenças.

Contudo, não são apenas os médicos que precisam ser melhor informados sobre as questões de saúde bucal. Um modelo de atendimento pré-natal ideal deveria incluir atendimento multiprofissional e integral no qual pediatras, ginecologistas-obstetras, enfermeiras, nutricionistas, psicólogos, assistentes sociais, dentistas e odontopediatras trabalhassem juntos (BARBOSA, CHELOTTI, 1997; GONZAGA et al., 2001).

Uma ampla discussão com a equipe de saúde do pré-natal sobre a importância da educação para a saúde bucal na fase gestacional é sugerida por Rocha (1993), quando conhecimentos básicos deveriam ser permutados, conceitos deveriam ser uniformizados e as crenças sobre o tratamento odontológico na gestação, “desmistificadas”.

Rocha (1993) também chama atenção para a importância deste trabalho, especialmente junto às enfermeiras que realizam as consultas pré-natais, as quais poderiam atuar como facilitadoras nas mudanças de comportamento das gestantes frente à atenção odontológica.

Na ausência do serviço odontológico local, a equipe responsável pela assistência pré- natal deveria estar capacitada para fornecer informações básicas de saúde bucal e encaminhar as gestantes para um local de atendimento odontológico (SCAVUZZI, ROCHA, VIANNA, 1998).

Porém, para que tudo isto aconteça, torna-se imprescindível o engajamento do cirurgião-dentista junto à equipe do pré-natal (MENINO, BIJELLA, 1995), o que só é possível a partir do seu preparo e motivação para o atendimento de gestantes, para o trabalho em equipe, bem como para o seu papel de educador em saúde (ROCHA, 1993).