2 GRAVURAS DIDÁTICAS NO CONTEXTO DA TRANSIÇÃO ENTRE OS SÉCULOS
3.2 PROCEDIMENTO DE CÓPIA (PRANCHAS 5 A 8)
3.2.3 Prancha 7
Nesta prancha, Debret apresenta diversas vistas da orelha humana, em diferentes etapas de execução cada uma. Antes de proceder à análise individual de cada grupo, cumpre chamar a atenção para alguns aspectos relevantes que podemos observar nesta estampa. (Figura
33)
A primeira questão a chamar a atenção é o número e a variedade de vistas que se oferecem da orelha, superior a todos os outros neste fascículo do Nouveau Recueil. Há, ao menos, três: de frente, de perfil e coberta por cabelo. Essa repetição do tema deve-se, certamente, à dificuldade apresentada pelo desenho desse órgão, cuja forma é particularmente complexa, repleta de curvas, saliências e reentrâncias, o que exige não apenas grande habilidade no desenho dos contornos e do conjunto, mas também nas miudezas do modelado. Nesse mesmo sentido, em diversos outros cursos em pranchas, como em Bargue (2011, p. 31, prancha 4), Brunard ([1836], 5º caderno, pranchas 3 e 4) e Thonnesse (1810, p. 3), há uma enorme quantidade de vistas de orelhas, fornecidas, sem dúvidas, com o intuito de obrigar o aluno a observar atentamente as formas e a praticar inúmeras vezes o desenho dessa parte da cabeça. Garson (1840, prancha XXIX), por exemplo, apresenta nada menos que 7 vistas diferentes da orelha na mesma prancha, realizando um verdadeiro “giro” em torno do órgão.
A segunda questão interessante a levantar em relação às orelhas desta prancha é o fato de que, em nenhuma delas, e considerando que ao menos os dois primeiros grupos possuem desenhos ainda no trait ébauché, aparecem as linhas horizontais e perpendiculares que observamos no caso do nariz e da boca. Isso se torna ainda mais curioso se observarmos que, na prancha seguinte, a oitava, que trata do desenho do olho, há uma dessas retas horizontais claramente traçada. Além disso, em todos os cursos que citamos acima, há retas a servir de referência para os alunos nas figuras de orelhas, o que é particularmente compreensível, se levarmos em conta que sua forma é complexa, arredondada e, portanto, pouco privilegiada em termos de pontos de referência evidentes. Por que, então, teria Debret decidido omitir esses referenciais? Uma hipótese é a de que as formas da orelha não sejam, talvez, particularmente propícias a sua demarcação, como a boca e o nariz o eram. Efetivamente, a orelha forma uma
espécie de espiral, que começaria no lóbulo e seguiria em direção ao ouvido. Desse modo, faltariam limites e direções nítidas, razoavelmente retas, como encontramos na base da do nariz, no perfil e na divisão dos lábios. Para fins de precisão, devemos reconhecer, também, que, apesar de apresentar algumas dessas linhas retilíneas como referências, a estampa com orelhas do curso de Bargue (Figura 34) as utilizam com menos profusão do que no caso das estampas com bocas e com olhos. Outros autores, no entanto, foram capazes de encontrar soluções para esse problema, estabelecendo suas próprias referências sobre o desenho da orelha (THONNESSE, 1810, pr. 3). É possível, então, que Debret tenha considerado desnecessária a inserção dessas coordenadas ou que, simplesmente, acreditasse que seria interessante para os alunos lidar com as dificuldades de copiar esse órgão sem o auxílio de pontos de referência evidentes – ou, ainda, que esperasse que os alunos desenhassem as próprias linhas sobre a imagem.
Figura 34 – C. BARGUE. Prancha nº 4 do Cours de Dessin (1867) (detalhe). Litografia. Paris, BnF. Fonte: Marcelo Gonczarowska Jorge.
A prancha número 7 possui, conforme dito, três pares de orelhas. O primeiro par, no canto superior esquerdo, apresenta uma espécie de perfil da orelha, como se víssemos um rosto de frente. Na primeira imagem, reconhecemos o trait preparé, em razão da leveza nos traços e da falta de grandes massas de sombra. Na segunda, podemos identificar o fini, sem a etapa intermediária do ébauché. A nosso ver, trata-se efetivamente do fini, em razão do sofisticado do modelado, particularmente em razão das sombras bastante escuras. No segundo par, verifica-se, novamente, a presença das etapas do trait préparé e do fini, identificadas pelas mesmas razões do caso anterior. Nessas duas imagens, a orelha é apresentada de frente, como se víssemos um rosto de perfil, e estão parcialmente cobertas por uma mecha de cabelo, que é um elemento importante a se prever em curso de desenho da figura humana. No último par, que domina a metade inferior da gravura, há duas orelhas de frente (como se a cabeça estivesse de perfil), desta vez sem a obstrução do cabelo. A primeira está no ébauché, com sua característica cobertura das grandes massas de sombra por hachuras, e a segunda está finalizada, com o sombreamento bem acabado e com algumas pequenas alterações no desenho.
Dessas imagens, deduz-se que Debret se preocupou em mostrar alguma variedade de posições da orelha, antecipando, certamente, as dificuldades com que os desenhistas se deparariam caso, eventualmente, desenhassem o modelo-vivo. Com isso, fica novamente evidente o zelo do autor em oferecer uma boa preparação a seus alunos.
Figura 35 – Jean-Baptiste DEBRET (des.); L. M. PETIT (grav.). Prancha nº 8 do Nouveau Recueil Élémentaire de
3.2.4 Prancha 8
A oitava prancha do curso de Debret apresenta três imagens, as quais são diferentes etapas de execução do desenho de um olho. A primeira refere-se ao trait préparé, identificável pela presença de contornos delicados, virtual ausência de modelado e pela demarcação dos limites das massas de sombra e luz. Além disso, está presente uma reta horizontal, cortando o olho mais ou menos na metade. É interessante notar que ela serve não apenas como ponto de referência, facilitando a medição e a reprodução do desenho, como também, possivelmente, alerta os alunos para que não coloquem a glândula lacrimal e o ponto em que as pálpebras se encontram, do lado oposto do olho, no mesmo nível. Acreditamos que esse seja um recurso particularmente inteligente, para evitar que os alunos produzam desenhos esquemáticos, de olhos excessivamente amendoados, como os iniciantes costumam fazer. A segunda imagem apresenta um ébauché, já que as grandes massas de sombra estão preenchidas pelo hachurado e o nível de detalhamento é claramente superior. Note-se que Debret reforça as sombras na linha das sobrancelhas, chamando a atenção dos estudantes para um dos efeitos fundamentais da perspectiva atmosférica sobre o sombreado, qual seja, a de que as quinas mais protuberantes possuem sombras mais marcantes do que as mais recessivas. Na última figura, reconhecemos o
fini, no qual o sombreamento atinge todo seu potencial, com sombras escuras e meios-tons
aplicados em toda a gama de valores cabível. (Figura 35)
Um aspecto que deve ser discutido é a utilização de uma escultura para ensinar como desenhar o olho humano, já que uma estátua não possui elementos importantes da textura dos nossos órgãos, como cores e pelos, e, particularmente, no caso do olho, as variações decorrentes da íris, da pupila e da umidificação do globo ocular. Devemos assinalar, previamente, que outros autores também iniciam seus cursos pela cópia de detalhes de estátuas antes de partir para o desenho de figuras humanas, como Bargue (1867, prancha 1) e Brunard ([1836, p. 3, primeiro caderno). Podemos supor que, do ponto de vista didático, ao iniciar o curso por uma forma simplificada do olho, como a das esculturas gregas, Debret tinha o intuito de facilitar a aprendizado, concentrando-se nas grandes formas e nos relevos mais importantes da região ocular, abdicando, nesse momento, de descrever toda a infinidade de detalhes característicos. Além disso, o modelado sobre a superfície branca das esculturas é mais contínuo, evidente – mais
inteligível, poeríamos dizer -, do que sobre a pele humana, o que permitiria aos alunos se concentrar na execução de um sombreamento caprichoso.
Acreditamos, também, reconhecer o modelo sobre o qual Debret se apoiou para realizar seu desenho. Apesar de escolher um recorte tão restrito da face como a região do olho, os traços da escultura são tão particulares que supomos ser capazes de identificar o olho do
Laocoonte (c. I a.C.), escultura helenística de Agesandro, Atenodoro e Polidoro, obra atualmente
conservada nos Museus Vaticanos (Figura 36). Caso observemos atentamente, reconheceremos, na gravura, os músculos da testa comprimidos, a olheira inchada e pesada e um olho profundo e caído, tal qual vemos na estátua do sacerdote troiano.
Figura 36 – Detalhe do rosto de moldagem de gesso tirada da escultura do Laocoonte (c. II a.C.), original pertencente aos Museus do Vaticano. Fonte: Marcelo Gonczarowska Jorge.
Se, por um lado, o Laocoonte apresenta excelentes qualidades de expressão e relevo, devemos reconhecer que, por outro, constitui um desafio para os estudantes, em razão de sua complexidade e da profusão de detalhes. Entretanto, devemos lembrar que esse não é o primeiro olho que os alunos copiam no curso, já que, na prancha 3, há, ao menos, dois pares, além do rosto do velho Horácio na prancha 4. É lícito crer que, em razão da experiência que os alunos provavelmente já possuíam nessa altura do curso, pelo menos no desenho de olhos, Debret tenha se sentido à vontade para exigir um pouco mais deles. Além disso, não podemos descartar que o autor estivesse preocupado, neste exercício, em transmitir valores estéticos aos jovens, já que o
Laocoonte era um grupo escultórico especialmente celebrado pelos neoclássicos129, como o prova a célebre descrição que J. J. Winckelmann, principal teórico do movimento no século XVIII, faz da expressão dessa figura:
[...] o caráter geral, que antes de tudo distingue as obras gregas, é uma nobre simplicidade e uma grandeza serena tanto na atitude como na expressão. Assim como as profundezas do mar permanecem sempre calmas, por mais furiosa que esteja a superfície, da mesma forma a expressão nas figuras dos gregos mostra, mesmo nas maiores paixões, uma alma magnânima e ponderada. (apud WERLE, 2000)