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2 GRAVURAS DIDÁTICAS NO CONTEXTO DA TRANSIÇÃO ENTRE OS SÉCULOS

3.2 PROCEDIMENTO DE CÓPIA (PRANCHAS 5 A 8)

3.2.1 Prancha 5

A quinta prancha do Nouveau Recueil Élémentaire de Dessin apresenta quatro figuras, em dois pares, ambos demonstrando diferentes etapas de execução de um mesmo desenho. No par de cima, é apresentado um nariz de perfil e, no de baixo, um nariz de frente. Alguns aspectos interessantes podem ser apreendidos do exame dessa gravura. (Figura 29)

O primeiro par de narizes, de perfil, apresenta, como dissemos, duas etapas. Podemos considerar a primeira como correspondente ao trait préparé da prancha n. 4, e a segunda ao

ébauché ou ao fini. Essas imagens trazem duas informações importantes. A primeira refere-se ao

partido estético adotado por Debret. Caso analisemos o perfil do nariz apresentado por Debret, verificaremos que o osso e a cartilagem nasais (a ponte que liga a testa à ponta do nariz) formam uma linha quase vertical. Por isso mesmo, a linha da testa está mais pronunciada, à frente, do que o lábio superior. Mesmo para populações europeias, esse perfil é incomum, porém é o cânon para as estátuas da Antiguidade Clássica e caracteriza o famoso e inconfundível “perfil grego”. Esse efeito é tão ressaltado no desenho de Debret que podemos supor que ele tenha sido realizado a partir de uma escultura grega. Desse modo, Debret remete o aluno às referências antigas que, como discutido anteriormente, eram particularmente reverenciadas pelos artistas acadêmicos, em especial os neoclássicos. Nos parece ser mais uma evidência da educação estética dos alunos, acompanhando sua formação técnica.

Outro aspecto importante são as retas que perpassam o primeiro desenho. Se observarmos com atenção, identificaremos três seguimentos retilíneos: dois verticais (um tangenciando a ponta do nariz e outro tangenciando a ponta do lábio superior) e um horizontal (tangenciando a base da narina). Essas linhas foram colocadas para facilitar a execução da cópia, e podemos afirmar isso com certeza, porque linhas análogas aparecem em diversos outros cursos em estampas (Figura 28), e há inúmeras explanações por escrito, que descrevem como utilizar essas linhas para auxiliar na reprodução das imagens (YVON, 1867, p. II; LACOUR, 1826, folhas 2 e 4; ALBERTI, 1822, p. 12; GARNIER, 1934, p. 27 e 101; THONNESSE, 1810, p. 1).

Figura 30 – C. BRUNARD. 2a prancha do 4º caderno do Méthode Élémentaire de Dessin [1836]. Litografia. Fonte: Gallica.

O procedimento sugerido pelos autores, em geral, é o seguinte: primeiro devem-se copiar essas linhas retas, nas proporções da imagem original, e, a partir delas, medir outras partes do desenho, de maneira a preencher o espaço com pontos de referência (poderíamos, mesmo, chamar de coordenadas), os quais devem ser ligados para traçar o contorno das figuras. Uma vez esse contorno estabelecido, as retas devem ser apagadas e o desenho preenchido com o sombreamento e finalizado. Lacour (1826, folha 2) explica pormenorizadamente esse procedimento: (Figura 31)

[Uma vez] Suas duas retas traçadas e alongadas como no modelo, reforce o ponto de interseção, ou seja, o ponto onde elas se encontram e se cortam formando uma cruz. [...] É desse ponto que você deve partir para calcular todas as suas distâncias, seja em altura, seja em largura. [...] quando você acreditar tê- lo encontrado [o ponto de referência], indique-o por pequenos traços. Enquanto você copiar seu modelo [...], você passará todas as linhas do seu desenho por esses pontos, traçando, primeiramente, de maneira leve e com a mesma força [em todas as partes] [...].

Se algumas linhas do desenho se distanciarem das linhas perpendiculares [verticais] e horizontais, de maneira a não tocá-las, [...] calcule a distância entre esse ponto [...] e a linha perpendicular. É por meio do cuidado contínuo em calcular bem essas duas distâncias que se consegue desenhar corretamente.126

Figura 31 – P. LACOUR. 2a folha dos primeiro e segundo cadernos do Cours complet de dessin (1826). Calcogravura. Paris, BnF. Fonte: Marcelo Gonczarowska Jorge.

Por último, Lacour (1826, folha 4) sugere que, “Depois de traçar suas linhas horizontais e perpendiculares [...], depois de calcular e marcar todas as distâncias, trace os contornos, em princípio bem de leve, sem pesar o lápis, para que você possa apagar [...] todos os lugares em que tiver errado”127

. Adolphe Yvon, que conta a seu favor o fato de ter sido professor de desenho da École des Beaux-Arts de Paris durante quinze anos (BELLIER DE LA

126 “Vos deux lignes tracées et prolongées comme dans le modèle, remarquez leur point d’intersection c’est-à-dire le point où eles se rencontrent et se coupent en formant une croix. [...] C’est de ce point que vous devez partir pour calculer toutes vos distances soit en hauteur soit en largeur. [...] quand vous croyez l’avoir trouvée indiquez-le par des petits traits. Lorsque vous copierez votre modèle tel qu’il est trace dans la feuille suivante, vous ferez passer tous les traits de votre dessin par ces mêmes points, en traçant d’abord légèrement et d’une force égale, comme vous le voyez ici.

“Si quelques traits de dessin s’eloignent des lignes perpendiculaires et horizontales et ne les touchent pas, [...] calculez la distance qu’il y a de ce point [...] à la ligne perpendiculaire. C’est par l’attention continuelle à bien calculer ces deux distances qu’on parvient à dessiner correctement.”

127

“Après avoir tracé vos lignes horizontales et perpendiculaires [...], après avoir calculé et marqué toutes vos distances, tracez vos contours, d’abord très légèrement, sans appuyer sur le crayon, afin que vous poussiez effacer [...] par tout où vous vous serez trompé.”

CHAVIGNERIE; AUVRAY, 1885, t. 2, p. 729) não apenas esposava esse método (seja na cópia de gravuras ou, mesmo, no desenho de observação de formas tridimensionais), como afirmava que, desse trabalho preparatório, “dependia o sucesso do desenho”, e que, se as linhas principais e as proporções estivessem corretas, o resto da execução não seria mais que “uma questão de detalhes”128

(YVON, 1867, p. II). Desse modo, infere-se que Debret estava a par dos métodos de cópia de gravura mais usuais em sua época.

No par inferior de imagens, ainda na prancha 5, as linhas verticais e horizontais estão ausentes, mas isso ocorre, possivelmente porque ambos os narizes já estão em estado mais avançado de execução do que o primeiro nariz de perfil, ainda no trait (não podemos descartar, também, a hipótese de que Debret, em sala de aula, tenha ordenado aos alunos que desenhassem as próprias linhas sobre o modelo). A etapa da esquerda corresponderia, portanto, ao ébauché (masser) e o da direita, ao fini. Essa bela figura apresenta um modelado complexo, em que estão presentes as luzes principais, os meios-tons, as sombras principais e as luzes refletidas.

Figura 32 – Jean-Baptiste DEBRET (des.); L. M. PETIT (grav.). Prancha nº 6 do Nouveau Recueil Élémentaire de

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