Do reconhecimento depende, na verdade, o sofrimento. Quando meu trabalho é reconhecido, também minhas angústias, meus esforços, minhas dúvidas, minhas decepções e meus desânimos adquirem sentido. Este sofrimento não foi em vão, não colaborou somente com o processo de organização do trabalho, mas fez do indivíduo uma pessoa diferente daquela que era antes do reconhecimento. Assim, o trabalho se inscreve na dinâmica da realização do ego. A identidade constitui a ferramenta para a saúde mental e o indivíduo, se não puder usufruir dos benefícios do reconhecimento de seu trabalho, não pode atingir o sentido de sua relação com o mesmo. Desta forma é que surge o sofrimento, que pode ser desestruturante, capaz de levar a desestabilizar a identidade e a personalidade, ocasionando a doença mental (5).
A Psicodinâmica do Trabalho dedica-se à análise da dinâmica dos processos psíquicos envolvidos na confrontação do sujeito com a realidade do trabalho. Seu interesse está voltado para as vivências dos sujeitos e a intersubjetividade que permeia o trabalho, bem como para o lugar ocupado pelos processos psíquicos (53). Aprender a compreender as relações de trabalho exige muito mais que a simples observação, acima de tudo, exige uma escuta voltada para quem executa o trabalho. Por isso, para entender o trabalho é necessário explica-lo além do que se é possível medir e ver. É necessário considerar as relações e as inter-relações intrínsecas (6).
Para isso, o exercício acima de tudo, é o de escuta dos trabalhadores. Esta escuta deve ser coletiva e a partir de espaços de reflexão conjunta. Desta forma, acredita-se que somente a partir desta reflexão é que o trabalhador/sujeito é capaz de se re-apropriar da realidade de seu trabalho. Essa reflexão da práxis permite ao trabalhador a mobilização necessária para impulsionar mudanças que tornem o trabalho menos penoso e mais saudável (6).
A possibilidade de confrontar opiniões e a criação de um espaço público de discussões permitem uma maior democracia nas relações e a produção de novas formas de construir o trabalho. Desta forma entende-se este sujeito, não como observador impotente de um mundo perverso que os reduz a sujeitos passivos. O trabalhador é sim capaz de se proteger, de ter capacidade de emancipação, de reapropriação, de transformação e reconstrução da realidade (6).
Se o trabalhador é capaz de pensar o trabalho, de falar, de sensibilizar o pensamento e chegar a uma interpretação, pode-se abrir a possibilidade de negociação, de buscar um novo sentido, compartilhá-lo, de transformar e assim fazer o processo de organização do labor desenvolver-se (6).
Quando o sofrimento não se manifesta na forma de afecção psicopatológica, é porque os indivíduos realmente buscam se proteger e defender, lançando mão de mecanismo de defesa, coletivo ou individual. A doença surge quando há uma quebra do equilíbrio psicossomático e o sofrimento, não encontra mais solução (54).
Neste sentido o sofrimento começa quando a relação homem-organização do trabalho está bloqueada; quando o trabalhador usou o máximo de suas faculdades intelectuais, psicoafetivas, de aprendizagem e de adaptação. Quando usou de tudo que dispunha de saber e de poder na organização do trabalho e quando ele não pode mudar de tarefa: isto é, quando foram esgotados os meios de defesa contra as suas exigências físicas e psíquicas. A certeza de que o nível atingido de insatisfação não pode mais diminuir marca o começo do sofrimento (55).
A criação de espaços organizacionais nos quais o reconhecimento pelos pares e pela hierarquia favoreça a expressão do saber-fazer, o prazer vindo do reconhecimento, tanto em relação à conformidade com as regras do ofício quanto com o da construção da singularidade do sujeito, proporciona engajamento, senso de responsabilidade e mobilização da criatividade que passa a ser investidos no labor (6).
Desse modo, uma condição para obter satisfação no trabalho ocorre quando o processo de organização se torna flexível, permitindo ao trabalhador uma forma de empregar as aptidões psicomotoras, psicossensoriais e psíquicas e propiciando, ao indivíduo, levar em conta suas habilidades; há também uma diminuição de sua carga psíquica, do sofrimento e um equilíbrio na carga fatigante do trabalho (56).
Para o alcance dos objetivos, muitas vezes o trabalhador se vê obrigado a trilhar caminhos que introduzem modificações, reajustamentos e improvisações que não estavam previstos inicialmente, levando-o a administrar entre a organização prescrita e a organização real do trabalho. Isto exige uma atividade de concepção (55).
Na perspectiva da Psicodinâmica, o trabalho é, antes de tudo, o que é inventado pelos homens para combater o hiato entre a organização prescrita e a real. O trabalho é a atividade desenvolvida para fazer frente ao que ainda não está dado pela organização prescrita do trabalho (6).
Tudo isso nos leva a um novo nível de entendimento sobre a concepção de trabalho humano, no qual se exige a mobilização da inteligência, da personalidade, da criatividade, da ação moral, bem como da regulação e da coordenação coletivas. O caminho a ser percorrido entre o trabalho prescrito e o real deve ser, a cada momento, inventado e descoberto pelo sujeito que trabalha; assim sendo, há uma discrepância entre o prescrito e o real, encontrado em todos os níveis de análise, seja de tarefas, seja entre organizações formal e informal (55).
Deste modo, ao invés de eliminar o sofrimento do trabalho, compete aos administradores proporcionar condições aos trabalhadores para que eles mesmos possam gerenciar o sofrimento, em seu favor e também da produtividade (53).
A organização do trabalho não é entendida somente como divisão do trabalho, ou seja, divisão das tarefas entre operadores, ritmos impostos e modos operatórios prescritos, mas também e, sobretudo, a divisão dos homens para garantir esta divisão de tarefas representadas pelas hierarquias, as repetições de responsabilidades e os sistemas de controle. O sofrimento patogênico surge quando a organização do trabalho entra em conflito com o funcionamento psíquico dos homens, quando estão bloqueadas todas as possibilidades de adaptação entre a organização do trabalho e o desejo dos sujeitos. Sendo este um processo dinâmico, os sujeitos criam estratégias defensivas para se protegerem (55).
Nesse contexto, fica explícita a necessidade de se ampliar os conhecimentos sobre prazer e as estratégias defensivas contra o sofrimento utilizadas por profissionais da saúde mental dos CAPS.
Destaca-se, ainda, que a Psicodinâmica poderia permitir que esta pessoa se realizasse pelo trabalho e não apenas obtenha o conforto físico. A área psíquica seria interligada aos aspectos físico e cognitivo, busca distância dos conceitos históricos de trabalho ligado à pena, à tortura, à obrigação e ao sofrimento. O prazer no trabalho permite a concepção de que o mesmo não é um infortúnio, socialmente determinado, mas pode ser um esclarecedor das identidades individuais e coletivas. Há uma relação dialética entre sofrimento e prazer na construção da identidade das pessoas (57).
1.5 Coping: estratégias de enfrentamento individuais utilizadas para controle