Iniciamos essa discussão nos questionando se a orientação ideológica de Kellner é revelada em seus exames: escolha da literatura, elaboração da análise e perfil da crítica. Surgem, de imediato, outros questionamentos que ampliam o debate: há prejuízo do ponto de vista ideológico na análise? Sendo positiva a resposta, a perspectiva ideológica do autor é motivo para que as propriedades de juízo crítico sobre mídia e cultura apresentadas por ele percam crédito?
Para Hoenisch, fica evidente que “Kellner é um ideólogo da esquerda, e sua análise se torna fortemente tendenciosa por sua ideologia” (HOENISCH, 1998, p. 1). Ele constatou problema na análise de Kellner em relação à cobertura da Guerra do Golfo, como vimos anteriormente.
No entanto, Kellner se redime – pelo menos, para o crítico – na medida em que ele reconhece, no espírito de Max Weber, os valores e os fins que ele trabalha em sua obra da cultura da mídia: a promoção da democracia.
Kellner está preocupado com a forma como a mídia inibe ou promove a democracia. A forma de estudos culturais de Kellner é ativista: busca, diz ele, promover democracia e liberdade. Como acredito, como Weber, que todo cientista social necessariamente traz sua perspectiva ideológica para sua análise, não vou censurar Kellner a esse respeito, a não ser dizer que suas
152 conclusões devem ser vistas como determinadas, até certo ponto, por seu ponto ideológico de partida (HOENISCH, 1998, p. 1).
Mas isso não é o bastante. A afirmação de Hoenisch não merece crédito no plano das ideias. Ele lança uma acusação contra Kellner – trata-se de um esquerdista – o que pode causar algum efeito imediato no leitor, mas que, no momento seguinte, não acrescenta argumento à discussão contra a proposta de teoria da cultura da mídia. A intenção de deslegitimar o estudo se mostra vazia: Hoenisch não apresenta provas de que a relação de Kellner com o movimento de esquerda prejudica – e não potencializa – o seu trabalho teórico.
Sim, Kellner teoriza, quase sempre, alinhado ao viés da esquerda. Ele trabalha com categorias de análise, como, por exemplo, o tecnocapitalismo, de modo coerente à visão da esquerda (nesse caso, sob influência de Marcuse).
Ao nosso juízo, o esquerdismo do acadêmico torna-se prejudicial à medida em que se manifesta como preconceito ideológico nos casos que examina/pesquisa. De modo mais explícito, o preconceito ideológico conduz ao erro de ver apenas aquilo que se acredita, à impossibilidade de enxergar a realidade em suas contradições, e à exclusão das visões de oposição. Os estudos que Kellner realiza sobre coberturas jornalísticas (conflitos, eleições etc.) são exemplos a serem avaliados.
C. Charles Gooding (2006) também denuncia o esquerdismo kellneriano, mas parece fornecer provas mais contundentes do que Hoenisch. Ele tece crítica ao estudo aplicado de Kellner, presente em Media spectacle and the crisis of democracy (2005), e aponta prejuízos objetivos do esquerdismo do autor. No presente estudo, Kellner trata a relação da mídia com os acontecimentos políticos envolvendo o governo Bush, durante as eleições presidenciais (2000 e 2004), a guerra contra o Iraque, e os ataques de 11 de setembro de 2001.
Para Gooding, esse exame de Kellner apresenta uma fraqueza significativa, que se manifesta de maneiras distintas:
Apesar de um argumento convincente e bem apoiado que critica tanto a administração Bush quanto a mídia, Kellner prega, de modo exagerado, para o coro – aqueles situados na esquerda política. Este fato é confirmado principalmente por sua relutância em criticar a esquerda. Embora a introdução do livro expresse claramente a simpatia de Kellner em relação ao Partido Democrata, o autor rapidamente afasta aqueles que têm opiniões
153 políticas moderadas ao comparar George W. Bush a Adolf Hitler. Por exemplo, Kellner afirma que, “como Hitler e os fascistas alemães, a camarilha de Bush-Cheney usa a Grande Mentira para promover suas políticas, promover o militarismo agressivo na busca pela hegemonia mundial e promover implacavelmente os interesses econômicos das corporações e grupos financiadores (GOODING, 2006, p. 2, grifo nosso).
Na visão de Gooding, embora possamos questionar a argumentação de Kellner, a forma com que ela é posta, não faz muito mais do que aproximar novos esquerdistas – que já compartilhavam com essa ideia –, atacar os liberais, e afastar os leitores com opiniões políticas moderadas. Nesse sentido, o debatedor compara Kellner a Bush, uma vez que o autor consegue polarizar o público tanto quanto o ex- presidente, e impede qualquer tentativa de um debate com mentes abertas.
A comparação de Kellner entre Bush e Hitler, juntamente com sua tendência a ignorar os erros cometidos pelo Partido Democrata, fornece aos críticos a razão de categorizar Kellner de modo semelhante a Michael Moore. Embora Michael Moore tenha conseguido seguidores significativos, sua abordagem e tom levaram os críticos a rotular seu trabalho como propaganda (Ibid., p. 3).
Já Kellner pouco faz para desmentir tais críticas. Argumenta, por exemplo, que Bush e Cheney agiram como uma gangue, na medida em que controlaram as “instituições superiores do governo dos Estados Unidos, perpetuando um aparato estatal dedicado à guerra de classes contra os pobres e despossuídos, e tentaram transferir ao máximo riqueza e poder para as classes ricas e corporativas” (KELLNER, 2005a, p. xiv). Na crítica de Gooding, esses ataques “à administração Bush e a relutância em criticar a esquerda impedem que aqueles politicamente indecisos considerem seriamente os fatos convincentes que Kellner recolhe e apresenta” (GOODING, 2006, p. 3).
Apesar de julgar prejuízo ideológico, Gooding descreve o exame de Kellner como um “excelente relato da política norte-americana e do uso do espetáculo da mídia no início do século XXI” (Ibid.). Segundo ele, o autor tem o mérito de capturar a “preocupação sentida por pelo menos metade da população norte-americana, de que existe falta de integridade jornalística e objetividade na mídia americana” (GOODING, 2006, p. 3).
Investimos na crítica de Gooding, pois apresenta argumentos para discutirmos como o esquerdismo kellneriano se mostra prejudicial ao estudo aplicado. Os meios
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produzem narrativas múltiplas, eis uma das tantas reflexões propostas por Kellner. Ele falha no trabalho analítico, ao não considerar a pluralidade das vozes, que estavam presentes nas coberturas dos eventos analisados, mesmo no contexto da grande mídia. Cabe ao estudioso analisar as diferentes narrativas, tratá-las com seriedade. Kellner, tomado por pressupostos ideológicos, às vezes, parece faltar a esse trabalho, e só por se tratar do exame da mídia tradicional, já lança opinião condenatória. O esquerdismo torna-se, nesse sentido, novamente prejudicial ao pesquisador.
Acreditamos que o maior objetivo, na prática de pesquisa, não deve ser a defesa de uma ideia (direita x esquerda, liberal x conservadora etc.), e, sim, a busca pelo conhecimento da realidade. Trata-se da atividade de reelaboração de ideias. O desconhecimento dos múltiplos processos que envolvem a realidade, por sua vez, não tem outra pretensão senão aperfeiçoar a ideia já existente.
Entretanto, também devemos sustentar defesa a Kellner. A crítica de Hoenisch segue imprópria, pois está impugnando a teoria da cultura da mídia, que solicita um multiperspectivismo, isto é, a consideração dos vários pontos de vista – ideológicos – que intervém em um fenômeno de mídia. De modo geral, o esquerdismo não afeta a reflexão de Kellner. Assim como Hoenisch, Gooding tem dificuldade de compreender a complexidade dessa dinâmica de ser e agir na contemporaneidade: o militante esquerdista convive com o teórico crítico. Às vezes, predominantemente do ponto de vista intelectual e acadêmico, outras não.