Documento 11 Ajustamento de vagas para o Ginásio Polivalente, oriundas dos
1 NECESSIDADE DA FORMAÇÃO DE TRABALHADORES
1.7 Premem, Ipea, Epem e Mec/Usaid: Uma Nova Abordagem
É necessário buscar o entendimento desse período militar brasileiro em relação à educação, para que possamos ver que a mesma foi apropriada pelo capitalismo e suas necessidades. A escola deve como um todo atender as necessidades educacionais, visando sempre à formação do cidadão em todos os seus aspectos cognitivos e humanos. No período militar, o Brasil fez uma aliança mais contundente com o capital estrangeiro, mais fortemente com o capitalismo americano.
Ora, é visto constantemente pela historiografia que os Estados Unidos da América sempre impuseram uma série de restrições às economias subdesenvolvidas ou em desenvolvimento que aceitam serem submissas aos norte-americanos nos aspectos econômicos através de instituições voltadas ao lucro e equilíbrio fiscal, financeiro e econômico dentre as quais estão o Fundo Monetário Internacional, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Consenso de Washington. Na verdade, essas, alianças sempre vêm acompanhadas por uma série de restrições econômicas que visam principalmente combater a distribuição de rendas e dificultar a implantação de políticas públicas por parte do Estado.
No modelo econômico americano, o estado deverá interferir minimamente nas relações econômicas dando livre iniciativa ao próprio mercado. Para se implantar o modelo americano no Brasil militarizado nas décadas de 1960 e 1970 se fez necessário buscar além das restrições econômicas e sociais impostas, um meio de propagação que atendessem aos
interesses empresarial, comercial e agrário (agronegócio). E, foi nesse sentido que o Brasil, através do governo militar, lançou mãos na educação como modelo profissionalizante que pudesse atender às demandas do mercado capitalista. Para Lima (2018, p.52):
Nesta perspectiva, a sociedade foi se estabelecendo em uma visão global do mundo do trabalho enquanto a educação compulsoriamente ia se tornando fundamental para a promoção das atividades capitalistas, uma vez que a instrução se torna essencial para as práticas profissionais. O período da ditadura civil-militar tornou mais visível a influência dos Estados Unidos no que diz respeito às formas de controle no reforço dos meios de produção capitalistas; era preciso que o mercado se preparasse para receber trabalhadores técnicos capacitados para a produção industrial na execução das diferentes tarefas presentes no setor industrial.
Fato é que foram criados alguns órgãos tecnocratas que iriam gerir a questão educacional profissionalizante. Dentre eles e de suma importância para se entender o investimento por parte do governo em uma educação qualificativa, destacou-se o PREMEM (Programa de Expansão e Melhoria do Ensino Médio).
A criação do PREMEM, se deu em 26 de dezembro de 1968, através do Decreto 63.914. Após a promulgação da Lei 5.692 em 1971(Lei de Diretrizes e Bases da Educação), a sigla PREMEM (Programa de Expansão e Melhoria do Ensino Médio), foi modificada para PREMEN (Programa de Expansão e Melhoria do Ensino) através do Decreto 70.067 de janeiro de 1972, para melhor se adequar às reformas do ensino da LDB vigente naquele momento. Apesar disso, alguns autores continuaram a utilizar a sigla PREMEM e outros PREMEN, como é o caso de Arapiraca (1982).
A criação do PREMEM, se deve ao fato de que o capitalismo americano estava prestes a investir quantias vultosas na economia brasileira no setor educacional e queria a contra partida de que seria garantida através da educação uma mão de obra qualificada para atender as expectativas do mercado, além das garantias de que seria implantado em solo brasileiro um projeto nacional desenvolvimentista voltado para o progresso. Em verdade, um projeto de poder imperialista. Em matéria publicada pelo jornal dos municípios da cidade de Patos de Minas, em 06 de fevereiro de 1972, a mesma se refere à mudança de nomenclatura em seu termo final devido à reforma do ensino determinada pela lei 5.692/1971:
Na década de 1960, a USAID, através de acordos com o MEC, fará empréstimos milionários ao governo brasileiro, afim de que a educação seja a mola mestra da Aliança para o progresso tão bem difundido pelos Estados Unidos em países subdesenvolvidos na América Latina e do Sul. Em relação à Aliança para o progresso e a política de boa vizinhança, Arapiraca (1982, p. 13):
A implantação da política da boa vizinhança e o movimento desenvolvimentista da Aliança para o Progresso nos pareceram uma tentativa de utilização dos aparelhos superestruturais da sociedade latino-americana e a brasileira em particular, para a conquista pacífica de novos parceiros periféricos, principalmente no campo econômico. Neste sentido, o segmento educativo não só exerceu o papel de legitimador do status quo como também propiciou a implementação de novo estudo industrial, fornecendo-lhe a mão de obra abundante necessária e suficiente “educada”.
Às vezes povoa a imaginação de parte da sociedade que os Estados Unidos da América fizeram investimentos no Brasil a nível educacional na época da ditadura militar, através da USAID de forma benevolente e solidária. Ledo engano. O que os americanos propuseram foram empréstimos ao Brasil, através dos acordos com o projeto MEC-USAID, como ficou conhecido. As exigências para tais empréstimos foram severas e a uma taxa de juros elevadas. Afinal de contas, estamos falando do país que mais representa o capitalismo no mundo. Não iria dar nada de graça.
Além dos contratos de garantias para recebimento posterior dos empréstimos, também colocaram uma série de fatores e exigências que o Brasil deveria atender para que o dinheiro fosse liberado. Ou seja, além de emprestar o dinheiro, queriam comandar as ações na área educacional. Silva (1984, p.114) analisando uma das cartas da USAID ao governo brasileiro:
A USAID, em uma carta enviada aos ministros Hélio Beltrão (Planejamento), Delfim Neto (Fazenda) e Tarso Dutra (Educação), no dia 15 de agosto de 1968, confirma que o administrador da AID autorizou as negociações. O empréstimo seria de U$32 milhões, a ser amortizado em 40 anos, com carência de 10 anos e juros de 2% ao ano, durante o período de carência e de 2 ½% ao ano após esse período. As exigências ao MEC e governo brasileiro não são alteradas. (...) o item 7 dessa carta denuncia o caráter dessa ajuda, (...): “Todos os bens e serviços deverão ser de origem dos Estados Unidos”. O item 9, por sua vez, mostra claramente a exigência de subordinação total do governo brasileiro aos ditames da USAID: “o empréstimo estará sujeito a quaisquer termos que a AID julgar apropriados”. (WB,1968b)
A indagação começa a surgir quando pensamos a escola e a educação como o fator primordial que porá fim às desigualdades sociais. Deveria ser essa escola o modelo de educação que traria ao ser humano além do aprendizado, das relações para o trabalho, também os princípios de solidariedade e convivência pacífica nos diversos espaços culturais que permeiam a sociedade e os povos.
Neste diapasão, veremos que os convênios firmados entre o MEC e a USAID, buscavam tão somente a reafirmação do capital e suas condições de acumulação primitiva. Nesse sentido, a escola faz muito mais um papel de exclusão social do que inclusão. Aproveitar da escola e da educação para qualificar a mão de obra tão necessária ao sistema capitalista naquele período, não faria da educação o princípio norteador das igualdades sociais. As empresas precisavam de um número determinado de trabalhadores qualificados e outro tanto que não necessariamente precisariam qualificar-se mediante frequência em um educandário profissionalizante, mas tão somente os conhecimentos básicos (leitura e escrita) para que pudessem manusear alguma ferramenta ou máquina.
Nesse sentido, Kuenzer (1991, p. 28):
Considerando-se, conforme o anteriormente exposto, que o mercado de trabalho demanda um pequeno grupo de profissionais altamente qualificados, alguns técnicos e uma grande massa de trabalhadores desqualificados, adequar a proposta pedagógica da escola a esta realidade significa legitimar seu caráter seletivo e excludente. Esta constatação se reforça ao se observar que o desenvolvimento do processo de simplificação do trabalho pelo avanço tecnológico nesta fase do capitalismo monopolista tende a reduzir cada vez mais a necessidade de profissionais com altos índices de escolaridade. Há, pois, que se contrapor a esta tendência, considerando que a apropriação do saber socialmente produzido, que inclui o saber sobre o trabalho, é um direito do trabalhador; a luta política que ora se desenvolve é para que a escola negue sua função de referendadora das desigualdades, e abra suas portas a toda população. (...). A adequação da oferta às necessidades do mercado é outra questão.
E, com isso, buscava através de políticas educacionais atender ao mercado produtivo industrial, formando com isso um batalhão de trabalhadores alfabetizados e com um mínimo de conhecimento técnico e profissional. Com a economia nos “trilhos” a partir de 1967, através da captação de recursos oriundos de fundos internacionais, o Brasil vai conhecer seu melhor momento nos setores produtivos. Um período que para muitos ficou conhecido como “o milagre econômico” 3 e que passaria a se preocupar com o investimento e retorno na área educacional.
3 Entre os anos de 1968 e 1973, o Brasil viveu um expressivo crescimento econômico que contribuiu para o fortalecimento do regime militar. Chamado de "milagre econômico", esse crescimento esteve relacionado a
1.8 Escolaridade técnica profissional e a produção capitalista: a teoria do capital