2. MEIO AMBIENTE: BEM E DIREITO FUNDAMENTAL DE TODOS
2.3 PREMISSA CONSTITUCIONAL E O DIREITO AO MEIO AMBIENTE
2.3 PREMISSA CONSTITUCIONAL E O DIREITO AO MEIO AMBIENTE ECOLOGICAMENTE EQUILIBRADO
A Constituição da República Federativa do Brasil - CF, promulgada em 5 de outubro de 1988, foi a primeira na história das constituições brasileiras que trouxe o
termo “meio ambiente” (grifo nosso), sob o enfoque protetivo. Antes disso, a
abordagem ambiental se dava somente pela legislação infraconstitucional.
Contudo, de acordo com Sirvinskas (2014, p. 152 - 153) algumas constituições, anteriores citaram alguns pontos isolados, atinentes aos recursos naturais, tais como a Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, de 1891, que atribuiu competência para a “União legislar sobre minas e terras”; seguiu-se a Constituição de 1934, que estendeu essa “competência da União em matéria de riquezas do subsolo, mineração, metalurgia água, energia elétrica, florestas, caça e pesca e a exploração”, além de proteger as belezas naturais, o patrimônio artístico, cultural e histórico.
Na sequência, a Constituição promulgada em 1937 preocupou-se “com os monumentos históricos, artísticos e naturais” e previu a competência da União para legislar em matéria de “minas, metalurgia, energia hidráulica, águas, florestas, caça e pesca e sua exploração”. A Constituição de 1946, por sua vez, além de ampliar a competência legislativa da União nas matérias já compreendidas na Constituição de 1937, mantém a “proteção do patrimônio histórico, cultural e paisagístico”.
Em 1967, a Constituição promulgada continuou protegendo os recursos naturais, na mesma medida de a anterior e possibilitou a União intervir diante de calamidades públicas, como em situações de seca e inundações.
Sirvinskas registra ainda que a Emenda Constitucional 1/69 inseriu o termo “ecológico” (grifo do autor), no art. 1729.
Nem todas as leis ambientais foram revogadas após a promulgação da CF/88. Algumas dessas normas foram recepcionadas pela Carta Maior e outras surgiram, até mesmo para atender aos ditames da nova ordem constitucional.
Nesse sentido, outra evolução para a tutela do meio ambiente sob o amparo da Constituição é sua relevância trazida por si só, isto é, pela importância de se preservar os recursos naturais. Anteriormente a questão ambiental era tratada levando-se em conta interesses outros, que não exatamente a sua proteção.
A origem dos impactos sofridos pelo meio ambiente causados pelos ecossistemas antrópicos nos ecossistemas naturais está diretamente relacionada ao modo de vida do homem (SEIFFERT, 2014, p. 19). Ao longo da história podem ser observados alguns fatores que contribuem para uma crise ecológica, tais como: crescimento populacional, aumento do consumismo por alimentos e bens materiais, mudanças tecnológicas, dentre outros.
Uma análise antropológica é oportuna para avaliar as mudanças proporcionadas pela sociedade em seu próprio ambiente e assim contribuir para a elaboração das políticas ambientais. Navarro (2012, p. 19 - 144) faz uma análise acerca do comportamento humano sob os aspectos sociais, ambientais, culturais e econômicos e as práticas para suprir as suas próprias necessidades, especialmente por alimentos.
Nesse contexto, segundo Navarro (2012, p. 149) a prática da queimada era utilizada para devastar e então possibilitar a instalação do homem em determinado local, fazer a plantação e a criação de animais. Algum tempo depois, os excrementos dos animais passaram a ser usados como adubo, integrando a criação de animal à agricultura. Posteriormente, surgiram novas técnicas, a exemplo da “mecanização de operações e pousio (interrupção do cultivo da terra por um ou mais anos, para que ela se tornasse fértil)”, e foram utilizadas nas rotinas produtivas agrícolas.
Prosseguindo nessa sequência, com o crescimento acelerado da população e pressão para o aumento da produção de alimentos os cientistas se viram induzidos a “gerirem adubos químicos, a interferirem na genética das sementes e a
9 O artigo 172 da Constituição de 1967, com redação dada pela Emenda n. 1/69, reza: “A lei regulará, mediante prévio levantamento ecológico, o aproveitamento agrícola de terras sujeitas a intempéries e calamidades. O mau uso da terra impedirá o proprietário de receber incentivos e auxílios do Governo”.
estimularem a instalação de grandes monoculturas”. Essas ações trouxeram como consequência o esgotamento dos solos, contaminação das águas, alimentos e da própria terra. As pragas se tornaram resistentes aos agrotóxicos, desencadeando não só desequilíbrio na natureza, mas, também, causando intoxicações graves no homem (NAVARRO, 2012, p. 149).
Saliente-se que, no artigo 225 da CF/88 o meio ambiente é apresentado como um recurso essencial à sobrevivência. É preciso que toda a sociedade tenha consciência de que a natureza tem limites e requer cuidados. O homem faz parte dela e sem ela, ecologicamente equilibrada, também estará em risco sua própria vida (ROSÁRIO, p. 117).
Dias (2015, p. 8) alerta que a sociedade humana não sobrevive em um meio sem água potável, ar puro, terra produtiva e clima ameno. O meio ambiente já oferece essas condições fundamentais aos seres vivos. Contudo, nem todos conseguem compreender essa realidade.
Todos têm a sua parcela de responsabilidade perante a proteção ao meio ambiente. Dimoulis (apud LEITE; SARLET 2011, p. 330 - 331) traz a perspectiva de dever fundamental, numa problemática de deveres coletivos difusos, estando a preservação ambiental aí inserida na forma de dever da coletividade.
Destarte, o dever de preservação ambiental pode ter como titular o próprio meio ambiente, “isto é, uma construção científico-teórico”; as pessoas, a partir do momento que se faz necessária a tutela da saúde e da qualidade de vida; ou o
Estado, pelo interesse na preservação ambiental (DIMOULIS apud LEITE; SARLET
2011, p. 336).
Constitucionalmente, o tema meio ambiente está presente não só no artigo 225, mas em vários outros momentos, da carta magna. Demonstra-se que, em todos os aspectos sejam eles sociais, econômicos, de ordem pública a proteção ambiental deve ser observada por toda a sociedade, e pelo poder público, de acordo com as respectivas competências, conforme pode ser analisado no quadro 3.
Quadro 3: Termo “meio ambiente” no texto constitucional (grifo nosso).
Fonte: Constituição da República Federativa do Brasil, 1988.
Desse modo, considerando-se que a CF/88 é a Lei Maior do país, é quem norteia todas as demais normas, alcançar esse patamar constitucional é um ganho de grande vulto para a tutela do meio ambiente. Ademais, esse caráter protetivo passa a se dar fundamentalmente em razão de se preservar o meio ambiente ecologicamente equilibrado.
Quiçá para que não houvesse dúvida, o texto constitucional, traz, inclusive no título que trata “da ordem econômica e financeira”, no capítulo que elenca os princípios da atividade econômica, o direcionamento para a devida atenção à questão ambiental.
Observa-se ainda que, a questão ambiental é trazida pela Constituição em diversos títulos e capítulos transitando por diversos temas, indo desde garantia de direito fundamental às questões econômicas supracitadas. Dessa maneira, está presente, também, nas mais diversas áreas de estudo.
O meio ambiente vai além de estar sob uma única perspectiva disciplinar. Contrário senso se constitui em um tema bastante complexo, amplo, multidisciplinar e de larga abrangência, necessitando interagir com as diversas áreas, a exemplo da biologia, geografia, direito, economia, saúde, etc.
O meio ambiente ecologicamente equilibrado é um bem tutelado pelo ordenamento jurídico nacional e internacional. É um direito fundamental de toda coletividade. No artigo 225 o legislador apresenta duas dimensões de proteção ao bem ambiental, sendo o direito subjetivo do indivíduo e da coletividade e também o inclui como bem autônomo merecedor de proteção, por si só, independente do interesse econômico.
Todos possuem direitos e deveres para com o meio ambiente. E, nesse diapasão Pilati e Dantas (2011, p. 13) alerta que não só os indivíduos possuem a obrigação de proteger o meio ambiente, mas de modo especial, o setor produtivo e o Poder Público. Esse último na forma já estabelecida pelo próprio artigo constitucional, em seu parágrafo primeiro.
Consoante Santos (2004, p. 22), o planejamento ambiental foi incorporado aos planos diretores municipais na década de 1990. Nasceu da necessidade de organizar a utilização da terra, compatibilizando-a com a proteção ambiental e qualidade de vida da população, diante da acirrada competição por terras, água, recursos energéticos e biológicos, além do intuito de brecar o desenvolvimento tecnológico puramente materialista (SANTOS, 2004, p. 27).
O meio ambiente é um bem de uso comum do povo, assim o definiu a Constituição. Ele não pode ser apropriado por particular e nem pelo Estado, de modo contrário ao interesse público. Isto quer dizer que, a utilização de bens ambientais pelo Estado ou pelo particular não pode impedir o uso e o desfruto desses bens pela coletividade (VIEIRA; BREDARIOL, 2006, p. 37).
O meio ambiente é uno e abstrato, cuja titularidade é difusa. Vieira e Bredariol (2006, p. 38) afirmam que, não rara são as vezes em que empresas privadas e até o próprio governo violam leis ambientais e invadem espaços públicos para obter e defender interesses econômicos privados, em detrimento do interesse público e do bem ambiental, diante dessa realidade, é importante fazer valer a força dos princípios.
2.4 A FORÇA ORIENTADORA DOS PRINCÍPIOS DO DIREITO AMBIENTAL NA