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3. O MINISTÉRIO PÚBLICO E OS MEIOS À SUA DISPOSIÇÃO PARA A TUTELA

3.4 TERMO DE AJUSTAMENTO DE CONDUTA – TAC: ASPECTOS GERAIS E

O compromisso de ajuste de conduta tomou fôlego no nosso ordenamento jurídico a partir da Lei 8.069/90 (art. 211) e Lei 8.078/90 (art. 82, § 3º), também conhecidas como estatuto da criança e do adolescente - ECA e código de defesa do consumidor, respectivamente, ainda que já estivesse vigente a Lei 7.347/85, que o regulamenta (SILVA, 2014, p. 59).

Silva prossegue lembrando as contribuições do ECA e do CDC para o avanço dos TACs. Foi por meio desses dispositivos legais que os legitimados à propositura da ação coletiva alcançaram a prerrogativa de tomar compromisso escrito daqueles que deram causa ao dano a interesses difusos, coletivos e individuais homogêneos, a fim de que os causadores ajustassem suas condutas às normas, sob pena de virem a sofrer sanções.

Na forma do art. 585, II, do CPC/73 esse compromisso adquiriu status de título executivo extrajudicial. Visto que é formalizado por termo, o compromisso de

ajustamento de conduta ficou conhecido com a abreviatura de TAC – termo de

ajustamento de conduta.

Segundo Hugo Nigro Mazzili (apud SIRVINSKAS, 2014, p. 948) os TACs apresentam várias características, a saber: deve ser tomado por órgão público legitimado à ação pública; esse órgão não poderá fazer concessões de direito material; as obrigações de fazer ou não fazer são assumidas pelo causador do dano, ajustando sua conduta às obrigações legais; não há exigência de testemunhas no termo acordado; não há obrigatoriedade da presença de advogados; não há necessidade de homologação em juízo, mas se assim for o procedimento, passa à categoria de título judicial; os legitimados podem tomar compromisso de qualquer causador do dano, exceto dele mesmo; as cominações devem estar expressas no termo; poderá não haver aplicação de multa; no que se refere à obrigação, essa deve ser certa e discriminada quanto à sua existência, objeto e exigibilidade.

A extrajudicialidade não obsta a tutela do meio ambiente. Em Minas Gerais,

Pinto (2014, p. 34 – 35) assevera que 90% das situações envolvendo questões

ambientais são resolvidos extrajudicialmente. Para isso, a negociação tem se mostrado bastante eficiente em áreas, como mineração, siderurgia, hidrelétrica e atividade agropecuária. Desse modo, “a tutela do meio ambiente prioriza a

negociação extrajudicial, que, pela sua celeridade, é também mais eficaz na proteção do bem ambiental”.

Nesse contexto, alguns casos de sucesso podem ser relatados. Um deles foi o que ocorreu na chamada Serra da Moeda, onde MPMG celebrou com a mineradora Gerdau Açominas S.A um TAC que gerou ganhos para o meio ambiente e também para as comunidades locais, como a criação de uma unidade de conservação de proteção integral. Esse tipo de acordo, por meio da negociação, proporciona maior proteção do meio ambiente e possibilita celeridade nos casos de implantação de medidas compensatórias (PINTO, 2014, p. 37).

Quando se fala em meio ambiente o espírito público deve ser aplicado também pelo particular. Do contrário, restará que o coletivo a ninguém pertence. Naquele caso concreto, conquanto houvesse um conflito de interesses entre a exploração empresarial e o meio ambiente, foi possível obter um ganho para o bem ambiental.

A procuradora Geisa de Assis Rodrigues (2011, p. 103 - 113) traz em sua obra os princípios que devem permear os termos de ajustamento de conduta firmados pelos órgãos públicos. Esses princípios, a seguir detalhados, possuem grande importância, conquanto vão fundamentar, dando sustentação, para respaldar a utilização dos TACs.

Princípio do acesso à justiça, não se pode falar em acesso à justiça sem

fazer referência a Cappelletti. Nesse sentido, Cappelletti (apud RODRIGUES, 2011,

p. 105) traz a seguinte reflexão:

[...] é nosso dever contribuir para fazer que o direito e os remédios legais reflitam as necessidades, problemas e aspirações atuais da sociedade civil; entre essas necessidades estão seguramente as de desenvolver alternativas aos métodos de remédios, tradicionais, sempre que sejam demasiados caros, lentos e inacessíveis ao povo; daí o dever de encontrar alternativas capazes de melhor atender às urgentes demandas de um tempo de transformações sociais em ritmo de velocidade sem precedentes.

Nas palavras acima se percebe a preocupação em encontrar instrumentos que melhor atendam às necessidades da sociedade, com celeridade e menor custo no acesso à justiça. É nesse contexto que Rodrigues (2011, p. 105) lembra que o compromisso de ajustamento surgiu como alternativa para melhor tutelar direitos transindividuais.

Assim, Rodrigues prossegue explicando que houve uma mudança no modelo existente (via judicial). Essa mudança possibilitou abrir portas para que, direitos que são em sua essência indisponíveis possam ser tratados por meio da conciliação, conferindo legitimidade a quem não poderia dispor desse direito, por não ter essa titularidade, de fato.

Desse modo, os compromissos de ajustamento de conduta firmados não podem renunciar os direitos transindividuais. A autora prossegue informando que o princípio de acesso à justiça não se desliga da proporcionalidade. Exemplo disso são as concessões acerca de prazos e condições para que o que foi ajustado seja cumprido.

O Princípio da tutela preventiva dos direitos, no ajuste de conduta, parte da premissa de que o sistema jurídico deve estar atento para evitar que ocorram atos ilícitos e danos (RODRIGUES, 2011, p. 107). Isso, nas palavras de Rodrigues (2011, p. 110) implica em dizer que “desde que se afigure possível a ocorrência do ilícito, com ou sem a probabilidade de um dano imediato, devem os legitimados a celebrar o ajuste tentar realiza-lo”.

Em regra, surge daí as obrigações de fazer ou não fazer, para preventivamente evitar que o dano aconteça.

Princípio da tutela específica, utilizando as palavras de Moreira (1980, p. 81, apud RODRIGUES, 2011, p.112): é “o conjunto de remédios e providências tendentes a proporcionar àquele que será beneficiado com o cumprimento da prestação o preciso resultado prático atingível por meio do adimplemento”.

Com isso, busca-se que haja a real satisfação dos direitos transindividuais que estiverem envolvidos. Ora, é preciso que o ajustamento tenha o condão de surtir efeito providencial para aqueles que foram afetados ou estejam na iminência de serem afetados pelo causador da demanda.

Pelo princípio democrático, não existe a obrigatoriedade do transgressor em fazer o termo de ajustamento de conduta, visto que este depende da vontade de assim proceder. Ademais, a execução involuntária só pode ocorrer por meio de ordem judicial.

Outra perspectiva desse princípio é a de que devem existir regras para a celebração do ajustamento de conduta, a fim de que seja assegurado que os TACs serão realizados adequadamente e a conduta do transgressor adaptada às

exigências legais. É preciso ainda que, a definição do conteúdo e a deliberação de celebrar o ajustamento sejam democráticas (RODRIGUES, 2011, p. 119).

Ocorre que, essa prerrogativa do ajustamento acontecer de modo democrático pode ficar limitada apenas entre o infrator e o órgão legitimado a tomá-lo. Pois, são essas as partes necessárias à celebração do TAC.

Ressalte-se que, de acordo com Rodrigues (2011, p. 120 - 121) não existe previsão normativa que obrigue a utilização de instrumentos participativos prévios à elaboração e celebração do ajuste, ainda que se trate de interesses transindividuais. Assim, as partes do ajuste são unicamente o obrigado e o órgão público legitimado.

3.5 TRANSAÇÃO, NEGOCIAÇÃO E A NATUREZA JURÍDICA DOS TACS FRENTE