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AS VERTENTES DE UMA INVESTIGAÇÃO GEOGRÁFICA SOBRE A FLORESTA
2.1. Premissas sobre a interface Natureza-Sociedade
Apesar de a floresta portuguesa ser actualmente encarada a partir do conceito de património social, ressalta a primazia da sua função económica, em que assentam as práticas da política florestal, com também o principal objectivo da investigação sobre a vegetação arbórea. Recordemos que se contrapõem ainda dois tipos de floresta: a floresta "artificial" de produção com finalidade industrial, cujo desenvolvimento se baseia numa
aptidão exceptional das condições edafo-climáticas, e a floresta "natural", mais próxima da
cobertura vegetal primitiva e por isso protegida, ou que se desejaria proteger, servindo eventualmente como laboratório para pesquisas naturalistas.
Mas, de um lado e como do outro desta contraposição, é sempre a natureza que sustenta as respectivas finalidades de expansão e conservação da floresta. Então perguntemos: estas posições não estariam inseridas no mesmo campo ideológico, ou seja, num campo onde prevalece a ideia da imutabilidade das condições ditas "naturais", que seriam favoráveis por si próprias à vegetação arbórea? Num país como Portugal, onde não deve existir presentemente uma parcela do território nacional que não tenha sido transformada pelo homem, que significa esta apreensão da natureza, feita através da noção de cobertura vegetal dita "primitiva" e, daí, considerada como "potencial" para ser utilizada num novo sistema de produção económica? Parece haver, de facto, como que um hiatus entre as reflexões sobre a dinâmica dos meios naturais e a evolução das práticas sociais. Esta lacuna não é mais que o resultado da ambiguidade que a evolução do pensamento e das pesquisas científicas estabeleceram entre natureza e sociedade. E não será difícil reconhecer que muitos dos nossos comportamentos, pessoais ou sociais, são conscientemente ou não orientados por esta ambiguidade.
No intuito de apresentarmos as premissas que fundamentam o rumo da nossa investigação, percorramos agora os caminhos traçados por alguns dos autores que, pouco a pouco, procuraram estabelecer o posicionamento de um novo pensamento científico, melhor dizendo um novo "paradigma" científico. Para tal, escolhemos resumir as ideias desenvolvidas por S. MOSCOVOCI (1972, 1975), E. MORIN (1977, 1982, 1983), M. SERRES (1985), P. ACOT (1985, 1988) e BOAVENTURA DE S SANTOS (1987, 1990).
Na sua obra La société contre Nature, S. MOSCOVICI afirma que "a sociedade é o domínio dos homens, a natureza, o das coisas... Essa relação de exclusão que é ao mesmo tempo diferença e negação, autonomia e exterioridade, encontra-se na base das nossas ciências, molda e organiza os nossos comportamentos políticos, económicos e ideológicos." (1975, p. 7-8). Alguns anos mais tarde, E. MORIN avança, em La Nature
de la Nature, uma ideia central na mesma linha de pensamento. Mas agora, esta ideia
situa-se no quadro de uma crítica da ciência moderna, que institucionalizou uma distinção rígida entre pesquisas naturais e sociais: "Je suis de plus en plus convaincu que la science anthropo-sociale a besoin de s'articuler sur la science de la nature, et que cette articulation requiert une réorganisation de la structure même du savoir" (1977, p. 9).
Nestas breves citações de duas obras da década de 70, podemos identificar as duas esferas em que se desenvolvem os estudos sobre a natureza e a sociedade. A barreira epistemológica que separa as Ciências Naturais e as Ciências Sociais tornou-se quase intransponível, já que a divisão e especialização disciplinar, como as respectivas metodologias, foram codificadas ao extremo. Nem sempre resultam as tentativas de relacionamento ou interferência entre os dois campos científicos, mesmo quando se utilizam os modelos mais apropriados, como o da Teoria Geral dos Sistemas. Se a interpretação das relações sociedade-natureza for distorcida pela codificação metodológica, pode acontecer que se subordine uma das esferas em relação à outra, o que releva do mesmo princípio de "exclusão" mencionado por S. MOSCOVICI.
Vejamos na generalidade as implicações da desarticulação no âmbito dos estudos da vegetação na Europa Ocidental. Verifica-se que as componentes do meio físico e social são, de antemão, apreendidas de modo antinómico. A ordem da natureza pertenceria a um passado mais ou menos longínquo, uma vez que a ordem social destruiu pouco a pouco um determinado "equilíbrio natural", onde a cobertura vegetal teria sido essencialmente constituído por "florestas". Na evolução da natureza, globalmente considerada como um "objecto" passivo e unidimensional em relação aos fenómenos sociais, a vegetação e os solos são certamente os elementos que sofreram as modificações mais intensas subsequentes às intervenções humanas. A etapa actual desta evolução encontrar-se-ia, portanto, numa situação regressiva, se a compararmos com o equilíbrio primitivo e as respectivas aptidões naturais.
Nos últimos vinte anos, progrediu muito o conhecimento científico da natureza, enquanto se descobriram e se agravaram rupturas ambientais nos nossos quadros de vida. Desenvolveu-se então um movimento que, dentro da nova dimensão dada ao ambiente, tende para restaurar a ordem da natureza. Como já o referimos anteriormente no caso concreto de Portugal, essa ordem chega a ser agora interpretada através de uma visão demasiadamente extremista das relações natureza-sociedade, isto é, economicista ou
ecologista. Duas principais correntes impõem-se a partir dos anos 1970, concretizando-se nos projectos de ordenamento territorial em torno de dois princípios interferentes:
— conservar o "natural/cultural", de preferência nos espaços mais despovoados e/ou economicamente marginais. Pois só aí poderia resultar a contenção do tempo social, no intuito de re-estabelecer ou reconstruir as condições da evolução natural;
— recuperar o natural, filtrado através das práticas de racionalização do uso do solo, mas esvaziado do seu conteúdo sócio-histórico. Recorde-se que, em Portugal, 60% da superfície do país são hoje considerados próprios ou "aptos" para florestação.
Ora, entendemos que qualquer que seja a perspectiva disciplinar desenvolvida, a abordagem da realidade "floresta" não deve assentar numa "relação de exclusão" entre processos naturais e sociais, nem tão pouco na restauração da ordem da natureza, que encobre uma forma oculta de exclusão. As pesquisas sobre a cobertura vegetal, e particularmente no caso da floresta portuguesa, devem reconhecer "o carácter concomitante, histórico do vínculo que se considerava sequencial, estático, unindo os processos sociais e bionaturais" (S. MOSCOVICI, 1975, p. 28).
É preciso admitir desde já que uma linha de investigação baseada nestas premissas irá defrontar inúmeras dificuldades e limitações, tanto inerentes à divisão disciplinar, como à aquisição de conhecimentos pluri ou transdisciplinares. Além do mais, não é sempre fácil encontrar novas formas de expressão linguística, que manifestem a superação da dicotomia Ciências Naturais/Ciências Sociais. Todavia, no domínio da investigação fitogeográfica, as pesquisas alicerçadas no "vínculo" entre natureza e sociedade podem, no futuro, conseguir individualizar-se melhor em relação aos estudos baseados em "sequências" naturais e sociais. Para ilustrar esta individualização ainda incipiente, basta ver os resultados da investigação desenvolvida sobre a "vegetação natural" em áreas caracterizadas pela antiguidade da ocupação humana. A análise da evolução das pesquisas directa ou indirectamente relacionadas com a vegetação natural, designada também como "primitiva" ou "espontânea", faz aparecer sinais quase revolucionários, quanto ao início da transformação das paisagens vegetais.
O principal alicerce dos estudos evolutivos é constituído pelo conceito de clímax. Na passagem para o século XX, as duas décadas de pesquisas sobre a dinâmica das sucessões vegetais correspondem ao desenvolvimento da ecologia vegetal recém-nascida, que culmina nesta fase inicial com a elaboração do conceito de clímax18. O
conceito e a natureza do clímax foram estabelecidos em 1916 com base climática, por um dos primeiros ecólogos americanos, Frederic E. CLEMENTS. Representaria uma situação
18 Remetemos para a obra de P. ACOT (Paris, PUF, 1988; ed. brasileira, 1990) que, na primeira parte,
reconstitui o surgimento da ecologia e sua evolução. O Ensaio sobre a geografia das plantas de A de HUMBOLDT (Paris, 1805), "pai" da biogeografia, é considerado por P. ACOT como o estudo básico que conduziu ao nascimento da ecologia. A palavra "ecologia" foi inventada por Haeckel em 1866, mas o verdadeiro fundador da ecologia, como "ramo original da biologia" (1895), seria Eugen Warming, geobotânico dinamarquês (P. ACOT, 1990, p. 27-38).
final de estabilidade entre clima, vegetação e solos, ou seja, o termo das séries progressivas de colonização vegetal, ou sucessões vegetais, que ocorreram no período pós-glaciar do Wiirm. O clímax toma apenas em conta o tempo natural cronológico. Foi posteriormente aperfeiçoado pelo próprio CLEMENTS (1936) e modificado pela fitossociologia e a ecologia, consoante os progressos das pesquisas sobre as séries ou sucessões vegetais (P. ACOT, 1990, pp. 41-62). O monoclímax (climático) permitiu que se elaborassem na Europa Ocidental esquemas de evolução vegetal, a partir das formações florestais consideradas como representativas dos clímaces climáticos, a diferentes escalas espaciais.
O conceito ganhou uma maior projecção, quando a ecologia americana o integrou no ecossistema, palavra e conceito criados pelo ecólogo A. G. TANSLEY cm 1935. O modelo ecossistémico actualmente utilizado e divulgado tem a sua origem nas pesquisas de outro americano, R. LINDEM AN (1942), que ampliou a sua aplicação a qualquer eco-sistema, nomeadamente no que se refere às transferências energéticas e circulação e ciclos de materiais (P. ACOT, p. 87-91). O clímax concebido em 1916 corresponde então a uma situação de homeostasis do ecossistema, ou seja, à sua tendência a permanecer em "equilíbrio" relativo, conseguindo resistir e absorver as eventuais mudanças provocadas por factores de origem interna ou externa ao próprio sistema dos seres vivos.
Mais tarde, E.P. ODUM baseou o seu compêndio Fundamentals of Ecology (1953) na teoria de R. LINDEMAN. Na última edição, salienta-se que a sucessão ecológica termina por um clímax biológico, conceito definido como "comunidade final ou estável..., teoricamente autoperpetuante, porque em equilíbrio dentro de si mesma e com o habitat físico" (E. P. ODUM, 1985, p. 299). Esta publicação, sucessivamente reeditada e actualizada, foi e continua a ser a abordagem mais conceituada da ecologia científica. Hoje em dia, o clímax é interpretado e adaptado à luz dos conhecimentos teóricos e empíricos adquiridos pelas Ciências Naturais. Se bem que se distinguam hoje muitas variantes, derivadas das condições locais do meio físico (clímax edáfico, policlímax) ou geradas pelo homem (paraclímax, subclímax, disclímax...), o princípio de base permanece inalterado19.
Assim, este padrão fixo de equilíbrio natural tornou-se mais biológico-ecológico, que propriamente natural. Pressupõe sucessões vegetais que se afastam dele ou tendem para ele, em relação a determinadas situações do meio abiótico. Consoante a pressão mais ou menos relevante da intervenção humana, suceder-se-iam, no caso da evolução da vegetação "natural", etapas de degradação ou colonização de formações vegetais, num ciclo de longa duração quase imutável.
No entanto, desde alguns anos, começam a surgir pesquisas que levam a reconsiderar o conceito de equilíbrio representado pelos clímaces climático-edáficos ou
ecológicos, particularmente na Europa ocidental. As técnicas sofisticadas de investigação que são actualmente utilizadas pelas paleo-ciências, por exemplo, a palinologia e a antracologia com datações C 14 ou análises de materiais por termoluminiscência, fizeram em muito recuar o passado natural da vegetação primitiva. Além do mais, descobriu-se que teriam existido formações vegetais mais arbóreas ou arborizadas do que propriamente "florestais", no sentido geral em que o entendemos hoje em dia20. Ao mesmo tempo,
aprofundaram-se os conhecimentos sobre as técnicas e os quadros territoriais das comunidades humanas pré-históricas, em vias de sedentarização durante o Neolítico (cerca de 5 000 a 3 000 a.C). Os nossos antepassados possuíam os meios técnicos suficientes, sobretudo a utilização do fogo, para que se desencadeassem a médio ou longo prazo processos de transformação das formações vegetais. Os efeitos da intervenção humana no ambiente natural ter-se-iam iniciado numa época mais remota do que se pensava anteriormente, ou seja, numa época em que a natureza se encontrava num estado de instabilidade, subsequente às modificações climáticas posteriores à última glaciação do Wiïrm.
Será então ainda possível continuar a aplicar o conceito "duro" de clímax, se as pesquisas vieram a confirmar a complexidade das relações entre evolução natural e primeiros indícios da intervenção humana? Por enquanto, parece-nos fundamental sublinhar a situação ambígua da referência climácica, já que o conceito continua a ser o ponto de partida de estudos evolutivos, que analisam as degradações provocadas pelo homem e as estratégias da protecção e reconstituição da vegetação primitiva.
É preciso reconhecer que este modelo de evolução, pelo seu rigor e relativa simplicidade, continua a ser aliciante e a fazer as suas provas, sobretudo no domínio da divulgação científica e da didáctica. De igual modo, o modelo pode revelar-se útil para sistematizar a convergência das séries de comunidades de seres vivos para um ecossistema referencial comum (R. MARGALEF, 1986, p. 746 e ss.). Todavia, quando não utilizado apenas como estado referencial, o clímax subestima, quando não nega, as capacidades de auto-orgamzação dos sistemas naturais. A natureza possui mecanismos biológicos próprios
2 0 O uso da palavra "floresta" é relativamente recente em Portugal, se a enquadrarmos na história da
exploração dos recursos naturais (Die. Etimol., vol. Ill, pp. 64-65). O vocábulo foresta (latim tardio) aparece em documentos régios merovíngios, no início do século VIII. Nos finais do mesmo século, já é claro que foresta designa áreas arborizadas com veação e reservadas ao rei para a caça e a pesca. Admitem-se duas hipóteses quanto à origem latina de foresta: foris, "fora" do uso público, ou forum (no sentido de lei e direito), como área reservada por lei ou direito para uso do rei. De qualquer modo, é um termo de origem jurídica, para individualizar um território arborizado colocado "fora" do domínio público, mas também "fora" da silva pertencente directamente ao rei "dentro" dos muros das suas residências (silva fore st is). Daí que encontremos presentemente esta palavra em línguas latinas e anglosaxónicas (cast.: foresta [mas também bosque]) h:, forêt; mg;, forest; it.: foresta). Em português, o termo evoluiu para "floresta" e começa a aparecer no século XVI; contudo, o uso corrente remonta apenas ao início do século XIX. Sublinhemos ainda que, nos países ocidentais, sobretudo anglosaxónicos, a palavra se relacionou primeiro com intervenções e ordenamentos fomentados pelo Estado em áreas reservadas (forestry). Hoje em dia verifica-se um uso generalizado do termo à escala mundial para designar qualquer área mais ou menos arborizada, seja ela natural, intervencionada ou artificial.
(por exemplo, a fotossíntese e assimilação clorofilina), como também abióticos (entre outros, os processos físicos ligados a força gravitacional), que fazem funcionar e evoluir os seus sistemas de um modo autónomo. Mas a auto-organização natural está em contínua transformação num processo de duração aleatória. Há sempre "acidentes históricos", de origem natural ou humana, que perturbam o modelo de evolução (R. MARGALEF, p. 737 e ss.). Em suma, a auto-organização natural encontra-se, ao longo dos tempos históricos, simultaneamente independente e dependente em relação à evolução sócio-económica.
Em jeito de conclusão sobre a investigação da vegetação natural na Europa ocidental, podemos avançar que, desde a Pré-História, as sociedades humanas gravaram as suas estruturas num meio natural concreto, que tem um ritmo de evolução próprio. Por isso, num determinado momento da organização antrópica de um território já repleto de "memórias", processos sociais e processos naturais articulam-se, sem que uns excluam os outros ou se autonomizem em relação aos mesmos.
Retomando o nosso percurso mais genérico acerca das premissas deste trabalho, reconhecemos que é particularmente convidativo o estudo globalizante da cobertura vegetal com base na análise de sistema21. No caso da floresta, a distribuição
actual das formações arbóreas representa, antes do mais, o produto das relações sociedade-natureza, que se estabeleceram a partir do início das actividades da pastorícia e agricultura. A procura de uma formulação teórica destas relações veio, numa primeira fase
(grosso modo durante os anos 70), quebrar os círculos viciosos da sectorização e
especialização disciplinar. No entanto, já não se considera a abordagem sistémica como que uma panaceia teórica e metodológica.
Esta problemática, que continua a revolucionar a investigação científica desenvolvida em qualquer disciplina, está a ser debatida pela reflexão epistemológica e a filosofia das ciências. Não será aqui o lugar mais conveniente para aprofundar ao extremo a relevância que adquiriram os conceitos relacionados com a análise de sistema. Mas não deixaremos de sublinhar alguns dos princípios fundamentais, já que constituem os alicerces das nossas pesquisas.
A evolução do pensamento acerca da racionalidade científica encaminha-se para novos rumos, após alguns cientistas da esfera natural (Física, Química e Biologia) terem "relativizado" os resultados das suas investigações. Surgiram sérias dúvidas acerca dos fundamentos do conhecimento presente, isto é, a objectividade, o rigor da expressão matemática e a lógica interna das leis e teorias subsequentes. Trata-se, nem mais nem menos, de um posicionamento crítico em relação ao "método científico" neo-positivista. Os alicerces do paradigma e métodos da ciência moderna, que foram elaborados a partir dos 21 Sobre a Teoria Geral do Sistema, ver, entre outras obras, J. L. LE MOIGNE, 1977. Acerca da sua utilização em Geografia, ver os primeiros capítulos de J. B. RACINE e H. REYMOND, in L'analyse
meados do século passado, tais como a distinção sujeito/objecto, a separação ou pouca comunicabilidade entre Ciências Naturais e Sociais, ou ainda a desvalorização do "senso comum" em relação ao "método científico", estão a ser abalados pelo próprio progresso dos conhecimentos científicos. Daí a busca de uma nova formulação paradigmática que tenta superar as ambiguidades dos dualismos em que se movem o nosso pensamento e práticas científicos.
Esta procura esbarra com inúmeras dificuldades, desde as estruturas institucionalizadas do saber até às limitações impostas pela linguagem, que tendem para fechar a reflexão no quadro estreito das disciplinas ou especializações científicas. Mas o movimento, avaliado por alguns como crítica marginal do progresso da ciência e por outros como verdadeira "revolução científica", parece irreversível. Encontramo-nos num "tempo de transição paradigmática", em que sobressaem, nas diversas propostas apresentadas, tanto convergências como divergências (B. de S. SANTOS, 1987). Aliás, repare-se na originalidade do processo, uma vez que integra noções e conceitos elaborados desde os meados do século passado. Este estado transitório é realçado pelas várias designações dadas à "nova situação" dos fundamentos das pesquisas científicas: fala-se de paradigma pós-industrial ou pós-moderno, paradigma emergente (B. de S. SANTOS, 1987) ou paradigma da complexidade (E. MORIN, 1982 e 1983), etc.
O pano de fundo assenta na articulação entre ciência antropo-social e ciência da natureza, tal como o referimos anteriormente (E. MORIN, 1977). O "polo catalizador" da articulação é constituído pelas ciências sociais. "Para isso, as ciências sociais terão de recusar todas as formas de positivismo lógico..., com a consequente revalorização do que se convencionou chamar humanidades ou estudos humanísticos" (B. de S. SANTOS,
1987, p. 9-10).
A par do primeiro princípio do "paradigma emergente" - a articulação dag Ciências naturais e Ciências sociais - , consideremos outros, de que alguns resultam da reflexão sobre a análise de sistema. Apresentando o "paradigma da complexidade", E. MORIN salienta, em primeiro lugar, "a validade, mas insuficiência do princípio de universalidade." É preciso também ter em conta o "princípio complementar e inseparável de inteligibilidade, a partir do local e do singular" (1982, p. 248-249)22. Na mesma ordem de
ideias, B. de S. SANTOS sublinha que "no paradigma emergente, o conhecimento é total... . Mas sendo total, é também local. Constitui-se em redor de temas que em dado momento são adoptados por grupos sociais concretos, com projectos de vida locais, sejam eles reconstituir a história de um lugar, manter um espaço verde... . A fragmentação pós-moderna não é disciplinar e sim temâtica."(1987. p. 47).
Qualquer princípio que procura uma explicação exclusiva por um modelo de totalidade chega, afinal, a um novo reducionismo da realidade, ou seja, à "redução da
complexidade" (idem, p. 15). Um sistema aberto interpreta-se pelos movimentos de interacções, do todo para as partes, e das partes para o todo. Daí o realce e nova valorização dada às pesquisas locais, situadas, para qualquer "objecto" pesquisado, no espaço e no tempo concretos.
As monografias temáticas permitem assim decompor os movimentos do sistema estudado, ou seja, distinguir as características dos seus elementos, sem dissociá-los da organização que regula o mesmo sistema. Considera-se que esta via é